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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
A pergunta parecem-me errados.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Bruno, então agora que já tínhamos comprado pipocas, que já estávamos tão habituados, queríamos mais debates e só vamos ter direito a um.
É verdade. Estes políticos estão sempre a fazer o contrário do que agrada ao povo. Depois de 28 debates, frente a frente, ainda tivemos mais três que juntaram das rádios e dois das televisões. Alguns, é preciso dizer, francamente maçadores, outros com o efeito de 10 litros de chá de valeriana. E quando já só restam dois candidatos e isto podia aquecer, só nos dão um. Vamos ter direito a um debate televisivo, vai ser transmitido pelos três canais generalistas na próxima terça-feira, dia 27. E a pergunta que eu faço é: será que nos portamos assim tão mal que não temos direito ao equivalente político ao combate entre Ivan Drago e Rocky Balboa, o famoso confronto no Rocky IV? Porque já vimos que apesar de muitas horas de tédio, houve debates bem animados e que um bom debate ainda pode lançar um candidato ou, pelo contrário, um mau debate pode destruir quase uma candidatura. Mas por isso mesmo, há quem prefira jogar pelo seguro e fazer os mínimos. É que um candidato sentado não escorrega em cascas de banana.
Não mexam no meu queijo.
Falar em banana, não é?
Fica tão bem.
Fica mesmo bem. Olha, agora bem lembrado.
Mas esta expressão continua a ser uma reação a qualquer mudança, Paulo.
O não mexam no meu queijo é um clássico. Sempre que se quer mudar alguma coisa, há sempre alguém que sente o seu quintal ameaçado.
Há sempre alguém que diz não.
Há sempre alguém que diz não, exatamente.
Oferece resistência, não é?
Exatamente. Resiste e resiste com argumentos, quer convencer o mundo que aquela mudança é perigosíssima para todos. Isso está a acontecer agora precisamente com a carta de condução e com o processo para tirar a carta de condução. O governo anunciou que vai haver algumas alterações, vai permitir a entrada da figura do tutor para o ensino da condução, isto é, pessoas que são habilitadas e que dão as lições, tal como um instrutor de uma escola de condução. Quem é que já reagiu? Claro, a Associação das Escolas de Condução. Veio falar, e cito: "Em retrocesso civilizacional na segurança rodoviária".
Como não?
Claro. E diz que é um erro estratégico com consequências previsíveis na sinistralidade. Portanto, a coisa é colocada logo a este nível. Se a associação de carroças tivesse protestado há mais de um século, provavelmente ainda não havia automóveis.
Exatamente. Bruno, então vivemos tempos de paz quente.
Depois da Guerra Fria, que durou ainda muito tempo, temos a paz quente.
Isso é outra forma de dizer paz podre?
Eu acho que é mais paz quente, mesmo. Se fosse podre, ficava só a apodrecer. Esta é perigosa porque a temperatura pode aquecer muito. No início da Guerra Fria, para contextualizar um pouco, isso no final dos anos 40, foi criado o Conselho Mundial da Paz, que era uma organização que juntava intelectuais, que se diziam contra a guerra e o imperialismo, mas que não passava de uma criação soviética para contrabalançar o podrio e a propaganda norte-americanos. Agora, temos um conselho de paz criado por Donald Trump e que junta alguns dos seus aliados mais próximos, para já, como Israel, Hungria ou Argentina, e deixa de parte a maioria dos países europeus, além da Hungria, só a Bulgária aceitou para já integrar este conselho de paz. Este devia ser um conselho para resolver a segunda fase de transição do cessar-fogo na Faixa de Gaza, mas a ambição de Trump é maior e este conselho de paz poderia até vir a substituir, na ótica do presidente norte-americano, as Nações Unidas.
Conselho de paz de que ele é presidente.
Óbvio.
Vitalício.
Para sempre. Forever and ever. Porque como também sabemos, Donald Trump tem sido muito crítico das Nações Unidas, mas esta também pode ser apenas uma forma de Trump experimentar as águas, ver também quem é que está do seu lado e a água, tal como a paz, nós também estamos a ver isso, está mesmo a aquecer.
Isto também, se calhar, vai aquecer, Paulo. Onde é que acaba a desinformação e começa a sátira?
Vai aquecer, já aqueceu, aliás, e vai ser um dos próximos tempos. É uma boa questão, vai ser agora discutida. Isto a propósito dessa queixa que Luís Montenegro anunciou ontem contra uma conta do Twitter, uma conta Vox Vargas. Esta conta inventou e publicou uma suposta mensagem de telemóvel enviada pelo primeiro-ministro português a Donald Trump. Isto na sequência de várias mensagens privadas que o próprio Donald Trump, esse sim, de verdade, tem publicado e que foi recebendo de alguns líderes europeus. O gestor da conta fala de sátira e recusa que esteja a espalhar fake news. O governo diz que a conta é de um avençado ou colaborador de algum espaço político, portanto, nesta lógica do governo, é uma conta de combate político e não de sátira, podendo até ser trabalho pago. Portanto, é um assunto que tem várias camadas, que nos vai ajudar certamente a conhecer melhor os bastidores das batalhas políticas nas redes sociais e também onde deve traçar-se aquela sempre difícil linha de fronteira que separa a crítica legítima da difamação. Portanto, as pipocas que sobram dos debates que não vai haver além do um ficam para este debate.
Ficam preservadas.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
A pergunta parecem-me errados.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.