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Pode o comércio estar relacionado com a pintura naïf? É a pergunta que nos podemos colocar ao olhar para um dos quadros postos aqui no Museu de Pintura Naïf, que está situado no Sato, no distrito de Viseu. Aqui comigo tenho uma responsável do museu, Paula Cardoso. Boa tarde. Temos aqui à nossa frente um quadro que retrata o Porto com vários barcos que levam a crer que estão a levar o vinho do Porto, e pintado por uma mulher. Como é que surgiu a inspiração para este quadro?

É uma boa pergunta. É muito natural que Amália Fernandes de Córdoba, uma mulher espanhola nascida em Madrid, que assina as suas obras como Amália, se tenha apaixonado pela riqueza da Ribeira do Porto, que é no fundo aquilo que ela tem aqui presente num imenso mundo de cores nesta pintura. Ou seja, nós conseguimos aqui nesta pintura destacar o vinho do Porto, sem dúvida, os barcos rabelos com as várias marcas do vinho do Porto representadas e ao todo conseguimos ver cinco barcos rabelos. Depois, mais ou menos a meio da pintura, encontramos o vasto mundo do casario da Ribeira do Porto, com imensos pormenores que mostram aquilo que é a vida da Ribeira do Porto. Podemos ver as varandas com os tendais de roupa, com as cordas de roupa, as senhoras a estender a roupa e, de certo modo, algumas a falarem com as outras. Ou seja, sente-se que há vida, há movimento neste casario também. Um pouco mais acima, observamos ali um jardim também com um misto de cores e curiosamente, se há árvores verdes e outras com tonalidades rosa, também temos ali uns azuis pelo meio a caracterizar toda aquela vegetação. E depois, mais acima, o que encontramos são dois importantes monumentos da cidade do Porto. Temos a Sé do Porto e depois observa-se no canto superior esquerdo, aquilo que se destaca também na paisagem da cidade do Porto, que é a Torre dos Clérigos. Curiosamente, aqui complementado com três balões de ar quente, que no fundo também dão aqui uma certa alegria à própria pintura. E alegria é um dos adjetivos que pode caracterizar tudo o que é esta pintura naïf.

Portanto, tudo o que exista pode estar contemplado naquele que é o trabalho dos pintores que seguem por este estilo. Aqui no museu está exposto não só esta pintura, que se intitula "Barcos Rabelos", mas também uma fotografia familiar. Esta é a família de Amália?

Se quisermos imaginá-la como sendo a família da Amália, não temos nada que nos comprove isso. Poderia ser ou a família da Amália, ou uma qualquer outra família. É verdade que nós conseguimos perceber que há ali um pai, uma mãe, depois uma figura feminina adulta que está de costas viradas para o espetador, mas depois as crianças viradas de frente para o espetador, curiosamente todas elas também vestidas de uma forma que pode aqui indiciar que era uma família abastada. Mas curiosamente, estão num patamar próximo de um rio onde encontramos também barcos. Aqui, no caso, não são os rabelos, mas quem sabe? Se calhar poderia ser a família da Amália. Não temos nada que nos comprove tal opinião.

Aquilo que nos intriga nesta pintura é o fato de haver esta personagem feminina que está de costas, não olha para nós, não acompanha aquela que é a maneira como a família está exposta, de frente para nós, à partida, de frente para o fotógrafo, porque a obra se chama "Fotografia Familiar" e, portanto, nós não sabemos se está chateada, se está só a admirar a paisagem por trás dela. É livre a interpretação de cada um.

É livre a interpretação de cada um, mas há aqui um outro aspecto também curioso na concretização dos rostos. Se observarmos com atenção, há como que uma repetição de características faciais e, mais em concreto, os olhos amendoados vão-se repetindo em quase todas as figuras, independentemente de serem mais novos ou mais velhos. Mas poderia eventualmente estar chateada. Não sabemos. Deixamos ao visitante essa interpretação.