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A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta.
Josidito França e Paulo Ferreira na última edição da semana. Vamos falar de medidas tão boas, que até são esquecidas. Vamos falar também de corruptos em fuga, mas Paulo, começamos por trapalhadas com vacinas.
Isso mesmo, por que as autoridades dos vários países não se alinharam sempre com a Autoridade Europeia do Medicamento para evitar esta trapalhada cacofónica sobre a vacina da AstraZeneca?
Foram uns dias de confusão, não é?
Confusão, indicações contraditórias e tudo porque, de facto, as autoridades dos vários países, Portugal incluído, decidiram suspender a vacina sem ouvir a Agência Europeia do Medicamento. Mas agora, foi a posição da Agência Europeia que se impôs, depois de ter reafirmado a confiança na vacina. Ou seja, decidem seguir as indicações da EMA à la carte, sem que se entenda muito bem um critério para o fazerem. Assim não é fácil afastar alguma desconfiança que possa haver no processo de vacinação por parte de algumas franjas da população.
E por que a vacinação com a vacina da AstraZeneca não é retomada já hoje?
Porque o coordenador anunciou ontem que só seria na segunda-feira.
Mas tendo em conta que temos urgência, talvez não fosse de dispensar o dia de hoje, agora que, como disseste, a Agência Europeia do Medicamento confirmou que a vacina é eficaz e segura, e o Infarmed em Portugal anunciou a retoma da vacina da AstraZeneca. Em França, o primeiro-ministro é vacinado hoje mesmo, apesar de também só ter tido luz verde da EMA ontem, e a retoma é feita com pompa e circunstância para retirar qualquer dúvida que esta suspensão da vacina possa ter causado no público. Em Itália, a retoma também é imediata, já hoje. Só em Portugal regressamos devagarinho, como se não fosse possível colocar em marcha aquilo que só há três dias foi suspenso. Numa altura em que precisamos de recuperar o tempo perdido e sabemos que mais de 120 mil pessoas ficaram por vacinar só pela suspensão destes dias. Suspender nem que seja um só dia, faz muita diferença. Quando se fizerem contas ao número de pessoas, e isto é possível estatisticamente de fazer, cuja morte pudesse ter sido evitada caso a vacina tivesse continuado a ser administrada sem esta paragem, talvez percebamos que um só dia também faz muita diferença. E no mesmo assunto, a vacinação pode ser à la carte?
Em princípio não. Tomamos a vacina, vá lá que nos caia em sorte.
Exato. Se te recusares, vais para o fim da fila. Na conferência de imprensa de ontem, com o Infarmed a anunciar o tal regresso à toma da AstraZeneca, mulheres e homens que esperam pela sua toma, na esperança que seja possível desconfinar mais, voltar a abraçar filhos e netos. Questionado o vice-almirante Gouveia e Melo, o chefe da task force para a vacinação, admite que quem dispensar a vacina da AstraZeneca por considerar que não é segura, depois destes dias de informações conflituantes, como disseste, admite que possa haver outro motivo, mas também o receio é evidente uma causa. Ora, quem a dispensar não pode escolher outra, será recambiado para o fim da fila, quer tenha 90 anos ou 60 e doenças associadas. Que não seja possível escolher a vacina que queremos tomar naquele preciso momento é uma opção atendível. Não fazia sentido que cada um estivesse a escolher a marca que mais gosta. Mas com tudo o que aconteceu e com o medo que as autoridades de saúde infligiram nas pessoas, talvez seja preciso mais do que uma conferência de imprensa a dizer que afinal é muito segura. Tomem lá, que ficam mesmo bem servidos.
Vamos esperar, então. E mudando de assunto, os corruptos já estão todos a fazer as malas para irem a correr para o aeroporto e abandonar o país?
Não me digas que os corruptos correm perigo em Portugal.
Claro, correm o risco de serem apanhados rapidamente. Andam está cheios de medo, porque o governo aprovou ontem a versão final da Segurem-se: Estratégia Nacional contra a Corrupção 2020/2024. É mais uma série de leis que promete não dar descanso aos corruptos e essa chaga que é a corrupção, para quem quiser acreditar, o que é evidente. Porque esta é a enésima vez que um qualquer governo anuncia um pacote contra a corrupção. Lá se fazem umas leis, depois de profundas reflexões de grupos de trabalho, mas depois não acontece nada ou acontece muito pouco. Foi assim, por exemplo, com o governo de José Sócrates, 2009, que fez do combate à corrupção uma bandeira. Mas temos que acreditar que é desta mesmo que a coisa vai. E uma última pergunta: lembram-se do e-voucher? A grande medida que ia ajudar o setor da restauração e hotelaria? Se era tão importante, por que ainda não está pronta para arrancar?
Lembramo-nos bem. Falamos disso aqui muitas vezes quando estávamos a discutir o orçamento do Estado. E já foi adiada uma vez. Portanto, isto é um novo adiamento, mas sem aviso, não é?
É, exatamente. Desta vez é aquele adiamento passivo. Na altura, foi apresentada pelo governo como uma boa ajuda ao consumo, esta ideia. Trata-se, já agora recordando, que muita gente já deve estar esquecida, de permitir que o IVA pago em restaurantes e hotéis possa ser descontado depois em despesas futuras nos mesmos estabelecimentos, nos mesmos da mesma área, não no mesmo restaurante, concretamente. Mas o desconfinamento está a começar e a medida ainda não está pronta. Não se sabe muito bem como vai funcionar, como é que esse crédito de IVA vai ser controlado. E o Ministério das Finanças não dá explicações sobre o assunto, como recorda agora o Expresso. Pode ser mais uma daquelas medidas, como, por exemplo, a App Stay ou a Ecovid, para enterrar no cemitério das boas intenções destinadas a alguma propaganda.
Ainda bem que faz essa pergunta com o Josidito França e o Paulo Ferreira nas manhãs 360, segunda-feira, a nova edição. A de hoje vai ficar disponível em podcast e também no site do Observador.
A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.