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A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão, brincou às mil revoluções, amando gestos e protestos e canções, pelo seu estilo controverso. Este país também é para novos e é por isso que temos em estúdio um especialista a falar para eles, os mais novos, e fala sozinho num podcast que é dos mais ouvidos em Portugal. Aos 23 anos conquistou um lugar no pódio do humor ao esgotar três Coliseus no primeiro espetáculo a solo. Saiu do impasse e aos 25 é capaz de repetir a proeza ao servir-nos caramel macchiato. Não foi, por isso, um erro crasso convidado para este programa. A criatividade e o sentido de humor são grandes provas de inteligência e os milhares de jovens que move são só mais uma prova de que o mundo mudou, e muito, na última década. Acabou o curso de Gestão na Católica enquanto já ganhava a fazer stand-up comedy. Sabe tocar piano e bateria, até chegou a dar aulas de bateria durante dois anos. Teve formação musical na Orquestra Metropolitana durante mais de um ano, mas desistiu porque queriam que tocasse fagote. Fez parte dos Boomerang, o quarteto de humor mais conhecido em Portugal depois dos Gato Fedorento. Frequentou a secundária do Restelo e jogou rugby no Belenenses, o verdadeiro beto, como diz o próprio. Perdeu o Globo de Ouro de Revelação de 2019 para João Félix e está entre os 40 influencers chamados ao Palácio de Belém por Marcelo Rebelo de Sousa. Pedro Teixeira da Mota, bem-vindo.

Obrigado.

Já decidiste se te vais associar ao Presidente da República?

Isso aí não sei se é conversa para ter aqui. Também te posso perguntar o mesmo. Tu também estavas nesse lote.

E já decidiste?

Eu já decidi. Eu acho que decidi lá.

Decidiste lá? A sério?

Uhum.

Não podes partilhar a tua decisão ainda?

Não, agora neste momento acho que não é o momento mais oportuno.

Ok, mas sentiste-te honrado pelo convite. Sabias ao que ias?

Eu vou ser honesto. Eu recebi o convite, claro que é receber um convite da presidência, é o Marcelo, claro que é uma honra, no sentido de é o Presidente da República e ele está a reparar nos jovens. Eu mal vi e soube que eram 60 pessoas, ou 50, eu fiquei um bocado desconfiado, sinceramente. E depois quando vi algumas pessoas que estão lá, eu já não considero uma honra, porque estão ali a meter no saco várias pessoas que não têm nada a ver. E houve ali várias pessoas que eu já falei. Eu no podcast passo bastante livre a falar das coisas que curto, tanto recomendo coisas, como digo coisas que acho que estão erradas e por quê. E há várias pessoas que estão ali que eu já gozei, que não me identifico minimamente e acho que o que elas fazem, não quero dizer é ofensivo, mas estar no mesmo saco eu acho que não faz o mesmo sentido.

Mas então foi isso que pesou na tua decisão, assim que viste o outro lote de convidados?

Foi um bocado, sim, porque há certas pessoas que não é qualquer que seja a causa, mas eu penso um bocado, eu nesta fase eu não quero estar associado àquela pessoa, qualquer que seja o projeto. É verdade, nesta fase eu não me identifico, temos caminhos totalmente diferentes, eu não me identifico com nada do que fazes e eu não quero estar associado. Portanto, se tu estás, eu não estou.

Queres ser totalmente independente.

Sim, eu estou um bocado mal habituado por causa do podcast e por causa do stand-up. Eu sou totalmente livre e independente no que faço.

Só precisas de ti próprio.

E agora, de repente, estar noutras coisas que tenho outras pessoas que nem identifico e tenho que fazer e tenho que estar associado a isso, isso já me tira tudo, já me tira a vontade.

Mas achas que o humor não se deve então envolver com a política, com os deveres cívicos ou também com o ativismo? O humor e ativismo.

Tens, por exemplo, o exemplo do Ricardo, no "A Gente Não Sabe Estar", que eu via sempre e é incrível, e é por isso que o Ricardo é dos melhores, é o melhor humorista português. Mas eu nesta fase, não me vejo a fazer isso, porque acho que são fases e acho que o Ricardo com a minha idade também não estava preocupado em mandar ou bicadas de política ou ir por aqui ou ir por aquele caminho e estava mais a descobrir-se ainda. Eu ainda estou.

E tu vais ver o que é que os grandes humoristas faziam quando tinham a tua idade?

Não, mas gosto de pensar ali um certo tipo: "Onde é que o Ricardo estava com 25? Onde é que o Bruno estava com 25? O que é que eles andavam a fazer?" Isso aí é giro pensar. Com 25, o Ricardo, eu nem sei se era os Gato Fedorento. Eu acho que o Ricardo já tinha mais quando foi Gato Fedorento.

Era mais velho, já tinha mais?

Eu acho que estava mais nos 30. Eu sei que ele é de 74.

Ok. Nessa lista de pessoas, como disseste, estavam figuras com quem já fizeste pouco, com quem já fizeste humor. É pacífico para ti gozares com alguém e depois teres de encarar essa pessoa?

Não é muito pacífico, é um bocado desconfortável. É um bocado do evitar, acho eu. Por isso é que também não quero estar. Estás a perceber?

Mas já aconteceu muitas vezes?

Já aconteceu um bocado.

Como é que reages? "Deixa-me em paz, estou a gozar contigo, amigo."

Há pessoas que reagem muito bem. E tens, por exemplo, o exemplo do Miguel Costa, que também estava lá, que eu já gozei com ele várias vezes, porque ele faz parte, foi um conceito que eu falei no podcast, que é o Blue Tick Gang, que basicamente são as pessoas que têm o certinho azul no Instagram. Se tu tens o certinho azul e comentas no perfil de outra pessoa, comentas uma fotografia, o teu comentário vai aparecer destacado. Se aparece destacado, mais pessoas veem, por isso é que esses comentários têm sempre mais likes e visibilidade. E eu falei do Blue Tick Gang, que são as pessoas que têm o cestinho azul e que estão sempre a comentar nas perfis das outras pessoas pra aparecer e pra ganhar seguidores. E eu sempre disse: "O Miguel Costa é o presidente do Blue Tick Gang". Ele anda aí com a bandeira do Blue Tick Gang a propagar a mensagem, a palavra, porque ele comenta em fotografia de Tiago D'Oitônio Pereira, não sei o quê, está sempre a comentar.

É um truque muito conhecido para ganhar seguidores.

E eu sempre disse que ele era o presidente do Blue Tick Gang.

E ele foi ter contigo?

E ele falou isso e tipo: "Epá, ouvi, pá, André, pá, que já conheço há muito tempo, pá, está tudo bem". E fiquei a falar com ele e foi na boa. Mas há pessoas que obviamente não vão ter esse fair play. E eu também digo que eu até percebo. Eu só vi isso Pessoas, como eu já fiz, estou três ou quatro minutos a falar de uma pessoa, o termo técnico não é rasgar, mas a falar sobre essa pessoa. Se eu ouvisse alguém falar sobre isso, se calhar, também não ia ter fair play.

Hás de ter poucos, mas tens alguns haters ou não? Também tens de lidar com isso.

Claro que tenho. Já houve uma fase que as pessoas dizem que também não afeta, acho que há uma fase sempre que afeta, depois habituas-te e já tens um bocado a coisa de faz parte pessoas não gostarem, é impossível ser um humorista que queira agradar a todos, não é um humorista. É impossível, então o que estás a fazer? Porque eu acho que existe uma diferença: ou tu fazes o que queres. Imagina, eu acho piada a este copo d'água e vou tentar que a minha piada sobre esta água chegue ao máximo número de pessoas. Ou então toda a gente está a falar do copo d'água e eu tento tirar uma piada de lá. Estás a ver? Há estes dois mecanismos. Portanto, quando eu estou a falar de uma coisa específica e estou a criar quase essa coisa, eu acho que é normal que haja pessoas que não se identifiquem nada. E tens o meu podcast, que eu acho que as pessoas ou entram na linguagem e curtem porque sou mesmo eu, ou há pessoas que devem dizer: "Este gajo é um otário e tem a mania." De certeza que há pessoas que devem achar isso, porque eu muitas vezes estou lá a falar quase com umas certezas sobre as coisas e opiniões.

E mandas muitas coisas fora? Depois de gravares ou vai tudo?

Nunca mandei. Eu já tenho 122 episódios, sai todos os domingos, e é uma cena que até me orgulho, porque nunca falhei nenhum domingo. E sempre foi: bora começar, meto a gravar, digo: "Ok. Está. Bora." Como é que é? Começo, vai meia hora, acaba e eu tipo: "Até logo."

Tens uma autoconfiança brutal. Ou não? Para não te autocensurares nunca.

É um bocado, ya. Mas sabes que eu nunca pensei muito nisso.

Tens boa autoestima, tiveste uma infância feliz. Olha eu a fazer psicóloga.

Achas que é isso aí?

Pode ser.

Que me leva a estar meia hora e não...

Cresceste rodeado de amores, então tens uma autoconfiança indomável.

Isso não tenho.

Não tens dúvidas.

Não tenho queixas nenhuma. Não é ter vergonha de dizer isto, mas eu nunca vi os meus pais a discutir. E eu sei perfeitamente que a maior parte dos meus amigos tiveram pais de divórcio.

Estão juntos?

Estão. Estão juntos, mas é giro, não são casados. Estão juntos há 35 anos. Andam numa corte há 35 anos.

Não te queres casar.

Não tenho isso e a minha irmã também, tem uma filha e está com o namorado há cinco ou seis anos e também não são casados e não vão casar. Portanto, achas que vou herdar isso aí e não usar a gravata.

É, nunca usaste.

Nunca.

Nem no Palácio de Belém, não tinhas.

Não.

Pois não, mas foste de fatinho.

Fui de fatinho. Fatinho é tão raro que até acho piada, porque depois vejo e penso: "Olha lá, olha o gajo." De facto, uma pessoa fica melhor de fato. Ganhas mesmo um nível, ficas diferente. Aliás, eu comprei o fato por causa dos Globos.

Nos Globos tinhas fato e de gravata?

Não.

Não tinhas gravata, não gostas mesmo. Não gostas de formalidade.

Não, mas eu acho que foi mesmo uma coisa que herdei do meu pai. O meu pai é advogado e para todas as reuniões que ia era sempre o único sem gravata, sempre foi isso aí. E depois o meu pai diz que começou a ver até no Parlamento e coisas, pessoas a deixar de usar gravata e o meu pai estava tipo: "Fui eu, fui eu que comecei."

Eu já percebi que tu não gostas mesmo de ter nada que te sufoque, nem que te asfixie de alguma forma.

Ya, é um bocado. É engraçado agora fazer essa ligação, mas é um bocado. Já associou uma certa, a gravata não é bem uma formalidade, mas é um bocado asfixia, porque está mesmo no pescoço, é quase literal.

E se calhar nem sabes fazer o nó da gravata.

Não, obviamente não sei fazer o nó. Parece-me óbvio.

O Pedro é um profissional do humor que não tem receio de criticar seja o que for, com medo do que as pessoas vão pensar. E hoje em dia isso é de louvar. Foi o que me contou uma fã tua e eu estou a ver que é mesmo verdade. É libertador dizer aquilo que pensamos verdadeiramente sem medo de represálias.

É, sem dúvida. E eu agora já tenho, não é sendo que já posso, mas acho que cada vez mais as pessoas, mesmo se não concordarem, já perdoam um bocado isso. Não sei bem como é que hei de explicar isso aí, mas sim, é verdade. Eu também me censuro um bocado. Antes de começar há coisas, por exemplo, sobre a ida lá ao Palácio de Belém, eu no podcast falei sobre isso, eu não disse tudo o que achava. Há coisas que não se pode dizer tudo, senão isto era uma estupidez, isto depois queimava-se. As pessoas têm que ter um bocado de cuidado, aquela censura básica.

Um filtro.

Sim, mas no geral, digo porque muitas vezes, o que eu acho que eu estou a dizer é quase, não vou dizer que é um facto, mas eu estou mesmo a analisar e eu estou a justificar. Ou seja, eu acho que não é gratuito. Eu acho que esse aí é que é o grande porquê que eu às vezes posso fazer isso sem grandes consequências. Porque muitas vezes tem uma base e eu estou a justificar e nunca estou a ser gratuito, dizer: "Não, aquele gajo não vale nada, porque ele faz isto só porque sim." E gosto mais de tentar justificar porque fez isto, mesmo que faça isto, tal, analisar. Gosto de analisar as coisas a fundo, tanto as que gosto como as que me irritam.

Isso seria totalmente possível se te tivesses associado a um órgão de comunicação social. Não sei se tens alguma parceria neste momento, já deves ter recebido convites.

Não.

Há cada vez mais humoristas no espaço público, nas rádios, nos jornais.

Não, e agora, por exemplo, ia claramente, isso é uma das razões. Já se falou de ter uma rubrica na rádio e neste momento não me interessa nada, porque eu estou com o podcast, que posso falar do que eu quiser, claro que eu faço sempre meia hora e aos domingos, mas se eu quiser agora faço três episódios sábado. Ou seja, ter essa liberdade, poder falar do que quiser. Depois na rádio ia acontecer coisas, não podes falar de marcas, não podes dizer não fales daquela pessoa que é chato. Eu ia só estar a perder com isso aí. Eu não vejo, neste momento, como eu estou, nenhuma vantagem em ir pra rádio. Eu tenho o podcast e ainda por cima, depois financeiramente, eu tenho o Patreon, que também ajuda.

Como é que tu chegaste a esta posição? Tu começaste com um curso com o Luciano Huck em 2014, depois foi Boomerang e a tua independência começou a crescer assim?

Foi isso. Foi o Boomerang. Começámos a fazer uns espetáculos. O primeiro foi no Chapitô, 2014, para bilhetes a zero. Bilhetes à entrada livre. Começou assim, fomos fazendo mais espetáculos. Depois, houve uma atuação que o Luís Franco-Bastos viu no Comedy Club, gostou da minha atuação e é curioso que ele até ia ver, era eu, o Carlos e o Manel, Manel Cardoso e Carlos Diana, e ele até ia mais ver o Manel, porque o Manel era o que se falava mais de se excitar. Mais interesse até para vários. E depois ele viu isso, gostou, mas depois ouve a mim, que ele sabia quem é que era, mas não sabia bem que ficou: "Ah, gostei daquele". E pronto, depois comecei a abrir a tour, fui para a Bridge Town, para a minha agência. A partir daí foi um bocado uma evolução, diria natural.

Em 2014, quando te inscreves no curso do Rui Sinel de Cordes, já sabias que poderia ser esse o teu futuro, que poderias vir a ser comediante profissional, humorista?

Talvez já começasse a considerar isso aí, mas eu não me lembro nada do momento. Eu sei, por exemplo, quando entrei na Católica, não tinha nada isso. Estava longe de ser comediante mesmo. Mas foi, foi um bocado a entrada no curso.

Era o que existia de malta, não é?

Já. Isso aí eu sempre tive de Twitter há imenso tempo, de Vine. Eu sempre tive nessas coisas, depois vídeos para Facebook. Porque às vezes as pessoas podem achar: "Bem, começou, tem a carreira há pouco tempo". Sim, mas eu estou há mais de 10 anos a fazer coisas para a internet, a criar. E estou no Twitter, estou, aparece o Vine, vou. E foi aí que nós nos conhecemos todos, os Boomerang, nós nascemos.

Só foi na internet.

Foi a partir do Vine. O Carlos e o Manel já se conheciam.

Mas são os quatro betos, como é que a vossa classe social se cruzou?

Não somos.

Não?

Essa definição temos de mudar isto aqui.

Quem é que não é?

Eu, honestamente, sou o único ali.

Ok, és o verdadeiro.

O verdadeiro. Estou-me a tentar desviar disso aí, não é isso. Mas eu sou uma pessoa normal. Eu sei, o lado do meu pai, tal, tal, jantava com talheres de prata e pronto, tudo bem. Mas eu não sou batizado, eu nunca fui à missa, eu nunca andei de cavalo.

És um beto não conservador.

Nunca usei polo, camisa, gravata.

Tu quer ser beto. Porque uma das coisas que os teus fãs gostam é: ele é beto, mas é assumidamente beto, é um beto com direito a selo. Ele fez disso não uma fraqueza, mas uma fortaleza.

Mas eu tento, até hoje em dia, depois já se falou tanto, os betos e os mitras. Eu já estou tão farto disso aí que eu tento é nem ir por aí. Não abordo isso. Sou uma pessoa, sou um gajo que tem um podcast, faz stand up e falo sobre coisas. É só isso aí. Mas já vi definições. A certa altura, é quase tudo beto. As pessoas já dizem como beto.

E há wannabe betos, não é?

Sim, há isso. Mas há muitas pessoas que são acusadas injustamente ser.

Injustamente. Ok. Há aqui uma coisa engraçada que é o Instagram, as stories, a forma como as pessoas comunicam hoje em dia é uma matéria potente para ti, mas ao mesmo tempo acabas por usar esses mesmos meios, embora não faças conteúdos verdadeiramente pessoais. Tu não divulgas a tua vida pessoal nas redes sociais. Deixas isso para o podcast. Por exemplo, eu sei que estás ou estiveste a mudar de casa.

Eu estou a viver já sozinho. Sim, já estou.

E falar sobre como é que é.

Só falei no podcast. Nunca faria vídeos no Instagram. Malta, está aqui a nova casa, estou aqui. Nunca.

Andaste na Feira da Ladra, Feira do Relógio, a comprar.

Sim, eu sou grande fã de feiras. Isso aí é a minha tara.

Mas no podcast revelas muitas coisas da tua vida pessoal.

Sim, muitas pessoas dizem que sentem que me conhecem, que somos amigos, porque eu falo mesmo, eu conto coisas. E mesmo amigos, que eu às vezes não vou tanto tempo. Ontem tive um amigo lá em casa, que não estava para aí há um mês ou dois, e eu estava lhe a dizer: "Ya, agora inscrevi-me no ginásio." Ele: "Eu sei, eu ouvi no podcast." E eu estava a dizer, essa é a vantagem de eu abrir o podcast.

Já não consegues dar novidades aos teus amigos.

Sim, eu estou a par de tudo, eu estou a par da tua vida. Mas sim, o Instagram eu uso mesmo como trabalho, no fundo, e o Twitter.

Não é lazer? Não tens ímpeto como um jovem normal neste século de dizer: "Olha, estou a ver este grande disco."

Ya, mas controlo, porque as pessoas não têm interesse nisso.

Não têm? Já experimentaste e não resultou?

Não, nem experimentei.

Mas se as pessoas têm interesse em pessoas anónimas, por que não teriam interesse no Pedro Teixeira da Mota a ouvir um disco em casa ou estar a ler aquele livro?

Porque todas as pessoas estão a fazer isso. Todas as pessoas têm 10 stories, vieram jantar aqui. Quantas refeições é que eu já tive incríveis que eu não estou a postar? As pessoas já veem isso dos outros. Eu quero dar uma coisa diferente. Imagina, estou com um amigo qualquer e estamos a divertir a jogar FIFA. Quantos amigos é que podem fazer um story a jogar FIFA à noite? Mas por quê? Isso é o quê? Está só com ele. Quer dizer, até podes tirar fotografia.

Mas depois se calhar falas sobre isso no podcast.

Exato, ou seja, também tem isso. Vou a um grande restaurante e acontece não sei o que no restaurante, eu vou falar disso no podcast, eu guardo para o podcast. Portanto, gosto de manter o Instagram e o Twitter mais exclusivo.

Quando eu estava a perceber as razões do fenômeno Pedro Teixeira da Mota, fui recebendo uma resposta muito consensual. Ele faz um humor simples, do dia a dia, é muito fácil relacionarmo-nos com as histórias que o Pedro conta. Tu és um contador de histórias, sentes isso?

Sim, por acaso até gosto de pensar que, por exemplo, há uns tempos em que mandei uns ténis dos Estados Unidos, ficaram na alfândega e fui à alfândega, acontece lá um episódio. Eu sei que há pessoas que se contassem aquilo, era uma história normal, mas no podcast eu gosto sempre de, às vezes sinto um bocado que sei como ter interesse para pessoas que não me conhecem. Estás a perceber?

Sim. Mas isso é uma ideia literária, oral? Como é que fazes para envolver uma história que não tem nada a ver contigo?

Eu dantes estava mesmo a escrever para casa. Escrevia bastante, depois perdi, passei muito mais para, não sei, eu acho que também tem muito a ver com o meu grupo de amigos e muitos termos que eu uso no podcast e que se tornaram quase chavões do podcast, veio de coisas com amigos.

Tipo Suécia?

Sim, isso veio com um amigo meu.

A volta à teoria da Suécia?

Sim. Esse tipo de coisa muitas vezes vem de coisas com amigos, de ideias que temos e que estamos a falar. Acho que o grupo de amigos é essencial e diz muito sobre a pessoa. O grupo de amigos, o género de pessoas com que te dás, diz muito sobre como a tua cabeça pensa, porque tu também estás a ir buscar coisas às cabeças deles. Tens de estar com pessoas boas, que te estimulem e que te deem coisas novas.

Sim, estamos a dizer que nós somos a média das pessoas com quem nos damos, as cinco pessoas com quem nos damos. Isso pode fazer algum sentido.

Exato. E até há aquela frase de que é bom sinal quando estás numa sala e te sentes o mais burro.

Sim. Isso é uma boa dica. Não, é porque sentes que estás a crescer ou que estás a aprender qualquer coisa.

Estás com pessoas melhores do que tu. É sempre bom, que dão uma coisa diferente que tu não tens.

Isso de contar histórias, além de ser importante termos pessoas que nos estimulem, também vem da leitura, ou não? Tu lias muito em miúdo?

Adorava "Tintim" e "Lucky Luke". Banda desenhada não sei se--

Então já havia aí humor, na infância.

Sim, "Tintim" é a minha...

É a tua cena, o Tintim?

É, completamente. Tu não? Tu não és Tintim.

Não era fãzona, não. Gostava, mas não era fãzona.

Ya, mas é Tintim, completamente.

Por quê?

Eu adorava o Professor Girassol. A personagem dele, eu ria-me imenso com ele, porque ele estava sempre à toa, andava sempre com um pêndulo. Ele era completamente surdo. E eu sempre me ri com as cenas dele de não perceber o que as pessoas estão a dizer e depois dizer uma coisa totalmente diferente, de um dizer: "Boa tarde, Girassol." E ele: "Pois, já acabou de chover." E ir-se embora. Eu sempre achei piada a isso aí. E mesmo depois o Dupon e Dupont, sempre gostei disso.

A cultura francesa.

Sim, e o Asterix.

Era o que havia lá em casa, era o que os teus pais te davam.

Sim. O meu pai sempre deu isso aí. Todos esses Asterix, depois Spirou e Fantasio. Sempre tive banda desenhada.

E o Calvin?

Também. Calvin. E um que era o Zitze, não sei se sabes qual é que é.

Não lembro.

O Zitze era incrível, mas isso era mesmo um adolescente, que era o Jeremy, e tinha os problemas de adolescente, tem uma namorada. Gostava imenso desse aí. Sempre fui muito de banda desenhada deste género.

Sim. E mais livros. Havia livros na tua infância?

Não, a minha família é ridícula. O meu pai tem oito irmãos, dois deles são alfarrabistas. Eu tenho um tio que se chama, aliás, Pedro Teixeira da Mota, e que é considerado o maior conhecedor de Fernando Pessoa em Portugal. E ele tem uma casa, tem um andar, e ele comprou o andar de baixo só para livros. E eu fui uma vez à casa dele, abri o frigorífico e tinha lá livros, porque não cabiam mais.

No frigorífico?

No frigorífico.

Estavam frios?

Estavam, claro. E eu estava lhe a perguntar: "Quantos livros é que já foram lidos aqui?" E o meu tio, tipo 1%.

E tu contribuíste para aumentar esse 1%?

Não, eu fui lá à casa do meu tio com um amigo, porque íamos ter teste de português sobre Fernando Pessoa, então fomos ter uma explicação privada. Claro, o que o meu tio sabe era muito mais denso do que nós tínhamos de saber para um teste do 10º ano.

Então, mas o Fernando Pessoa entra na tua vida na escola ou foi o teu tio?

Não é que Fernando Pessoa tenha entrado muito. Fernando Pessoa faz mais parte da vivência do meu tio. Eu fui lá só sugar um bocadinho para um teste, para ter 15 e ir andando.

Ok. Eu sei que tens uma cultura enciclopédica sobre humor e que és muito atento ao que se faz em Portugal e lá fora. Qual é o teu contador de histórias humorísticas preferido cá dentro e lá fora?

Cá dentro eu tenho sempre de dizer o Bruno e o Ricardo. Ricardo/Gato Fedorento, mas depois mais Ricardo e o Bruno. E lá fora o Louis C.K., o Chris D'Elia, essencialmente estes dois.

E vamos aqui introduzir uma figura de estilo, a ironia, que usas muito no teu trabalho. Acho que é das coisas que eu mais gosto no teu discurso, é a ironia. Sempre foste irônico, desde miúdo?

Sim.

É muito apurada a tua ironia.

Sempre, e acho que é ensinamento de pai. O meu pai é considerado o tio engraçado da família.

Mas mandas piadas de pai ou são piadas--

Não, são boas. Tem poucas de pai. Não tem muitas dad jokes. Sim, tem boas. E não repete muito. Sempre que repete um bocado e eu vejo já é a terceira vez que está a usar noutros sítios, mando aquela dica. Eu sei que são pessoas diferentes, mas é repetir o material, pai, não é bonito. Sempre apreciei o humor do meu pai.

"Se as pessoas que se vão reunir para debater a legalização da cannabis fossem todas juntas fumar um charro, jogar PlayStation e falar sobre a vida, em vez de irem debater causas e consequências de fato e gravata, iam divertir-se e perceber que obviamente o mais certo é legalizar." És a favor da legalização da cannabis?

Foste ao baú, isso é um tweet?

Eu encontrei no teu Facebook, tu já não usas muito, mas eu fiquei com essa impressão de que eras a fim da legalização, a favor da legalização da erva para fins recreativos no teu podcast e fui tentar confirmar. Estou enganada, és a favor?

Sou a favor. Acho que o álcool faz muito pior do que isso aí. Por exemplo, é estranho a marijuana ainda ser vista como uma coisa assim. E nem estou a ir ao açúcar. Porque o açúcar também é grave, se formos por aí. Por que a marijuana é vista assim, mas um senhor de 60 anos vai ao café, pede um bagaço às 7h e isso é normal, mas por quê? Se isso aí...

Somos um país conservador por termos chumbado a legalização para fins recreativos.

Acho que sim, até me parece bem nosso. Nós estamos bem no aborto, estamos bem na eutanásia. Estamos bem no casamento homossexual.

Há poucas pessoas que falam publicamente sobre a legalização da erva, eu não sei se és a favor.

Eu já falei no podcast que o meu objetivo é: "Estou aqui a crescer, vou criar uma base grande e depois, não sei se me candidatar a alguma coisa, mas vou defender duas causas, que é a legalização das drogas leves e a abolição de refrigerantes". Disse isso a gozar, mas no sentido.

São as tuas duas causas?

Claro que não. Depois eu estava a falar disto com um amigo meu e ele estava a dizer: "Sabes que depois vais ser conhecido como o otário que baniu a Coca-Cola. Só. Vais ser esse." E eu tipo: "Ya, pois é, se calhar isso não é preciso." Mas era só para mostrar que beber um ice tea, se calhar um miúdo de 8 anos que pede um ice tea, isso é muito pior do que fumar um charro quando se tem 18 ou 20 anos ou 16, indiferente. Isso aí é muito pior. Era mais para fazer esse contraste do que mesmo serem essas duas medidas, mas eu acredito mesmo nisso. E, por exemplo, refrigerantes eu já há três ou quatro anos que não bebo. Mas também porque não é que eu tenha sofrido, eu acho água a melhor bebida do mundo, de longe.

Ok. És fit, não é? Inscreveste-no ginásio, não bebes sumo. Podias ser um influencer do ginásio.

Quase, estou perto. Pode ser o meu objetivo.

Na Prozis, não?

Não, vou evitar isso.

Olha, quando este programa arrancou com a missão de dar a conhecer opinion makers entre os 20 e os 30, eu perguntei ao primeiro convidado quem era o colunista ou opinion maker preferido e ele responde-me, surpreendentemente, Ricardo Araújo Pereira. Não estava mesmo nada à espera. Achas que o humor é uma forma de fazer opinião?

Sem dúvida. E o Ricardo faz isso melhor do que ninguém.

Tu já fazes opinião ou não?

Eu faço opinião, sem dúvida. E uso o humor para isso. Portanto, concordo, mas eu não sei se diria o Ricardo ou o Miguel Esteves Cardoso. Por acaso, agora até podemos voltar a livros, acho que foi o único, foi o Miguel Esteves Cardoso e Woody Allen.

Essas crónicas do MEC? Ok.

O "Causa das Coisas", eu lembro-me de estar a ler e ter ataques de riso.

Mas bom, o "Causa das Coisas", sim.

De ter choro a ler um livro. E eu fiquei: "Como é que isto é possível? Como é que eu estou a rir alto a ler?"

E é muito atual ainda, não é?

Isso é que é impressionante.

Foi escrito nos anos 80. Eu também li em 2000 e tal.

Eu nem sei se é antes.

Eu acho que é 88, uma coisa assim.

Mas de qualquer maneira, isso e os livros do Woody Allen, tipo "Efeitos Secundários". Esses livros mudaram e inspiraram-me bastante depois para começar. Eu dantes gostava de escrever textos, depois é que descobri que acho que sou melhor a falar do que a escrever e a expressar ideias, porque também por ser bastante expressivo e não é bem fazer sotaques, mas às vezes fazer certas vozes e certas caricaturas e um certo acting, acho que sou mais forte nisso do que nas guitarras.

Nunca te ouvi a fazer vozes. Costumas fazer vozes? Imitas alguém em particular ou são personagens da tua cabeça?

É mais isso. Uma que eu criei no podcast, que basicamente foi como eu imaginei, como é aquele tipo de pai muito certinho que ele faz ciclismo e escalada e usa aquelas botas de proteção e o filho não pode comer doces. E para mim ele falava assim e dizia: "Tem cuidado, Jake, por que és este género de pessoa. Olha o cinto de segurança". Ou seja, é mais este género de vozes que eu sempre fiz, de criar personagens do que mesmo imitar alguém.

À medida que a tua influência ou o número de pessoas que te acompanham aumentam, há alguma preocupação que aumente proporcionalmente em ti? Continuas a preocupar-te em dizer aquilo que pensas exclusivamente ou já metes um travão e pensas: "Isto vai influenciar muita malta, eu não posso dizer isto."?

Sim, há certas coisas que eu se calhar dizia há dois anos e que não digo agora.

Achas que isso vai continuar a aumentar? À medida que vais crescendo mais. Olha tu com 30.

Não, mas eu acho que não é exponencial, é cada vez menos.

É? Ok.

Acho que já estou mais perto agora dos 30 do que estava aos 23. Ou se calhar, e depois também isto é um gráfico. Imagina, aqui posso dizer tudo, tenho 23. De repente, estou aqui com a exposição, posso dizer um bocadinho menos. Aqui mantenho, tenho 40, cá vai ele. E volto a dizer muito mais do que dizia quando tinha 23.

É assim que projetas a tua vida, como vai ser a tua vida artística?

Acho que sim. Espero não me ver a controlar mais, mas sei lá, é tão vago isso aí, eu não sei mesmo o que é que vai acontecer. É como às vezes fazem a pergunta: "Pedro, quando começaste, imaginavas?" Claro, não imaginava nada. Eu já falei isto no podcast algumas vezes, que é das coisas que me irrita mais hoje em dia, que é as pessoas quando no Instagram ou qualquer coisa que dizem: "Se me dissessem há 10 anos que eu ia estar não sei o quê". Claro, mas ninguém tinha isso. As pessoas fazem isso só para levar pancadinhas nas costas, de tipo: "Uau, és incrível, tu conseguiste chegar a isto". As pessoas estão constantemente atrás dessa palmadinha por fazerem o seu trabalho. Tipo, és um músico, tens carreira há 10 anos e agora estás a fazer uma sala, não sei quê, e o teu disco vendeu não sei o quê. Claro, é normal. Se fizeres as tuas coisas bem, é o normal, é o teu trabalho. Estás a querer sempre um abracinho ou as palmadinhas por fazer o que tens de fazer.

Uma fã tua que esteve presente no Caramelo Macchiato diz-me que parecia um encontro de jovens que consomem conteúdo, que apesar de ter o seu lado humorístico, tem o seu lado cultural também. É assim que descreverias o teu último solo?

Eu acho que sofro um bocado de preconceito e acho também sofria teu, ainda não sei se sofro na totalidade.

Tens preconceito meu?

Não, que tu tinhas em relação a mim.

Não.

Sim.

Eu tinha preconceito em relação a ti?

Ya, aliás, esse não foi credível.

Eu fiquei surpreendida. Foste uma boa surpresa na pesquisa.

Pois, é isso que eu estou a dizer, nesse sentido. Eu acho que pode existir um bocado de, como tenho isso do Beto, e depois ele tem a mania e está a falar e as miúdas e as pitas gostam e não sei o quê, que vem sempre uma coisa: "Ele só fala de coisas básicas, é só por ter uma imagem". Eu sei que sofro um bocado disso.

Mas também te dá pica para depois provares quando as pessoas percebem que estavam erradas.

Sem dúvida. E eu estou confiante. Eu vejo muitas pessoas que eu acho que falam mal. Eu penso um bocado. Ouve um bocado o podcast, ouve uns episódios. Se não gostares disso, então não gostas mesmo. Mas experimenta ouvir. E há muitas pessoas que às vezes vejo críticas de: "Como é que vocês acham piada? Ele só fala das Betinhas e dos pais." Eu não falo disso há cinco anos. Estás a perceber?

As pessoas ficaram paradas no tempo, não acompanharam a tua evolução.

Sim, mas eu também não acho que as pessoas digam isso Como mal dizer. As pessoas dizem aquilo como depois comentam: "O Setúbal está a perder, não estão a jogar nada". Ou seja, é um bocado indiferente. Não acho que as pessoas estejam a odiar e que uma pessoa deva sofrer com isso. Mas acho que muitas dessas ideias que as pessoas têm vêm só da primeira vez que viram, o primeiro impacto é bastante importante. E o primeiro impacto que tiveram foi em 2015, um vídeo qualquer, que se calhar passado um ano eu já não me identificava e ainda estão um bocado preso a isso. E eu digo: "Como é que vocês gostam? Um tipo que só fala disso." E há muitas coisas que eu sei que adiciono algumas camadas, que não é só uma observação básica e que tento falar de coisas a sério.

Este aqui é o teu segundo solo. É uma carga de nervos entrar em palco ou é tranquilo?

Nunca fiquei muito nervoso. Fico só entusiasmado de entrar, apetece-me só entrar.

É muito diferente falares num estúdio no YouTube, falares sozinho no microfone, agora tens uma plateia à pinha.

Mas nunca, eu só fico com pica. E o que acontece é, quando estou a anunciar, recebo com uma enorme salva de palmas, estou ali tipo: "Bora!" E aí o meu coração, claro que está um bocadinho a subir, mas é de pica, não é de nervosismo, não é tipo: "Ai, ai, ai". Isso aí nunca fiquei antes.

Mas sempre foste bom a falar em público, mesmo na escola?

Sempre. Aquelas peças que havia, fazer o Tarzan, eu era o Tarzan.

Eras o primeiro.

Sim, era tipo shot Tarzan, shot principal.

A autoestima inabalável lá está.

E eu lembro-me de corrigir os outros, ser um bocado ditadorzito, mas é: "Vá lá, mas faz isso bem, só tens esta fala, estás a isso tudo mal, vá lá".

Encenadores.

Sim, mas de me irritar quase. E mesmo em Boomerang, eles tratavam-me como o Gordon Ramsay do grupo, de eu me irritar com coisas do tipo: "Puto, vá lá, bora só fazer isto, tens que fazer isto aqui, vá lá. Isto já está, faz." E sempre tive isso, sempre gostei das apresentações orais. Eu gostava disso, a apresentação oral. E é boa. O quê? Preparar uma coisa e estar a falar para a sala.

Mas sentes a adrenalina, gostas de ter os olhos postos em ti e sentires que estás a ser ouvido?

Eu não sei se tenho.

Nunca racionalizaste.

Não sei se tem uma intenção tão profunda quanto isso, mas divirto-me a fazer isso.

É um bem estar no momento ou é um bem estar que se prolonga depois dessa tua atuação?

Não, é essencialmente no momento. Depois acabou. Depois tens a cena de correu bem ou estás contente, pode ser, mas o pico de adrenalina e de satisfação é no momento, sem dúvida.

E tu testas as tuas piadas com quem, antes de avançares para um espetáculo como este? Eu descobri, acho que foi o ano passado ou há dois anos, que os humoristas faziam pequenos encontros para testar piadas. Eu fui a um do Bruno Nogueira, do Salvador Martinha e Luís Franco-Bastos e não fazia ideia que se fazia isso, ignorância minha.

Eu fui a umas noites dessas. Eles fizeram 30 noites no São Jorge. Eu fiz cinco.

Mas também estavas a atuar? A testar piadas?

Sim, porque a única maneira nesse stand up como se evolui é testar texto. Não existe tu só escreveres piadas, não testares com ninguém e vais para o solo, isso aí não existe. Isso é, por exemplo, uma coisa que o Rui Sinel defende. Ele não testa as piadas, ele escreve tudo e depois faz o solo. Pronto, esta é a maneira dele.

É risky?

Eu acho que é errado, eu nem acho risky, porque não é assim. E ele diz que: "Porque eu é que sei o que é que tem piada, não são as pessoas". Mas isso não é assim, porque quando se está a atuar é que se percebe: "Eu tenho que fazer uma pausa aqui, esta aqui eu tenho que mudar, não estou a dizer no tom certo". E, obviamente, eu tenho a certeza absoluta que a última atuação da tour dele é melhor do que a primeira, mas sem dúvida. E por quê?

Porque já sabe o que é que funciona.

Porque sabe o que funcionou, foi adaptando, tirou coisas. E eu, por exemplo, antes deste solo, e por isso é que eu acho que este solo está muito melhor do que o outro. Não está muito melhor, mas está mais bem preparado, porque eu antes de fazer, fiz imensas datas pequenas por Santarém, Benavente, Mirandela, Bragança, Alenquer, Almeirim, para 70, 80 pessoas, em bares pequenos. Fui várias datas com o Carlos, outras com o Batáguas, e fizemos para testar material. Eu levava lá: "Tenho estes três bits, vou fazer este bit, este bit e este bit. Vou experimentar." Vejo, gravo a atuação e vejo: "Isto resulta aqui. E se eu parar ali?" A melhor sensação para mim, enquanto humorista, e acho que se pode comparar quando um músico está no estúdio e de repente descobre uma melodia e fica: "Isto aqui tem aqueles rasgos de criatividade". Quando nós temos é quando estou no palco e estou a contar uma história qualquer, fazer um bit qualquer, aquilo corre bem, as pessoas estão a rir e eu começo a improvisar sobre isso e de repente estou a surfar nos risos das pessoas e a criar material, porque isso motiva-me para criar mais. E há imensas piadas deste solo que foram criadas live, porque é aí que são criadas. As piadas são criadas, para mim, obviamente, mas não são criadas em casa a pensar: "Ok, eu estive na Alfândega. Ok, Alfândegas, o que são as Alfândegas? São a quantidade de pessoas, muitas pessoas, ou seja, era chato se houvesse um dilúvio, ok." Isto para mim não existe. Vou com umas ideias, claro, tenho que pensar em casa no que é que vou dizer, mas depois quando eu estou a falar, aí é que tu sentes com o público e com o stand up e toda aquela envolvência, é que tu percebes para onde é que aquilo vai e o que é que é melhor. Eu se fizesse estes bits agora mais 30 vezes, se calhar ainda ia ser melhor. Por isso é que nós quase nem podemos comparar o nosso nível ao de lá. Por exemplo, o Chris D'Elia, antes de fazer, atua três vezes por noite, há 10 anos.

E tu vais atuar duas vezes este sábado, não é?

Este sábado vou atuar duas vezes.

Não vais ficar completamente arrasado.

Em Aveiro também fiz duas sessões.

Não ficas completamente quebra-queixo?

Não, eu acho que o corpo se adapta. Eu acho que o cérebro percebe a importância daquilo e dá ordens ao corpo, tipo: "Não te vais abaixo agora, bora, é mais um". E ajuda-nos nesse momento.

Mas o que é que fazes? Dormes bem, comes bem, como é que tu consegues ter a certeza que vais estar no teu melhor duas vezes no mesmo dia?

Não tenho. Eu há pouco tempo, há duas semanas, tive uma intoxicação alimentar e estive em casa dois dias que não conseguia sair. E eu estava a pensar: "E se isto me acontecesse no Coliseu?" Eu entrei em pânico. Eu não conseguia mesmo. Se me acontecesse no primeiro dia, eu ia cancelar três Coliseus. O que é isto? Fiquei mesmo com medo. Mas eu depois estava a falar disso com a minha irmã e a minha irmã: "Pensa que isto aqui foi porque o teu cérebro sabe que aquilo vai ser importante. Portanto, meteu-te tudo mal agora, gasta e agora vais fresh para lá e vai correr bem". Mas acho mesmo que o cérebro percebe. Imagina, tens uma dor qualquer de joelho. Se vais para um show e tens que estar lá uma hora bem. Imagina, tu aqui estás doente, vais ter uma entrevista aqui, o Marcelo vem cá, na minha geração, o Marcelo vem e ele só pode neste horário. Se tu estiveres com dor de cabeça, aquilo vai correr bem. As dores de cabeça vão sair durante aquele momento, porque têm de sair.

És muito otimista.

Eu acho um bocado isso.

Diz-me uma coisa, falavas dos conselhos do Rui Sinel de Cordes em relação a testar piadas, isso foi durante o curso? Funciona um curso de humor? Eu tenho algumas reservas em relação a cursos de escrita criativa, por exemplo, que acho que são as mesmas reservas em relação a um curso de humor. Funcionou?

Eu acho que funcionou essencialmente nem que seja para entrar no meio um bocado. A nível de network, eu, por exemplo, na minha leva, na nossa turma, houve vários que até tiveram algum sucesso. Por exemplo, o Miguel Luz, não sei se conheces, tem também um podcast. Estava o Guilherme Duarte com o Ricardo Cardoso.

Eram todos do mesmo curso?

Estava o António Coutinho.

Queria conhecer o Sinel de Corde, era isso.

O jovem conservador de direita também era do curso. Ou seja, éramos vários ali. E é isso, eu conheci isso todos, fomos atuar à Guilherme Cossoullo, também conheci o espaço da Guilherme Cossoullo, fizemos lá outra data, foi bom, conheci quem estava, houve quem gostasse e veio falar comigo. Ou seja, eu acho que quase que compensa mais por entrar no meio, por estar lá, do que propriamente: "Ok, temos esta regra, temos estas técnicas". Porque se calhar uma pessoa já fazia as técnicas, só não sabia que eram as técnicas. E eu hoje em dia não tenho nada. Por exemplo, há muitos humoristas que usam o Twitter mesmo para piadas de setup, punchline, de está a acontecer isto, o Jorge Jesus foi despedido. Eu não tenho nada isso aí.

Tipo o João Quadros. Ele usa um pouco o Twitter como um caderno rascunho.

Sim, mas isso é caos, esse Twitter.

É caos.

É o caos total, são retweets absurdos de uma virilha. Só preciso que alguém que lhe responda com um parêntesis assim, ele faz retweet. Portanto, não sei se esse Twitter é bom para analisar, mas não sei se neste caso.

Por falar em Twitter, eu andei a ler opiniões sobre o teu novo solo e havia um comentário algo repetido de que as pessoas não se sabiam rir ou que havia um riso muito estranho.

Isso aconteceu.

Tu ouves os risos?

Não, este era impossível, porque às vezes acontece. Foi na primeira noite do Porto, que dizia uma piada, as pessoas riam-se e ele não só estava fora de tempo, como fazia aquele .

O que é que tu fazes para continuar? Tens de continuar a dizer piadas e alguém a rir estranhamente.

Acontece uma coisa tão estranha que basta eu olhar para onde veio o riso que toda a gente se vai rir.

Ok. Tens essa técnica.

Não, isso é quase natural. Foi mesmo a minha primeira reação. E depois vou continuar e digo qualquer coisa e olho outra vez e aquilo já é uma cena.

E fazes isso o resto do espetáculo?

Um bocado, às vezes volta, porque ele voltou-se a rir.

Nesse sentido, os espetáculos são sempre diferentes, não é?

Sim.

Usas muito improviso? É fácil improvisar e depois voltar ao guião?

É, eu gosto de fazer, eu sempre tive um bocado para improviso, não forço nada, porque já se gozou muito com isso também, dos humoristas fazerem: "Vocês são um casal?" "Sério, há quanto tempo?" Esse tipo de lengalengas, isso aí não faço já há algum tempo, mas às vezes surge. Por exemplo, isto aqui do riso, depois fica um bocado uma cena. Eu passado um bocado digo: "Ele nunca mais riu, será que morreu?" E depois ele volta. Estás a ver? Ui, chama aí. Está algum médico na sala neste momento? Precisamos de ajuda.

Mas dá-te motivação quando ouves as pessoas a rir? Tu, no fundo, não consegues desfrutar daquele momento, porque tens de avançar para o próximo.

Sim. E se eu tiver, mesmo que eu tenha três risos incríveis, depois há 15 segundos ou 20 que não há reação, está a ser mau o espetáculo já. Já não está a dar.

E tu sentes-te entrar em pânico ou não? "Não, bora, tenho que avançar."

É um bocado. Felizmente, agora com o solo, isso ainda não aconteceu, mas às vezes acontece e começas a acelerar. A tendência, quando aquilo não começa a dar, começa a ficar mais rápido, porque queres tipo: "Bem, vou chegar, vou bazar. Ui, não está a dar aqui, vou para o outro lado. Ui, também não está a dar". E claro que o outro não está a dar, porque este não está a dar e tu estás a acelerar para aquele e nem fizeste bem a preparação para chegar lá. Estás a ver? Eu acho que é uma coisa que se ganha com experiência, é saberes ter calma e às vezes ter silêncios e ok, tu vive o silêncio. Contas uma, não deu e diz mesmo. Se calhar não deu, dás um gol e voltas normalmente como farias se tivesse corrido bem, em vez de estar a dizer: "Bem, mas pronto, o que eu vinha a dizer." Estás a ver?

Sim. E tu levas o texto, por exemplo, como o Sinel de Cordes tem um texto, vai de vez em quando espreitando ou não? Ou vais sem teleprompter?

Está lá, porque ninguém vê, porque está nos monitores de som. Ou seja, ninguém vê e às vezes quando vou beber água, posso olhar, mas eu sei perfeitamente para onde é que tenho de ir. Mas às vezes olho só para descarga de consciência, que é tipo estou aqui, sei perfeitamente o que vai acontecer.

E quem é que é o teu público-alvo? Quando estás a trabalhar, pensas que é este o teu público-alvo? E as pessoas que vês ali nos espetáculos ao vivo correspondem àquelas que tu imaginas que estão a ouvir, que estão a ver no YouTube ou no podcast?

Eu não penso bem em público-alvo, eu penso em mim, não sendo egocêntrico, eu penso em mim no sentido que as coisas que me fazem rir, eu conto coisas que eu gosto genuinamente. E eu acho que isso aí, quem vai atrair, não é bem de faixa etária, é muito mais do tipo de cabeça que tem, agora voltando um bocado a cérebro, que é: pode haver miúdos de 14 anos que percebem a história de Alfândega e gostam, e depois há pessoas de 20 que não gostam, e depois há pessoas de 38 que gostam.

Ok.

Ou seja, não vejo bem uma idade, vejo mais uma maneira de pensar.

Tu sendo um beto, és o público-alvo do Observador, costumas ler notícias?

Tenho like.

Tem like.

Tenho like.

Mas tu gostas de consumir informação? Tu não fazes humor da atualidade, não fazes humor político, achas que podia ser um caminho para ti no futuro?

Talvez. Pois é isso. Neste momento, não. Eu nunca fiz muito humor da atualidade e há dois anos que faço zero

Mas uma coisa é não fazer, outra coisa é não acompanhar mesmo.

Não, eu estou a par de tudo. E o Twitter nisso aí acho que é a melhor fonte. Qualquer coisa, por que é que a Iniciativa Liberal está trending.

Mas não te sentes tentado a fazer um tweet sobre a Iniciativa Liberal, sobre o António Costa, sobre o Chega? Nunca te sentiste tentado? Porque é fácil, ainda por cima agora que o Parlamento parece uma-

Não, mas sinto-me ao contrário, totalmente. Isso afasta-me ainda mais. Eu vejo as pessoas a falar e depois acontece uma coisa. E isto aqui pode ser um bocado polémico o que eu vou dizer, mas acho que vais perceber o que eu vou dizer. Eu vejo tantas pessoas a criticar o Chega e o André Ventura, que às vezes quase que me apetece ser do André Ventura. Percebes isto? Criam-se ondas tão, sempre a dizer mal dele, do fascista e não sei o quê, e eu estou a ver tanto aquilo que é tipo: "Pronto, olha, vocês já me estão a irritar, eu sou o André Ventura a partir de agora." Estás a ver?

Achas que são tendências que se criam porque as pessoas falam: "Isto aqui as pessoas vão gostar, vão concordar comigo, por isso eu vou dizer isto."

Claramente, claro que é fácil. És contra o racismo e és contra o machismo e os gays devem casar.

Tu gostas de ir pelo caminho menos óbvio, mais difícil, não é?

Não é que seja necessariamente mais difícil, mas é um bocado isso do menos óbvio. Eu não vou falar onde está tudo a falar. E claro que este aqui diz mal dos ciganos e quer fazer castração química, e esta aqui quer igualdade, claro que esta está certa. Isso é óbvio. Já há tantas pessoas, eu não vou acrescentar nada. E eu quando for falar disso é porque acho mesmo que vou acrescentar alguma coisa, vou ter um ângulo diferente e que vai valer a pena. Eu não vou falar disso só porque sim, só para dizer: "Este aqui agora a dizer isto. Pois." Não vou fazer isso.

Uma das coisas que eu mais admiro nos humoristas e na decisão de se tornarem humoristas de profissão é a inspiração, ou melhor, ter de lidar com a falta de inspiração. A qualquer momento pode acontecer qualquer coisa e tu ficas sem ideias, sem uma iluminação perante o que está a acontecer. Já te aconteceu? És muito novo, nunca deve ter acontecido assim nada de muito-

Tipo um bloqueio assim grave?

Sim.

Isso aí não tive.

Todas as semanas fazes o podcast, nunca falhaste.

Nunca.

Nunca te aconteceu um momento de desinspiração?

Eu acho que não.

É como ser iluminado.

Não, eu acho que também tens de procurar a inspiração.

Claro que sim.

É a mesma coisa do que a sorte.

Tens uma rotina de inspiração?

Exato, é um bocado.

Tens uma rotina de inspiração?

Não, não tenho rotina de inspiração.

Dizes que tens um momento das 17h.

Eu vou à feira, imagina, não vou todas as semanas. A feira tem material e depois da feira vou almoçar ali à volta e falo com não sei quem. Isso está-me sempre a dar. Eu acho que é o viver para contar. No fundo, é um bocado isso, é fazer coisas porque daí vêm histórias. Se tu fizeres coisas, eu acho que a iluminação vem.

Então obrigas-te a sair de casa. Agora andas com uma agenda preenchidíssima com o teu solo, mas quando não tens, não tens horário neste mundo, és 09:00 às 17:00.

Não, não tenho nada. Isso pode ser perigosíssimo. Por isso é que me inscrevi no ginásio, que é aquela coisa de vou lá às 10:00, 10:30 e começo, e de repente é 12:00 e eu já estou fresh, já fiz aquilo, já aconteceu, estou pronto para ir almoçar. Porque às vezes mesmo, se eu vou almoçar com um amigo e vamos dar uma volta, isso é alguma coisa, isso vai surgir e eu estou quase sempre em trabalho. Eu agora vir até aqui e no trânsito acontecer alguma coisa, basta. As coisas que me acontecem eu acho que acontecem a quase toda a gente. É depois eu estar atento e extrair daí uma coisa um bocado diferente que as pessoas repararam, mas não repararam, ou observaram, mas não repararam. Que faz diferença, é ser um bocado obcecado. Eu acho que no fundo é o segredo para sucesso na área é a obsessão.

Obsessão?

Obsessão. E acho que isso aí não sei bem se se consegue esforçar. Eu sempre fui um bocado obcecado e sou agora totalmente obcecado. Mas obcecado tem às vezes uma cara um bocado intensa, parece que sou doente disto aqui, que vivo para isto. Eu tenho a minha vida totalmente chill, estou com festas, estou amigos, faço tudo, mas estou a observar.

Vamos a mais um momento de auscultação de fãs, que são sempre ótimas fontes. "O PTM tem a sua própria essência e não precisa de ser o básico e criador de conteúdo para ter views, não precisa de imitar tendências para estar nas tendências, não precisa de divulgar os espetáculos em televisão ou rádios para saber que a sala vai estar cheia. Ele sabe que o seu público aumenta com o chamado método boca a boca. Se eu gostar, vou dizer a mais amigos e assim sucessivamente. Acho que o Pedro se baseia nisso. Resumidamente, ele tem a sua cena e quer ser reconhecido por ele, não por ir a programas de televisão e fazer stories patrocinados por marcas. Ele tem o respeito do público por ser assim." É isto?

Bem, quem é essa pessoa incrível que disse isso?

Incrível, eu devia conhecer esta pessoa.

Grande pessoa, sou fã dessa pessoa.

Devias chamá-la ao palco, eu acho que ela diz que vai ver mais espetáculos teus. Ela disse que era capaz de ver três vezes o teu espetáculo.

Incrível. Vai parecer um bocado mal dizer isto, de eu concordar com ela, porque ela está-me só a elogiar. Não posso bem dizer exatamente isso. Mas é um bocado isso. Uma coisa que me faz imensa confusão, que imensas pessoas fazem, e para mim é quase um erro básico, é a cena de acabar um vídeo e dizer: "Partilhem, se gostarem mostrem aos vossos amigos." Se as pessoas gostarem, as pessoas vão partilhar, não é preciso dizer. A quantidade de coisas. Eu ontem estive a mostrar um rapper que é o Chico da Tina, até posso dizer aqui. O Chico da Tina, já mostrei para três ou quatro amigos meus, porque gosto da personagem, acho que ele está a fazer uma coisa diferente e engraçada, já mostrei. Ele nunca me pediu para partilhar. Eu nunca vi, eu estou a partilhar porque eu gosto, é só isso. Se tu fizeres a tua coisa bem, e se gostares daquilo, se te aplicares, tentar pensares em coisas diferentes e as pessoas gostarem, as pessoas vão falar daquilo, tu não precisas de estar a pedir e vai ser muito mais orgânico. Sendo mais orgânico, depois tudo faz muito mais sentido. Estás a perceber? Não é preciso forçar as pessoas a nada.

Nos últimos três anos, antes de experimentar a rádio, eu trabalhei quase exclusivamente na internet e lembro-me daquela sensação de que ao trabalharmos em redes sociais é um pouco como ser ginecologista, porque nós trabalhamos onde os outros se divertem. Como é que tu geres essa dualidade? Porque tu usas para trabalhar, mas depois também usas para lazer. Como é que é a tua relação com a tecnologia? Andamos todos superdependentes disto.

Ando. Eu estou sempre a ir ao Instagram e ao Twitter.

Já repara as tuas mãos a irem lá e tu não queres.

Sim, às vezes é doentio, é quando fecha o Twitter e depois abre-se o Twitter outra vez. Eu tipo: "Não acredito. Eu estive aqui há seis segundos. O que eu estou a fazer?"

Já checas aquela contagem do iPhone de saber quanto tempo é que estiveste? Isso ajuda?

Sim, mas nem curto ver. Tu tens quantas horas? Eu fico um bocado triste quando vejo o meu.

Acho que também não costumo ver.

Mas queres ver ou não?

Não, quero que tu me digas como é que tu controlas isso.

Não controlo.

Não?

Sou louco, só. É o que é. Mas, por outro lado, posso estar imenso tempo no Instagram ou no Twitter, mas não meto nada.

Sim, mas és um voyeur.

Sou, mas é assim que eu controlo. Estou a ver, mas às vezes estou a ver nem é bem para nada. Às vezes até pode ser, estou a jogar FIFA.

E eu acho: "Por que eu estou aqui? Não estou a gostar, não me está a acrescentar nada."

Eu até tenho uma coisa, as pessoas do podcast sabem, mas vou confessar aqui, que é o Finsta. Sabes o que é o Finsta?

Não. O quê?

É o fake Insta. Eu tenho um Insta com outro nome que sigo todas as pessoas que não sigo com o meu.

Mas por quê? Mas as pessoas sabem que és tu?

Não sabem.

Não, mas já contaste no podcast.

Sim, mas não disse qual é o meu username.

Quem que segues aí?

Eu posso abrir aqui e digo-te. Eu sigo o Goxa.

É o trash. Eu também tenho um trash, que é para seguir trash.

Sigo o Goxa, mas não é só o Goxa, a Diana Chaves e isso. É também pessoas que estão aí, que se calhar têm 1000 seguidores.

Mas é para fazeres uma radiografia do que as pessoas estão a fazer.

É um bocado. E eu às vezes estou a ver os stories disso tudo e a maior parte das pessoas irritam-me, o que eu estou ali? Eu odeio quase todas as pessoas que estão aí. Gosto muito do Goxa, por acaso. Há alguns que eu gosto, lá no meio, mas a maior parte irrita-me. E eu às vezes estou, vejo story, irrita-me, não gosto, depois passa outro e eu penso: "O que eu estou a fazer?" E atiro o telemóvel para o chão, tipo: "Sai! O que eu estou a fazer? Eu sou louco."

Mas depois dá-te inspiração.

Mas é isso, depois também vou buscar lá. Porque é que eu estou a dizer isso? Devo, por acaso, ser quase doentio.

Seis stories, estou quase a ver a tua fotografia. Coisas assim.

Isso aí vem daí, claramente.

Ok.

As pessoas que eu sigo na minha conta boa não fazem esse tipo de comportamentos.

São selecionadas.

Estás a perceber? Exatamente.

Ok. São pessoas saudáveis.

Essas coisas, depois dão essa inspiração, vem do outro lado.

Ok.

Por isso aquilo é um método de trabalho, mas é doentio, porque eu sofro.

Eu sofro.

Eu sofro, mas não me consigo desligar.

Até bom teres essa consciência.

Eu sofro, mas eu também preciso de ir lá. Eu sofro, mas eu vou lá, ninguém me está a obrigar. Sou eu que vou lá.

Como é que fazes essa gestão? Não fazes, não é? Estás a tentar tratar.

Não sei, por agora está a dar.

Não, mas é uma doença do século. Acho que andamos todos assim um bocadinho. Vamos ver daqui a 100 anos o que vai estar escrito nos livros de história sobre esta fase.

Não, acho que é 100. Acho que é daqui a muito menos.

Menos?

Já vai totalmente mudar.

Mas sobre a saúde mental das pessoas neste século?

Ok. Pensei que estavas a dizer os nossos hábitos.

Até porque está mesmo a alterar o nosso cérebro.

Os nossos hábitos vão mudar muito.

A saúde mental que vem.

Isso, claro. Isso vai ter consequências.

Nunca te aconteceu? Imagina, já me aconteceu à noite estar a ler um livro e estava tão cansada e fiz assim ao livro. Agora estamos na rádio e ninguém vai ver, mas no vídeo veem.

Fizeste um scroll.

Mas num livro, ou seja, o meu cérebro estava a conseguir.

Ya, num livro é doentio.

Está doido. Nunca te aconteceu nada assim? Isto é a tecnologia a alterar o cérebro.

Sim, pois é.

Já me aconteceu estar numa conferência e um senhor deixar cair os papéis e eu, por acaso, nesse momento distraí-me.

Já sei o que me aconteceu.

E queria meter para trás, porque eu queria ver aquilo. Percebes?

Mas vou dizer um que já me aconteceu desse nível. Estar num sítio e querer fazer zoom para ver melhor uma coisa lá ao fundo.

Ok. Já vês, isto é a tecnologia a fazer mal ao cérebro.

Isto quando eu fiz, depois, eu achei doentio. Eu não acredito. Eu estou a fazer com a mão, estou a abrir a mão, estou a abrir de verdade. Eu sou louco.

Sim, estamos a ficar loucos. Estamos quase a chegar ao fim desta entrevista. Cinco temporadas de Erro Crasso, um dos conteúdos mais relevantes da internet nos últimos tempos. Não vai voltar? Mesmo não ficaste com vontade de trazer de novo?

Acho um bocado que as coisas boas têm de acabar. Não estou aqui de repente a me matar o Erro Crasso, estou só a dizer que nós fizemos temporadas que foram correndo bem e foram sempre subindo. Se fizemos uma, será que depois as pessoas já vai tirar e já não é tão boa. Nós agora não é que acabámos, mas estamos numa fase que as pessoas têm saudades e querem. Não é melhor quando se acabam as coisinhas, as pessoas têm saudades, em vez de cansar e fazer três spin-offs e volta e mais uma coisa e as pessoas já estão: "Pronto, conseguiram estragar em "Twilight", porque fizeram oito sobre isso, porque o primeiro foi um sucesso." Por que não acabar com as coisas? Há muito sobre o "O Último a Sair". Quando é que vem o "O Último a Sair 2"? Não vem. Foi "O Último a Sair", foi ótimo, acabou aí.

E deixou saudades.

Claro que não estou preparado. Mas é isso, deixar saudades é bom.

E como é que foi perder um Globo de Ouro para o João Félix?

Foi bom.

O teu colega. Vocês são amigos.

Ya, nós estivemos a jantar uns dias antes, por acaso. Sabíamos todos. Sabíamos todos ali o que é que ia acontecer. Era muito difícil. Mas foi bom.

Já esperavas que fosse ele a ganhar?

Isso aí, totalmente. Mas acho que a nomeação foi engraçada. Nunca tinha ido aos Globos. Também estava curioso de ver como é aquilo de analisar e tive que comprar um fato, porque tive um casamento. Portanto, deu um gelo.

Imagino, deu material para o podcast.

Deu, falei.

Tenho de ir ouvir.

Exato, tens de ouvir.

Casaste com quantas pessoas?

Três ou quatro.

Só?

Sim.

Olha, aos 23 estavas num impasse, aos 25 ia mudar de casa ou já mudaste de casa. Sentes-te um pós-adolescente ou um pré-adulto?

Sinto-me um pré-adulto. Vou para o pré-adulto, porque já tenho contas.

Tens contas.

Tenho várias contas, até. Tenho débitos diretos de luz e de água. Não sou totalmente adulto, porque, por exemplo, quando eu estava a dizer que tive a intoxicação alimentar, a minha mãe foi lá a minha casa e levou-me uma canja. E eu não sei como é que ia sobreviver sem essa canja, não sei mesmo. Eu não conseguia comer, estava só em casa e estava tipo: "E agora?" Eu não conseguia agora. Portanto, acho que não sou totalmente um adulto por causa disto. Acho que é a canja que me está a separar da maturidade total. É a canja neste momento.

Teve uma banda chamada CDC, Cave de Curtissa, mas conta que só deram três concertos. Tem uma memória muito boa, decora tudo muito rápido, principalmente nomes completos de pessoas. É um profissional do humor que não tem receio de criticar seja o que for, com medo do que as pessoas vão pensar. Dizem que tem mais piada ao vivo do que no YouTube, no Instagram e no podcast. Confirmo, tem piada. E além de piada, tem um Excel com todos os espetáculos onde atuou, o sítio, a data e com quem foi. Vai ter, por isso, muito para atualizar nos próximos tempos. Corram para apanhar os últimos bilhetes para Caramel Macchiato, a bebida de outono inverno de Pedro Teixeira da Mota, um especialista a criar engagement com os ouvintes em Ask TM e que nos fez companhia na última hora no Observador.

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