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Olá, bem-vindos à Vichy Soisse. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o maior fã português do Halloween, o Miguel Viterbo Dias, e as não tão entusiastas Rita Tavares e Mariana Lima Cunha. São estes caça-fantasmas que me vão ajudar a explicar uma semana em que se discutiu muito o passado, Passos, Cristas, Costa, Pedro Nuno, e pouco o futuro da habitação. No presente, Luís Montenegro vê-se à rasca com a nova geração à rasca e a polícia desatou a investir, não contra moinhos de vento, mas contra tendas da Decat.

Este é um mau orçamento. Não haverá aumento de receita fiscal à custa dos sacrifícios.

Se é bom para Portugal, será aprovado por nós e será por nós viabilizado.

Eu não me recordo de ter visto um namoro tão ao vivo, tão indireto e tão a cores como o deputado André Ventura fez agora ao deputado José Luís Carneiro.

No seguimento da martelada. Tem que dizer o que é que vai deixar de fazer ou que impostos quer aumentar. É assim em casa de cada português. Vem agora a mais recente bastonada. Bateu saudade da geringonça, não saltaram para o colo da geringonça. Eles puseram-se mesmo, foi por baixo da geringonça.

A proposta é aprovada.

Para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Miguel Viterbo Dias, começo por ti. Já escolheste a fantasia que vais usar para jogar ao Halloween?

Ainda não tive essa oportunidade. Não sei ainda se sou pedidor ou travessura.

Acho que tu és mais dos géneros de pão por Deus. Uma vertente mais tradicional.

Muito bem.

Mais a portuguesada.

Mas antes de discutirmos isso, vou te servir a primeira sopa: sopa de cavalo cansado.

Pensei que era uma ponte para falarmos de sotaques das manifestações, como se fala de sotaques do Halloween.

Olha, podia ser.

Enfim, se tivéssemos um moderador com visão.

É verdade. Sopa de cavalo cansado.

Isso sou eu.

Depois das bastonadas, depois dos cães, faltam os cavalos, investirem contra os manifestantes. Sobre a gestão política que o governo está a fazer desta tensão nas ruas, parece-te avisada, inteligente e eficaz?

Só antes de responder à pergunta, deixa-me só, porque houve um deputado do Chega que por acaso fez essa caracterização, que é só é carga policial a partir do momento em que usam cavalos para investir contra as pessoas.

Não estava a par.

Pareceu-me uma caracterização.

Mas é estranho que a própria polícia te diz que é carga policial.

Disruptiva.

Antes de mais, tomaste banho? Exato. Tens perfume?

Quanto ao resto.

Caro?

Está aqui um belo caso. Miguel Pinto Luz ganhou, porque há uma semana deu uma entrevista ao semanário Expresso a dizer que o governo devia adotar, mais do que a questão de fazer um mea-culpa, que o governo devia adotar o controle da narrativa ou tentar mostrar mais serviço e as medidas que tem feito e explicar melhor as medidas. E está aqui visto que falhou nisso, porque não conseguindo controlar a narrativa, a narrativa descontrolou-se contra o governo, numa matéria em que os próprios debates no Parlamento mostram que nem toda a gente esteja contra este governo ou contra o PSD, porque o próprio Chega tem insistido tanto ou mais nas políticas do Partido Socialista do que propriamente nas de Luís Montenegro. Ou seja, nem há sequer uma culpabilização excessiva de Luís Montenegro nesta matéria. Só que o facto de, desde logo, aquela carga inicial no Porto ter alterado completamente o foco das manifestações, desde aí o governo nunca mais conseguiu recuperar o controle da parte midiática deste assunto. Ao qual contribuiu muito o desaparecimento de Luís Montenegro, ainda por cima debaixo de uma grande névoa, porque ninguém quer explicar por que o primeiro-ministro esteve 11 dias fora do palco mediático. Não sei se será algo que é tradicional, porque foi tão desvalorizado, que andou a fazer visitas sem agenda oficial, esteve a trabalhar. Não sei se a partir de agora Luís Montenegro vai tirar quinzenas para trabalhar sossegado, sem que a comunicação social possa colocar perguntas.

Pedro Nuno Santos, que é um personagem político que tem especiais razões para ter cuidado com o uso do WhatsApp, perguntou-lhe a dada altura no debate, num aparte parlamentar

se Luís Montenegro tinha estado a dirigir o governo por WhatsApp. Ele já sabe que isso às vezes sai por a mão.

É um conselho de amigo. Mas para fechar, se calhar se desde o início figuras como Miguel Pinto Luz ou Luís Montenegro tivessem assumido uma narrativa mais proativa, as coisas não tivessem descambado para este ponto, até porque Luís Neves não tem própria autoridade.

Estavas a sugerir, tu, Brutos, que Luís Neves não foi competente na comunicação, Miguel?

A melhor resposta para isso é que até no debate do Orçamento de Estado, onde há espaço para qualquer um poder falar, teve que ser Nuno Melo a falar da atuação das forças de segurança e não o próprio ministro que as tutela. Isso pode ser uma ilustração para a falta de autoridade de Luís Neves.

A falar em talento comunicacional, teve de ser Nuno Melo a substituir Luís Neves.

Olhou-se para a bancada e pensou: "O mais perto das polícias, o que é que temos? É os militares." Nuno Melo.

E diria que se calhar Nuno Melo até gosta mais de polícias e militares do que o próprio Luís Neves.

Mariana Lima Cunha, traz algum juízo a este debate. O que o governo fez bem ao longo desses 10 dias, em termos de comunicação?

Eu agora ficava calada. Fazer aquele truque de Paulo Portas, deixar a folha vazia uma vez quando quis falar do programa político de Cavaco Silva.

Artigo que depois foi mimetizado pelas pessoas que tinham o jornal ali.

Exatamente. Eu agora fiquei preocupada porque tu disseste para trazer algum juízo ao debate e eu achei o Miguel Dias muito ajuizado, por acaso. Estamos tão alinhados.

É um momento rara beleza.

É verdade. Até estou aqui a olhar pra ti e apreciar.

Vou reformular: traz algum juízo ao governo, se quiseres. Se te sentires mais confortável.

Pode ser mais isso. Eu vou ser um pouquinho repetitiva, mas é em relação ao que o Miguel disse, porque ele é um homem de uma sensatez superior. É um bocado bizarro como é que o governo consegue errar nesta matéria em que o governo não tem a maior parte das culpas. Não acho que fosse assim tão difícil montar a narrativa sobre o PS e sobre os anos anteriores. O PS, aliás, já está a ir agora ao tempo de Passos para justificar porque é que durante os seus consulados de António Costa não conseguiu alavancar a habitação suficientes. Até o PS já percebeu que se calhar é melhor não. Até o PS está a preparar a sua contranarrativa porque sabe que tem culpas aqui.

Foi uma narrativa que nunca aconteceu do governo.

Exatamente. E o governo ainda está na outra fase, que é dizer: "Se calhar é melhor criticar os manifestantes." Eu acho que a estratégia foi precipitada. O governo viu uma oportunidade em criticar os manifestantes e falar dos climas de instabilidade que são em França, em Espanha, etc. Como se fosse uma tradução do que nós estamos a ver na televisão. E as pessoas veem televisão e veem que, até mesmo que não se identifiquem com os manifestantes e há todas aquelas histórias. Temos aquela intervenção que já entrou para o folclore nacional, da manifestante que garantiu que toma banho e usa perfume caro, e que não tem de haver avaliações sobre que tipo de manifestantes é que estão lá. Isso importa pouco e eu acho que importa pouco quem são os manifestantes e se estão lá mais ou menos, se são uma bolha do bloco de esquerda ou do PCP, porque o que interessa é mais quem está em casa. Até pode não sair à rua, mas se identificar com aquelas preocupações, que têm alguma transversalidade, também vota. O governo, ao fazer dos manifestantes um alvo, perdeu também o rumo em relação ao que é o problema das pessoas que não têm tanto a ver com manifestação, isto tem mesmo a ver com as casas e com os preços das casas.

Rita Tavares, o Partido Socialista, que tem aparecido consistentemente em primeiro lugar nas sondagens, perante uma crise que é da habitação onde tem objetivas responsabilidades, não seja porque esteve no poder até há bem pouco tempo e durante oito anos, conseguiu, por incompetência do governo, explorar e juntar-se a uma causa que é transversal, como dizia a Mariana, e recuperar aqui também algum controle das ruas, no sentido mais lato.

Eu acho que o controle das ruas vai um pouquinho mais para lá do Partido Socialista e mais pra esquerda do Partido Socialista.

Na opinião popular. Mais do que as ruas, é opinião popular.

O Partido Socialista, especialmente José Luís Carneiro, até foi muito controlado no aproveitamento dos protestos, até porque ele tem ali um equilíbrio difícil de fazer, que ele é o ex-ministro da Administração Interna, portanto também não pode entrar a matar ou com críticas graves à atuação policial, e tenta pôr isto aqui no plano de o governo é que orientou a polícia para tomar esta iniciativa na rua. Mas acho que isto é um claríssimo balão de oxigênio para os partidos à esquerda. De oxigênio, se é, não é mesmo uma tábua de salvação, porque eles estavam num-

Em mínimos

A tal força das ruas voltou

Não queriam estar a dizer mortos.

Moribundos.

Estavam a precisar de alguma coisa a que se agarrar e de fato temos visto o deputado do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, nas manifestações com muita frequência e mesmo na linha da frente, e o PCP também a fazer esse aproveitamento óbvio, e o Partido Socialista, claro, também a tentar aproveitar isso, mas pela tal forma equilibrada de não se colar demasiado a uma radicalização que José Luís Carneiro, pelo próprio perfil que tem, também não quer ter dentro do Partido Socialista.

E eu ia só dizer, lembro-me no último congresso do Bloco de Esquerda, o tempo que nós passamos a falar sobre como a esquerda precisava de, além das causas identitárias, ter alguma coisa que unisse mais as pessoas, uma coisa mais transversal, que tivesse a ver com os trabalhadores, com as pessoas remediadas e até já com a classe média. E era difícil haver alguma causa melhor no sentido de que servisse mais à esquerda do que esta, porque não a cantona tanto à esquerda.

É verdade, mas isso é verdade É difícil perceber se isso depois se traduz em votos e, sobretudo, se quem está na rua não é, na grande maioria. Eu estive numa destas manifestações a tentar perceber também a estrutura de como aquilo é coordenado e quem está na espinha dorsal, e a espinha dorsal são movimentos de esquerda, isso sem dúvida nenhuma. Os gritos de ordem são gritos que se ouve em manifestações de esquerda, os pedidos de demissão são pro atual primeiro-ministro, não há ninguém que aponte responsabilidade a partidos de esquerda, que também tiveram responsabilidades nos últimos anos de governação.

Acho que a única crítica foi ao PS por se abster do orçamento.

Exatamente. E foi agora.

A única crítica que tive foi até por cumplicidade, entre aspas, com o governo.

Nem sequer é especificamente por aquilo que o PS fez ou deixou de fazer na habitação. E PS esse que também teve um governo de geringonça apoiado por partidos à esquerda. A verdade é esta. E depois, quando eu estou a dizer que não sei se transfere em votos, é porque há muito desse movimento de protesto, e por causa da habitação, que não é necessariamente de esquerda.

Sim, junta pessoas muito diferentes.

Junta pessoas muito diferentes e há pessoas que não estão na rua, e há pessoas que até podem ter alguma simpatia pela ideia de que também não é assim que se resolvem as coisas. E eu acho que o governo também procurou explorar essa parte para tentar preservar esses, mas eu não sei se não está a preservar um eleitorado que já perdido pra o Chega, na verdade. Porque no momento de protestar, vai protestar e não é no PSD, evidentemente, que está no poder. Portanto, sim, um partido de poder acaba sempre por levar com as culpas, mesmo que não tenha a responsabilidade total pelo estado da habitação.

E ainda se desajuda.

Depois ainda houve essa questão, que o próprio PSD se tem desagregado na leitura daquilo que foi a ação policial nas manifestações.

Miguel Vítor Dias, uma última pergunta antes de mudarmos de tema. Eu ia me esquecendo dele, António José Seguro.

Pois é, bem lembrado.

Que é feito?

Reapareceu, fez uma declaração bastante concreta e bastante assertiva, aliás.

Firme.

Firme, sobretudo. Como é que sai o presidente da República disto tudo num tweet?

Nunca vai sair bem, porque António José Seguro, como teve uma base eleitoral tão alargada, sempre que falar, ou melhor, sempre que não falar e sempre que falar, vai ouvir críticas de metade das pessoas que votaram nele.

Há sempre um desentido, não é?

É. E este episódio é a ilustração disso, acho eu.

Muito bem, muito rapidamente avançando para a segunda sopa, sopa na prateleira, refiro-me ao Orçamento do Estado, foi viabilizado com a abstenção do Partido Socialista, pelo menos na generalidade. Vamos ter tempo pra falar sobre o processo da especialidade e de todos os dramas associados. Mariana Lima Cunha, o governo ganhou um ano, aparentemente, ganhou mais um ano para trabalhar, e Luís Montenegro é um homem que gosta de trabalhar, mas isto também aumenta as responsabilidades do governo, porque começa a faltar grande guião para usar as forças de bloqueio parlamentares. Como é que o governo vai conseguir gerir tudo isto sabendo que Luís Montenegro quer um carrinho pra se atirar pro chão e gritar pé alto?

Daqui a bocado Luís Montenegro tem de ouvir Passos Coelho e dizer: "Bem, são estas as minhas soluções, vamos a eleições". Porque se não conseguir cativar o eleitorado com as suas próprias soluções... E a verdade é que Luís Montenegro, ok, tivemos a reforma laboral. A reforma laboral é um exemplo de uma reforma maior que o governo queria fazer e não conseguiu fazer. No caso, porque o Chega recuou à última hora. Mas acho que de resto, ele, na verdade, tem conseguido fazer pelo menos as principais bandeiras. Da imigração, conseguiu falar com o Chega e fez passar a imigração basicamente nos moldes em que o PSD queria. Orçamentos, o PS vai viabilizando, até porque o PS está numa situação frágil em que também não lhe convém provocar agora uma crise.

O aeroporto, a TAP, também com o Partido Socialista.

Sim.

Está na reforma fiscal com o Chega.

As coisas têm relativamente avançado.

PS sim com o PS, não é?

Exato.

Sim, as coisas têm avançado. Portanto, eu diria que a narrativa de forças de bloqueio está a ficar um bocadinho difícil e também já não é possível aquela que Montenegro usou ainda durante muito tempo, que era acabámos de chegar, dois anos não dão pra nada, etc. Porque agora já vamos em dois anos e meio e é preciso mostrar trabalho. E portanto, olha, dificuldades pelo menos.

Rita, tu há pouco usaste uma ideia de que quem está no governo é sempre penalizado, mesmo por crises pelas quais não tem a responsabilidade, e o governo está a enfrentar uma crise energética que não resulta das ações do governo, e mesmo a crise da habitação tinha começado antes de Luís Montenegro chegar ao poder. Mas de fato, isso joga a favor do Partido Socialista, e esta viabilização do Orçamento do Estado pode dar mais tempo para que o governo continue a ser queimado em lume brando pela opinião pública.

É verdade, mas tenho uma dúvida existencial relativamente a uma ideia que o PS tem passado também, e Carlos César, o presidente do partido, fez uma intervenção esta semana em Ovar a justificar a posição do PS no Orçamento do Estado, dizendo, entre outras coisas importantes, que o PS vai exigir reciprocidade numas futuras eleições legislativas, caso fique à frente.

José Luís Carneiro nos tinha deixado a entrevista ao Observador. A mesma ideia.

É verdade, é a ideia da reciprocidade. A minha dúvida existencial é: isto é pra condições de governabilidade, não é só pra um governo tomar posse. Se é pra condições de governabilidade e se este argumento é usado pelo Partido Socialista, o PS fica amarrado a ele até o fim da legislatura, porque a qualquer momento que seja o responsável por desencadear eleições, o PS perde condições pra exigir ao PSD o que quer que seja no dia seguinte a eleições em que o PS fique em primeiro. Porque lá está, não é só não permitir que o programa do governo seja retido na Assembleia da República antes do governo tomar posse, ou quando o governo toma posse, aliás, é também garantir condições de governabilidade. E condições de governabilidade é isto, é permitir orçamentos do Estado aprovados, entre outras coisas, porque os orçamentos agora também já estão a ser tão esvaziados pelo governo. Este governo voltou a utilizar essa estratégia para conseguir que ele passasse na Assembleia da República. Se assim continuar, ou mesmo que assim não continue, como é que o PS vai sair desta? Não será uma contradição, de repente, achar que já não pode viabilizar orçamentos do Estado?

Algo me diz que vamos entrar num ciclo de eleições sucessivas até alguém ter a maioria absoluta pra poder governar. A nossa primeira parte da Vixi Suaves fica por aqui. Voltamos dentro de momentos com entrevista a Luís Testa, deputado do Partido Socialista.