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Olá e sejam muito bem-vindos. Já sabe, esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secador e é com muito prazer que, como sempre, acolho Alberto Correia, que em Viseu, directamente de Viseu, este investigador e historiador que tanto sabe sobre esta região Centro, vai evocar hoje uma escultura de Chico Lucena que lembra a Mãe Natureza. Vamos a isso então. Bem-vindo, Alberto.
Quando subo à minha terra, além do Távora, passada já essa fronteira da meia aridez da Serra da Lapa, com seu pedregulho misturado com a urze e o sargaço, onde antigamente pastoritas pobres guardavam meia dúzia de ovelhas, que só por milagre apareciam néreas à boca do curral. Na meia encosta que sobe a Sernancelhe, onde pousam as vastas fazendas das velhas quintas de rafe, pode ver-se sobre a direita a densa mancha do souto com seu manto verde, se for agosto, ou de cor quase púrpura nos meados do outono, colhidos os frutos, despejados com fartura pelo chão. Sobre a borda da vila, num dos airosos recantos criados pelo município para aprazimento de quem habita nessa zona marginal do centro histórico, não longe da Ponte do Rio, como se chama, sabe-se lá desde quando, ao sítio perto do qual corria já em tempos romanos uma estrada, foi implantada há algum tempo uma escultura de Chico Lucena, um lúcido escultor da terra que a talhou num granito fino da região de tom quase de azul. A escultura evoca uma folha de castanheiro nessa pujança do mês de julho, essas firmes nervuras prontas para abrigar os ouriços no princípio do seu crescimento, para resistir aos ventos de outono que as atiram ao chão, do soltos de onde já saíram as molheiras do rebisco e onde permanecem atapetando o chão, construindo mansas texturas por onde nossos olhos se distraem nas horas vivas do sol que as befeja. A folha sobe de um chão fecundo, como esse solo propício das encostas frias onde os castanheiros medram, onde resistem mil anos, raramente iludindo a esperança dos homens na tranquila espera dos frutos que haverão de cair, maduros e gostosos, e haverão de encher, como bênção, as cestas tantas vezes despejadas nos sacos que uma burrica levava antigamente e hoje se transportam em moderna carrinha de caixa aberta com motor. Mãe Natureza benfazeja, deusa mãe venerada no Neolítico distante, assim o escultor a celebra com a mesma devoção que por ela sentiam os pastores e os lavradores que pela primeira vez se assentaram à sombra de uma árvore do outeiro, enquanto as primeiras sementes germinavam num campo lavrado, enquanto as ovelhas se demoravam num chão coberto de ervagens a pastar.
Que bonita! Por acaso não conheço esta escultura do Chico Lucena evocando esta folha de castanheiro, mas fiquei cheio de vontade. Tenho que qualquer dia ir lá.
É uma escultura muito bonita.
Muito bonita. Fiquei mesmo curioso para conhecer. Invejo as pessoas de toda a região Centro, que de certeza já a conhecem. Qualquer dia sou eu que vou lá e vou descobri-la. Muito bem, então Alberto Correia, estamos conversados por esta semana. Desejo-lhe um belíssimo ano. Foi a primeira vez que nós conversámos. Primeira vez não, mas já estamos aqui. O ano começou há uns dias. Estamos já em pleno 2026. Quero lhe desejar um bom ano também para si, continuar a desejá-lo. E marcamos encontro então para a semana. Bem-haja.
Até breve.