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"Nossa Cultura", Rádio Observador está em Penalva do Castelo, na Casa da Ínsua. Estamos a descobrir e a fazer uma viagem pelo tempo para descobrirem um pouco mais da história desta propriedade verdadeiramente marcante para o distrito de Viseu, mas também para todo o país, pelos vários avanços e pela vanguarda que foi sempre preservando. Continuamos com José Luís Nogueira. Eu sou o João Costa Campos e estamos ainda no Museu da Casa da Ínsua, agora num polo deste museu especialmente dedicado à estada de Luís de Albuquerque no Brasil.

Exatamente. Temos aqui o que chamamos a Brasiliana, todos os documentos que ele foi produzindo e ele foi com a missão, já vamos falar um bocadinho disso, de povoar e garantir o território brasileiro e para isso fez muitos mapas, desenhou novas terras. Foi pouco criativo, porque deu nomes dele e das terras daqui às terras que foi criando, mas conseguiu fazer isso exatamente. Mas vamos recuar um bocadinho para perceber como é que o Luís de Albuquerque chega ao Brasil. Isto começa em 1750. Em 1750 é assinado o Tratado de Madrid, e o Tratado de Madrid tentava dirimir o problema do Tratado de Tordesilhas, porque Portugal tinha ido muito além. Já tinha, na altura do tratado, andado 100 léguas mais para frente, mas aqui andou ainda bastante mais e foi ocupando o terreno. E os espanhóis não estavam a gostar, mas não tinham pessoas de mapas, não tinham pessoas no terreno, foram empurrando com a barriga, como se costuma dizer hoje. E aqui estavam renitentes, queriam o seu território de volta, porque o Tratado de Tordesilhas tinha sido assinado e quem é pessoa de bem cumpre o que assina. E Portugal consegue dar a volta ao assunto. O principal cérebro dessa negociação era o que então era primeiro-ministro, chamemos assim, de Dom João V, Alexandre de Gusmão, irmão mais conhecido, do irmão mais velho, Duarte Gomes de Gusmão, o da Passarola. E este Alexandre de Gusmão consegue matar o assunto de um dia para o outro. Primeiro, mandou fazer um mapa do Brasil. É pá, é que o Brasil foi à sauna, está elegantíssimo, magríssimo. Eu diria que o Amazonas, as partes mais interiores do Amazonas, quase que têm praia litoral, aquilo mais dois passos e está-se no Atlântico. Um Brasil magríssimo, todo dentro de Tordesilhas, e os espanhóis acreditando na credibilidade que até aí os cartografistas portugueses tinham, aceitou o mapa. Mas como isso não fosse suficiente, arranjou um argumento demolidor e disse: "Senhores espanhóis, vamos cumprir Tordesilhas, vocês têm toda a razão. Nós devolvemos esta parte do Brasil que não é nossa e vocês devolvem-nos as Filipinas, que no contra meridiano estão do lado português". Este foi o argumento decisivo. Os espanhóis já queriam era assinar o contrato e assinaram o Tratado de Madrid. E é neste contexto que Portugal contrata, além dos técnicos e cientistas que manda portugueses, contrata gente em Itália para ir povoar o Brasil, para ir mapear, para ir fazer levantamentos topográficos, para ver animais. É neste contexto que aparece Alexandre Rodrigues Ferreira e a sua viagem filosófica. É neste contexto que Luís de Albuquerque vai para o Brasil. E é muito interessante o mandato que ele recebe, que vem já dos anteriores governadores, obviamente, isto é anterior a ele, de Manuel IV, e é uma carta da rainha portuguesa Mariana de Áustria, a mulher do Dom João V. O Dom João V, que eu recomendo vivamente que se leia as primeiras duas páginas do Memorial do Convento, em que Dom João V vai conhecer a esposa para ver se consegue ter um filho. Essas duas primeiras páginas são deliciosas, vale a pena lermos para percebermos o contexto da época. Mas é esta Dona Mariana de Áustria que assina este mandato para os governadores. Dom João V já está moribundo, já está muito doente. E é uma espanhola, ela é da Casa Habsburgo. É ela que assina e diz qualquer coisa como: "Vocês não arranjem problemas com os espanhóis, mantenham a paz com eles, não os provoquem, mas defendam com unhas e dentes todo o nosso território e apoderei-vos de quanto puderdes". É este o mandato de Luís de Albuquerque quando chega ao Brasil. E ele é o primeiro a chegar lá, a não usar os meios de comunicação habituais, as vias de comunicação habituais, que eram os rios. Ele não, ele vai a pé, demora quase um ano a chegar do Atlântico até Vila Bela, onde é a capital quando ele vai montar a sede, para conhecer, para descobrir tudo aquilo. E aposta em duas coisas, francamente. Uma é as vias de comunicação, os rios. E há um projeto que não foi à frente, que é fabuloso, que era transformar o Brasil num rio. Começando por baixo, o Rio da Prata vem até à zona de Vila Bela, com afluentes, já não é o Rio da Prata quando chega aí, e por cima o Amazonas vira para baixo e também chega. E estão próximo um do outro, cerca de seis quilômetros. Então estava ali um projeto para fazer um canal de seis quilômetros, que no fundo transformava o Brasil num rio, navegável a toda a volta. Estes seis quilômetros nunca foram construídos, mas os rios passaram a ter a importância. Ora, o Tratado de Madrid impunha os rios como fronteira. Era a fronteira natural, era o que se usava habitualmente para fazer as fronteiras dos países. Luís de Albuquerque vai muito além disso. E o que é que ele faz? Ele fica com o rio e vai conquistar todas as terras. Conquistar, estavam abandonadas, não há guerras. Vai apoderar-se de todas as terras do outro lado da margem e povoá-las. E é tão ardil que nas reuniões que tem com os governadores espanhóis, convida-os a vir à sua casa daquele lado lá, mostrando aos espanhóis que a terra dos espanhóis não é espanhola, é portuguesa. E, portanto, é este o cenário Podemos aqui ver estes anos todos ele a construir, a povoar. E é neste cenário que o Marquês de Pombal morre. Desculpem, o Dom José morre, o Marquês de Pombal é apeado e vem a viradeira com a Dona Maria. O Luís de Albuquerque não sabe disto e tem as primeiras notícias de que uma das primeiras medidas de Dona Maria é assinar um novo tratado, que é o Tratado de Santo Alfonso, em 1777. E nesse tratado, os próprios diplomatas espanhóis dizem que o anterior tratado era a vergonha da diplomacia espanhola. Portanto, imagine-se o que eles descobriram. E há um novo tratado em que repõem as fronteiras nos rios e é assinado. Só que isto não é comunicado ao Luís de Albuquerque. E o Luís de Albuquerque sabe disto por uma carta familiar, que lhe diz que foi assinado este tratado. O Luís de Albuquerque não faz mais nada. Escreve à sua rainha e diz: "Minha rainha, enquanto não me der ordens a contrário, eu continuarei a cumprir as ordens para que fui mandatado." Ponto final. Como nunca recebeu ordens em contrário, o Brasil hoje mantém-se com esta dimensão continental e é curioso que só perde alguma parte do seu território já depois da independência, quando sacramenta as sete missões no sul, se transformam em Uruguai, mas isso é já com o Brasil independente, que perdem esse bocadinho de território.

José Luís, seguimos aqui para uma outra parte do museu. Há aqui um conjunto de pinturas de vários animais, Luís de Albuquerque, animais e também vários tipos de plantas e um pouco da fauna e da flora com a qual Luís de Albuquerque se cruzou no Brasil.

Exatamente. Era um pouco aquilo que dizíamos na época, um dos trabalhos importantes era povoar e saber o que é que se estava a povoar e, portanto, como não havia máquinas fotográficas, a forma era fazer desenhos. E é nesse contexto que aparece a viagem filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira, que vai para o Brasil e faz uma primeira coleção deste tipo de trabalhos. Eles são contemporâneos, conhecem-se lá o Luís de Albuquerque e o Alexandre Rodrigues Ferreira. E o Alexandre Rodrigues Ferreira vai mandando tudo o que descobre, animais embalsamados, plantas, e vai fazendo desenhos e vai enviando para Portugal e tem um ajudante capitão, que é encarregado de meter as coisas no barco e as enviar para Portugal. Ao fim de vários meses de trabalho, ele pergunta ao capitão: "Então não está a enviar?" "Não, não estou." "Por quê?" "Acabou o dinheiro. Eu já gastei todo o dote da minha filha e eu próprio já não tenho dinheiro, já não consigo enviar mais." E o Alexandre Rodrigues Ferreira: "Não se preocupe, eu caso com a sua filha", casou com a Germana, resolveu esse problema. E isto vai sendo importante a seguir, porque esta coleção de desenhos da viagem filosófica, depois, nas invasões francesas, está cá o Junot. O Junot, antes das invasões, é embaixador em Lisboa. Na altura é nomeado Marquês de Abrantes. O Jean-Andoche Junot chegou a ter o título de Marquês de Abrantes. E é ele próprio que rouba, que leva, sem autorização, toda a coleção de desenhos do Alexandre Rodrigues Ferreira para a França. Repare-se, todos sabemos que os franceses, depois das invasões, levaram tudo e mais alguma coisa e nunca devolveram. Curiosamente, esta Germana, que já era viúva na altura do tal capitão, vai fazer algo que parece impensável aos olhos de hoje. Não sei como vai conseguir que o Junot devolva a Portugal aquela coleção. Infelizmente, essa coleção está desbaratada. Há uma parte no Brasil, há outra parte em vários museus de Lisboa. Deixou de estar como coleção completa. E depois disso, aparece aqui na Ínsua esta coleção. De um lado são os tais 200 e tal mapas, plantas, que são a parte mais técnica, e esta, a fauna e a flora, são também cerca de 200 desenhos fabulosos, na linha exatamente do que fez o Alexandre Rodrigues Ferreira. Alguns desta coleção são desenhados pelo próprio Luís de Albuquerque, piranhas e outros animais. É ele próprio que desenha, mas desconhece-se. Há um desenhador, penso que será como um às duas, ou coordena, que trabalha para um e para o outro, mas a maioria destes desenhos não parecem vir dessa fonte. Portanto, não se sabe. Até hoje não há dados para saber como é que aparecem aqui estes desenhos. No entanto, eu tenho a minha especulação, porque sabemos que naqueles vários técnicos que em 1750 foram para o Brasil, um foi o Conti, que era um arquiteto, desenhador, que fez muita arquitetura de construção no Brasil e que viveu lá depois até morrer e que fez este tipo de trabalho no Amazonas, na zona do Luís. E que ao anterior governador, sabemos, inclusive temos o título do que ele chamou a esse conjunto de desenhos, que entregou ao anterior governador do Luís. E sabemos que o anterior governador entregou a Luís esse conjunto de desenhos. Agora, só não sabemos é se é este e se foi este que o Luís trouxe, mas a probabilidade, eu diria que é muito grande, de realmente a esmagadora maioria destes desenhos serem do Conti e terem sido feitos antes da viagem filosófica.

E é este mais um dos mistérios que a Casa da Ínsua, aqui em Penava do Castelo, guarda. A Rádio Observador vai continuar por aqui. De seguida vamos conhecer a produção de vinho e de queijo da Serra da Estrela, e de maçã também, aqui da Casa da Ínsua, em Penava do Castelo. É já no próximo episódio.