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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isto quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Bruna Fontinha de Belém. Desculpe.
Com António José Seguro na presidência, parece que acabaram as notícias de fontes próximas de Belém. Se não acabaram, o número diminuiu bastante em comparação com os tempos de Marcelo Rebelo de Sousa, que tinha a torneira sempre aberta. A conta da água devia ser muito alta. Mas o silêncio do presidente nos últimos tempos, com o caso Luís Neves a exigir uma palavrinha de Belém, permitiu que certos comentários de figuras próximas de Seguro fossem vistos como recados do presidente. Agora, em declarações à SIC, que o presidente não permitiu que fossem gravadas, António José Seguro afirmou que não manda recados por ninguém, que não quer ser fator de perturbação, mas que admite ainda intervir em reação à moção de censura apresentada pelo Chega. É bom saber que o presidente não manda recados, mas também é bom lembrar que o silêncio pode ser um fator, ele próprio, de perturbação. Nem a fonte tem de estar sempre a deitar água, nem é conveniente que seque de uma vez por todas.
Paulo, e agora estão todos com pressa para despachar a moção de censura?
É o que parece. Os partidos concordaram ontem no Parlamento em discutir e votar a moção de censura do Chega o mais depressa que as regras da Assembleia da República permitem, os prazos regimentais. Vai ser já na próxima terça-feira. A censura do Chega ao governo já tem o destino traçado, que é o chumbo. Os partidos de esquerda e a AD nisso estão alinhados, olham para isto como mais um daqueles números políticos de André Ventura, que permite uma grande algazarra, muita indignação, mas que depois não tem qualquer efeito real, qualquer efeito prático. A única dúvida estava ainda no sentido de voto da Iniciativa Liberal, que entretanto clarificou que vai votar contra, mas que também pede, desde o início, a demissão de Luís Neves, desde que começou este caso. Mas suspeitamos que o assunto não vai, obviamente, acabar na terça-feira. Depois ainda pode haver a tal comissão parlamentar de inquérito e há muitas investigações a decorrer, como nós estamos a perceber.
E agora um número, Bruno. 1413. Qual é o significado deste número?
São 1413 dias. É um recorde, não é um recorde mundial, é um recorde italiano, do governo mais duradouro no pós-Segunda Guerra Mundial, e o feito é de Giorgia Meloni e do seu governo, que assinalam esta sexta-feira este número, 1413, um número que durante décadas foi quase uma impossibilidade ontológica na política italiana. O país teve 68 governos em 80 anos e antes do governo de Meloni, aquele que tinha durado mais tempo tinha sido o segundo de Berlusconi, que acabou em 2005. Quando a primeira-ministra italiana tomou posse há quase quatro anos, seriam poucos aqueles que apostavam num governo tão longevo e se calhar ainda menos acreditariam que Giorgia Meloni se tornaria uma das governantes mais respeitadas na Europa. Noutros países, um governo aguentar 1413 dias não seria notícia, mas em Itália é, e não é só pela duração em si, mas também pela qualidade implícita da governação de Meloni. Se não estivesse a correr bem, já teria caído, como tantas vezes aconteceu na história de Itália desde 1945.
Paulo, então agora temos dirigentes da polícia a dar ralhetes a políticos eleitos?
Temos, e isso não nos parece nada bem, sinceramente, mas aconteceu. Carlos Moedas tem alertado para o clima de insegurança nas ruas da capital. Pode-se concordar ou não com os alertas que ele faz, como é evidente, mas ontem em declarações à Agência Lusa, o comandante metropolitano de Lisboa da PSP defendeu, e citamos: "Menos discursos alarmistas sobre a segurança na praça pública", considerando que esta matéria requer um trabalho efetivo e de coordenação entre diferentes entidades, nomeadamente com as autarquias. O superintendente-chefe Luís Elias reconheceu, obviamente, a legitimidade do autarca de Lisboa fazer as declarações que bem entende, mas não deixou de dar essa espécie de ralhete pedindo contenção nas declarações públicas. Luís Elias até pode ter razão na essência, que essas coisas se devem tratar com mais recato, mas quando se trata de políticos eleitos, coisa que ele não é, estas conversas devem ter-se em privado.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isto quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.