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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Paulo, esta pergunta muita gente deve estar a fazer-se nesta altura. Continuamos mal preparados na resposta a calamidades.
Sim, apesar de algumas melhorias nos últimos anos, obviamente também à custa dos erros passados, que custaram muitas vidas. Lembramo-nos dos incêndios. Ainda há muito planeamento e resposta logística a melhorar, e isso parece absolutamente óbvio. É importante pensar na redundância e na resposta das redes. Isso fala-se sempre que há estes problemas, mas depois passado uma semana esquecemos. Redundância ou substituição de rede elétrica, redundância nas redes de comunicações. Aliás, o SIRESP serve precisamente para isso, mas também tem falhas, como se vai vendo. É preciso pensar na localização de geradores disponíveis para estas situações, na resposta mais rápida no terreno, no auxílio a populações, enfim, na coordenação entre os vários serviços. Uma cidade como Leiria não pode ficar isolada de comunicações e de fornecimento básico de eletricidade durante tanto tempo. Gastar dinheiro em sistemas redundantes pode parecer desperdício, porque no fundo são sistemas de substituição, se quisermos, suplentes que estão ali ao lado, a maior parte do tempo sem utilização, mas nestas ocasiões percebemos que não é dinheiro deitado fora. E é preciso ter em atenção que estes eventos extremos vão ser cada vez mais frequentes.
Como temos visto, não é, Jerónimo?
E a impreparação, deixe-me só acrescentar, que a impreparação não se cinge só às autoridades, nem às grandes infraestruturas. Há também muita impreparação de cada um de nós.
Da população.
Cidadãos para estas situações. Vimos no apagão, falámos muito na altura do tremor de terra, se estamos ou não preparados para uma situação destas, e eu acho que muitas pessoas, quase todos nós, na verdade, não estamos preparados para, por exemplo, ficar sem luz ou sem água ou sem acesso a supermercados durante dois, três dias.
Ou sem multibanco, tudo.
E neste caso de mau tempo também, os avisos são feitos agora, cá está uma coisa que melhorou, os SMS, mas muitas pessoas não sabem o que fazer ou não fazem nada depois do aviso, nomeadamente nos jardins, nos quintais, prender aquilo que pode voar de alguma maneira.
Há muito para discutir. Então, afinal, e já com tantos exemplos por aí. Entretanto, e mudando aqui um pouco o ângulo, Bruno, o CDS está a passar por um conflito interno.
E isso em si é uma notícia, como é que um partido de onde têm saído tantos militantes, que está reduzido praticamente à sua expressão mínima e até eleitoralmente, ainda consegue ter conflitos internos. Mas a posição oficial do partido em relação à segunda volta, que foi de não apoiar nenhum candidato, seguindo assim o exemplo do primeiro-ministro e do principal partido que apoia o governo, o PSD, essa decisão desagradou notáveis do CDS, alguns que por lá passaram, outros que ainda andam por lá, e mais do que a decisão do partido, terá sido o discurso de Paulo Núncio na Assembleia da República na semana passada a irritar algumas figuras como António Lobo Xavier e António Pires de Lima. Se ainda mostram alguma compreensão para com a prudência do líder do partido, Nuno Melo, já não demonstram assim tanta paciência contra o que acham ser críticas deslocadas a António José Seguro, por parte de Paulo Núncio e também de João Almeida. E o CDS lembra aquela tirada humorística: eram tão poucos na reunião que se faltasse mais um, não cabia. Dito de outra forma, quanto menos são, às vezes mais confusão fazem.
E afinal, André Ventura não resistiu e teve de ir mesmo para as zonas afetadas.
Claro. Na quarta-feira ainda pensámos, até pelas declarações que ambos fizeram, que os candidatos à presidência teriam a prudência de evitar ir para lá, no fundo, atrapalhar. António José Seguro assim fez, foi sozinho, mas André Ventura não resistiu. Basicamente, é mais forte do que ele. E ontem à tarde lá foi, com toda a sua comitiva, fazer campanha para Coimbra, zonas afetadas pelo mau tempo. A justificação do candidato é que, e citamos: "As pessoas estão cansadas de políticos de plástico." Bom, se ser de plástico é evitar tentar tirar ganhos políticos durante uma campanha eleitoral de uma situação trágica de calamidade, bom, então eu acho que todos os políticos deviam ser mesmo de plástico.
Bruno, então na CP, quanto mais, pior?
Quanto mais passageiros, pior o serviço. Em 2025, a CP bateu o recorde de passageiros, 208 milhões, mais 20 milhões do que no ano anterior. É uma boa notícia. Para este número contribuiu significativamente o Passe Ferroviário Verde. Os comboios regionais e inter-regionais, por isso, tiveram aumento do número de passageiros de mais de 100%. Mas atenção, calma, não abram já as garrafas de champanhe, porque são também cada vez mais os atrasos e comboios suprimidos. Portanto, não é só uma questão de mau serviço por excesso de passageiros, há mesmo problemas que têm a ver com a falta de material circulante. Por exemplo, as linhas do Oeste, do Vouga, do Alentejo e do Algarve são as mais afetadas por este problema crónico que se tem agravado. E quando o transporte ferroviário deveria servir para a coesão do território, o que vemos são precisamente os passageiros que vivem em regiões mais isoladas e deprimidas, a ter mais razões para desconfiar do serviço. Não basta um passe ferroviário, aumentar o número de passageiros, se calhar é preciso mesmo aumentar o número de comboios.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.