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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Bruno, mais uma baixa no Chega.
Mais uma, Carla, só mais uma e já são muitas na sequência de casos e casinhos nas autarquias, sobretudo, e mesmo quando não são casos judiciais, são casos de desentendimentos internos. Desta vez foi Mafalda Livermore, que não resistiu às críticas e pressões vindas do partido. Já tinha sido exonerada ou pedido a demissão do cargo de administrador, de vogal dos Serviços Sociais da Câmara, agora anunciou a desfiliação do partido. O alvo das críticas de figuras como Rita Matias ou o grupo municipal do Chega na autarquia da capital, tem sido o vereador eleito pelo partido, Bruno Mascarenhas, mas Mafalda Livermore, que é namorada de Mascarenhas, acabou também por se ver envolvida na polêmica desde o início. Rita Matias chegou a dizer que a nomeação de Livermore era ridícula. Apesar da saída, a criminologista, na publicação que fez nas redes sociais, diz que será sempre Chega. Pode ser, mas agora terá de ser Chega a partir da bancada.
Paulo, e António José Seguro já fez a estreia dos avisos ao governo?
É verdade, foi ontem a primeira promulgação de diplomas, primeiro alerta ao governo. O novo presidente assinou a criação do fundo para a mobilidade e transportes e na nota pública, no site da presidência, em que anuncia essa promulgação, deixa o aviso, alerta o governo para a necessidade de garantir que a transferência da responsabilidade de competências nesta área dos transportes para os municípios e para as comunidades intermunicipais, venha também a ser acompanhada do adequado financiamento, porque isso, diz Seguro, tem vindo a ser solicitado pela Associação Nacional de Municípios Portugueses e porque desta forma se garante o princípio da neutralidade financeira e se previne a existência de desigualdades territoriais. No fundo, é aquela velha ideia, se o governo central transfere responsabilidades e tarefas para as autarquias, tem que transferir também o dinheiro para que elas assumam essas responsabilidades. Esta questão da coesão territorial é uma das bandeiras de António José Seguro, e os avisos ao governo podem ser, de facto, uma das formas do novo presidente pressionar os outros poderes.
Bruno, vamos imaginar. Montenegro venceria Passos em eleições internas?
Pois é, não sei se já tinham saudades da cenarização, muito popular ou tornada popular por Marcelo Rebelo de Sousa, mas é um hábito que se criou na política portuguesa. Confrontado com essa pergunta, o líder da bancada parlamentar do PSD, o Hugo Soares, disse ao Observador que não tem dúvidas de que isso aconteceria, ou seja, Montenegro venceria Passos Coelho em eleições internas. Hugo Soares diz que conhece bem o partido e o sentimento dos militantes, e não temos razões para duvidar que assim seja, o que levanta um problema aos passistas, já para não falar ao próprio Passos Coelho. Só se vislumbra uma forma de Passos Coelho regressar à liderança do PSD sem ter de enfrentar Montenegro em eleições internas. O primeiro-ministro teria de se demitir das suas funções, fosse qual fosse o motivo. Exato. Ora, para quem deseja o regresso de Passos como o único homem capaz de aproveitar todo o potencial de Parlamento que virou à direita, já nas duas últimas eleições, este obstáculo é muito incômodo por duas razões: porque é um obstáculo e porque a sua remoção significaria sempre um grande desgaste para o desejado, que estando de fora e comentando, mantém de alguma forma intacta a sua aura. Passos Coelho pode ser o desejado de muitos, mas está provado que o caminho para o eventual regresso seria de pedras.
Falando em cenários, o BCE já está a preparar-nos para o cenário provável de uma subida de juros?
Já está a preparar-nos a conversa. Já está a dizer: "Senta-te aí, vamos conversar um bocadinho".
Buckle up.
Exato.
Apunhe os cintos.
Pois, lá vamos nós outra vez. A menos que a guerra acabe nos próximos dias, de forma rápida e o Estreito de Hormuz seja libertado e reaberto completamente ao tráfego marítimo, o que enfim, não está nas cartas, a Maria João saberá isso melhor do que nós. Não está nas cartas.
E já torceu o nariz.
E já torceu o nariz. Portanto, e o BC ontem manteve a principal-- diz?
É difícil entender, torceu o nariz. Pensei que com a idade já não vai a lugar.
Já não vai a lugar. De facto, o BC ontem, em decisões concretas, manteve a principal taxa de juro nos 2%. Isso estava previsto também. Aí não há nenhuma novidade. Também mexer agora nas taxas de juro seria claramente prematuro. Vamos ver se consolidam estes cenários mais pessimistas. Mas o que se passou depois da reunião já é sintomático. O Christine Lagarde deu a habitual conferência de imprensa, mais curta do que o habitual, portanto, aqui há alguma reserva nas palavras, que é para não dizer nenhuma palavra fora de sítio, mas assumiu que há um cenário severo, palavra da própria, e garantiu que o Banco Central Europeu está agora melhor preparado que em 2022 para evitar uma nova crise inflacionista. 2022 é a referência à guerra, à invasão da Ucrânia e ao impacto que teve depois nos preços. Esta explicação de Lagarde pode querer dizer que o BCE vai agora ser mais rápido a agir do que foi então. Recordamos que na altura, a Reserva Federal Norte-Americana foi muito mais rápida a iniciar a subida de juros e o BCE foi criticado por andar a arrastar os pés durante uma série de meses. E ontem, após a conferência de imprensa de Lagarde, várias fontes do Conselho do BCE disseram a agências como a Reuters e a Bloomberg que se a guerra no Medio Oriente continuar a agitar os mercados energéticos, como está a acontecer, então será mesmo inevitável que a política monetária tenha de ser apertada, leia-se juros mais elevados. E esse cenário pode começar a ser preparado já nas próximas semanas, portanto, estamos todos a ser preparados para isso. E começam, entretanto, os analistas também a passar de duas para três vezes a possibilidade de subida de juros este ano. Portanto, vamos ver, se calhar vamos acabar o ano já nos 2,75 e não nos 2,5.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.