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Estamos no Museu Municipal de Resende. Estou acompanhada por uma das responsáveis deste museu, a Inês Correia. Muito bom dia. Aqui à nossa frente está exposta a maneira como se produzia o vinho antigamente.

O vinho e não só. Nós temos Resende como, desde sempre, um concelho fundamentalmente agrícola. Inicialmente, tínhamos a produção do azeite e do vinho. E aqui temos algumas peças que demonstram exatamente isso. Temos o cesto de vindimo, a trouxa, que era o utensílio usado para proteger as costas dos acartadores das uvas. Temos também o alambique e uma máquina que nos ajudava a tirar o vinho dos lagares e todas as medidas usadas para encher as pipas. E uma curiosidade é que no norte as medidas são diferentes do sul.

Por quê?

Não sei. Se calhar pelo aumento de produção, ou seja, pela riqueza de produção que nós tínhamos, e se calhar as pessoas do norte são mais generosas, não sei. As pipas de vinho no sul e centro são de 500 litros e aqui no norte são de 550 ou mesmo de 600 litros.

É porque à partida havia muita capacidade de produção. Quem é que trabalhava na apanha, não só da uva, mas depois todo o processo do vinho? Quem eram os trabalhadores?

Fundamentalmente os homens. Os homens eram aqueles que iam em rodas para a Régua, mesmo ali aquela zona da produção do vinho generoso. Nós aqui nesta zona é mais vinho verde, temos apenas uma freguesia, que é a freguesia de Barrou, que faz a entrada na região demarcada do Douro. Para além do vinho, salientar o azeite. Também tínhamos muita, e continuamos a ter, e acho que é uma aposta agora maior na produção do azeite, e a cereja. Que me perdoem os colegas de Alfândega da Fé, do Fundão, mas a nossa cereja é a melhor do mundo e arredores.

O que a distingue?

O que a distingue é o sabor, é a forma rija que ela tem, a carne que ela tem, e também por causa do clima. Como faz muito frio e a cerejeira quer frio enquanto está em bruto, a árvore, e depois um clima que vai subindo amenamente para a criação e maturação da flor, e depois do produto em si. Mas tem tudo muito a ver com o microclima que nós temos aqui nesta região do Douro.

Na cultura mediática, vamos ficando mais ou menos a par que o consumo de vinho não é de agora, tanto de vinho como de uvas, já há muitos séculos que é consumido e faz parte da rotina gastronómica das pessoas, mas a história do consumo da cereja já não é tão conhecida. Como é que foi aqui em Resende?

Há muitas histórias. Até que ponto são verdadeiras ou são lendas, mas tudo começou com um imigrante que trouxe para cá cerejeiras e entretanto foram começando a plantar.

Em que ano?

Ali na década de 30, também década de 40, 50, começou então a introduzir-se a cereja. E a partir daí, foram enxertadas algumas qualidades que foram evoluindo. E também depois pelo facto de Resende, assim como Penajoia, ter a primeira cereja da Europa. É aqui nesta zona que aparece a primeira cereja. E voltando a referir a qualidade fruto do clima e a capacidade de Resende de a produzir e de a exportar para Portugal e para a Europa.

Na altura, quando cá chegou a cereja, era de fácil acesso, qualquer um que quisesse podia comprar cereja e comer?

Aqui em Resende tem essa facilidade. Em qualquer sítio nós podemos parar e ir a uma árvore e colher o fruto. Mas não, eram só mais zonas, aqui na parte ribeirinha. A serra não tinha tanta produção de cereja, apesar de agora já estar a começar a estender mais para a serra, porque aí também obriga, porque a cereja é um produto de duração curta, 30, 40 dias por ano é a altura em que nós temos cereja, mas já foi menos. Mas o facto de podermos subir no terreno a produção de cereja está a fazer com que tenhamos cereja mais tempo, porque na ribeira aparece primeiro e depois de tempos a tempos vai evoluindo e maturando o produto para a serra.

A história da produção da cereja, do vinho e do azeite exposta aqui no Museu Municipal de Resende. Inês Correia, muito obrigada.

Obrigada nós.