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Aquilo deu-me uma fome para mais. Eu nunca gostei do desconforto, mas este em específico soube-me bem.

Acho que para quem te acompanha é muito claro que houve ali uma mudança em ti. Quarter life crisis. Identificas-te com isso?

Quem nunca? Claro, vamos a isso.

Mas agora a vida parece estar um bocadinho estagnada.

Foi mesmo para me descobrir, porque estava a me sentir muito confortável.

Podes adorar rotinas, mas também precisar desse desconforto momentâneo, não é?

Também calhou numa fase em que surgiu o cycling, algo que estava completamente fora do plano.

Como é que isso surgiu? Explica-nos.

"Sofia, queres ser coach?" E eu: "Como assim?" E na altura, eu pensei: "Olha, minha vida está toda tão pacata, por que não?" E depois surgiu o Havaí também. Eu também admito que estava um bocado a adiar essa viagem por medo. É a viagem da minha vida. Eu sempre quis fazer o mesmo. Desde nova que os meus olhos sempre brilharam, ao ver também os olhos do meu pai a brilharem a falar sobre essa viagem, eu disse: "Vou fazer o mesmo." Eu só queria ir e testar-me, sair dessa zona de conforto para me conhecer.

E como é que foi?

É deixar de usar a palavra controlar e substituir por gerir, porque não dá para controlar nada. A única coisa que podemos controlar são as nossas emoções. Foi muito a questão de estar presente.

Mas tu já és muito assim.

Às vezes.

Slow living, natureza.

Slow living, mas mesmo assim, a cabeça muitas vezes está a mil e está a pensar muito para a frente, sendo que há muito uma conotação negativa a não saber o que uma pessoa quer. Ainda bem que tu não sabes o que queres, estás a explorar. Mau era se soubesses sequer aquilo e aquilo até ao fim.

Se tu pudesses deixar uma mensagem à Sofia de há um ano atrás, o que é que tu lhe dirias? Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje eu trago uma convidada que se acompanham o YouTube em Portugal, provavelmente conhecem pelos vídeos lindos de slow living, de natureza, de ter um cão lindíssimo, o Monty, que é a Sofia Oliveira. Ela faz conteúdo incrível nas redes sociais e hoje vou trazê-la aqui para uma conversa sobre como lidar com os 20, como lidar com uma fase que às vezes parece que temos tudo aquilo que sempre quisemos e mesmo assim não nos sentimos felizes e se calhar acaba por não nos preencher na totalidade. E o que é que podemos fazer mais? Explorar diferentes áreas nesta idade, quando achamos que se calhar o caminho já estava todo pré-definido e estabelecido. Portanto, vou tocar em vários aspetos que eu acho que a Sofia não costuma trazer para a internet e estou muito curiosa para saber até onde esta conversa nos leva, mas tenho a certeza que se estiverem a passar pelos 20 ou 30 e estiverem também numa fase de mudança, de vos tentarem descobrir, acho que vai ser uma boa conversa. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume.

É assim, eu sinto que eu acompanho-te há tantos anos no YouTube e chegou agora uma fase que, para mim, e acho que para quem te acompanha, é muito claro que houve ali uma mudança em ti, make quarter life crisis. Identificas-te com isso?

Quem nunca? Claro, vamos a isso.

É a crise da quarta idade. Eu acho que isto é tão real que só quando passamos é que percebemos: "Isto está a acontecer, eu estou a mudar e agora tenho que descobrir novas coisas." Como é que foi lidar com isso de repente, quem é a Sofia? E quer descobrir mais.

Imagina, estas crises, na verdade, estão constantemente a acontecer. Eu lembro-me disto desde que provavelmente saí da escola, ter sempre pequenos momentinhos de: "Mas o que é que eu quero? O que eu quero da vida?" Mas realmente nesta idade foi um bocadinho mais forte, também porque é uma outra responsabilidade. Já é na vida adulta. Lá está, antes ainda desculpávamos a faculdade, o início da nossa carreira profissional, seja isso o que for. Mas agora que eu já estou a experienciar a vida adulta, com uma casa e tudo, ter esta crise de: "Mas agora, a vida parece estar um bocadinho estagnada. O que eu quero realmente daqui para a frente?" Mas eu lembro que bateu-me mais a crise precisamente por causa de uma viagem que eu tinha planeada para fazer em 2024.

E que não aconteceu?

E que não aconteceu. E eu disse mesmo: "É em 2024." O ano passou, eu gosto sempre de fazer o meu dream board. Aquele dream board é um bocadinho uma ratoeirazita, porque na verdade eu ponho no dream board a maioria das coisas que eu sei que também vão acontecer, aquilo lá no fundo acaba por ser também um diário visual do meu ano, daquilo que vai acontecer e de algumas coisinhas que eu gosto de pôr.

Sonhos, mas então não sonhas muito alto.

Demasiado também não. Talvez devia ser um bocadinho mais ambiciosa, ainda estou a trabalhar nisso, mas gosto de fazer as coisas devagarinho e por sendo que não, como eu sei que as coisas vão acontecer, eu penso: "Já aconteceu. Check. Este dream board está mesmo completo. Consegui alcançar tudo."

E depois quando chegou aquela parte da viagem...

Sim, eu realmente sentei-me, vi e pensei: "Oh, não. E agora?" Porque também eu meti aquilo na cabeça porque eu queria fazer aquela viagem com 24 anos, porque foi uma viagem que o meu pai fez com 24, mas a questão é, eu disse que queria fazer aquilo em 2024, mas eu ainda tenho 24. Em 2025, eu só vou realmente completar meus 25 em julho. Ainda tenho tempo. E na altura, comecei 2025 muito com aquela mentalidade de: "Ok, não foi este ano, mas eu ainda vou a tempo. E para quê esperar?" Estava a sentir mesmo uma fome gigante para isso, para sair um bocado da zona de conforto, porque também estive a refletir muito sobre o ano. Lá está, atingi mesmo a quarter life crisis.

Mas sentes que foi assim numa de te descobrir? Porque muitas vezes nós usamos estas viagens para fugir da nossa bolha e para descobrir partes nossas que estavam escondidas.

Sim, completamente.

Tu fizeste nesse sentido?

Também. Foi mesmo para me descobrir, porque estava a me sentir muito confortável. E eu sempre fui apologista do conforto. Eu quero é estar confortável, não me chateio, quero ter a minha casinha, as minhas coisinhas. Slow living, estava tudo realmente muito slow.

Mas eu não sou assim tão slow. É preciso equilíbrio, senti realmente muito bem.

Pode adorar rotinas, mas também precisar desse desconforto momentâneo.

Estava me a faltar. Completamente. Também calhou numa fase em que surgiu o cycling, algo que estava completamente fora do plano.

Como é que isso surgiu? Explica-nos, por favor.

Foi completamente à toa, Mariana. Acho que comecei em setembro a fazer, para experimentar algo novo, mas mesmo descontraída. Adorei aquilo e dediquei-me muito. E na altura, as chefes do estúdio reconheceram esse meu esforço e a própria coach reparou nisso. Uma vez estávamos a falar e eu até captei esse momento em câmera sem querer. Foi mesmo genuíno.

Eu vi!

Eu captei literalmente. Estava a gravar um bocado a minha rotina e "ah, vou pôr para gravar." E de repente: "Olha, Sofia, queres ser coach?" E eu: "Hã? Como assim?" Porque eu nunca fui superligada ao esporte, sempre gostei de me mexer, mas nunca foi aquilo de ginásio, superdedicada. Eu sempre fiz aquilo muito na descontração. Eu queria era divertir-me, até o tipo de esporte que eu escolhia era muito tipo dança também, tentar ao máximo um esporte com um propósito, seja vôlei, handebol. Tinha um propósito. E não muito ginásio, que também tem o seu propósito. Mas precisava daquele objetivo final, digamos assim.

Mais também para a parte mental, não é?

Completamente, para me abstrair da dor. E o cycling foi muito isso, pelo menos este soul cycling, que também há vários tipos. Este soul cycling vai muito buscar a parte humana, muita música, descontração.

Conexão contigo.

Conexão contigo, é isso. E fez-me superbem. Finalmente consegui arranjar um esporte que me fazia bem e dava mesmo pica, custava-me horrores. Aquilo é cardio, e não é só cardio, aquilo também é parte muscular, mexe tudo, na verdade. E na altura eu pensei: "Olha, minha vida está toda tão pacata. Por que não?" Pensei mesmo. "Sinto-me realmente um bocadinho estagnada", digamos assim. Estava numa fase um bocadinho mais monótona, que faz parte. E este desafio veio também mexer-me um bocado nesse aspecto.

Porque é um desafio enorme.

Foi um desafio enorme.

Eu fui à tua aula e eu olhando e pensando em pôr-me no teu lugar, eu acho que era incapaz.

Lá está, eu fui nisso de vai dar certo. Eu comecei os treinos e como assim? Fazer aula já é difícil, fazer aula ainda a falar, a projetar a voz.

E trazer energia para as pessoas.

Trazer energia, lá está, porque não há quebra, tens sempre de puxar pelo pessoal. Há momentos em que eu aproveito para respirar um bocadinho. "Bebam água. Bora, pessoal." Complicado, mas aí também o treino ajuda. Eu tive formação durante um mês muito intenso, todos os dias ia lá, portanto, foi mesmo hardcore aquela formação. Mas ainda bem, ficou despachado, digamos assim. Tirei essa formação mais intensiva e agora vou me formando aos poucos para estar sempre a melhorar. E aquilo deu-me uma fome para mais. Eu nunca gostei do desconforto. Mas este em específico soube-me bem, porque lá está, teve um final feliz, digamos assim, e eu antes achava sempre que o desconfortável é só desconfortável, para que eu me vou sujeitar a isso? Mas depois de ter experienciado esse desconforto e ter realmente ganho algo com aquilo, deu-me uma fome para mais agora.

Em que sentido? Viagens?

Não só de viagens, em geral.

Experimentar coisas novas.

Experimentar coisas novas, seja até agora com este podcast. Podcast deixa-me desconfortável. "Eu tenho que falar tanto?" É que eu sou poucas palavras. Mas eu pensei: "Bora, 2025 então vai ser para isso". E defini mesmo isso, 2025 é para sair da zona de conforto. Hoje podcast, amanhã vou dar uma palestra. Eu, uma palestra, falar para muitas pessoas. Eu estudei artes, vou falar com pessoal de marketing. Mas disse mesmo: "Não."

Este é o ano. E, portanto, Havaí, sozinha.

E depois surgiu o Havaí também. Eu também admito que estava um bocado a adiar essa viagem por medo.

Tu nunca tinhas feito uma viagem sozinha.

Assim, não.

Grande não.

Grande não. Lá está, às vezes vinha a Lisboa constantemente. Já fiz viagens a Madrid também sozinha, mas a minha questão, estar sozinha não é o problema para mim, porque eu vivo sozinha também. Sempre passei muito tempo sozinha. Isso para mim nunca foi um problema. Sempre gostei muito da minha companhia. Às vezes é um bocadinho monótono, mas está-se bem. Arranjo coisas para fazer, saio. Também tenho um montezinho.

Tens imensos hobbies também.

Sim, dá para dar a volta. Mas agora, o que mais me estava a assustar era realmente saber que não é só ligar e está ali alguém, não é só conduzir 15 minutinhos e estou em casa dos meus pais ou de um amigo. Agora é diferente. Não há essa segurança. É assustador. Mas na altura, eu falei sobre isto no vídeo do YouTube sobre o Havaí, mas foi uma viagem que eu quis muito recriar a do meu pai, onde ele com 24 anos foi sozinho para o Havaí, também para se explorar um bocado e é uma viagem que ele fala constantemente, diz mesmo: "É a viagem da minha vida." Eu sempre quis fazer o mesmo. Desde nova que os meus olhos sempre brilharam ao ver também os olhos do meu pai a brilhar, a falar sobre essa viagem. Eu disse: "Vou fazer o mesmo. Siga." E lembro que janeiro começou e eu: "É agora." Aliás, acho que foi no dia 30 de dezembro.

A sério? Marcar a mudança de ano.

Foi mesmo. "É agora, que se lixe." Foi no dia onde eu me sentei a ver o meu dream board, a precisar mesmo de sair um bocado de casa. Estava a acontecer muita coisa, estava a lidar com muita coisa. Também dezembro é um mês muito atarefado para quem trabalha nas redes Eu disse mesmo: "Dia 30, ok, amanhã é 31. Como é que eu vou marcar isto?" Vejo o meu passaporte: "Ai, que caramba, isto caduca agora em dezembro. Lixei-me agora." Marquei no dia 31. Fui passaporte urgência para marcar para duas semanas depois a viagem. Achava que ia ser muito pior em termos financeiros.

Uau, duas semanas?

Eu queria já amanhã.

Mas não podias por causa do passaporte. Mas então nem tiveste, quer dizer, tiveste, porque tiveste muito tempo a esperar por esta viagem, mas tiveste tempo de criar aquela expectativa de: "Oh meu Deus, isto vai ser a viagem da minha vida."

Eu tentei não pôr essa expectativa, porque cada experiência é uma experiência. O meu pai, esta viagem já foi há muitos mais anos atrás. O Havaí mudou muito até lá. Quer dizer, eu não sei se mudou assim tanto, mas estava a tentar ao máximo não criar essa expectativa, porque podia não correr bem. Podia correr super bem, mas também podia não ser grande coisa. Eu não sabia, mas eu só queria ir e testar-me, sair dessa zona de conforto para me conhecer.

E como é que foi?

E foi isso mesmo, eu conheci-me. Eu lembro-me mesmo bem, Mariana, eu toda contente a marcar aquilo, dizer: "Anda, isto é mesmo para me testar. Eu quero mesmo passar por uma aventura." Eu só me esqueci de mencionar que a aventura era lá e não no caminho até lá. Olha, a sério, eu ando com um azar, com viagens, tudo a correr mal.

A sério?

Mas foi impressionante. Era mesmo suposto ter sido assim, porque eu sempre fui a pessoa que nunca quis lidar com os problemas de aeroportos, seja problemas com bagagens, problemas com voos cancelados. Eu nunca tive que lidar com isso, porque ou era a minha família ou eram amigos.

Tu não és a pessoa que organiza, és a pessoa que aparece e vai.

Eu apareço e vou só.

Eu sou essa pessoa. Lamento.

Portanto, desta vez fui eu a organizar tudo. Foi tudo um bocadinho assim, porque eu sou muito descontraída, a ir um bocado com a corrente. E naquele momento, quando tudo começou a correr mal, ou seja, o primeiro voo atrasou imenso, perdi as conexões todas. Eu logo ali no avião a chorar. Eu parecia um bebé.

Pois, e agora já não dá tipo: "Mãe, vem me salvar."

Eu não parava de chorar. Eu mal aterro, eu ligo ao meu pai. "Pai."

Isto não está destinado.

O meu pai a dizer: "Calma, eu já estou a ver voos." E eu: "Não, espera. Obrigada, mas isso não é o teu trabalho, é o meu. Agora é que eu vou ter de me mexer." E aí começou a aventura, que foi o desenrascar. Lá está, pareço a menina mesmo mimadinha. "O que é que eu faço?"

Não, mas é a primeira vez. Tu alguma vez viveste fora?

Também não.

Pois, então é a tua primeira experiência tipo adulta.

É isso. E logo aí, pronto, foi aquela adrenalina, é o medo também, é um bocado piloto automático, sobrevivência, vai. Mas é muito giro este modo de sobrevivência também, o lidar com as coisas no momento, sentes mesmo o teu corpo e conheces um lado diferente teu. Eu, pelo menos, eu não conhecia este meu lado.

Mas tu passaste muito tempo sozinha ou ias encontrando pessoas e também...?

No início foi muito sozinha, lá está, era eu a orientar tudo para conseguir chegar ao Havaí, porque lá está, foi o primeiro voo, o segundo voo também atrasou, o terceiro cancelado. Em vez de demorar um dia, 24 horas a chegar lá, demorei três dias.

Sabes que eu já começava assim a pensar: "Não, as energias estão-me a dizer que não é para ir, já vou voltar."

Aquilo que me disseram foi: "Se a viagem até lá está a correr mal, é porque quando lá chegares vai ser icónico." E eu: "Ok." E foi. E foi icónico. Porque lá está, o facto de isto ter acontecido fez-me valorizar tanto a chegada lá. Aí é que eu aprendi a relativizar tanta coisa, seja o tempo, o estado de espírito, tudo à minha volta.

O tentares controlar tudo, se calhar, e não teres poder de controle.

Completamente. Eu tenho a mania de usar a palavra controlar. "Não consigo controlar isto."

Eu também. Eu sofro muito esse mal.

Com conteúdos. "Ai, a luz está assim, não consigo controlar isto, não sei o quê." É o pânico. É deixar de usar a palavra controlar e substituir por gerir, porque não dá para controlar nada. A única coisa que podemos controlar são as nossas emoções. E mesmo assim, às vezes é difícil.

Não, concordo.

Mas ainda me é difícil, porque ainda tenho a mania de usar a palavra controlar, mas é tentar ao máximo substituir realmente com o gerir. Porque quem somos nós?

E como é que tu conseguiste lidar lá de: eu quero viver esta experiência, quero me descobrir e quero também partilhar isto. Como é que tu fazes essa gestão?

Lá está, eu sabia que queria captar ao máximo, especialmente por mim. Também me queria pôr à prova enquanto videógrafa, porque queria explorar.

Está surreal o teu vídeo que se via. Parabéns.

Obrigada. Lá está, foi mesmo para me explorar. Lá está, de vez em quando pego no meu tripé e vou ali para o meio da baixa do Porto gravar e morro de medo que me roubem a câmera. E lá foi um bocado a mesma coisa.

E lá estás de drone e estás a conduzir um jipe e o drone a passar por cima de ti.

Eu já te conto a história do drone. Eu não tenho drone. Já conto, já chegamos lá. Lá está, eu cheguei lá só com um tripé mesmo pequenino para poder andar sempre comigo. Todo torto, coitadinho, mas safou. E a minha câmera. E a minha presença, ponto. Para aquilo que eu vivi, o vídeo que eu fiz foi minúsculo. Aquilo foi 2% da minha viagem. Porque lá está, mal eu cheguei, eu lembro que eu não parava de sorrir. Eu quando cheguei, eu só chorava de felicidade, eu consegui chegar ao fim do mundo. Portanto, foi aquela emoção toda e a parte também sentimental com o meu pai, tudo. Portanto, quando lá cheguei foi surreal.

"I did it."

"I did it." E sozinha. Senti-me tão bem.

Como é que é a energia do Havaí?

É mesmo especial. São muito simpáticos. Acho que é geral do povo americano, claro, depende das zonas, mas normalmente o americano é muito social, é muito dado às pessoas, é muito comunicativo. Se ele está a pensar numa coisa, ele vai te dizer, vais estar a passar na rua, eles vão dizer: "Olha, gosto do teu top." E tu: "Obrigada." Eles dizem tudo o que vai na mente.

Sim, em Lisboa, duas pessoas vieram ter comigo a dizer que gostavam do meu look e foram as duas americanas.

Pronto. Eles são muito assim, é supergiro. E isso também me inspirou muito a trazer isso também para nós. Por que não falamos mais? Por que não dizemos mais? Às vezes é um bocado intimidante, porque também não queremos invadir o espaço pessoal da pessoa.

Sim, porque não estamos habituados a isso, é uma coisa que para nós culturalmente é estranho, por que estás a olhar para mim?

Sim, é verdade. Mas quando o fazem, sabe bem. Foi engraçado, porque eu fui para esta viagem sozinha, mas eu nunca me senti sozinha, porque vinham sempre falar comigo, também porque estava constantemente com sorriso na cara, parecia uma totó. Mas eu não conseguia parar de sorrir, era tudo tão bonito. Eu acho mesmo que estava com uma aura muito convidativa também, porque estava sempre assim: "Ai, vai, apanha sol." Só que na minha, eu no início ainda estava a tentar fazer todo um itinerário para aproveitar ao máximo o tempo lá. Também tinha perdido logo dois dias inteiros, disso que o estômago rores, porque acho que duas semanas já era pouco. Nem foram duas semanas, eram ao todo 10 dias. Acho que já era pouco tempo, mas também não podia estar tanto tempo fora, porque também tinha aqui o Monty, que custa-me estar fora.

Tinhas o compromisso de trabalho também.

Compromisso de trabalho, não conseguia. Talvez um dia consiga e adorava levar o Monty, mas é muito longe. Vamos ver o que é que acontece. Mas já tinha pouco tempo, portanto estava a pôr pressão em cima. Ok, tenho que ser superprodutiva todos os dias. Chegou ali um ponto onde eu disse: "Vive só, tu adoraste esta zona, vais ficar nesta zona e vais só viver, vais só estar presente."

Eu lembro que no teu no YouTube tu falaste sobre isso, de sentires aquela pressão inicialmente de ter de cumprir os locais turísticos para partilhar isso também, mas o teu conteúdo também não é à volta de um guia turístico.

Não, foi isso.

Tu foste lá para viver a tua experiência.

Ponto. Eu queria estar lá e simplesmente conhecer-me enquanto: "Olha, Havaí, Ana, aqui, bora." Num local diferente, num local que me era especial, lá está, não fazia ideia como era, não sabia se me ia ser assim tão especial, mas foi. Foi tudo o que eu esperei.

O que tiraste de lá quando tu chegaste cá?

A calma, eu estar presente. Foi muito a questão de estar presente, só. Viver o momento.

Mas tu já és muito assim.

Às vezes.

Slow living, natureza.

Slow living, mas mesmo assim a cabeça muitas vezes está a mil e está a pensar muito para a frente. Eu sempre fui muito contraída, um bocado ansiosa, mas aquilo que me acontecia muito era prever muita coisa para a frente ou querer controlar, esse controle, mania do controle.

E trouxeste isso do Havaí, de tentar viver mais no momento.

Viver mais o momento e mesmo a questão de eu não consigo controlar nada, qualquer momento, talvez vou ter de ir embora, vou me tirar dias também, eu não consigo controlar nada. E até a questão de o dinheiro vai e vem, o tempo só passa. Essa também foi muito a minha mentalidade, porque eu aqui em Portugal sinto que já estava a olhar muito para a frente. Estou a tomar esta decisão porque mais para frente vou agradecer, mais para frente isto vai me dar jeito, vou tomar esta decisão porque mais para frente blá blá blá. Era sempre mais para frente. Eu estava me a esquecer do presente só. Só. Portanto, o Havaí também ajudou muito nisso.

Aqueles encontrinhos também que fazes agora às vezes com seguidoras, que vão passear, também vem disso, dessas ideias de quereres conectar-te mais?

Isso já é mais antigo até.

Ah, é uma fase?

Sim, isso já foi antes.

Faz parte da fase de descoberta, no fundo.

Faz parte da fase da descoberta e a fase da descoberta é constantemente.

E tu também falaste, isto já foi pré Havaí, mas falaste no vídeo do YouTube que na parte profissional, que tinhas sentido que precisavas de encontrar outro escape para além do digital. Tu sentes que o digital te prendeu, ou seja, às vezes sentias que tinhas de gravar, tinhas de aparecer. E quando cria-se essa obrigatoriedade, tira a magia da coisa?

Claro. Sim, acabou por me tirar, pelo menos da minha experiência, porque o YouTube era o refúgio. E a partir do momento que virou trabalho, realmente é complicado, porque eu trazia para o YouTube coisas que aconteciam na minha vida. A partir do momento que a minha vida começou a ser só YouTube, eu não estava propriamente a viver, eu tinha que viver. Por isso é que também me fui afastando um bocadinho para eu me obrigar a passar por coisas, para ter algo para contar, porque eu não tinha nada para dizer, não tinha nada para acrescentar.

É difícil quando estás a passar por uma fase em que se calhar estás-te a encontrar e teres de o passar online.

Também. Pelo menos para mim, eu tenho mesmo que passar offline e às vezes estou um bocadinho mais ausente, mas sinto mesmo necessidade, que é para depois quando voltar, ter também as coisas mais assentes, processadas, porque eu demoro a processar as coisas, preciso do meu tempinho, que é para falar depois com mais clareza, porque esta cabeça é uma confusão, eu preciso de tempo para organizar.

Precisas de organizar as ideias em off.

É isso.

Não é fácil, eu sei. E vamos fazer uma pausa no episódio de hoje para vos falar da Hiwell, que é patrocinador aqui do podcast, é uma plataforma de saúde mental. E obviamente que a terapia faz parte do meu dia a dia, porque estou sempre a partilhar isto convosco, e acabo por partilhar a Hiwell convosco, porque é uma solução também muito mais prática para se dar este passo. Porque muitas vezes quando pensamos em terapia e em ter acompanhamento psicológico, acaba por ser um processo um bocadinho assustador de onde é que eu vou encontrar os psicólogos certos, de que forma é que eu vou encontrar a pessoa certa para mim. E a Hiwell, como tem imensos psicólogos, são mais de 1600 numa plataforma online, acaba por ser mais fácil, porque preenchendo todas as informações, o match acontece diretamente e então vocês são alocados com um psicólogo que vai ser certo para tratar o vosso caso específico. E também podem experimentar, caso não se identifiquem, podem ter uma consulta com o psicólogo e depois trocar. Por isso é que eu acho que é uma plataforma muito prática, principalmente para quem quer entrar pela primeira vez no mundo da psicologia e dar este passo terapêutico, que muitas vezes consegue ser assustador. Portanto, eu tenho um código de desconto para vocês, que é de 15% de desconto, que é 15MARIANARIBEIRO, que vocês podem aplicar após a primeira consulta inicial e terem desconto nas consultas seguintes de terapia. Portanto, fica aqui a minha recomendação, caso queiram experimentar e dar esse passo.

Amiga, faz parte.

Tu por acaso sofres muito, porque lá está, estás a dizer que é uma pessoa ansiosa, muitas vezes a ansiedade vem da comparação. Sentes muito isso?

Sim.

De comparares-te com pessoas à tua volta.

Sim, isso também surgiu. Eu nunca fui muito assim, mas foi surgindo com o digital. É tanta informação, são tantas referências diferentes que é muito difícil não pensares nisso. E lá está, eu também nunca fui uma pessoa perfeccionista, e eu comecei a ser. Eu era a pessoa que: "Olha, vamos forçar. E pronto, dei o meu melhor, não foi incrível, mas eu pelo menos dei o meu melhor." E ficava de consciência tranquila. Hoje em dia é: "Ai, tem que estar perfeito, porque não sei o quê. Tenho de realmente mostrar que tenho aqui o meu lugar, que o meu lugar é merecido", digamos assim. É uma vontade de provar sempre que sou boa, não sei o quê. Eu não era assim. E é engraçado porque ainda há pouco tempo ouvi pela primeira vez a conotação de perfeccionismo à arrogância. E isso para mim foi uma chapada na cara. Que é, tens toda a razão. O meu lugar de perfeccionismo vinha de um lugar arrogante. Juro, porque era muito a questão de só assim é que isto é bom o suficiente. Mas bom o suficiente aos olhos de quem?

Tem que ser a melhor.

Eu pus aqui um pedestal qualquer na minha cabeça que eu imaginei, de acordo com os meus standards, não sei, mas eu criei aqui uma imagem muito específica. E se eu não era assim, não era bom o suficiente. Até à minha volta, talvez: "Não está assim, eu acho que não seja bom o suficiente." E é tão snobe pensar assim. E quando ouvi isto, foi mesmo a chapada da realidade. Tens toda a razão e eu não quero ser assim. É ridículo.

Tu criticas muito?

Claro que sim. Agora vou sendo cada vez mais mansinha, porque não quero isso. Eu não quero ser perfeccionista. Eu só quero passar verdade, quero ser genuína. É tudo o que eu quero, porque até em cada vídeo que eu publico, há sempre um padrão, que é imensa motivação, depois o perfeccionismo está a aparecer. Boom!

Tu demoras muito tempo a criar um vídeo?

Bastante. Então, estou parada há três meses, mas também porque está a acontecer muita coisa na minha vida pessoal, mas agora quero retomar. Mas é sempre assim. Chega ali o perfeccionismo, vai estragar tudo e estou ali a matutar e a apagar coisas e tudo e mais alguma coisa. Chega um ponto onde eu acumulo aquilo tudo e eventualmente eu digo: "Já chega, basta. Estou farta deste perfeccionismo, vou ser eu." E o resultado final sou eu. Mas passo sempre por aquilo.

E sentes que já te encontraste mais a nível profissional? Ou seja, aquelas dúvidas que tinhas antes já estão mais claras agora, pós viagem, pós experimentares coisas novas, ou ainda estás no processo de testar?

Ainda é um processo. Também tenho uma visão da vida que me foi até apresentada numa sessão de terapia que eu adoro. Faz-me imenso sentido, que é para estes momentos de recaídas. A nossa vida é assim. É assim uma espiralezinha sempre para cima. Constante mudança, porque é o mundo, é a natureza, está sempre tudo a mudar. E nós não somos exceção. Somos humanos, também estamos a mudar, também de acordo com a estação, tudo. Constante mudança. E estamos sempre a viver, o tempo está sempre a passar. E sempre quando há aquela recaídazita, nunca esquecer que este ponto não é o mesmo daqui.

É superior ao que estava.

É sempre superior. E desde que comecei a ver as coisas assim, não me cobro tanto quando estou a ter essa recaída, porque eu sei que eu estou sempre a evoluir.

Sim, estás numa fase completamente diferente.

Já é diferente, está tudo bem, faz parte. Amiga, faz parte.

Amiga, faz parte.

Amiga, vais boa, estou cá para ti.

Olha, e eu queria entrar agora assim mais em termos de hábitos, como é que é a tua rotina hoje em dia, o que para ti é slow living? Porque eu acho que quando eu penso na Sofia, associo muito a este conceito.

Adoro.

E és tão calma e tão serena. Como é que tu consegues trazer isso para o teu dia a dia e de que forma é que tu descreves o que é o slow living?

Para mim o slow living é mesmo priorizares o teu tempo sozinha também. Para mim uma grande prioridade é o meu pequeno-almoço, porque eu demoro imenso tempo a comer. Eu preciso estar ali a apurar o aroma.

Eu amo as mengas também. O que tu fazes ao pequeno-almoço?

Antes, era só uma torrada e uma café.

Mas o que é que ficas a fazer ao pequeno-almoço? Ficas mesmo só a comer? Ou escreves, ou ouves música?

Há sempre música. Normalmente há sempre música, um podcast. Gosto sempre de estar acompanhada. Também há muito o hábito de ir ali às redes. É horrível.

É difícil.

É difícil, acontece, mas quando não acontece é incrível. Estou ali na minha bolha. Para mim é difícil estar a escrever enquanto estou a comer, gosto de estar só presente, mas musiquinha sempre. Agora ainda faço um lanche também, porque fiquei mais conectada com o meu corpo por causa do cycling. Reparei que quando como certa coisa, aguento melhor a aula.

Associas muito mais aquele: "Preciso de proteína para repor aquilo".

Perfeitamente. Aí comecei a ter mais atenção e a ter mais cuidado. Mas isso surgiu naturalmente, mesmo porque quero dar a aula bem, portanto vou ter atenção para ter o máximo de energia possível.

Mais performance.

É isso. E lá está, é o meu tempinho depois para passear o Monty, também com musiquinha, e o dia começa.

Mas tu vives a tua vida muito numa bolha?

Eu diria que sim.

Tu reservas muito, fazes um plano de só vou estar com dois planos sociais por semana, como é que fazes essa gestão de ver pessoas, de guardar a tua energia? Imagina, tu vais para o cycling, tu consomes imensa energia de pessoas.

Sim.

Portanto, também tens que fazer essa gestão no teu dia a dia. Como é que fazes isso?

Por acaso, a parte da gestão social não me chateia assim tanto, porque não tenho imensos amigos. Tenho aqui alguns, lá está, estou raramente com eles aqui em Lisboa. Também vivem longe, portanto eu não tenho assim tanta acessibilidade. Aí é mais a parte do telefone que me chateia. O que me chateia é estar tão acessível via telemóvel, porque sinto que não posso estar só na minha, às vezes. Como sei que está ali o telemóvel, a qualquer momento podem ligar, podem me chatear. Tento pôr um bocadinho de parte, porque preciso estar na minha bolha. Aí a minha gestão, lá está, como vivo sozinha, acho que é fácil recarregar as energias sociais. Se eu vivesse com alguém, provavelmente já ia ser mais difícil.

Que impacto é que o Monty teve na tua vida? É que eu estou no processo, Sofia, que eu quero muito ter um cão. Eu estou finalmente a viver sozinha.

Entendo.

Convence-me a eu não ter um cão.

Imagina, é muito trabalho. Muito, é um filho autêntico. Lá está, eu arranjei o Monty também numa fase muito pacata, muito estável da minha vida e fez imenso sentido ter o Monty para apimentar, digamos assim, as coisas. E agora que já estou com ele há dois anos, aí é que me bateu também a questão de: "Queres ver que me precipitei um bocadinho?"

A sério?

Porque parece que fiz as coisas ao contrário, eu devia ter viajado muito antes e só depois.

Prende-te?

Prende um bocadinho. Lá está, eu felizmente consigo dar a volta e hotéis, na boa.

Mas não te custa?

Custa-me. Claro que é mais uma despesa, mas eu sabia que ia ser essa despesa. Eu entrei nesta jornada nova com ele, com essa mentalidade. Tu vais achar caro.

Mas gostar também de o deixar.

Sim, e de o deixar. Pois é, sim, lá está.

Eu sei como é que eu vou ser, percebes? Se eu tiver um cão. Super agarrada.

Eu só consegui desprender-me dele um ano e tal depois. Custou muito deixá-lo. Mas lá está, porque também ele era muito pequenino, precisava muito de mim, mas aí acho que talvez mimei-o demasiado, porque eu queria estar tão presente que depois ele ficou talvez demasiado apegado e aí talvez devia ter sido um bocadinho mais relaxada. "Upa, vai, diverte-te, filho, vai para a creche." Talvez aí devia ter deixado mais, criado um bocado mais de afastamento, mas estou a aprender, foi o meu primeiro cão. E hoje em dia temos uma relação tão forte, lá está, é o meu bebê.

E faz-te muita companhia também.

Faz muita companhia, por mais que ele me lixe a cabeça às vezes. Ainda hoje vomitou-me o tapete todo. Ai! Mas depois ele mostra-me aquela carinha e eu: "Neste momento eu vou te fazer cara feia, mas quando eu regressar, eu vou te encher de amor, porque eu sei que não foi por mal e tu fazes muito bem."

Se calhar até te ajuda também a sair mais de casa, obriga-te a estar mais na natureza.

Foi isso. E eu também quis o Monty precisamente por causa disso, porque eu estava muito fechada em casa.

O nosso trabalho também é muito solitário.

É muito solitário.

É muito à volta de casa.

É, portanto aí ele vem mesmo obrigar-me a sair e até definir horários, porque eu também sou péssima a definir horários.

Ajuda-te a criar uma rotina, não é, se calhar?

É isso, ajuda na rotina, mesmo a criar disciplina. O cão tem de sair a esta hora. A parte boa é que eu levo-o para quase todo lado, portanto às vezes quero trabalhar num café, consigo levar o Monty.

Sim, hoje em dia também os sítios são todos muito preparados, são pet friendly, não é?

É isso, portanto dá para dar a volta.

Tu sentes que precisas muito de rotina na tua vida? Imagina, mesmo o cycling vem te trazer isso, vem te trazer tipo duas aulas por semana ou o número que for, certinho.

Sim, também.

Precisas disso?

Também preciso.

Não é? Mesmo sendo go with the flow.

Eu preciso da minha rotina. Já, lá está, na questão de viajar, deem-me uma cozinha, por favor, para eu ter a minha rotina matinal com as minhas coisinhas, por favor.

Com o leitinho.

Por favor, não me tirem isso. Lá está, dentro do desconforto, eu tento procurar esse conforto.

Olha, e de que forma é que, por exemplo, esta viagem que tu fizeste foi diferente da que fizeste depois com a Maria para a Austrália?

Foi completamente diferente, porque lá está, aí já tive a companhia.

Tens companhia, mas também é longe, é um desafio.

Mas foi completamente diferente. Lá está, felizmente tive a preparação do Havaí em termos de tempo no avião. Eu estava assustadíssima com o tempo no avião, porque estava a passar por uma fase um bocado ansiosa de viajar. Não gostava de estar em aviões. Mas felizmente o Havaí também ajudou-me a relativizar, está tudo bem Tudo bem, estou em imenso avião neste momento no ar.

Eu normalmente penso: é mais perigoso andar de carro do que andar de avião.

É isso.

É pôr essas coisas na cabeça.

É turbulência, é roller coaster. Bora, shake it up! É giro, é divertido. Aí ajudou-me mesmo a relativizar. Portanto, a viagem até lá nem me custou. Pensei: "Olha, perfeito, aproveito este tempo para estar off. Offline, vamos. Filmes, meditar." Na maior. Aí ajudou muito. E depois, como estava com uma amiga, tinha esse conforto. Sinto que foi completamente diferente e também não senti uma conexão tão grande com a Austrália em geral. Também tinha criado uma expectativa relativamente parecida com o do Havaí. Não sei onde é que eu fui buscar isso.

Eu também tenho essa expectativa com a Austrália, por acaso.

Mas não, nada a ver. Para mim, a Austrália foi: olha, está aqui a praia de Matosinhos, está aqui a Ponte D. Luís e uma Casa da Música. Pronto, é isto a Austrália, mas em ponto grande e com homens descalços por aí.

E a correr.

Com uma boa cabeleira e um bom peitoral. Pronto, foi essa a minha conclusão na Austrália.

Mas não achas que se calhar também é diferente em termos de vibe de viagem, porque quando tu vais para o Havaí sozinha, tu vais numa de: eu estou aberta também a conhecer pessoas porque estou aqui sozinha. Então também estou convidativa, como disseste, a isso. Quando estás com uma amiga, estás confortável, não convida tanto a vocês conhecerem gente. Não sei se isso também afeta o tipo de viagem.

Sim, acho que afetou. Pelo menos, foi um gigante contraste entre o Havaí e a Austrália. Não sei se também tem a ver com o próprio povo, o americano é mesmo muito acessível. Eu estive agora em Nova Iorque e como estava com um grupo, aí ninguém vinha falar conosco.

Claro, é diferente.

É diferente estar com alguém. Também quando estava sozinha no Havaí, conheci pessoas novas. Estava eu a gravar na rua, passou um homem por mim, viu que eu estou a gravar. Era 30 anos, viu que eu estava a gravar e eu: tenho que estar atenta, não é? Enquanto mulher, estamos sempre um bocadinho atentas.

Alerta.

E ele: "Dude, what are you filming? That's awesome!" E eu: "Estou a gravar aqui umas coisinhas", porque eu estava com uma ventosa num jipe e ele: "O que é isso?" "Olha, eu faço filmagens de drones."

Olha, o senhor, não acredito.

"O sunset é daqui a uma hora. Queres que eu te grave?"

Não acredito.

Ok, este garoto só está aqui de calções, não parece ter nenhuma arma, parece pacato. "Ok, encontramos aqui daqui a meia hora?" "Ok." E assim foi.

Não acredito. Eu acho que era teu o drone.

Eu fui com este homem para o meio de um monte para ele me gravar a conduzir.

Não acredito. Imagina, eu acho que todos pensamos: como é que ela gravou aquilo a conduzir?

Eu ainda vou dar esse contexto no próximo vídeo, mas foi isso.

Estou chocada. Tu depois também contaste no vídeo que fizeste um amigo, que também te ajudou a gravar umas coisas.

Sim, esse não me ajudou a gravar, eu é que abusei dele depois. Estava eu iniciante, só ali a apanhar sol, com um sorriso parvo na cara, com a minha pranchazita. Ele passou por mim e perguntou: " És daqui?" Eu: "Não, só estou aqui de visita." Reparei que ele era mesmo local e aproveitei para lhe fazer perguntas sobre o carro, porque eu queria alugar, mas estava com receio do estacionamento. E ele: "Eu tenho um carro. Queres que te leve?"

Tu não alugaste o carro?

Depois aluguei, mas primeiro ele perguntou-me: "Queres que eu te leve a algum lado?" Eu: "Bem, claro que aceito. Distância?" "Obrigada, mas chega! Vou a pedrar de ti." E assim foi, ele mostrou-me sítios que eu não tinha conhecido. Foi na maior, definir ali logo uma distância. Obrigada, não sei as suas intenções. E assim foi, ficou um amigo.

Que giro!

Quando for ao Havaí tenho casa, talvez. Foi tão giro, isto surgiu assim, naturalmente, só por eu estar ali quieta. Quieta, a deixar existir, a deixar a vida acontecer. E assim foi.

E próximos desafios? Tem viagens que queiras fazer ou para já vais-

Estou um bocado cansada, porque sinto que estou com uma onda de azar de viagens, é tudo cancelado, atrasado. Neste momento quero estar-

Em paz. De volta ao slow living.

De volta. Acalmar um bocadinho esta loucura. Soube bem, mas vamos acalmar agora um bocadinho. Está me a fazer falta.

E em termos de hobbies que vais ter na tua vida agora, vais manter o cycling.

De enquanto manter o cycling, porque continua a ser um desafio, porque continua a alimentar isso com formação, quero estar sempre a melhorar, para já. Neste momento, é isso que está definido, mas estamos sempre a mudar.

Porta aberta.

Há sempre porta aberta.

Continuar aqui na crise de quarta idade, a descobrir.

Claro, é surfar a onda da quarter life crisis.

E passar para a próxima curva.

É isso. E não ter medo da mudança e dessas crises, sendo que há muito uma conotação negativa a não saber o que uma pessoa quer. Ainda bem que tu não sabes o que queres, estás a explorar. Mau era se soubesses que era aquilo e é aquilo até ao fim. É bom saber o que nós queremos num curto espaço de tempo. Temos de estar sempre a evoluir, isso é que é bom. Claro que depende de pessoa para pessoa.

É dar espaço para explorar.

Mas é isso. Este ano está a ser mesmo para explorar. E este ano eu espero que seja assim também, sempre daqui para a frente.

Sim, porque muitas vezes criamos aquelas expectativas de que eu tenho que chegar ali daqui a cinco anos e depois se nos trocam as voltas.

E vão trocar.

Entramos em colapso, não sabemos como reagir.

Dá tantas voltas.

Boa, estamos aqui a chegar ao final e tinha aqui umas perguntinhas para ti.

Ok.

Que é: se tens um livro que tu me queiras recomendar, que achas que toda a gente devia ler, que seja especial para ti.

Caramba. Lá está, aquele que eu estou sempre a reler também, porque é um livro que eu levei com calma, é "O Ato Criativo", mas isso não sei se é para toda a gente.

Eu amo. Está no meu top três.

Mas eu acho que qualquer pessoa devia.

Eu acho que sim.

Todos nós somos criativos, eu acho que todos nós temos aquela veia criativa.

Não é só ter um trabalho criativo

É para a vida em geral. Precisamos de criatividade para tudo, até para a parte mais matemática. É preciso, é criatividade também, tudo.

Concordo, diria que sim. Diz-me um conselho que tu tenhas recebido recentemente e que te tenha marcado.

Essas perguntas mais deep.

Mas pode ser uma coisa que tenhas ouvido num podcast, qualquer coisa assim que te tenha ficado, que tenhas guardado.

Aquilo que mais ficou foi mesmo esta maneira de ver a vida da espiral. Nós nunca estamos onde estivemos há dias atrás, há meses atrás, estamos sempre a evoluir. É mesmo por aí.

Eu costumo terminar nesta, mas eu tenho aqui mais uma para ti.

Diz-me.

Que é: se tu pudesses deixar uma mensagem à Sofia de há um ano atrás, o que é que tu lhe dirias?

Vai ser divertido! Diverte, miúda. Diverte-te, vai com a corrente. As coisas não são assim tão sérias. Pelo menos eu não quero que sejam. Com respeito sempre, mas vai com a corrente. É muito por aí.

Boa.

Por enquanto.

Adorei.

Nesta fase de vida estamos assim. Talvez para o ano vamos estar aqui um bocadinho mais sérias, mais cuidado. Cuidado com o que tu desejas, não sabes.

Eu acho que isso é um bom mantra para todas as fases de vida.

É.

É tirarmos a pressão de todas estas decisões e todas estas coisas que temos na cabeça.

Mas é tirar essa pressão, tirar esse perfecionismo que só faz mal.

E esse controlo.

E esse controlo. Gera. Criesta não, anda, vai. Aloha, meus amores. É muito por aí.

Amém. Obrigada, Sofia.

Obrigada, Lia Marianita.

Muito bom.

Supertranquilo. Obrigada, linda.

Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?