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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, é isso.
Quando eu disse para tu estar: eixa, Jesus. Qual é a pressa? Mas o governo vai mesmo à luta na reforma laboral, Paulo?
Vai, parece que sim. Isso é uma boa notícia, porque poderá ser muito clarificador. É bom que fique claro quem defende o quê nestas questões. Na proposta que aprovou ontem o Conselho de Ministros, o governo regressa, nalguns casos, àquilo que era a sua ideia inicial do verão do ano passado, quando começaram as conversas na concertação social. E se é essa a sua vontade, acho que faz muito bem. Também acomoda propostas que a UGT fez ao longo do processo negocial. São 12 propostas, segundo a ministra. Há a proposta de mais dias de férias e um reforço de pagamento da licença parental. E agora é a hora dos partidos se posicionarem com clareza, de fazerem as suas contrapropostas, se quiserem, de darem os seus contributos e, no final, aprovarem ou chumbarem o texto, que pode vir a ser consensualizado ou não. E assim eu acho que fica tudo mais claro de saber quem é que defende o quê.
Bruno, estou a imaginar o slogan: menos esquadras, mais segurança. Mas será mesmo assim?
É ótimo, excelente. É uma ideia contraintuitiva pro cidadão comum, aquele cidadão que quer baixar a idade da reforma para os 50 anos, por exemplo.
Nada contra.
Ou 48, pode ser? Mas a ideia até pode fazer algum sentido. O ministro da Administração Interna, Luís Neves, admitiu o encerramento de algumas esquadras da PSP nos grandes centros urbanos, isto com o objetivo de ter mais polícias na rua e junto da população. Ter uma esquadra aberta implica um grande número de agentes, alguns dos quais têm de ficar dentro das esquadras, a não ser que possamos admitir que as esquadras fiquem sem ninguém, ou só com um polícia, o que também não é uma muito boa ideia. E isso significa que, estando nas esquadras, não estão a patrulhar as ruas. O Sindicato Nacional da Polícia até concorda e defende uma reestruturação séria do dispositivo policial nas grandes cidades, porque as esquadras abertas não significam mais segurança, ainda para mais quando muitas dessas esquadras não dispõem, de facto, dos meios humanos e das condições materiais para funcionar como deve ser. Tutela e sindicatos de acordo, e parece que sim, temos aqui um entendimento e pode estar aqui também o início de uma bela amizade.
Olha, por falares em bela amizade. Na Operação Marquês, Paulo, o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro?
Antes de mais, de facto, a palavra amizade é a primeira que me ocorre quando se fala da Operação Marquês.
E bela.
E bela. Sobre feitiços e feiticeiros. Pode-se dizer que sim. Se bem que neste caso é difícil distinguir quem é um e quem é o outro. O certo é que começou ontem o julgamento de José Sócrates contra o Estado, pela demora com que está a decorrer este processo. Portanto, temos agora aqui uma inversão de papéis em relação ao que está a acontecer, na outra sala ao lado, se quisermos, não é ao lado, mas é ali no campus da Justiça, em que Sócrates está a ser julgado. Um processo promovido, obviamente, porque é criminal, pelo Estado. O ex-primeiro-ministro alega que o Ministério Público ultrapassou todos os prazos ou o prazo máximo previsto na lei para a realização do inquérito criminal. Diz também que sofreu danos materiais por causa da investigação da Operação Marquês e exige ao Estado uma indemnização de 205 mil euros. Portanto, vamos ver, antes de mais, se este julgamento é mais rápido do que o outro, o que não é difícil.
Pois.
O difícil é ser mais longo.
Ser mais longo. E depois vamos ver como é que isto tudo acaba, não é?
Era uma boa ajuda, era tipo ajuda este custo para José Sócrates.
Para pagar o outro processo ao lado.
Bom, estão a falar da amizade, então agora vamos falar da família. Bruno.
Família.
É isso, pode ser um problema?
Pode ou não pode. Ainda por cima, como dizia Tolstói, o que mais nos interessa são as histórias das famílias honradas, graças. As famílias felizes não têm histórias.
Nem existem.
Mesmo que existam, não dão boas histórias. Ontem, a Polícia Judiciária realizou buscas na residência de Ricardo Leitão Machado, no âmbito de uma operação que incluiu ainda buscas a outros cinco domicílios, a sede de uma sociedade comercial e quatro escritórios de advogados. Aquela que foi batizada Operação Torre de Controle 2 é a sequela da Operação Torre de Controle 1, que foi um grande sucesso no ano passado.
De liteira.
E que envolve suspeitas de crimes de burla e corrupção, entre outros, relativamente à contratação de meios aéreos para o combate aos incêndios rurais. O argumento não é muito original, mas tem esta particularidade de Ricardo Leitão Machado ser cunhado de António Leitão Amaro, ministro da Presidência. É aborrecido para o ministro ver o nome tido num caso tão melindroso por culpa do cunhado, mas lá está, família não se escolhe e, por muito que custe aos políticos, as notícias também não. E às vezes são as duas, as famílias e as notícias, um problema.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, é isso.