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Olá, sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura, em Viseu. Alberto Correia hoje vai nos falar do perdido, o antigo uso das fogaças de Santa Eufêmia dos Matos, na festa que lhe é dedicada em Cepões. Então, o que é que vêm a ser estas fogaças? Vamos saber tudo. Alberto, bem-vindo.
O pão, o eterno pão feito de cereais, esse primordial alimento dos homens, assumido desde um original tempo como o símbolo maior do necessário sustentáculo da existência, ganhou, em nossa cultura de matriz judaico-cristã, um estatuto de sacralidade muito vasto, ganhando a sublime conotação de mistério com o pão eucarístico. Mas a própria semente deste cereal mais nobre, o trigo, desde há século que se tornou mercancia sagrada e na casa dos pesos de santuários antigos, como o da Senhora da Lapa, os alqueires de trigo eram o ex-voto, o ajustado pagamento do milagre, da graça anteriormente solicitada a um santo intercessor, advogado, como tantas vezes o povo lhe chamava. Da sacralidade do pão testemunha a cruzinha arvorada sobre um outeiro em 3 de maio, dia de Santa Cruz, pelos lavradores da Beira, Centieira, que deste modo exorcizavam males que tanto podiam ser a trovoada como o pulgão. E as cozinhas gravadas a pico nas padieiras das portas dos moinhos ou dos fornos comunais, exorcismo eram também. Sagrados eram os gestos da lavradeira em seu foro doméstico, ou os gestos da padeira artesanal, traçados com a mão ou com a rapadoira, uma cruz, múltiplas cruzes, sobre a mansa textura do pão da maceira, antes de agasalhar-se para levedar, ao mesmo tempo que pronunciavam, no geral em verso, oração, palavras santas invocadoras de bênçãos para a fornada. Da sacralidade do pão testemunha esse humilde gesto do lavrador da arada, sentado à mesa da sua lareira antiga, jantar ou ceia, o beijo no bocadinho de pão que se desprendera e caía na pedra do lar. E de sagrado se revestia o gesto da mulher que estendia uma fatia de pão a um mendigo, dos que antigamente percorriam as aldeias, e que agradeciam a dádiva com um padre-nosso. E sagrada era essa ritualidade da cristã distribuição de uma ou mais fornadas de pão, que os filhos e herdeiros de abonados vizinhos faziam pela gente mais carenciada de vila ou aldeia, implicitamente requerendo uma prece por ocasião do óbito de pai ou mãe. Do sagrado partilha esse gesto de troca de dons, os folares, de que aqui já se falou, e de pão se trata na festiva quadra pascal, mística festa da ressurreição para os cristãos, que evoca outras sacralidades de antiquíssimas culturas. Longo proémio para revelar essa bonita, mas desaparecida prática de oferta de um pão ritual e sagrado, as fogaças, que os romeiros de Santa Eufêmia dos Matos, que ainda hoje se venera com romaria maior na freguesia de Cepões, concelho de Viseu, ofereciam a essa virgem e mártir no dia da sua festa, a 16 de setembro. Uma tradição há muito perdida e de que apenas nos fala o erudito abade Carlos da Fonseca Pereira, que a 5 de junho de 1758 redige a longa memória que o ministro del-rei solicitara, através do seu bispo, e que hoje integra o precioso documento que é conhecido como Memórias Paroquiais. Conta assim o abade: "No dia da santa, acode a esta capela muita gente em romagem e com fogaças por ofertas e devoções particulares", não deixando mais informação o prolixo cronista acerca deste pão votivo, a fogaça, pão de trigo, de ovos, medianamente doce, no geral muito fofo e saboroso, que assim o fabricavam os devotos. Ou, porventura, o próprio cereal, o milho, como acontecia no vizinho concelho de Vila Nova de Paiva. E não nos fala do destino da fogaça, certamente colocada em leilão, em certo momento da festa, satisfazendo com seu rédito as despesas da festa e o arranjo da ermida de que os mordomos cuidavam. Tal podemos inferir do que acontece ainda noutras festas, a das fogaceiras de Santa Maria da Feira, a festa dos tabuleiros em Tomar, a festa do Bodo em Pombal, que evocam episódios de poéticas tradições e as celebram com este eterno pão de que falei. Pão a que uma bênção traz o carisma de sagrado.
Que bonito quando este pão é, de facto, um símbolo de partilha para aqueles que mais precisam. E esta tradição antiga, é sempre bom retomá-la e continuar, como continua viva em Tomar, como contou, em Pombal e em Santa Maria da Feira. Muito obrigado, Alberto. Marcamos encontro então amanhã, para mais uma das suas crónicas. Ficamos à espera. Até amanhã.
Até amanhã.