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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Bruno, quem te avisa teu amigo é.

Bruno, Carla, isso depende dos avisos, de quem avisa e de quem é avisado ou, neste caso, visado. Ontem, o presidente visitou áreas atingidas pelos incêndios no ano passado e confirmou que houve promessas de apoios que ainda não se cumpriram e deixou o primeiro alerta ou aviso sério ao governo. Pediu menos palavras e mais atos. E sendo que o Presidente da República tem na palavra o seu principal instrumento de intervenção política, é como se dissesse: "Façam mais, que para falar, estou cá eu". Parece que vamos ter aqui nos próximos tempos marcação cerrada entre o Presidente da República e o governo.

Paulo, será que Seguro vai conseguir salvar a concertação social?

Se ele não conseguir, com o apelo que fez ontem e que já levou, de facto, algumas reações, dificilmente alguém conseguirá. Alguém conseguirá, porque os outros atores já estão todos no terreno há muito tempo a tentar negociar isto e chegaram a um bloqueio. Ontem de manhã, a tentativa de acordo sobre as leis laborais parecia que estava praticamente morta. Aliás, tivemos aqui no Explicador o líder da UGT e da CIP. Isso ficou claro. As entidades patronais a dizerem que não valia a pena continuar, porque a UGT não estava a tornar possível uma aproximação. Parecia não haver caminho, de facto, para mais reuniões. Então José Seguro fez um apelo a um esforço adicional e todos os protagonistas, lá está, depois disso mostraram-se disponíveis. Vamos ver se a disponibilidade é efetiva ou se é apenas uma coreografia negocial, só para responder positivamente ao apelo do presidente da República. Nos próximos dias já vamos conseguir tirar isso a limpo.

Concorrência. Ainda é uma palavra estranha?

Em Portugal é mais do que isso, é uma palavra amaldiçoada. Assim que ouve a palavra concorrência, o cliente português agarra-se logo à carteira, seja na área das comunicações, nas gasolineiras e também nos transportes. Felizmente, de vez em quando, há algumas decisões que ajudam a que a palavra comece a ter um sentido mais amigável. Foi o caso da decisão do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa, que deu razão à Flixbus, no pedido de acesso imediato ao terminal rodoviário de Sete Rios, que até agora era território exclusivo da Rede Nacional de Expressos, que continua a ter que decidir os pedidos da Flixbus. Não deixa de ter essa função, essa prerrogativa. O que acontece em Portugal é que em vez de procurarem servir melhor o cliente, muitas empresas acham que o sucesso se alcança limitando a concorrência. Tudo bem, desde que esteja dentro dos limites da lei. Agora, a Flixbus recebeu este empurrão do tribunal, mas a Rede Expressos não desarma. Como a sentença diz que a concessão imediata de acesso continua a ser limitada à capacidade efetiva disponível no terminal, a Rede Expressos veio logo dizer que não é uma autorização automática, porque o espaço é pouco e já está ocupado. Contudo, daqui para a frente terá de justificar no momento qualquer recusa de acesso solicitado pela empresa concorrente. Já é um pequeno passo ou é um bocadinho do autocarro no terminal da Rede Expressos. Vamos ver se nos próximos tempos, de facto, temos concorrência ou não.

Um pequeno passo para o homem, um grande passo para o autocarro. Eu ando aqui a pensar numa coisa.

É perigoso, Carla. Partilha.

Será que os ministros mandam menos do que se pensa? Ajuda-me, Paulo.

Estas são as angústias. Eu acho que eles mandam muito menos do que aquilo que todos nós pensamos. E não é de agora, é uma tendência de alguns anos, décadas, talvez. O verdadeiro poder está mais abaixo na cadeia hierárquica do Estado, mais junto dos diretores, de chefes de serviço, às vezes mesmo dos profissionais, que podem fazer ou não fazer aquilo que o governo quer. E este caso da otimização das urgências obstétricas é um bom exemplo para isso. O governo quer encerrar a urgência do Barreiro, quer concentrá-la no hospital de Almada, que fica a 30 quilômetros. Quer, mas não sabe se vai conseguir fazê-lo. Por quê? Porque apenas três obstetras do Barreiro aceitaram, de facto, deslocar-se para o Garcia da Orta, que é o hospital de Almada. Os restantes quatro não aceitaram, até ver. Alguns, porque já ultrapassaram o limite de idade e podem não fazer urgências por isso, e só fazem as urgências porque querem e onde querem, e só estão disponíveis para fazê-las no Barreiro. E neste caso, não querem fazer os tais 30 quilômetros de distância. E portanto, a decisão da ministra, por mais bem-intencionada que seja muito reformista, vale pouco ou nada, nalguns casos, e pode ficar tudo na mesma.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.