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Olá, sejam bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e em visão está Roberto Correia, este investigador e historiador, este homem das memórias e do património que hoje continua com esta nossa passagem, este nosso périplo por terras do Magriço. Nosso Senhor dos Passos, padroeiro dos seireiros de Avezelga, isto em Penedono e é, no fundo, uma memória do autor à sua avó, que era seireira. Vamos a isso. Bem-vindo, Roberto.
Avezelga, freguesia do concelho de Penedono, é hoje, como as demais freguesias que a envolvem numas poucas léguas de distância, uma aldeia cativa desse funesto destino que foi a imigração, de que retorno se não apercebe, e o abandono revela-se no casario fechado, nos chãos abandonados de onde vinha antigamente o pão que os lavradores carreadavam para as eiras, pão de centeio na fartura das eiras ou de milho, maíz, que alegrava a gente com as desfolhadas. Abandono que se sente ao olhar os alpendres desertos, as ruas sem caminheiros, as lameiras sem gado, sem cantos de lavadeiras às margens da ribeira. Pão que verdadeiramente não era bastante para matar a fome da gente. Fome de pão que traçou o novo destino para tanta gente. Da terra vinha esse pão de um tempo de memória, do centeio, de algum trigo, do milhão, do linho, da castanha, do feijão, que assim ditam os corógrafos antigos: o padre Manuel de Azevedo, que escreve a 1758, e Dom Joaquim de Azevedo, um pouco mais de 100 anos mais tarde. O primeiro, no relatório que integra as memórias paroquiais de 1758, não fala das seiras. Essa indústria caseira a que Dom Joaquim de Azevedo, na história eclesiástica da cidade de Lamego e bispado de Lamego, datada de 1877, dá relevo maior. Tem fábrica de esteiras de esparto, seirões e outras obras que vendem para os engenhos de azeite e para esteirar as casas ou para assentos, o que tem grande consumo nos lugares da comarca. Nessa época, e vai já mais de um século e meio, os seireiros moviam-se já por léguas que iam do Minho à Estremadura com seus burricos carregados de seiras para as azenhas das redondezas e os demais artefactos com que se esteiravam chãos de cozinha, lojas de serão, capachos de alindar, soleiras de porta de lavrador ou mais fidalgas, frios soalhos de quartos de dormir, bancos de igreja, assentos de confessor. Voltavam depois da carga vendida a várias moedas e algumas vezes o pagamento em frutos da terra, medidas de milho ou de feijão. É por essa época, com o ofício já enraizado, que o bom do padre Cristóvão de Nossa Senhora do Patrocínio, a aceitarmos a legenda, introduz na Avezelga o culto de Nosso Senhor dos Passos, devoto desse Senhor da Paixão, assim invocado, e estabelece-o na antiga capela da Senhora da Encarnação ou da Lameira, a um tiro de pedra do centro da aldeia, como se dizia, e daí se enraíza, como o ofício, a devoção. Os passos dos seireiros alargavam-se, entretanto, para além da comarca. Machitos trapeteiros, como o de Melhadinhas, largavam com a carga. Azenhas apetrechadas, pergões à boca de uma rua, uma porteira aberta sobre o entardecer, o machito acolhido em casa de lavrador conhecido, a manjedoura com feno, duas mantas no cabanal, a malga de caldo, pão e vinho que trouxe a lavradeira e a rota batida ao outro dia, até poder regressar, montado agora no machito. E a mulher que ficara rezando com os filhos pequenos sobre a noite vazia: "Senhor dos Passos, te guie". E a promessa de fazer de joelhos as voltas à capela, verão findo, e o óbulo na bandeja: que o seireiro regressara em paz. Duas moedas que foram juntando para comprar um chão, levantar sobrado. Esquecidos por um tempo, os passos sofridos, feridas saradas, as da saudade e tantas outras, quem sabe? Talvez os seireiros, mais esses vagamundos de caminho vário, sentissem o Senhor dos Passos como seu irmão. Feridas que demoravam a sarar, suor de sangue, as quedas repetidas, um cireneu que sempre há, uma promessa que ele ouvia, a mão estendida sobre a mão calejada do irmão. Talvez se tenham afeiçoado assim os seireiros e o Senhor dos Passos. Talvez por isso o carreguem agora no andor em posição, poupando-lhe assim algumas dores. Talvez por isso o tenham escolhido para patrono, que ninguém mais os compreenderia assim.
Muito bem, estamos então a homenagear a sua avó seireira, Alberto. Estamos conversados sobre este tema, esta indústria caseira das seiras, que era tão usada e tão importante recuperar. Até amanhã. E continuamos em terras de Magriço. Vamos falar de pássaros amanhã. Bem-haja e obrigado. Até amanhã.
Até amanhã.