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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte com um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Portanto, Paulo, os Estados Unidos foram prender Maduro. Isto é puro altruísmo humanitário ou é só o petróleo a lubrificar as engrenagens da política externa em Washington?

Ora bem, há mais de um século que o petróleo da Venezuela é um tema sensível para a política externa dos Estados Unidos. A Venezuela tem as maiores reservas comprovadas do mundo, cerca de 300 bilhões de barris. A Venezuela já foi o principal fornecedor americano antes das nacionalizações na Venezuela em 76. Em 2017, Trump impôs sanções ao país, à Venezuela, quando os Estados Unidos tinham aí ainda o seu terceiro maior fornecedor de petróleo, ainda por cima à mão, com custos de transporte mais baixos do que trazê-lo do Médio Oriente, por exemplo. A Venezuela tornou-se, entretanto, o principal fornecedor da China e agora com Trump de volta à Casa Branca e com Maduro capturado, o plano de resgate apresentado por Trump vem acompanhado de um plano de negócios sobre petróleo. Mas valha aqui a verdade, Trump não esconde de forma alguma a sua principal motivação e nós percebemos isso na comunicação que fez. O petróleo dominou 80, 90% da narrativa.

Ora, está explicado. Agora falta perceber, Bruno, e quem é que vai para o lugar de Maduro?

Para já vai Delcy Rodríguez, que era vice-presidente desde 2018, nomeada na altura por Nicolás Maduro, que não lhe poupava em elogios. Dizia que era corajosa, aguerrida, filha de um mártir, revolucionária e aprovada em mil batalhas. E também tinha uma alcunha para ela, chamava-lhe a tigre do regime, uma alcunha que Delcy Rodríguez fez por nunca desmerecer. Como número dois do regime estava, por assim dizer, na linha de sucessão de Maduro, e foi essa a decisão do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela. Delcy Rodríguez sempre foi muito crítica da política imperialista norte-americana, aliás, o normal dentro do regime venezuelano. Agora resta saber como irá conviver com aqueles que se afirmam como os novos donos do poder. Donald Trump disse claramente que vai governar a Venezuela, os Estados Unidos vão governar a Venezuela. Resta saber como é que Delcy Rodríguez irá lidar com os novos donos do poder, sendo tão crítica da política norte-americana.

Talvez os próximos dias ajudem a perceber. Ou não, vamos ver. Por cá, Paulo, esta é uma eleição do voto dito útil contra o voto convicto?

É cada vez mais essa a escolha que está a ser colocada aos eleitores. À esquerda, o tema existe há muitas semanas, há meses até, desde que se foram multiplicando os candidatos, com vários apelos e perguntas sobre eventuais desistências de candidatos menos bem colocados nas sondagens a favor de António José Seguro, no fundo, para garantir que hajam candidatos de esquerda, pelo menos na passagem à segunda volta. E agora chegou também a conversa ao campo da direita, que desde o início também tem um eleitorado fragmentado entre vários candidatos, e aconteceu agora com Luís Montenegro a apelar à concentração de votos em Marcos Mendes, isto contra os perigos do populismo. E adivinha-se que esta dramatização vai subir de tom à medida que o tempo aperta e que o empate se vai mantendo. Portanto, todos os argumentos vão contar.

Bruno, novo ano, os aumentos de sempre, pelo menos o meu ginásio vai aumentar. Não se percebe, uma pessoa vai lá tantas vezes, devia ter desconto.

Um desconto de fidelidade.

Tantas vezes que eu vou lá.

É uma daquelas novidades que todos os novos anos trazem, o aumento, ou na novilíngua econômica, as atualizações de preços. Alimentação, energia, portagens, ginásios e a água também. No Porto, o aumento proposto pela Câmara é de 2,8%, mas o presidente Pedro Duarte diz que é menor que o aumento do ano passado e que os agregados com carências econômicas continuam a beneficiar de uma tarifa especial. Acrescenta que as atualizações tarifárias procuram refletir o custo real da atividade de exploração, dos sistemas municipais, de abastecimento d'água, etc. Nós sabemos que os aumentos, como a morte, trazem sempre uma desculpa, mas também já estamos habituados.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte com um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.