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É um pouco uma mudança de mindset, de maneira de pensar, de mentalidade, como eu quero encarar. E a longevidade é isso, porque as pessoas confundem muito longevidade é um assunto de pessoas velhas. Não.

Exato.

Longevidade começa na concepção.

É já amanhã que arranca no Centro de Congressos do Estoril o Cascais International Health Forum, um dos maiores encontros nacionais dedicados ao futuro da saúde, que reúne anualmente líderes nacionais e internacionais para discutir os grandes desafios dos sistemas de saúde, da inovação, da sustentabilidade e das políticas públicas. Este ano, o tema central é longevidade e a ideia é bastante mais abrangente do que falar simplesmente de envelhecimento. É prevenção, é IA, é saúde digital, sustentabilidade dos sistemas de saúde, economia, cidades, trabalho e qualidade de vida. Vão marcar presença o presidente da República, a ministra da Saúde e personalidades como Manuel Sobrinho Simões, Alexandre Quintanilha, Mário Centeno, Adalberto Campos Fernandes, Maria Belém Roseira, Adolfo Mesquita Nunes, Pedro Mota Soares, Álvaro Beleza, António Vitorino e muitos outros. Para saber mais, convidei Andreia Lima. Ela é uma lusa brasileira que é fundadora e presidente do Fórum Saúde 21, uma plataforma muito ativa de debate e mobilização na área da saúde. Vamos conhecer melhor uma mulher dona de uma enorme fome de viver, que tem por filosofia de vida a verdade futura, que a leva a aceitar desafios antes de estar totalmente preparada. Podemos sempre preparar-nos pelo caminho. Olá, Andreia, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador.

Olá, eu é que agradeço imenso essa oportunidade de estar aqui nesta conversa tão boa.

És uma querida, tudo bem. Nasceste no Rio, a tua infância foi entre Brasil e Portugal, mas tiveste uma infância também muito especial e muito feliz também. E tu eras viciada no surfe, que é engraçado.

Era surfista quando ainda havia poucos surfistas.

Exatamente, é muito fixe. Embora sejas nova ainda.

Exato.

E depois também cá em Portugal, interessante, viveste numa ilha, ali ao pé de Salvador, não foi?

Exatamente, a Ilha de Itaparica. Foi uma infância que eu acho que é assim, é quase de um conto de fadas. Porque realmente é esta a lembrança que eu tenho desta infância. Eu tive pais muito liberais. Liberais no bom sentido. Estamos a falar naquela época dos hippies, muito viajados.

Com mundo, portanto, é tão bom.

Exatamente.

Aliás, teu pai tinha uma empresa de mergulho, por isso é que tinham esta casa a cinco metros da praia.

Exatamente. Mas ele não teve só isso, ele teve várias coisas. Ele estava sempre em mudança, mas agarrava também muitas oportunidades e esta foi uma delas e que deu a oportunidade a mim e à minha irmã, que é mais nova do que eu, a estarmos a viver na praia, numa ilha paradisíaca, porque realmente era paradisíaca. Vou dar só um exemplo para terem noção, de estarmos na praia, maré vazia, e estarmos a ver cavalos-marinhos. E agarrarmos os cavalos-marinhos e pormos em frascos daqueles de café.

Dos boiões.

Daqueles boiões, e levarmos para casa. E um dos cavalos-marinhos, um deles teve bebês durante a noite.

Tu viste aquilo dos homens que carregam os filhos nas costas?

Exatamente. Abriu a barriga e saíram uns minúsculos assim transparentes e a minha mãe assustadíssima disse assim: "Não, eles vão morrer aqui". Fui à noite levá-los outra vez para o mar e largá-los. Nunca hei de me esquecer. Tinha sete anos, mais ou menos nessa altura.

Dois anos depois estavas a vir para Portugal. Foi um grande choque cultural. Isto foi nos anos 80.

Bastante.

Aqui percebeste: "A adaptação é uma coisa que eu tenho que integrar na minha vida". Começaste a treinar ali com nove anos, que é muito novo. Porque de fato era um mundo completamente diferente.

Completamente diferente. Eu lembro perfeitamente do caminho do aeroporto para a casa dos meus avós, que viviam ali na zona da Lapa. E aquele caminho todo pela avenida e eu olhar assim para os prédios e dizer assim: "Isto é tudo cinzento, isto é tudo tão escuro".

Tão pouca cor.

Tão pouca cor, tudo muito velho. Estamos a falar de uma criança de nove anos. Na altura eu vivia em Fortaleza, que a família da minha mãe é toda de Fortaleza, do Ceará.

Terra do Pirata.

Exatamente, terra do Pirata. Mas são todos muito ligados à medicina, ou seja, são todos médicos cirurgiões plásticos.

Então vem daí esta tua ligação. Houve uma altura em que passaste da parte editorial até depois para a parte de saúde, redes de médicos e contatos. Foi aí. Lá vem de trás.

Foi um pouco até antes, porque eu comecei a trabalhar muito cedo, porque eu queria ser independente. Eu prezo a minha liberdade e sempre até passei esses ensinamentos para os meus filhos, que nunca somos realmente livres se não formos livres financeiramente.

Portanto, independentes.

E contra tudo e contra todos, que na altura o meu pai disse assim: "Não, não pode ser, porque vais deixar de estudar". Eu dizia: "Não, eu não vou deixar de estudar, vou conseguir fazer tudo ao mesmo tempo". E fui trabalhar para a indústria farmacêutica.

Foi teu primeiro trabalho, em porta de vendas.

Exatamente, e foi muito bom. E ele tinha razão. Realmente, depois era muito exigente o trabalho. Muito tempo fora, muitas viagens.

Tu estavas nestes laboratórios grandes, na Glaxo, Boehringer e nestes Merck Sharp & Dohme.

Exatamente. Foram 16 anos.

16 anos, incrível.

16 anos na indústria e realmente foi um ensinamento.

Uma grande aprendizagem.

Muito. Eles são incríveis.

Quando chegaste cá e passado uns anos de estar cá, Andreia, quais são as maiores diferenças que tu lembras entre os portugueses e os brasileiros? O quê? A alegria, a rapidez.

A alegria, a abertura.

Muito mais lá.

Lá, sim, claro.

Nessa altura, também estamos nos anos 80.

Exato, era diferente. Embora depois, como fomos viver depois para a linha de Cascais. Eu fui viver propriamente para São Pedro do Estoril.

O Liceu São João, pois foi.

Exatamente, eu estudei no Liceu São João de Estoril. Eu estudava num colégio, que era o Colégio da Bafureira, ali na Parede, e eu queria ir para perto dos meus amigos Que era lá e que era bom, que era no Liceu. Outra luta com os meus pais, mas lá consegui, que eu quando tenho uma ideia, sigo.

Ninguém te para. Extraordinário. O surf também era importante nessa altura.

Era. Os meus amigos eram todos surfistas, amigos e amigas.

Ainda por cima, são sítios também, Carcavelos e tudo, são sítios ótimos para ir.

São Pedro do Estoril, toda aquela zona era tudo do surf, depois íamos para Peniche acampar. E depois tudo estava a acontecer. Portugal estava mais aberto.

Tinha vindo da revolução há sete, oito, nove anos.

Exatamente. Os retornados também trouxeram uma abertura para o país. Eu na altura não tive essa noção.

Também foi um momento chocultural para eles.

Para eles também. Eu nunca vivi em África, mas sei quem viveu, é muito semelhante à vivência no Brasil. Embora África é muito mais selvagem do que o Brasil, em matéria de natureza. Mas realmente foi também uma adolescência super livre, com os amigos.

Aos 15 anos, tomaste a tua decisão mais difícil da tua vida toda: foste mãe.

Pois fui.

E como é que os teus pais reagiram a isso? Apoiaram-te? Chantaram?

É outra situação também um bocadinho caricata. Eu era uma criança. Eu achava que era muito grande, muito adulta, com 14 anos. Porque nós naquela altura achávamos todos que éramos muito adultos. E achava que isso não acontecia, só acontecia aos outros. E aconteceu até na altura a mais duas pessoas. Não eram minhas amigas, mas eram pessoas que andavam no mesmo liceu.

Essas situações da vida que às vezes nos apresentam, depois tens que te adaptar, tens que resolver. Cá está, não estavas preparada.

Não. E na altura até foi a minha mãe e os meus pais, porque nós falávamos muito sobre a nossa vida, perceberam que havia coisa errada. Até foi o meu pai que me deu a notícia que eu estava grávida. Fui fazer análises e depois ele é que trouxe os resultados das análises e fomos jantar a Lisboa. E realmente depois ele deu a notícia, mas não houve nenhum drama. Houve sim, preocupação.

Espanto.

Claro, preocupação e o que é que vai ser.

Mas tu precisaste: "Filha, conta conosco". Foi muito bom.

Sempre. E mesmo na altura disseram assim: "Nós não vamos dizer a nossa opinião, mas vamos deixar em ti", e isso realmente foi uma decisão. A tomar a decisão se seguia com a gravidez ou não.

A mais difícil da tua vida.

E também foi uma situação que eu ainda estava, estamos a falar de uma criança, a pensar: "Será que eu vou seguir, será que não?" E a minha mãe estava com o carro avariado, então fomos de comboio para Lisboa, que é uma consulta com a minha ginecologista, que por acaso era amiga do meu pai de infância, por isso eram pessoas muito próximas. E quando eu vou me sentar no comboio, no lugar onde eu ia me sentar, estava um urso de peluche, já muito usado, que uma criança tinha deixado ficar ali.

Estão todos os sinais divinos.

Não, é assim uma coisa que pode parecer, mas foi uma coincidência e nessa altura não sei se foi isso, não foi.

Tu estás atenta a essas coisas e essas coisas são sinais para ti, é o mundo a responder e a falar contigo, é Deus se quiseres.

Eu acredito muito na força do universo, aquilo que nós damos, recebemos igual. Não quer dizer que seja pelo mesmo caminho, mas recebemos sempre. Se damos coisas boas, vamos acabar por receber coisas boas também.

É um carma. É extraordinário, esses sinais, é muito giro. Quatro anos depois, aí já tinhas uma criança pequena, já era o Bernardo, já existia o Bernardo.

Exatamente.

Ele tinha o quê? Três anos?

Sim.

Três, quatro anos?

Três, quatro anos, exatamente.

Quando ao pé do Passos de Belém, ali ao pé da residência do primeiro-ministro.

Cinco anos. Tinha cinco anos.

Tinha cinco anos, foi um outro surto da tua vida e foste atropelada. E salvaste in extremis o teu filho, porque o empurraste para o lado.

Empurrei, mas se me perguntar se eu me lembro, não me lembro. Mas que eu fiz, é porque ele próprio já tinha idade para dizer: "A mãe empurrou-me". Deve ter sido um milésimo de segundo que eu o empurrei.

Tu e passava o carro.

Exatamente. Eu estava à espera de um táxi, estava aquela chuva miudinha, com os carrinhos elétricos. Quem me atropelou era um miúdo que tinha a carta há pouco tempo e escorregou. Aquilo foi um acidente.

E apanhou-te.

E apanhou-me. Tudo pode mudar assim rapidamente.

A vida pode num instante.

Sem dúvida.

Muito bem. A tua verdadeira universidade, como tu dizes, foi a vida e aprendeste através do trabalho, aprendeste pelas pessoas que se cruzaram, extraordinárias, que se cruzaram contigo. É bom que tu consegues fazer homenagens a essas pessoas que te seguiram, que te orientaram. Tu tens uma admiração louca pelo teu pai, o que é extraordinário, um homem visionário e de facto é incrível, tem esta filha que sai a ele nesse campo, e é extraordinário. E depois começaste então, como tu dizes, na indústria farmacêutica, estiveste lá 16 anos, onde conheceste, aliás, o teu marido.

Pois foi.

O teu marido atual, que estão há 34 anos juntos. Tu dizes uma coisa, é um dos meus valores. Tu que construíste já tanta coisa e excedes isso tudo, tu e mais alguma coisa e o fórum. Tu construíste tanta coisa, dizes: "A minha maior conquista foi sempre educar os meus filhos".

Sem dúvida.

Serem independentes, serem autónomos.

É aquilo que eu tenho mais orgulho.

Sem perder a minha feminilidade e a minha carreira, nada pus em xeque.

Não quer dizer que não haja momentos em que-

És que optaram, obviamente.

Exatamente, que pomos em dúvida, porque é muito intenso. Os miúdos muito pequenos, e eu trabalhava na altura na indústria farmacêutica, com muito tempo fora de casa. Estávamos a falar mesmo naquele auge da indústria farmacêutica, com muitos eventos, com muitas coisas. Eles eram os últimos assim do colégio.

Ou são todos adultos?

Exatamente.

Extraordinário. E é um grande orgulho que eu vejo pelas tuas redes do Instagram e é um grande orgulho estes filhos e veres. A construção de uma relação com mais de três décadas. Dá-me uma ou duas dicas. Sejam razão de uma coisa que a gente sempre fez ou sempre se respeitou, para durar tanto tempo e bem, necessitarmos tanto.

Somos pessoas muito diferentes.

Isso é bom.

E isso é que nos completa.

Quando são muito iguais é que chocam muito, é verdade.

Exatamente. Eu tenho um marido que é uma paz de alma.

É um santo.

É um santo.

Tu conheceste-o lá num dos laboratórios.

Exatamente. Ele era gestor de produto, eu era delegada, na altura. Embora fôssemos de áreas completamente diferentes, conhecemo-nos numa reunião.

Foi amor à primeira vista, dele e teu?

Aconteceu. Eu nem consigo dizer se é amor à primeira vista.

Isto dura tanto tempo e ao fim de 30 e tal anos, o que é que tu podes dizer: "Olha, João, uma coisa que ainda nos une muito é porque..."

É porque ainda olhamos um para o outro de vez em quando e sentimos aquele frio na barriga.

O arrebato, as borboletas na barriga.

Exatamente.

Muito bem. Mãe de quatro filhos extraordinários, tua maior conquista.

Eu adoro ser mãe.

Vê-se isso. Há outra coisa que tu dizes: "Os filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais felizes, realizados e coerentes". Isto é lindo.

É verdade.

Isto é uma vida.

É mesmo verdade.

E estes filhos que a gente pensa sempre, que também tenho dois gêmeos. Eu sou viúvo, mas tenho dois gêmeos. Mas que não são nossos. Desde o princípio eles são nossos, foram nos entregues para a gente moldá-los.

Moldá-los, ajudá-los.

Eles também são adultos. As coisas agora são com eles, mas aquele dom que tu tiveste, que foi um prazer máximo, e estar ligada a eles ainda é muito símbolo.

Superligada. Ainda tenho dois que vivem comigo, uma que é a minha filha mais velha, porque ela é médica, está a tirar a especialidade e como está ainda a acabar a especialidade, ainda está em casa, porque o centro de saúde onde ela está a tirar a especialidade é ao pé de casa. Mas depois tenho o filho mais novo, que ainda tem 22 anos e está a acabar também a universidade. E tenho dois que vivem fora do país.

Não sabia.

O Bernardo.

Que era o mais velho?

Exatamente. Ele faz música eletrónica, constrói casas em madeira, é muito versátil.

Boa.

E vive ao pé de Bordéus, em França. E tenho dois netos.

Sim, ok. Bilings, portanto. Devem ser billings, não?

São de mães diferentes.

Outro também mora fora?

Exatamente, que é a filha do meio, a Vera, que trabalha numa empresa que é a Mars, aquelas dos chocolates, e trabalha em Viena, Áustria, já vai fazer cinco anos.

Incrível. Quando tu passaste para as edições científicas na Serra Pinto, portanto, na área da saúde, quando é que foi o clique que te aconteceu a dizer: "Eu quero trabalhar para transformar saúde, quero ficar nesta área para sempre". E criaste há 12 anos este Fórum Saúde 21.

O clique aparece muito perto da criação do fórum. Estamos a falar no rescaldo da crise, naquela altura em que as pessoas com quem eu falava eram profissionais de saúde, presidentes de sociedades médicas, muita indústria farmacêutica.

A rede de contactos que tu tinhas é extraordinário.

Mas não é a rede que eu tenho agora. Ainda era uma rede muito fechada, dos profissionais de saúde e indústria farmacêutica, porque era essa a área das revistas.

E tu nessa área, mesmo na parte do laboratório, era uma área, por exemplo, remédios de oncologia?

Não, era geral. Porque as revistas nessa altura viviam da publicidade.

De vários remédios, de várias áreas.

Exatamente, eram revistas de especialidade, mas viviam da publicidade, pelo menos uma delas, que era na área da medicina, essa vivia essencialmente da publicidade. A outra, que é na área da enfermagem, essa tinha assinatura. E como era científica, as pessoas pagavam para publicar na revista. Mas voltando àquela situação.

Por que decidiste tão fundada?

Rescaldo da crise, os médicos todos falavam: "Nós nunca somos chamados para zero decisões, para falarmos". Isso teve uma evolução enorme nesses 12 anos. Naquela altura, era muito diferente do que é agora. Realmente, houve mesmo uma grande evolução.

Em todos os aspetos. Até na questão, que há uns médicos que se sentam aí também a dizer, da relação médico-doente.

Sim.

O que nós dizíamos era sagrado, e os doentes faziam tudo, aceitavam. Hoje em dia é muito cooperação, e o doente o que é que acha, e colabora. E do diagnóstico, já vêm com diagnósticos feitos em IA e mostram-nos o que nós temos.

Isso também é um desafio.

Exatamente. E vai ser falado também neste summit que tu vais organizar.

Vai.

É muito importante isso. Mudou muito.

Se nós não capacitarmos as pessoas para a sua saúde, não conseguimos vencer esta batalha de vivermos melhores.

De viver mais e viver melhor. Viver mais com qualidade.

Com qualidade.

Aí é o grande desafio.

O grande desafio, e isso é transversal em todas as áreas, mas o cidadão, a pessoa, é o centro. Por mais literacia que nós possamos dar a alguém, por mais informação que aquela pessoa tenha, por mais comunicação, acesso, se ela não quiser mudar, nada muda.

Exatamente.

Então é um bocado uma mudança de mindset, de maneira de pensar, de mentalidade, como é que eu quero encarar. E a longevidade é isso, porque as pessoas confundem muito longevidade é um assunto de pessoas velhas. Não. Longevidade começa na conceção.

Na pré-concepção, até.

Pré-concepção, até. Qual é a vida que os meus pais tiveram.

Um dos temas que é esse, desde a pré-concepção até o fim de vida.

Até ao fim de vida.

Além que toca a todos.

Exatamente.

Porque bem, todos passamos por lá.

E depois o que é que acontece? Nós todos quando nascemos, temos todos uma esperança média de vida igual. Os homens têm uma esperança e as mulheres têm outra.

Está em 80 e tal anos.

Exatamente, é excelente. Como é que vamos viver? Isso aí já depende de nós e depende da nossa sociedade que nos envolve. Depende onde é que eu vivo Qual é o meu poder socioeconômico, se eu tenho acesso ou não à saúde, se eu tenho acesso ao alimento.

As relações que as pessoas têm à volta.

Exatamente, o que nos envolve, as cidades.

Francisco Lorena de Silva também dizia isso. Por exemplo, câncer. As pessoas não vão morrer por causa do câncer, vão morrer com câncer, que é diferente. Vai tocar em quase toda a população do mundo, mas as pessoas passam a viver com crônica. Agora, ele diz: não é só viver mais anos, que é muito importante e temos tentado evoluir muito. É com qualidade. Porque o que me interessa viver 90 anos se vai ser acamado, dependente, e não autônomo. Não me interessa. Não é isso que a pessoa deve.

Nada disso.

E as coisas estão a mudar muito e estão a pensar nisso.

Muito. E nós somos um país que a partir dos 55 anos começamos a adoecer e a termos comorbilidades: diabetes, hipertensão.

Tudo isso tem que ser compensado e vai estar em esses temas também amanhã e depois. Andreia Lima, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.

Até já.

Estamos a conversar com Andreia Lima, ela é fundadora do Fórum Saúde 21, plataforma de reflexão, debate e influência na área da saúde em Portugal, que amanhã e depois organiza mais um Cascais International Health Forum, um dos maiores encontros nacionais dedicados ao futuro da saúde, que anualmente reúne, no Centro de Congressos do Estoril, líderes nacionais e internacionais para discutir os grandes desafios dos sistemas de saúde, da inovação, da sustentabilidade e das políticas públicas, e que este ano se debruça de modo especial nas questões que envolvem a longevidade. Eu gosto muito de estar a falar contigo. Vamos já falar deste summit que vai começar amanhã, mas gosto muito da tua filosofia de vida, tua forma de estar na vida. És uma mulher muito empreendedora, interventiva, és presidente distrital de Setúbal, por exemplo, da SEDES, do Fórum de Administradores e Gestores de Empresas, da PwC Portugal. Este papel muito importante do associativismo e da participação cívica foi uma coisa que sempre te moveu.

Sim.

A sociedade civil, fazer coisas.

Eu sempre gostei de participar. Não tinha esta noção que tenho hoje, como é óbvio. Mas lembro perfeitamente, sempre que havia a possibilidade de participar num grupo de teatro.

Até no liceu, quando era student, entravas.

Exatamente. E grupos de pessoas que iam fazer atividades com crianças na rua, lembro de associar-me. Eu vivia na altura, já adolescente mais velha, ali na Lapa e andava no Liceu Passos Manuel, e havia aquela zona toda ali.

Das Mercês.

Exatamente. E juntávamos grupos de jovens e fazíamos atividades com crianças ao fim de semana.

Está sempre disso, que é importante. E agora moras em Setúbal, hoje em dia.

Vivo já há 20.

Quase tanto como eu casei.

Quase tanto, 20 e muitos anos.

És uma mulher curiosa, otimista, inquieta e também gostas de dizer: "Olha, eu tenho uma grande fome de viver". É verdade, dizes isso, mas também a sorte dá muito trabalho. És muito trabalhadora, isso é muito bom, muito energética.

Muito trabalhadora. Eu acho que eu abuso. Porque o corpo às vezes não acompanha.

Exato. Continuas a acreditar que curiosidade e vontade de aprender são motores fundamentais da vida.

Completamente.

Quais são os teus medos? Isto é, os medos paralisam as pessoas. E portanto, esta coisa extraordinária da verdade futura, nunca estamos completamente preparados para as coisas. Eu falei nisso, que é uma coisa que tu gostas de falar e falas de vez em quando. Os medos de fato paralisam-nos às vezes. Temos que vencer o medo, por exemplo, de não ter sucesso ou de ser rejeitado. E tu és uma pessoa que luta e vai à frente. Olha, não quero saber, seja o que Deus quiser, vamos fazer, faz acontecer.

Exatamente. Falaste agora desta frase, é mesmo isso, fazer acontecer. Não é um clichê, é mesmo. Nunca estaremos preparados. E muitas vezes vemos, até a nível pessoal, muitas vezes eu ouço assim: "Eu só vou ter um filho se eu tiver financeiramente, uma casa." Mas nós nunca temos as condições todas. Nunca, em matéria nenhuma, nem pessoal, nem profissional.

Exatamente.

E depois o medo paralisa, realmente. Não estou a dizer que eu não tenho medo. Sempre que eu tiro um projeto: "Agora, o que é que eu vou fazer?"

Exato.

Mas rapidamente o medo embrenho no projeto e já esqueci o medo. E o que eu acho que é mais importante é que nós não sabemos tudo, mas se juntarmos com pessoas que sabem, conseguimos tudo.

Exatamente. É incrível. E depois os fracassos, que é outra coisa que também tens muito gosto, que eu te admiro muito. Não é aquela questão de: "Não, vou fazer tudo perfeito, vai correr tudo bem". Não, às vezes não corre bem. E os fracassos fazem parte do percurso, como tu dizes. E aqui aprendeste muito com o teu pai, que era um visionário.

Sim, ele teve muitos fracassos na vida.

E também teve oportunidades, e também teve dificuldades. Mas é melhor fazer e errar do que não fazer.

Sim.

É extraordinário isso. Quando falha, procure aprender nisso tudo.

E aprendo mais é com os fracassos. Nós aprendemos mais com a dor.

Exatamente.

E realmente, as alturas que eu estou mais ansiosa é quando acaba um projeto e até correu tudo bem. E eu penso assim: "E agora? Há ali um vazio." Mesmo tendo outros projetos a decorrer, há um vazio, fazemos sempre o luto um bocadinho daquele projeto. Para passar para o outro. Faz parte.

Falhaste? Não importa. Tenta outra vez. Falha outra vez, falha melhor, diz o Beckett. E é verdade, é aprender com isto. Uma enorme paixão pelas pessoas que tu tens.

Mas em Portugal não é bem visto. Falharmos não é uma coisa bem vista.

Exato.

Se uma empresa não correu bem, é sempre visto: "O que essa pessoa fez?" Há sempre uma desconfiança.

A culpa é dele, apontamos o dedo.

Exatamente. Mas não, falhar faz parte do processo. As pessoas que fizeram as coisas mais incríveis, quantas vezes elas falharam até chegar lá?

Investigadores, por exemplo, da área da saúde. Quantas vezes. E que não falhou até encontrarem a molécula certa.

Certa, até chegar àquela invenção certa.

Obviamente. Adoras animais, também é uma coisa boa que tu tens. Três cães e três gatos existem.

Sempre tive animais em minha vida.

Eu vi no Instagram, três cães enormes. Também gosto que falas dos livros do "Meu Pé de Laranja Lima", que eu nunca li, mas que animais minhas irmãs leram e choravam, até mais não. Tu lês de vez em quando, não lês?

Leio e choro.

Continuas a chorar hoje.

Choro baba e ranho. Completamente. Choro com aquela história, que é a história dele. É a história da vida dele.

Do José Marcos Gonçalvês?

Exatamente. É baseada na história da infância dele.

Não sabia.

E eu choro.

É bom para lavar a alma.

É, mas é também uma história de superação. Uma pessoa que teve uma infância difícil, mas também por um lado, uma infância em que ele imaginava coisas e também estava em locais bonitos, e que não foi por isso que ele não evoluiu. E teve pessoas na vida dele que o ajudaram nesse caminho. E isso é que eu acho, nós nunca conseguimos nada sozinhos.

E por falar da "Sombra do Vento", que foi um dos meus mais favoritos. Tive a sorte de o entrevistar também, o Carlos Ruiz Zafón, que já cá não está.

Eu li todos os livros dele.

Também eu. Adoro a maneira dele escrever. Esta história então, como nos inscreve, como ela nos envolve.

A maneira que eu acho que parece quase uma renda. Parece que está a construir ali uma renda. Porque é tão lindo.

É uma história linda e muito bem contada.

Eu penso que a pessoa sente o aroma da chuva de Barcelona. É lindo.

Cidade dos dragões. Muito bem, e viajar também é uma coisa que tu dizes que é dos melhores investimentos, isso concordo contigo, que podemos fazer. Conhecer as pessoas, outras culturas, outras formas de pensar, inspira-nos. Tu regressas sempre cheia de ideias.

Cheia de ideias.

E gostas de viajar todos os anos. Já viajaste muito. Em sítios também exóticos? Ou só para congressos?

Não, eu nem gosto muito de sítios assim de exótico. Eu adoro praia, adoro tudo, mas praia eu tenho aqui. Eu gosto de ir para cidades, ver como é que as pessoas vivem. Eu gosto de sentar-me assim numa esplanada, num café e ver as coisas a acontecer e ver a vida dos locais, e tentar imaginar, como se eu fosse também local. Eu adoro espreitar pelas janelas tipo Miron. Adoro olhar e estou assim naqueles sítios tipo Holanda e tudo, que eles têm aqueles janelões enormes. Eu adoro estar ali tipo Miron a olhar e imaginar como é que é a vida daquela pessoa ali dentro.

Muito bem. Tendo este Fórum Saúde 21 ao longo de 10 anos, aliás, tem 12 anos, isto consegue reunir decisores políticos, profissionais de saúde, academia, empresas, sociedade civil. Como é que se consegue, e também este Casais International Law Forum, também é uma prova disso, como é que se consegue reunir essas pessoas tão diferentes, às vezes, a pensarem da mesma maneira, Andréia, qual é o segredo? Dos políticos, dos médicos.

Até começo um bocadinho antes. A razão da existência do fórum foi mesmo isso. Não existia um espaço onde se juntasse-

Uma plataforma comum.

Exatamente, comum. Havia várias plataformas, mas muito setoriais.

Os médicos, o governo.

Associação de doentes.

Os sindicatos, as coisas, o que fosse.

E estávamos a falar que estávamos no rescaldo da crise. Pensamos assim: "Nós somos pessoas tão influentes, por que não nos juntamos todos e pensamos como é que nós, em conjunto, chegamos a uma solução?"

O problema é este, todos pensamos nisso, que ideias é que a gente traz para resolver.

E o que nos une? A pessoa, o cidadão. Sempre que havia, nos debates, alguém a puxar um bocadinho para a sua agenda. Eu nem precisava dizer nada, alguém mesmo do fórum que dizia assim: "Não, nós estamos aqui, é o cidadão que está. Vamos voltar aqui ao que nos une".

Exatamente.

Então o que nós debatemos é o que nos une. E o que nos une é pensar saúde, não é pensar doença, é pensar saúde.

Daí o parantônico um bocadinho da prevenção.

É sempre na prevenção.

Não é costume. Nós é sempre remédios, terapias. Esquecemos que há muita coisa que se pode fazer com prevenção e deve-se fazer pra poupar dinheiro a montão.

Exatamente. A prevenção tem um grande handicap, que é: como não se vê logo resultados, não acompanha os ciclos políticos.

Pois, é isso. Não há políticas a médio prazo, a longo prazo.

Exatamente. O ministro que esteja a atuar na prevenção, até pode ser um ministro que vai usufruir dos resultados até de outra cor política.

Exatamente.

Por isso é que é tão importante, embora eu não acredite muito em pactos, mas eu acredito que a saúde, temos que nos esforçar a ter realmente um pacto na saúde que seja transversal a todas as áreas, a todos os governos, a ideologias. E pensamos também aqui: ninguém vai ganhar se não houver dinheiro para pagar a saúde, e não vai haver. Se nós não acabarmos com a doença, não interessa à indústria farmacêutica sequer isso, porque o que interessa é: vem aí muita inovação, mas para haver dinheiro para esta inovação, os medicamentos personalizados, a medicina de precisão, tudo isso, as pessoas também têm que ser saudáveis e quando elas precisarem realmente, talvez nos últimos cinco anos de vida, semelhante aos suecos. Aí, sim, eles vão poder ter acesso.

Um sistema capaz, que aguente.

Capaz de dar acesso a todos, porque senão vamos aumentar o fosso.

Porque é uma questão incômoda, quem é que vai pagar tudo isto? Mais anos de vida significam mais anos de pensões, de cuidados de saúde, apoio social. A longevidade pode ser uma extraordinária conquista, mas também pode ser uma bomba financeira. Isto tem que ser pensado.

Eu acredito mesmo que-

É que o painel do Álvaro Beleza vai falar disto, a Segurança Social, a sustentabilidade da Segurança Social, é muito importante

E não existe uma bala de prata para isto.

Sim, uma receita única.

Isto tem que ser um conjunto de soluções e por isso é que é a importância de pensar em conjunto, todas as áreas.

Exatamente.

Porque a Segurança Social não vai conseguir sozinha, a saúde não vai conseguir sozinha, a economia não vai conseguir sozinha.

Tem que haver aqui vasos comunicantes.

E tem que haver um plano estratégico em conjunto. Porque como falei há pouco, não é um assunto de velhos, é um assunto que a longevidade acompanha-nos a nossa vida. E isto vai ser a maior conquista deste século Nós podemos viver mais, mas temos que viver melhor.

Concordo.

E para vivermos melhor, temos que atuar antecipadamente, porque as pessoas vão adoecer. Ninguém morre, só se for de um acidente, mas ninguém morre saudável. Envelhecimento saudável é uma expressão até um pouco contraditória, porque ninguém morre saudável. Nós vivemos e vamos morrer de alguma coisa, de alguma doença ou até de falência.

Mas eu lembro, por exemplo, Andreia, quando morreu o Felipe de Edimburgo, marido da Isabel II, causa da morte, eles puseram idade, porque morreu com 99 anos, não tinha uma constipação, não tinha um câncer, não tinha nada e eles ficaram muito aflitos. E houve até um pedido para se fazer da idade uma doença. A partir dos 60 anos, eras idoso. E houve quem propusesse isso à Organização Mundial de Saúde e depois não foi aprovado. Mas a ideia era: se isso estiver escrito nas doenças, os laboratórios começam a investir nisso e, portanto, iria haver investigação nesse campo. Mas, afinal, isso não passou, não avançou. Mas quando ele morreu, pôs-se esse problema. Ele morreu e não tinha nem dois dentes.

Isso é o ideal.

Tenho 96 anos e estou a fazer isso, eu quero morrer saudável.

Sim. Mas nunca vai ser saudável, porque os órgãos envelhecem. Tudo envelhece. Por isso é que nós morremos, porque é uma falência.

Mas sem um câncer, sem uma diabetes. É isso que eu estou a dizer.

Exceção para algumas pessoas que saem do padrão.

Sim, é verdade.

Mas aqui o que nós queremos é para a maior parte das pessoas, que elas sejam saudáveis, ganhem bolsas de saúde durante a sua vida para poder gastá-las mais tarde.

O que é viver bem? É não ter doenças? É ter autonomia? É ter dinheiro? É ter amigos, propósito, vontade de sair da cama todas as manhãs?

Exatamente.

Ou é isso tudo?

É tudo. Porque ninguém vive sem propósito. E nós temos que mudar esta maneira de pensar a sociedade, porque se a maior parte das pessoas que têm entre 30 e 40 anos, a maior parte delas vai viver até aos 90 e 100.

A sociedade dos 100 anos, isso fala-se muito no congresso.

Exatamente. Por quê? Essas pessoas, quando chegarem aos 50 anos, estão no meio da sua vida, cheias de vida, cheias de saúde, cheias de vontade. Por isso elas até podem se reinventar e fazer coisas novas.

Mudar de vida.

Exato. E as próprias empresas têm que pensar como é que vão encarar o mercado de trabalho.

A economia da longevidade é também falada neste congresso, amanhã e depois. E é muito importante isso. E o emprego, os talentos.

Os talentos não podem ser desperdiçados.

São reformados aos 60 e tal anos e as pessoas ficam ativas. "O que eu faço em casa quando podia estar a ajudar outros miúdos, até os mais novos, se calhar?"

Exatamente, que é passar o dado e a experiência.

Há muito idadismo ainda em Portugal. Muito.

Mas também temos que dar lugar aos jovens. Tem que haver aqui um bom equilíbrio, e se não mudarmos toda a maneira de pensar, vai haver choques de gerações. E isso é que nós não queremos, que haja choque. Queremos que haja uma complementariedade entre as gerações. Até vamos ter também uma sessão sobre as gerações, com várias pessoas de várias gerações.

Quando isto acabar, tudo o que as pessoas querem saber, eu vou antecipando já essa necessidade. Tudo de informação: cascassinternationalhealthforum.com. Está lá a informação toda do que vai acontecer estes dois dias.

Eu gostava imenso, porque isto é um evento aberto a todas as pessoas, a toda a sociedade, não é um evento médico.

E são a todos?

A todos. Por isso é que ele é gratuito.

Ouvissem online ou o quê?

Não, as pessoas têm que estar presenciais. Não vai haver nada de transmissão online. Isto é um evento para se sentir, para estar lá e sentir, e sair de lá motivado.

Vai haver um documento final?

Vai, há sempre um documento final.

E é depois entregue a quem? Ao governo, à assembleia, a quem?

Exatamente, é entregue sempre à tutela.

A pergunta é: como saber que resultados, como é que tu sabes que foi positivo o balanço? Quando é que vais ficar feliz com o que vai acontecer este fim de semana, amanhã e depois? Ao fim de um momento vai haver políticas novas.

Exato, quando começamos a ver que ao juntar projetos com empresas, com pessoas, as coisas estão a acontecer. Às vezes basta juntar as pessoas na mesma mesa, na mesma sala, e criarmos um ambiente favorável para que elas interajam entre elas e a partir dali começa a acontecer. E nós sabemos, porque o Cascais é um evento nosso. E nós trabalhamos durante todo o ano tudo que sai dali. E vamos trabalhando em outros eventos, em outros documentos, juntando novamente mais pessoas, a monitorizar o que estava a acontecer, se aquele projeto realmente foi alavancado.

Se não evoluiu bem, o que aconteceu.

É medir os resultados, que isso é outra coisa que é muito importante.

E para não ficar um grande evento, com três nomes, que eu já falei alguns, extraordinários, é a nata das natas na saúde. E também noutras áreas, o Rodolfo Esquita Nunes vai falar também da parte da interesse social e das empresas, que é a especialidade dele, é advogado. Uma pergunta: se te garantissem hoje, Andreia, que vais viver até aos 100 anos, qual seria a primeira coisa da tua vida que tu mudarias? Ou nada?

Eu não mudava nada. Eu só ficava tão feliz, porque perguntaste há pouco qual era o meu maior medo. Se eu tiver que dizer, é morrer. É o meu maior medo.

Acabar esta vida.

Exatamente, porque eu penso sempre assim

Outro dia tive com a Filipa Dias, uma cuidadora muito querida, tem um método de apoio domiciliário chamado Casa, e uma frase dela que foi: "Envelhecer e ser triste não é natural".

Não é natural.

Isso não é natural. A pessoa pensar: está cada vez mais triste. Não, isso é que não é bom. Qualquer coisa está ali, que a pessoa pode envelhecer e ser feliz, e ser realizada. Até há muitas coisas novas que pode fazer e que não podia antes.

Exatamente, porque vai estar bem.

Com esse património que foi ganhando. E vai-lhe passando.

E a própria sociedade vai estar aberta a isso. Vai estar para absorver essas pessoas e dar-lhes saída também.

O caso português. Nós somos, Andreia, eu, somos um dos países mais envelhecidos da Europa, é verdade. Estamos atrasados na preparação para esta nova longevidade ou temos aqui uma oportunidade para sermos uma espécie de case study ou laboratório europeu de como viver mais e melhor? O que é que tu achas?

Temos toda a oportunidade de sermos um grande laboratório europeu, e é isso que nós queremos, é que a longevidade passe por Portugal, ou seja, que sejamos nós a mostrar, porque nós temos todas as condições, porque somos pequeninos, temos muitas pessoas capazes, investigadores que estão o melhor. E temos flexibilidade e adaptamo-nos rapidamente, e isso é tudo importante para criarmos aqui este conhecimento. E sermos aqui, não ser a cauda, sermos a parte da frente deste comboio, que vai ser a longevidade.

A solidão e a saúde mental também vão estar em questão. Podemos ter pessoas a viver até aos 100 anos, mas viver mais não significa necessariamente viver acompanhados. Como é que se combate uma destas grandes doenças silenciosas destas sociedades hoje em dia, que é a solidão?

É dando propósito às pessoas.

Um objetivo de vida.

Exatamente.

Continuar a dar, ou mudar um, ou dar um novo.

Ou dar um novo, ou as pessoas sentirem que fazem parte da comunidade. Por isso é que as comunidades cada vez mais se desintegraram muito, principalmente nos grandes centros. Esse sentido de comunidade, do bairro, das pessoas que sabiam perfeitamente se aquela pessoa não aparecia para ir comprar o pão, sabia-se perfeitamente que tinha acontecido alguma coisa. Hoje em dia, está tudo descaracterizado, ninguém sabe quem vive ali, quem não vive.

Desumanizado.

Exatamente. E isso é outra coisa também, por isso é que vamos debater as cidades também. Como é que a cidade vai ser amiga das pessoas? Vai ajudar as pessoas a viverem bem, não só com saúde, mas felizes, com propósito. Por isso é que temos autarcas. Todos nós temos que fazer parte desta mudança, e todos em conjunto. E pensarmos que a liderança cada vez mais não é território, é de ecossistema, é de pessoas. E há muitas pessoas a fazerem coisas incríveis, elas não estão é conhecidas.

Exato. Por isso é que é importante essas plataformas.

Exatamente, é esse o nosso propósito.

Pessoas que se calar vão partir pedra, não precisam, porque há pessoas que fizeram uma coisa parecida que resultou na freguesia deles ou na área deles.

E não temos miniprojetos, temos um megaprojeto. Juntarmos miniprojetos e fazermos um grande projeto.

É extraordinário. Pois há estes nomes, de facto, que conseguiste reunir aqui. A começar, eu estou a pensar nestes tópicos principais, o Mário Centeno, que se fala da sustentabilidade, economia, políticas públicas, viver com qualidade, viver mais tempo e melhor. A Maria do Mar Roseira também vai estar lá no outro painel.

Sim, ela também faz parte do fórum. Todos eles estão ligados ao fórum de uma maneira ou de outra.

O Manuel Vicente Simões, meu Deus, o Alexandre Quintanilha, meu Deus.

São incríveis.

É de facto uma oportunidade, vale a pena as pessoas irem a isso e não perderem.

E é para todos. Isso é que eu queria deixar, é para todos.

Estamos todos aqui. De facto, é muito importante. Casais & Partners Health Forum 2026, já sabe. É amanhã e depois, 24 e 25 de setembro, no Estoril Congress Center, no Centro de Congressos do Estoril, ali bem perto do casino. A não perder. Andreia, eu ficava aqui mais três horas a falar contigo. Tu tens coisas muito bonitas para contar.

Temos que fazer parte dois.

Exato. Olha, que tudo do melhor percorra amanhã e depois, e que todos os anos volte, cada vez com mais dados, cada vez com mais temas e coisas importantes, porque de facto é bom sentar à mesma mesa essas pessoas que são decisores, são pessoas que influenciam e que sabem do assunto e todos podemos aprender com todos.

Faz toda a diferença.

Muito bem. Bem-hajas.

Obrigada.

E até sempre, Andreia. Muito obrigado.

Obrigada.