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Um concelho dividido é assim que se pode definir o concelho de Oliveira de Frades. Hoje a Nossa Cultura está no Museu Municipal de Oliveira de Frades. Comigo tenho o Filipe Soares, coordenador do museu, que nos vai explicar um bocadinho através de um mapa que podemos ver à nossa frente, que mostra precisamente esta divisão de que falo, um bocadinho mais da história e das gentes deste concelho. Boa tarde, Filipe.
Boa tarde. Relativamente à geografia do nosso concelho, ela é um caso paradigmático, porque há outros concelhos que têm. Este aqui destaca-se porque nós temos um corpo afastado do bloco central do concelho. Isto é resultado da reforma administrativa do século XIX, do liberalismo, em que ficamos com duas freguesias localizadas na serra do Caramulo, que estão fisicamente afastadas, em termos territoriais, do resto do concelho. É uma situação engraçada, as pessoas quando olham para o mapa perguntam se será um erro gráfico, se houve algum problema.
Quem é que zangou?
E nós estamos cá para contar esta história que acontece ali no século XIX, em que Oliveira de Frades, durante vários séculos, esteve integrado no concelho de Lafões. Mais tarde, esse concelho vai ser separado e vão surgir três novos concelhos, que são os que existem atualmente, que são os de São Pedro Sul, Vouzela e Oliveira de Frades. Depois de uma troca conturbada e extinção de concelhos, vai resultar que Oliveira de Frades vai ficar com aquelas duas freguesias antigas de Arca e Varzelhas, que hoje em dia, pela reforma administrativa de 2013, passaram a uma união de freguesias. Atualmente o concelho de 12 passou para oito freguesias e está um território distribuído por 143 km².
E este, que é um mapa bastante interativo, que tem legendas com bastantes figuras a indicar o que cada uma quer dizer. Por aqui percebemos que este concelho tem influência de várias épocas e se calhar vamos já começar pela primeira. Filipe, diga-me, qual é o primeiro período?
O primeiro período representado atualmente nesta sala, como eu falei antes, temos também do Paleolítico, mas o período a seguir, que já está com uma boa representação aqui no museu, é o Neolítico, o período em que com o advento, com a descoberta da agricultura e depois também o desenvolvimento da pastorícia, o homem vai conseguir fixar-se mais algum tempo nos territórios, porque consegue ter uma subsistência mais ou menos garantida e vai construir as primeiras edificações, que são as famosas antas ou dólmens. E Oliveira de Frades é um concelho que, pela sua localização geográfica, pela sua orografia, pela sua bacia hidrográfica e pelos terrenos férteis, o homem fixou-se aqui realmente há mais de 6 mil anos e construiu alguns dos dólmens mais emblemáticos que temos no país e também no mundo, que é o caso do Dólmen de Antelas, que falaremos a seguir. Mas para primeiro impacto ao nosso visitante, temos uma fotografia do Dólmen de Arca, que é um monumento icónico, é um monumento que já é referido em livros do século XVIII e que nos aparece com aquele grande esqueleto pétreo ali no território em que marcou gerações, que está associado a lendas e que marca, no fundo, um pouco a imagem do megalitismo. Nós estamos a tentar investigar essa situação, mas acreditamos que aquele monumento esteve na base daquele sinal rodoviário que nós vemos, alusivo aos monumentos arqueológicos megalíticos que nós vemos aí pelas estradas. É um monumento único e que está neste momento pronto um edifício ao lado, que será o Centro de Interpretação do Dólmen de Arca, onde depois vamos contar todas essas histórias. É um dólmen que nunca foi escavado. Temos ainda algumas dúvidas sobre ele, temos algumas descobertas que temos feito ao longo dos tempos e, portanto, vamos compilar toda essa informação e dá-la a conhecer aos visitantes do monumento e do centro de interpretação.
E temos também aqui pequenos objetos que, à primeira vista, quem não souber poderá dizer que são apenas pedras, mas que se calhar têm mais história do que aquilo que parece, não é verdade?
São pedras, neste caso, são pedras falsas. Nós estamos perante a vitrine de parte do espólio encontrado na escavação de 1954, 56, no nosso Dólmen de Antelas, que é um monumento único de que poderemos falar a seguir. Estamos perante machados de pedra polida, objetos em sílex, como pontas de seta e geométricos e um raspador, e algumas pedras com uma função votiva que foram encontradas no dólmen. Como eu disse, são pedras falsas porque elas são réplicas. Os originais, naquele tempo, em 54, 56 e noutros tempos posteriores, os objetos das escavações, grande parte delas orientadas pelos especialistas que escavaram Antelas, o espólio era recolhido no Museu do Instituto Geológico e Mineiro em Lisboa, onde estão os originais, e aqui temos réplicas desse espólio que foi encontrado no Dólmen de Antelas, que eram basicamente os objetos que os mortos usavam em vida e que eram depositados junto dos seus corpos quando eram colocados no interior dos dólmens. E foi isso que encontramos lá Encontrámos os arqueólogos que escavaram em 54, 56.
Os dólmenes de Antelas é então um grande marco deste concelho. Estamos numa das pontas da sala, mas se caminharmos rapidamente até ao outro lado, vemos precisamente, não o dólmen, mas uma representação fotográfica do mesmo, enquanto andamos para lá. E é um dólmen também com bastante arte, chamado as pinturas rupestres.
Sim, é a arte megalítica. É o expoente máximo da arte megalítica conhecida até à atualidade. Não quer dizer que não haja um outro ainda à espera de ser descoberto ou muitos outros. Nós acreditamos que haja mais dólmenes pintados. Este é realmente único. É designado pela Catedral do Neolítico ou a Capela Sistina do Megalitismo, porque realmente, ao contrário dos outros dólmenes pintados que nós conhecemos, este tem as oito pedras da câmara funerária, o que os arqueólogos chamam de esteios, pintados, que é uma raridade e que estamos a trabalhar juntamente com a comunidade intermunicipal para que este e outros monumentos megalíticos com pinturas da região sejam classificados como monumento nacional, que este já é, mas que se passe depois para uma candidatura a Patrimônio da Humanidade, porque os dólmenes pintados, na sua grande maioria, os que nós conhecemos, estão localizados aqui no que é hoje a área de influência da comunidade intermunicipal Viseu Dão Lafões. Portanto, é um fenómeno, não diria raro, mas que é até designado por uma grande especialista, que é a Elisabete Chi, como o Grupo de Viseu, porque os monumentos megalíticos pintados que conhecemos estão todos aqui na região. E este é realmente único, são esteios que nos contam uma história, um políptico pintado. Acreditamos que nunca, na realidade, vamos saber ao certo qual foi a mensagem que os seus autores deixaram ali. O código, a password, perdeu-se no tempo. Também fruto de, no fundo, nós não sabermos, mas possivelmente acreditamos que não temos a mensagem completa. E depois são símbolos abstratos e simbólicos que com o tempo, a ligação entre ser humano e meio ambiente e o que está aqui pintado, se perdeu no tempo e então não conseguimos de todo. Mas não quer dizer que não haja pequenos símbolos que estejam interpretados como um sol e uma lua ou um antropomorfo, uma figura humana, o pente feito de osso de animal ou uma placa. Estão lá representados naquelas pinturas que têm mais de 5 mil anos, a preto e a vermelho, que são únicas.
E é mesmo ao lado da representação fotográfica desta Capela Sistina do megalitismo que a nossa cultura hoje fica por aqui.