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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta pare um parecido de rabos?

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Quais são as perguntas, afinal, desta terça-feira, Carla? Estavas com vontade de fazer perguntas.

Vamos lá. Eu estava com vontade. É preciso resolver isto, ser sérios e fazermos contas todas. E Bruno, és tu que vais fazer isto. Afinal, quantos Salazares são precisos para pôr tudo isto na ordem?

Ora, vamos fazer contas, então? Vamos lá. Três na recepção, depois mais três nos elevadores e um Salazar para guarda-noturno, outro para as limpezas. E atenção, isto é que é importante, mais um Salazar para cada Salazar, um Salazar para cada português. Assim por alto, precisamos de 11 milhões, portanto, 22 milhões de Salazares. Mais coisa, menos coisa.

Eu posso dar um contributo, tenho dois lá em casa.

Então já são, imagina, para aí uns 30 milhões.

Desses dois, falta tu.

Falta. Estás a precisar de um Salazar na tua vida. O humorista André Ventura insiste nesta ideia de uma trindade de Salazares para endireitar o país, limpá-lo da corrupção. Mas espera aí, no Estado Novo não havia corrupção, não havia cunhas e favores, não havia uma elite económica protegida pelo Estado. Mas havia ordem. Não havia gente do Bangladesh. Pelo menos não devia haver.

Não, os do Bangladesh éramos nós quando íamos para Paris.

Exato.

E para a Alemanha.

Nós já fomos o Bangladesh.

Na Europa, claramente.

E até naquela altura, talvez os ciganos fossem mais brancos, não sei. Só não era um mundo perfeito, porque só havia um Salazar. Imaginem onde teríamos chegado com três Salazares. É verdade. Será que os deputados estão sem assunto na discussão deste orçamento?

Estão um bocado sem assunto. Durante muitos anos, o Parlamento habituou-se a discutir tudo e mais um par de botas, perdoem-me aqui a expressão, tudo aquilo que queriam incluir no Orçamento de Estado, independentemente de serem matérias que deviam lá estar ou não. E agora que o orçamento, este governo decidiu fazer um orçamento, que é apenas um orçamento, veja-se só, e já não sabem muito bem como é que hão de discutir o documento. Por isso, distraíram-se com estes temas, como os Salazares, a discutir o número de Salazares, e a política de Pedro Sánchez também para os combustíveis, em defesas da honra, perdeu-se lá vontade de uma meia hora naquilo do Salazar para cá, Salazar para lá, em defesa da honra, isto e aquilo. Rui Tavares, por exemplo, veio mesmo acusar o governo de esvaziar o Parlamento. Rui Tavares e o Livre não era o único, mas sempre foi um dos partidos que colocou tudo aquilo que se lembrava no Orçamento de Estado ou tentava, pelo menos, desde a defesa do mirandês até ao estudo pedido ao governo, um estudo para a semana dos quatro dias, que é uma coisa que não tem que estar no Orçamento de Estado, acho que vai voltar à carga este ano.

Como disse o Montenegro, tudo e um par de botas.

Olha, a expressão é mesmo esta.

Outra vez botas. Mais uma referência.

Não tiram o Salazar da cabeça.

Exatamente. Parece que os deputados não têm mais 11 meses, além deste mês, números redondos de discussão do orçamento, não têm mais 11 meses do ano para apresentar essas suas propostas, que até saem valorizadas se forem discutidas autonomamente, como é evidente. Mas estão um bocadinho deprimidos à conta disto.

Coitaditos. Vamos a uma outra pergunta deste dia: vamos ter urgências para todos? Queria. Não, mas parece que vamos ter marcha de urgência para viaturas do IRA. É verdade, foi isso que o presidente da Associação da Resgate Animal confirmou. Três viaturas de resgate tático do IRA terão tido autorização do IMT para usar aquelas luzinhas azuis que usam normalmente as viaturas da PSP ou do INEM. Mas há regras. A marcha de urgência só pode ser acionada, e isto disse o presidente da associação, em caso de risco de vida animal, quando solicitada a colaboração pelas forças de segurança ou quando a equipa atua em apoio a operações de proteção civil. Mas eu pergunto-me: por que não alargar a marcha de urgência a todas as viaturas? Eu votaria num presidente que defendesse luzinhas azuis para os carros de todos os portugueses, mesmo aqueles que não participam em resgates táticos, que me soa a uma operação da Mossad.

Tu não dês ideias. Paulo, e afinal, os serviços públicos servem para quem?

Servem para quem e servem para quê? Antes de mais, começa a ser difícil entender que eles sirvam para servir os utentes. Desculpem aqui as redundâncias linguísticas. Isso parece cada vez mais claro. Servem, antes de mais, para servirem as suas próprias conveniências. A ideia é que dá. Veja-se, por exemplo, o caso do IHRU, Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana. Nós sabemos que há milhares de pessoas à espera de apoio à renda e aos vários programas para tentar aceder aos vários programas de apoio à renda, umas já com o apoio aprovado, outras em espera. Mas o IHRU atende apenas 20 pessoas por dia em Lisboa e 20 no Porto, nem mais nem menos. São 20 senhas por dia num sítio e no outro. O atendimento presencial só pode ser feito nestas duas cidades, portanto, nas instalações do IHRU em Lisboa e Porto, e nós sabemos que responder a e-mails e atender telefones, sabemos como é. Aliás, ontem nas reportagens de televisão, houve um protesto à porta do IHRU precisamente.

Em Lisboa e no Porto.

Em Lisboa e no Porto, precisamente a protestar contra esta escassez de atendimento.

Esses são os únicos sítios onde dá para protestar também.

Exatamente, porque o resto esquece. Podes ir para o e-mail protestar que ninguém te responde. Aliás, muita gente a dizer que já enviou muitos e-mails que ficam simplesmente sem resposta. Nós sabemos o que é tentar ligar para um serviço público, e alguns privados também, atenção. Ligar e falar com uma pessoa do outro lado é cada vez mais difícil. E mesmo assim, de alguma maneira, e olhe, se não gostam, vão viver para outro país, pode ser que seja melhor lá.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta pare um parecido de rabos?

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer