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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Calma, Paulo. Na economia há quase sempre um efeito positivo para compensar um efeito negativo.
Quase sempre. Há poucas evoluções ou medidas na economia que tenham impactos só positivos ou só negativos. Nós agora andamos aqui às voltas com os números da imigração, muito acima daquilo que conhecíamos das estatísticas oficiais. Já discutimos o efeito desta revisão estatística no PIB. O PIB nominal, o representante em dinheiro de tudo aquilo que produzimos no país num ano, deve ser revisto em alta, mas esse aumento não deve ser de forma a compensar o efeito negativo que vai ter quando se calcula o PIB per capita. No fundo, a pizza vai ser um bocadinho maior, mas vai ser a dividir por muito mais pessoas, portanto, a fatia de cada um vai ser um bocadinho mais pequena. É isto que se prevê neste momento. Miranda Sarmento veio ontem recordar um outro efeito positivo, se quisermos, que essa subida estatística do PIB deve trazer. O rácio da dívida pública também deve baixar, porque trata-se aqui de uma divisão e o denominador deverá ser maior. Portanto, cá está. Vamos baixar ainda mais o rácio da dívida, mas só por causa deste efeito estatístico, e esta é uma coisa positiva.
Bruno, o Luís Montenegro anda armado até aos dentes.
Ou armado em bom. Armado. Seja como for, literalmente armado, mas apenas durante umas horas. Esta era uma daquelas notícias que ninguém estava à espera de ler. Eu, pelo menos, não estava e fiquei um bocado surpreendido quando li: "Montenegro entregou à PSP uma arma oferecida por Erdoğan na cimeira da NATO."
Lá vai o tempo das meias.
Ou uma estatueta, qualquer coisa.
Um íman para o frigorífico.
Uma arma! Isto parecia mesmo a quinta dimensão. Então, na cimeira da NATO, que se realizou em Ancara, o presidente turco, Recep Erdoğan, resolveu oferecer aos líderes presentes um presente muito pouco habitual, pelo menos nesta troca de presentes protocolar. Um revólver magnum personalizado com o nome de cada um dos líderes e com munições reais incluídas.
Também com nome ou não se sabe?
Com nomes, exatamente. Ora, Luís Montenegro trouxe o presente para Portugal, mas entregou-o de imediato à PSP para que fosse sujeito às perícias legais e seguisse o procedimento previsto para este tipo de objetos. Cada país tratou do presente à sua maneira. Alguns dos líderes declararam-no no aeroporto, outros deixaram nas respetivas embaixadas. Ursula von der Leyen vai entregar o seu a um museu militar. Montenegro entregou-o à PSP e ficamos sem saber se entre as munições havia ou não uma bala de prata para resolver todos os problemas do país.
Isso é que dava jeito.
Exato.
Paulo, e no final, quem ficou a ganhar foi a Make-A-Wish?
É verdade, nem mais. A associação Make-A-Wish recebeu mais de 3.300 €. Para quem não sabe, a Make-A-Wish é uma organização não pública, não governamental, se quisermos, que tem uma missão muito concreta, a realização de desejos a crianças e jovens dos 3 aos 17 anos, que por regra estão em unidades de saúde, em hospitais, que estão com doenças graves ou malignas. E desta forma, a Make-A-Wish tenta proporcionar-lhes momentos de força, de alegria, de esperança, e os médicos dizem que isto ajuda, obviamente, na recuperação. E falamos da Make-A-Wish porque foi esta associação que vai receber de Álvaro Santos Pereira cerca de 3.300 € de mais-valias que o governador do Banco de Portugal obteve com as ações que comprou quando já era governador do Banco de Portugal. Não o devia ter feito para evitar potenciais conflitos de interesses. E ontem no Parlamento, lá fez o seu ato de contrição, assumiu que foi um erro. Quando percebeu, na altura, que não devia ter comprado os títulos, o governador do Banco de Portugal vendeu-os, deu ordem de venda imediata, independentemente do preço. Ainda vai pagar IRS sobre a mais-valia, como é evidente, mas a Make-A-Wish recebe o donativo inteirinho, os tais 3.300 €. Está o assunto encerrado e já agora que faça algumas crianças felizes.
E por falar em fazer alguém feliz, Bruno, de boas intenções está o caixote do lixo cheio? Às vezes está mesmo cheio, a abarrotar. Este novo sistema de depósito e reembolso de embalagens, o Volta, nasceu de uma boa ideia: devolver dinheiro a quem entrega garrafas e latas para reciclagem. O problema é que, por exemplo, em Lisboa, a procura por essas embalagens disparou e há juntas de freguesia a queixarem-se de contentores remexidos e lixo espalhado pelas ruas. Não seria muito difícil de imaginar que a recompensa de €0,10 por embalagem devolvida fosse aguçar o engenho daqueles que têm mais necessidades. A presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, Carla Almeida, diz que todos os dias há caixotes revolvidos e lixo espalhado pelo chão, porque aquilo que para uns são trocos, e trocos que não justificam às vezes a maçada de se procurar o local para a devolução, apesar do relativo sucesso desta iniciativa, já foram devolvidas cerca de 55 milhões de embalagens, para outras pessoas pode ser, de facto, uma valiosa fonte de rendimento. O problema da gestão do lixo já se arrasta há algum tempo em Lisboa e agora é o lixo que é arrastado pelo chão. E tudo por causa de uma ótima ideia, com algumas consequências que não deveriam ser completamente inesperadas.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.