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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Ora, e começamos com uma pergunta, Bruno, se pode um líder ser fraco e forte ao mesmo tempo.

Então não pode, Luís, pode mesmo. Ora, um líder reeleito com 94,8% dos votos, vale o que vale, é o que se diz das sondagens, e como não apareceu ninguém para desafiar Luís Montenegro pela liderança do PSD, estranho seria se não tivesse uma destas percentagens, chamemos-lhes norte-coreanas. Estamos a falar do homem que está no Palácio de São Bento e que ganhou as duas últimas eleições legislativas. Só que estes resultados não contam a história toda. Enquanto liderar um governo minoritário, Montenegro parecerá sempre um líder mais fraco do que os resultados eleitorais, internos e externos, dão a entender. Talvez seja aqui uma questão de percepções, mas como dizia um senhor de outros tempos, em política, o que parece, é.

Já que falamos em ser Pedro Passos Coelho, pode ser um irritante para o PSD, Paulo?

Pode, de facto, passar de ativo, uma espécie de reserva do partido, que se afastou, mas continua ali, para passar a ser um passivo ou até, se quisermos, um ativo tóxico. E isso parece um facto. As intervenções públicas do ex-primeiro-ministro são cada vez mais frequentes nas últimas semanas. Não têm sido simpáticas para Luís Montenegro nem para o governo, ou pelo menos têm tido amplamente essa leitura de serem críticas a Luís Montenegro. Obviamente que Pedro Passos Coelho está no exercício da sua liberdade de intervenção, diz o que pensa, diz o que lhe apetece também. Não tem que agradar ou dar justificações a quem quer que seja, e portanto isso é absolutamente legítimo, mas a dúvida sobre as suas intenções políticas, isto é, o que é que ele verdadeiramente quer fazer politicamente nos próximos tempos, se é que quer alguma coisa, se é que tem essas intenções, colocam o PSD em alerta. E aliás, têm sido vários os textos, as notícias que dão conta disso. Isto vai ser certamente um dos temas que vai animar os próximos meses, pelo menos ali à direita.

E até que ponto o PS pode ser prejudicado pelas polémicas autárquicas?

Pode ser muito prejudicado, mas também pode não cair sozinho, porque cada caso ou casinho nas autarquias lideradas pelos principais partidos reforça esta ideia de haver um problema estrutural que nenhum líder partidário, por mais impoluto que seja, poderá resolver. Neste caso que se tem falado da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, José Luís Carneiro não tem responsabilidade direta, mas a sensação que dá é que debaixo da superfície mais apresentável dos partidos, há demasiada gente a fazer pela vidinha e com uma escassa noção do bem público. José Luís Carneiro, como qualquer outro líder de um grande partido, confronta-se assim com este dilema. Pode dar uma vassourada para limpar as estruturas do partido, mas essa vassourada pode reduzir os escombros do partido e pelo caminho, e antes disso até, criar inimigos que qualquer líder com vontade de ganhar eleições nacionais dispensa.

Paulo, e o que é que se passa que ainda podemos vir a precisar de imigrantes e não ter?

É verdade, isso depende obviamente de vários fatores, a evolução de vários fatores no futuro mais próximo, mas é possível que daqui a uns tempos precisemos de imigrantes que na altura não temos. Isto a propósito das notícias deste fim de semana, do Expresso, mais concretamente, que revelam que muitos imigrantes que estavam em Portugal começaram já a sair do país, muitos rumo a Espanha, mas também a outros países europeus. Por quê? Porque as rendas de casa são elevadas, obviamente que isso é um custo que muitos não podem suportar. Os problemas administrativos para tratar da sua legalização também são muito grandes. Nós sabemos que a AIMA, apesar de tudo, ainda continua a funcionar mal e houve um período em que havia um atraso muito grande dos processos. E a xenofobia está cada vez mais presente em alguns discursos políticos. Portanto, são estes os motivos para esta saída de imigrantes. No fundo, são sintomas de um mau funcionamento do país. Há certamente quem fique muito satisfeito com este refluxo na imigração, com a saída de imigrantes, mas tenhamos isso em conta. Se o país funciona mal para eles e não proporciona oportunidades àqueles que nos chegam, seguramente também funciona mal para os que cá estão, sejam eles portugueses ou estrangeiros, como é evidente. Portanto, a questão das rendas, a questão dos processos burocráticos afeta todos. E sabemos como muitos setores de atividade precisam de mão de obra que daqui a algum tempo pode não haver se este refluxo continuar.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.