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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje eu trago um tema que fui abordando aqui e ali em alguns episódios, mas nunca fiz um episódio inteiro sobre relacionamentos tóxicos, abusivos, manipulação. Eu própria vivi uma relação deste gênero quando era mais nova. Já falei um bocadinho sobre isto, mas queria trazer uma pessoa que também tivesse vivido exatamente a mesma coisa que eu. E trago a Inês Teixeira Pinheiro, que inclusive escreveu um livro sobre o tema, a contar a experiência dela, "Ilusão", que amei. Eu recebi este livro aleatoriamente em casa e achei uma capa gira e pensei: "Vou ler, vou levar pra ler no comboio Porto-Lisboa". E li tudo de uma ponta à outra em três horas, porque a Inês contou a minha história, aquilo que eu vivi. E se identifiquei-me imenso, achei surreal a sensação ser exatamente igual. E no fundo, pensei: quero trazer aqui a Inês não só pra debatermos este tema de relacionamentos tóxicos, mas também pra perceber como é que ela saiu desta bolha e explorar o pós, como é que é o mundo do dating, de voltar a encontrar alguém, voltar a confiar em alguém e voltar a conseguir namorar depois disso. Portanto, exploramos muito este tema. Eu espero que vocês gostem, espero que não estejam a viver isto neste momento, mas que se estiverem, que ajude também a arrebentar a vossa bolha. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume? Olha, mas estavas a falar de sentires que a mulher vê umas relações muito tóxicas.

100%.

E eu lembrei-me automaticamente da série que eu estou a ver agora neste momento, não sei se viste.

"Tell Me Lies"?

Não, "Nobody Wants This".

Sim.

Já viste?

Sim, já vi.

E não achas que é totalmente o oposto, em que inverte os papéis? Eu pelo menos sinto que é a primeira vez que eu vejo uma série em que ela que é tóxica e ele é o seguro.

Sim, sabes que o que se diz da série é que na primeira temporada dizia-se: "É uma série com um amor supersaudável, incrível." E eu estava a ver a segunda e estava a pensar: "Poxa, não é assim tão incrível." Porque imagina, ela duvida de tudo que faz, de tudo que ele faz, ela está sempre a tentar fugir.

A cena do colar, de duvidar.

Sim, uma coisa que ela faz é, acontece alguma coisa na relação dela e ela não lhe diz nunca diretamente. Ela vai contar à irmã, às amigas, fala no podcast. E eu penso: "Vai só contar ao teu namorado. Olha, esse colar também deve estar tua ex, ou é impressão minha? Diz-me só." Portanto, sim, não são tóxicos.

Mas achas que as pessoas dizem que é seguro? Eu não acho que seja seguro. Eu acho é que inverte os papéis, normalmente é o homem a fazer.

A ser evitativo e a não dizer as verdades. Sim, e aqui é ele que está super tipo: "Mas vamos falar sobre isso, diz-me." Mas eu acho que ela representa 95% das mulheres. Que é tipo, vou contar à minha amiga e vamos falar 75 horas sobre isto, em vez de simplesmente lhe perguntar: "Olha, por que fizeste isto?" Que é uma cena que é tipo, perguntem só. Se é o vosso namorado ou a vossa namorada, se vocês confiam e gostam, perguntem só diretamente.

Mas achas por que não perguntamos? É medo de ser rejeitada, I guess?

Sim. Primeiro, acho que grande parte dos homens não te vai dar uma resposta sincera, porque nem todos os homens são o Adam Brody. Portanto, vão mentir-te, vão fugir, vão dizer que estás maluca, por que você está a perguntar isso. Isto é capaz de acontecer e, portanto, se calhar, pra evitares, não sei, não perguntas. Mas não sei, o que você acha?

Eu acho que é o medo da rejeição.

Pois é.

Ou seja, estamos a falar de uma mulher que é insegura, tem o estilo de apego, como estávamos a falar antes, de ansiosa, de se esta relação acaba, eu sou menos.

Sim.

Eu acho que é muito isto.

E eu não o quero perder.

Então vou esconder tudo e vou parecer que está tudo bem.

Exato.

E que sou mesmo superchill.

Sim, e não lhe dizer, porque em todos os episódios há 10 minutos em que eles não se falam, mas está tenso de chegar à casa. "Então como é que foi teu dia?" "Foi bom, e o teu?" "Também." E eu penso: "Não!"

Mas eu gosto do fucking ser real, porque isto acontece. Eu acho que não é mostrado em filmes e séries isto.

Sim, 100%, mas eu também.

Eu estou a ver várias coisas, eu relaciono-me. Eu sei que isto também é um erro que eu faço.

Mas fazes isso ainda?

Um bocadinho. Faço um bocadinho.

Ok.

Mas eu acho que isso também é uma constante aprendizagem e eu acho que a série também mostra isso.

Sim.

É evoluir em conjunto.

Sim, e há uma coisa que eu acho que é: estás meio chateada, não estás bem a processar o que está a acontecer, não falas logo. É super ok o "baby, dá-me uma hora, duas horas, um dia, e eu quero falar contigo, mas agora não estou capaz." Eu acho isso incrível, acho que toda a gente, se precisa, devia adotar. Eu preciso. Imagina, tu irritas-me agora, eu não te consigo dizer logo aquilo que tu me magoaste. Eu tenho que esperar algum tempo, processar, pra depois dizer-te politicamente correto aquilo que eu sinto que tu me fizeste. Acho que isso é de adotar. Isso não acontece na série.

A outra pessoa, percebes de que forma é que também lida com conflitos.

É isso. Sim, pensares tipo: "Faz sentido eu estar chateada, irritada. Será que é problema meu? Será que eu tenho razão?" Acho que é fixe as pessoas pensarem um bocado nisso.

E tu tiveste todo esse relacionamento tóxico que acabaste por explorar no livro. Que eu li o teu livro, eu contei-te na altura, mesmo rápido.

Eu acho que foste a recordista. Eu já te disse.

Eu amei. E estava mesmo agora, antes do episódio, a falar disto, que eu sinto que como eu já vivi uma história bastante parecida quando eu era mais nova.

Tu tinhas quantos anos? Tu ainda não me disseste.

Tinha 15 quando comecei.

Até aos 20.

E foram quatro anos e meio. Portanto, foi bastante tempo e foi naquela altura em que eu também estou a crescer, estou a descobrir quem sou e não sei nada sobre relações e acho que aquilo é normal. Portanto, acho que justifica mais o eu ter ficado mais tempo, o ser nova. Mas eu estava a pensar sobre isto, que foi tanto tempo e eu vivi tantas destas coisas que reconheci no teu livro, mas como já foi há muito tempo, foi há oito anos, maior parte já não me lembro. Apaga-se da minha cabeça. E ao ler o teu livro, foi tipo Oh meu Deus, é exatamente igual! Por isso é que eu gostei tanto, porque achei que foi uma leitura muito leve, mas muito relatable. Identifiquei-me em imensas coisas. E é isto também que quero explorar um bocadinho no episódio. Fiquei com vontade de saber mais do pós, como é que foi depois disto. Como é que tu estás? Porque se quiseres explicar um bocadinho da história do livro, o que é que tu contaste, até que ponto é que contaste.

O livro fala de uma jovem que está na vida dela. No segundo capítulo, conhece uma pessoa, começam a namorar, namoram dois anos, mais ou menos. Entretanto, acabam. Há um pequeno capítulo, um teaser da próxima relação dela, que acaba por não funcionar, e isto está dito no livro. E o livro acaba aí. E de facto, tu quando leste o livro, disseste: "Eu quero saber o pós." E eu: "Fogo!" Eu já pus a outra relação e tudo, depois falei contigo sobre isso e tu: "Não, mas conta-me como é que é o teu dia a dia a seguir, etc." E ok, então vamos falar sobre essas duas, que é muito mais interessante do que estar a escrever.

Mas tu tinhas que idade quando começaste a relação?

Eu acabo a faculdade com 21 anos, tinha 21.

E quando tu entras, tu identificas logo que é uma coisa pouco saudável ou só mais para a frente?

Sim. Obviamente que as coisas vão ficando cada vez piores, mas muitas pessoas dizem: "Mas foi só a certa altura que se começou a revelar." Não. Primeira mensagem, primeira chamada, primeiro date, estava lá.

Então como é que te faz ficar? Ou faz crer?

Porque imagina, eu pergunto isto, porque quando eu entrei, eu não sabia melhor.

Como é que era contigo?

Eu não sabia melhor, porque eu tinha 15 anos e oh meu Deus, é um menino mais velho que está a se interessar por mim.

Um menino mais velho.

Mas percebes o que te quero dizer?

100%.

Eu não sabia nada da vida. Nunca tinha tido um namorado. Então era tipo: "Oh, meu Deus."

Foi primeiro beijo e não sei o quê ou não?

Não foi o primeiro beijo, foi o segundo beijo.

Ok.

Para mim, as minhas amigas também não namoravam, não me conhecia melhor, para mim aquilo era o normal. Por isso é que eu pergunto, como é que funciona em idade adulta tu identificares red flags e quereres na mesma?

Sabes que eu acho que o motivo pelo qual eu fiquei, apaixonei é igual ao teu, mas obviamente que noutra idade, que é: ele é uma pessoa incrível, ele é inteligente, ele fala bem, ele consegue as cenas eu estar aqui com ele é uma bênção, é uma coisa positiva para mim. Como se eu fosse a pior pessoa do mundo.

Falta de confiança em ti, então.

100% amor próprio lá embaixo. Mas foi de se ele quer estar comigo, eu tenho sorte. Desde logo, ele é perfeito, eu não concordo com isto. Primeiro date foi logo: "Olha, desculpa lá, não concordo nada com isso, vamos discutir isso." E era de: "Ok, mas eu vou mudá-lo. Ele é um cara incrível profissionalmente, etc. Eu, se conseguir meter bons valores de relação, ele fica fixe e nós conseguimos estar juntos."

É vivermos já nas projeções de que vai ser o namorado perfeito, vou casar com ele, ter filhos.

Sim, um bocado.

Era isto.

Tinhas que idade?

21.

21.

Sim, 21.

E depois as coisas foram escalando cada vez mais.

Sim, cada vez mais. Fomos morar juntos. Quase um erro.

E as pessoas à tua volta reparavam e diziam alguma coisa?

Desde logo. A minha melhor amiga, desde logo. E eu no início contava-lhe tudo. Porque ele chamou-me isto, ele disse isto. Eu não tinha a mesma cena no início de não vou contar para ela deixar de gostar dele. Não, eu dizia-lhe tudo. E ela foi aos poucos dizendo: "Inês, isso não é muito fixe. Inês, tu sabes que isto não é ok." Eu pensava: "É." E ela: "Então, não vamos fazer nada em relação a isso?" Depois ele ligava-lhe a ela a tentar falar mal de mim, coisas assim do gênero. E era meio grupo de amigos, portanto, ficou ali tudo minado, ninguém gostava dele. Só que o que ele fez foi, aos poucos: "Vais deixar de falar com esta e com esta porque ela não gosta de ti, é que ela tem ciúmes teus, é que ele não gosta de ti por amizade, ele, na verdade, é apaixonado por ti, ele aproveita-se de ti." Pronto, e eu acabei por ficar sozinha.

Vai se afastando de amigos capazes.

Sim, eu zero amigos. Eu tinha uma amiga, mas de resto, zero, durante este tempo. Mas como é que foi contigo? As tuas amigas eram miúdas, como tu.

Éramos do secundário. Aquilo que me lembro, principalmente, é que tinha, na altura, dois ou três amigos muito próximos, rapazes. E aí foi logo corte total. Não podes ter.

Foi mesmo não podes ter?

Não podes ter, não podes usar o Snapchat, por exemplo, na altura, não podes ir jantar fora sem ele estar presente. Muitas coisas assim, muitas discussões quando eu queria ir a uma festa ou isto ou aquilo e não me deixava e eu queria na mesma, mas acabava depois por não ir, não ir a viagens de finalistas, coisas assim.

Ok.

Mas eu justificava sempre, e também queria perceber do teu lado o que é que na tua cabeça se passava, porque para mim era uma bolha em que eu gostava tanto dele, eu vou fazer aquilo que ele me está a pedir para o bem da relação e porque eu gosto tanto dele.

Pois, percebo, pela idade e por primeira relação, eu não tinha nada isso. Eu vivi a relação inteira contrariada, porque eu dizia: "Eu sei que eu tenho razão, eu sei que os meus valores é que estão bem."

Insegurança.

Porque eu não bebo, porque eu quero me controlar a toda altura e eu não fumo, porque eu não vou deixar que nada afete o meu corpo e eu não vou sair à noite, porque isso é de pessoa que quer andar à procura. E portanto, eu pensava: "Ele é supersaudável e tem a vida tão no sítio, que se calhar ele tem razão." Então era: "Mas eu acho que tem razão, mas pronto, se calhar até me vai fazer bem ser um bocado mais como ele." Ou seja, ele não me convencia, mas eu fazia as coisas de vamos tentar. Não sei.

Mas sempre a pensar no futuro da relação? Ou seja, o contrariá-lo, o que te assustava em contrariá-lo?

Perder-me.

Porque estás perdida.

Não, perder a Inês. Ou seja, eu fui ficando cada vez mais ele. E chegou a um ponto em que eu era: "Eu não sei no que acredito. Eu não sei o que gosto." Porque todas as decisões que eu tomava era com o mindset dele, porque ele acha isto, ele acha aquilo, e eu fui apagando aquilo que acreditava. Isto aconteceu. E uma cena que é muito engraçada, porque é diferente da tua relação mais jovem, que era uma relação mais jovem. Eu já tive imensos rapazes a dizer-me: "Tu não vais fazer isto, tu não podes fazer isto." O meu primeiro namorado virou-se para mim a uma altura e disse: "Tu tens de emagrecer, porque eu sou giro e não sei o quê, e portanto tu tens de emagrecer para ficarmos giros ao lado um do outro." Isto é chocante. Mas hoje em dia, uma pessoa de 20 e tal anos não te vai dizer: "Mariana, tens de emagrecer", mas vai te dar pistas. Vai te dizer indiretamente e, portanto, ambos continuam a limitar-te, mas de maneira completamente diferente, ou seja, com uma inteligência diferente, não é? Mais velhos, que é horrível.

Já sabem onde atacar, mas de forma mais soft.

Exato, sim.

Também tive desses comentários.

Tiveste?

Não de emagrecer, porque eu era extremamente magra, mas de "não tens rabo, precisas de ir para o ginásio." Eu lembro perfeitamente deste comentário e fui para o ginásio por causa disso.

A sério?

E uma miúda.

E ele tinha o melhor corpo do mundo?

Era atleta.

É que eu queria que dissesses que não, e ele. Ok, perdão. Não, não é. É horrível.

Mas o que achas que são aqueles sinais evidentes? Imagina, hoje em dia tu consegues ver pessoas em relações deste género e identificar: "Ok, ela está num relacionamento tóxico."

De cinco quilómetros de distância.

E quais são os pontos que tu achas que são tipo ativa o sininho?

Imagina, há certo tipo de coisas que numa relação tóxica eu não cairia, digamos assim, mas há outras em que sim, e portanto, isto muda imenso de pessoa para pessoa. Mas eu no outro dia estava a falar com uma rapariga e ela estava a me contar e tudo o que ela contava, eu dizia: "Claro que isso aconteceu e também acontecia isto." E ela: "Sim, como é que estás a adivinhar tudo?" Porque o padrão de rapaz é superparecido com o meu ex-namorado e eu consigo estar a prever tudo o que ele vai fazer e de cenas que existem e o que ele pensa e como é que ele age. Então as coisas são. Neste tipo de padrão específico de rapaz que é tipo "a pessoa é incrível e a minha namorada também é incrível, mas tem ali algumas coisas que é um bocado descontrolado e um bocado rebelde, que não pode ter", que são: acha-se incrível, acha que só ele é que tem razão. Imagina, por exemplo, tu tens um podcast e eu agora se fosse esse caso, chegava aqui e dizia: "Pois, Mariana, tu faz o teu podcastzinho, mas eu que tenho este negócio e vou te ensinar melhor a gerir o teu podcast."

Acho que isso é falta de confiança nele.

100%.

Que acaba por atacar para rebaixar a outra pessoa.

Porque se não vivem bem. Portanto, isso é uma delas, de ter visões muito limitadas de amor e sexualidade, de para namorar é preciso isto e isto, aquela cena de que as pessoas que vão sair à noite é para darem aos beijos umas com as outras e coisas assim do gênero.

O controle.

Sim. E o controle, lá está, pode ir de "não usa essa saia, não usa esse batom. Não achas que é um bocado estranho tu ires jantar com um rapaz?" Até te pôr a questionar isto. Fazem estas perguntas de "não sei, coisas assim do gênero. Achas mesmo que ele gosta mesmo de ti como amiga?" Coisas assim do gênero.

Tu estás até segura nisso, mas depois põe-te a pensar. Aquela parte que eu selecionei aqui do livro para ler é muito disto. Vou ler. É muito disto. "Será que ele tem razão? Quando me acusa de algo, acredito mais nele do que em mim própria e fico automaticamente com vergonha de o ter desiludido. Há um segundo sabia que não tinha feito nada de errado, mas neste momento já não tenho tanta certeza, já não tenho certeza de nada." É começares a duvidar de ti.

De tudo! Eu tinha uma que ele dizia: "Nunca me vais ver olhar para uma mulher na rua, nem a olhar nojento de cima a baixo. A reparar, não me vais ver a fazer isso, porque eu controlo-me, eu não faço esse tipo de situações, muito menos quando estou contigo, não sou essa pessoa." Eu sou a pessoa que, imagina, já me apaixonei por 170 pessoas na rua, entre aspas. "Olha, e não sei o quê, aquele olhar." Eu gosto disso. Sou uma pessoa, não sei explicar, mais de pessoas, mais de toque, etc. E então eu tinha muito isto com ele. Uma vez estávamos no autocarro, e estava um rapaz giro. Lembro-me que ele estava com uma raquete de ténis à minha frente, eu estava a reparar na raquete, depois olho para a cara dele, eu estava sentada, ele estava à minha frente. E saímos do autocarro e ele: "Achas bem o que fizeste?" "O quê?" "Estavas ali a olhar para o gajo, só faltava o que ias saltar para cima dele." E eu: "Que gajo?" "Não te faças de burra, sabes perfeitamente do que estou a falar." Eu sabia. Eu tinha olhado para o gajo, mas eu não tinha olhado para o gajo tipo "bora trocar estes meus namorados?" Claro que não! E então, imagina, isto era diário ao ponto em que imensas vezes eu andava com ele na rua assim, não olhava para cima, porque eu sabia, vai haver rapazes e vamos trocar olhares e vai seguir uma discussão de cinco horas e meia comigo assim aos berros, a odiar de cada momento e, portanto, evitava só. Então não vou olhar para cima. Ridículo, é tão triste isto.

É mesmo triste. E quando estás dentro, tu reparas, sabes que isso está errado.

Sim, mas eu prefiro isso a discutir cinco horas. É horrível.

E quem está dentro, por que não consegue sair?

Já tenho mais ou menos uma resposta para isto, que é: metem-te numa bolha. Diz "este é o nosso mundo, com as nossas regras, só nós é que sabemos, ninguém lá fora nos compreende, nós somos o melhor casal do mundo."

Totalmente.

E, portanto, nós vivemos um para o outro. "Eu sou tudo o que tu precisas, tu és tudo aquilo que eu preciso."

E depois também tens momentos bons. Claro. Lá está, tu fazes a bolha porque é muito confortável, é muito querido.

"Eu faço isto porque eu gosto tanto de ti. Sou a pessoa que mais gosta de ti neste mundo."

Sim, que o vosso amor é tipo de filme de Hollywood. E então tu vives confortável na bolha. É tudo exatamente igual. Tu falas com as pessoas e eu falei contigo à chatice, parece que és namorado, coisas de ser igual. E portanto, tu vives na bolha e estás confortável na bolha, vais ficando sem amigos, vais ficando sem confiança, não tens eventos sociais, começas a ficar: "bem, se eu sair, eu não sou ninguém. Quem é que eu sou para além desta bolha? Não sei." E é aí.

Essas pessoas são todas narcisistas?

Narcisistas? Não sei. Imagina, acho que aquele estereótipo marido de 70 que bebe e que faz violência física, acho que isso não é necessariamente um narcisista.

Não, também acho que não.

É isso, eu acho que não. Agora, este tipo de casos que faz uma violência mais psicológica, acho que sim. Não sei se tem sempre de ser, mas acho que há um diagrama de Venn muito juntinho, digamos que sim. E tu, o que achas?

Achas que isto é consciente?

Não, de todo.

Pois, também acho que não. Tem a ver com os estilos de apego. Se calhar, como cresceram.

Sim.

Muito trauma familiar. E estão mal um com o outro. Estás mal contigo própria, então queres sentir-te acima de alguém, então vais rebaixando a pessoa com quem tu estás para te sentires sempre confortável quando estás com ela. Não sei, acho que pode vir daí.

Não, total. Eu acho que o narcisismo e este tipo de relações está muito taco a taco, porque acho que é muito a falta de autoestima da outra pessoa também, quer elevar o ego, muito isto.

Sim, e nós caímos. Por que acabaste com o teu namorado?

Foi uma coisa que fui desligando. E depois, a partir do momento que fez o clique.

Já me tinhas contado, aquilo de deixar de gostar dele.

De deixar de gostar dele.

Mas por quê?

Foi principalmente porque tudo isto foi no meu secundário e depois eu passei para a faculdade. E na altura da faculdade foi novo mundo, novas amizades, falar com pessoas. Lembro-me de uma conversa que tive especificamente com uma amiga minha que tinha um relacionamento supersaudável e estávamos a discutir este tema e eu comecei a contar coisas. E tu cresces, e maturidade é tipo, começas a questionar se calhar esta bolha já não é assim tão o sonho como eu achei. Se calhar existe mundo para além disto. E começas a questionar. Depois a partir daí, parece que as coisas vão desligando e quando o botão foi desligando. Que não há botão, foi gradualmente.

Sim, foste saindo. Ou seja, estavas na bolha, vais para a faculdade, começas a conhecer pessoas, começas a aprender coisas, a ter novos interesses, a conhecer uma nova Mariana e ficas tipo: "eu não preciso da bolha."

"Eu se calhar sou capaz."

"Eu se calhar não preciso dele."

"Eu estou ótima assim." Uma coisa que te queria perguntar, tu quando estavas nesta relação, tu achavas que era a pessoa com quem tu querias casar?

Imagina, eu sabia ou que não ia resultar, ou que eu ia ser tremendamente infeliz a vida inteira. Porque eu pensava, imagina, nós namoramos há um ano e num ano nós discutimos todos os dias, todos os dias berramos, todos os dias eu saio de casa. Se nós continuarmos assim, a minha vida vai ser infeliz. Mas, por outro lado, era aquela coisa de, mas é tão intenso. E ele dizia. Não sei. Eu pensava, se calhar até vamos ficar juntos, mas eu sei que não vai ser uma coisa fixe. Eu sei que não é aquilo que eu idealizei. Eu tinha muito a coisa de eu não quero ter filhos. E eu dizia-lhe imensas vezes: "Eu não quero ter filhos". Sempre que aparece um bebê, eu gosto de bebês, gosto de interagir com eles, tenho três irmãos pequeninos. E ele dizia: "Vês como queres ser mãe?" Eu tipo: "Mas eu não quero." E ele: "Queres sim, vais ver que queres." Ou víamos uma roupa de um bebê, que toda a gente acha fofo, é objetivamente fofo, uns sapatos ou assim, ou então um querido, e ele: "Pois, porque tu queres ser mãe." Eu tipo: "Não quero!" Não sei, estava um bocado indefinida, a minha vida estava indefinida.

Sabias que a longo prazo, se calhar, as coisas não iam estar assim tão alinhadas, mas para já, deixa andar.

Para já estava. Sim.

Tu tinhas isto, tu eras pequenina, mas se calhar tinhas a noção de amor da minha vida.

Eu era pequenina, mas eu sabia, deep down, que eu não queria ficar com aquela pessoa para sempre.

Pois.

O que é estranho é tu estares numa relação a pensar que no futuro eu não quero. Só neste momento ainda não sei bem como sair. Eu acho que era mais isto na minha cabeça.

É muito complicado. Lá está, é cena da bolha, eu sei que existe toda uma Mariana que vai para a universidade, mas eu ainda não estou lá e portanto eu não consigo sair para já.

E o que eu sentia, não sei se sentias a mesma coisa, era: se eu acabar isto, vai ser um sufoco, porque eu não sei como viver. É isto. Eu já não sei existir sem o meu oxigênio, digamos assim.

Sim. Eu lembro que nós acabamos umas três vezes, mas a primeira vez que acabamos, eu fiquei a chorar na cama dois dias inteiros com uma dor que eu nunca tinha sentido.

Porque primeiro amor. Tu tens muitas camadas, porque tens relação tóxica, primeiro amor que 100% ficas a chorar dois dias.

Foi superintenso e era mesmo aquela sensação que eu estava a tentar evitar quando estava na bolha e não queria sair.

Mas não repensaste vamos voltar?

Eu não me lembro, mas eu acho que esta primeira vez foi ele acabar comigo, a última já fui eu, e quando fui eu foi tipo ok, já estou supersegura da minha decisão e foi embora.

Sim.

Agora, quando foi ele, eu acho que aí foi uma dor. Eu ainda me lembro da sensação.

Não com o meu ex-namorado, mas acabar com o meu primeiro namorado foi, percebo perfeitamente. É chorar. Nunca vou ser feliz, nunca vou ter ninguém.

Não, é isso. É pensares que vou ficar sozinha para sempre. Uma miúda com nem 20 anos achar que vai ficar sozinha para sempre.

Não, mas na altura vamos validar os sentimentos. Na altura é superpossível.

Mas como é que foi contigo quando acabaste este relacionamento? Foste tu?

Sim. Foi muito parecido com o que conto no livro, essa parte eu não me zoi. Foi discussão por questões domésticas. Lembro perfeitamente, ele chega a casa, eu estava a escrever a tese de mestrado, então eu passava os dias em minha casa. Tinha acabado um estágio, tinha acabado Erasmus, eu fiz Erasmus em Lisboa, estranho. Então eu passava o dia em casa a trabalhar. Eu tinha arrumado a casa. E ele chega e eu: "Olha como é que está a casa." Eu digo: "Inês está exatamente igual." Eu: "Não, está literalmente tudo diferente. Eu arrumei tudo." E ele: "Mas o que é? Queres que eu te cante os parabéns sempre que arrumas a casa?" Eu digo: "Desculpa, tu nunca fazes nada." E de repente eu fiquei: "Eu não acredito que eu estou a ser esta pessoa. Eu estou a ser esta gaja que está em casa com o namorado e que arruma e que ele chega e diz não fizeste mais do que a tua obrigação." Eu pensei: "Eu não sou mesmo esta pessoa, nunca pensei vir aqui ter." E fiquei com essa. Entretanto, nós não éramos de Lisboa, portanto, íamos passar o fim de semana nas nossas respetivas casas de família. Entramos no carro e ele vai à bomba e eu fico da garagem até à bomba a reclamar das cenas domésticas. E ele está calado, o que é super raro. As nossas discussões eram o oposto, eu calada e ele sempre a falar. E eu digo: "Não vais dizer nada?" E ele: "Não." Eu: "Ok." Ele vai pôr a gasolina, entra no carro, primeiro minuto da A1 e eu: "Olha, temos de falar." Entretanto, um amigo liga, o melhor amigo dele, eles eram do mesmo partido político. Eles estão a discutir um escândalo do governo e estão a concordar exatamente um com o outro, estão a dizer exatamente a mesma coisa. E ele começa a insultar o amigo, a reclamar com ele, a ser mesmo má pessoa. E então foi, ele irritou-me das tarefas domésticas e eu fiquei: "Inês, tu não queres ser esta pessoa." E depois vi-o a ser mesmo má pessoa, porque ele era mesmo má pessoa, comigo também, mas eu não reparava. Com o amigo. E ele desliga a chamada e eu: "Olha, temos de falar." "O que foi?" "Olha, eu quero acabar, eu não quero isto." "Com quem é que falaste?" Quem é ele? Clássico. Eu ri-me. Eu: "Não é ninguém." "Quem é que te pôs isso na cabeça?" Eu: "Ninguém, eu consigo tomar as minhas próprias decisões." E a partir desse segundo, eu fiquei: "Eu não quero isto."

Ficaste: "Eu consigo. Agora vou até ao fim."

E foi a viagem mais engraçada da minha vida. É horrível. Mas imagina três horas, porque ele foi me deixar ao Porto, portanto, Lisboa-Porto, de uma pessoa a chorar e a outra-

Tu estavas-

Sim, mas eu fiquei: "É o momento, eu mereço isto." Eu estive dois anos ou ao contrário.

Mas como é que não te custou vê-lo a chorar?

Zero.

A sério?

Zero.

Mas qual foi o clique que fez na cabeça? Porque de certeza que discussões e essas situações aconteceram várias vezes. Por que essa limpeza específica?

Porque eu acho que foi vê-lo a ser má pessoa com outra pessoa.

Mas não tinha acontecido isso?

Já, mas não sei. Foi de ser tão gratuito, de por que estás a insultar o teu melhor amigo quando ele está a dizer exatamente o mesmo que tu?

Conseguias te pôr de fora e ver a situação e pensar.

Sim, porque baixas as pessoas, és uma pessoa, não quero. E então ele acaba a chamada e eu não sei, Mariana, foi algo que se apoderou de mim e eu fiquei: "Estou livre." E a partir de então foi: "Estou livre." E cheguei a casa.

Cantou a bolha nesse momento.

Sim, boa.

Agora respiro e posso tomar uma decisão.

Foi de chegar a casa, ele deixou-me em casa, eu chorar. "Vamos conversar." Ele: "Não há nada a conversar", porque eu sabia que se conversasse, manipulação, etc. Eu não quero conversar. Mas um abracinho, um beijinho. Não. "Estás a gozar, Inês, nós moramos juntos."

Não pensaste: "Estou a ser insensível"?

Sim. Mas fiquei: "Mas eu mereço." Ou seja, imagina, obviamente que é ok acabares com uma pessoa com quem tu andas há dois anos a dizer vamos só acabar. Claro que não. Se eu merecia? Merecia. Quando estás numa relação assim, era a única maneira, porque eu tentei várias vezes desvincular-me daquela relação. Não dava.

Mas tentaste várias vezes acabar e não conseguias.

Sim, nós tínhamos discussões e acabávamos. E voltava sempre. E portanto, desta vez eu fiquei: "Tu tens mesmo de ser forte. Vai, rip the Band-Aid, aquela cena de 10 segundos de coragem." E foi.

Falaste com alguém sobre o assunto para te ajudar a não voltares atrás? Tiveste aqueles second thoughts de não.

Sim, foi mesmo engraçado. E eu acho que aqui as amigas têm mesmo o papel principal, porque eu não falei com a minha melhor amiga durante dois anos. Nós começamos a namorar, chateamo-nos passado dois meses, e então tinha passado um ano e tal, quase dois, eu não falava com ela. Entretanto, eu fiz as pazes, que também me chateei com a minha prima, fiz as pazes com a minha prima, que também é deste grupo de amigas, fiz as pazes com a minha melhor amiga e na primeira volta de carro, o nosso programa, que vamos dar as duas juntas, ela tipo: "Então e a tua relação?" E eu: "A minha relação é mesmo incrível, estamos mesmo felizes." E ela: "Fogo, então tu sempre tinhas razão, nós é que estávamos erradas." E eu: "Sim, é mesmo confortável, ele é incrível, etc." Pronto, e ela ok. Na segunda vez que estive com ela, passado três dias depois, ela: "Então, como é que estás?" E eu: "Eu não gosto dele." E ela foi mesmo engraçada, ela conta que ela estava: "Ok, não digas nada, não sejas extrema, não te podes afastar a Inês. A Inês finalmente é tua amiga." E ela: "A sério? Então o que achas?" E eu: "Ele fala mal, ele é mau comigo." Comecei a contar alguns episódios, alguns que até estão mais ou menos no livro, e ela estava: "Inês, ele é horrível." E eu: "Ele é, não é?" Porque eu não tinha ninguém para fazer isto. Eu não tinha ninguém a dizer: "Isto não é ok, pois não?" E as pessoas: "Não."

Porque tu no início ainda contavas as coisas, não é?

Sim.

E depois vais deixando de contar.

Sim, não tinha ninguém para contar. E então eu digo-lhe: "Mas como é que eu vou sair? Nós vivemos os dois juntos em Lisboa." Ela é do Porto. E ela disse: "Olha, mas a tua prima está a viver em Lisboa." Eu: "Ok, mas só agora é que eu e a minha prima fizemos as pazes, se calhar é demasiado." E ela: "Inês, ela vai estar sempre lá para ti." Isto foi uma semana antes de acabarmos. Ou seja, pode ser outro fator, estás a ver? De eu já tive um sítio para onde ir e fui para casa da minha prima.

Que engraçado, porque imagina, fazendo o paralelismo de quando eu entrei para a faculdade e comecei a também ter outras amigas, foi pensar: "Ok, se calhar tenho também aqui um sistema de apoio."

É literalmente isso. Eu já consigo existir sem ele novamente. Porque numa relação saudável, tu existes sem a pessoa e a pessoa está a dar-te a mão. Quando tu estás numa relação tóxica, o teu mundo é a pessoa e tu não és mais nada, não tens espaço nem liberdade para fazeres mais nada. Pronto, e então é muito difícil.

Eu vivia na altura, no secundário, vivia muito numa bolha. Afastei-me de amigos, rapazes, acabou as amizades, mas mesmo de amigas, afastei-me praticamente de toda a gente. E só quando acabei o relacionamento é que eu voltei a dar-me com as amigas do secundário, que hoje em dia são das minhas melhores amigas.

Ok, isso foi giro. É isso.

É exatamente igual.

Porque depois as amigas dizem: "Mariana, isso é errado." E no início diziam muito. E eu: "Mas tu não sabes, porque tu não fazes parte da bolha e tu não tens um namorado, então está caladinha. E eu vou continuar aqui a fazer a minha."

Mas no fundo sabias que elas tinham razão.

No fundo sabia, mas estavam a criticar.

E tu silencias essa voz.

E até que chega a um ponto em que deixam de insistir. E afastam-se.

Claro.

E depois estás sozinha nisso e ainda mais custa sair disso. Porque não tens a voz da razão. Eu lembro-me de estar N vezes no sofá, agarrada assim aos cabelos e estar: "Tenho razão ou não? Eu fiz bem ou não?" N vezes que eu disse isto: "Eu acho que sou eu a tóxica na relação."

Eu pensava isso também.

"Ele tem razão, sou eu que sou isto e aquilo, e sou eu que sou má com ele." E depois pensar: "Não, Inês, tu estás bem, ele é que é mau contigo, tu não mereces isto." E ficar: "Eu não sei, eu estou tão confusa, eu não sei nada."

Mas já tinhas tido uma relação saudável ou não? Ou outro tipo de relação que fosse-

Eu sempre tive muitos namorados. A minha vida inteira, desde os 13 anos, foi namorado. Portanto, tinha muitas relações. Se tu me dissesses: "Já tinhas tido até aquele momento aquela relação ótima em que tu gostas genuinamente da pessoa e está tudo bem?" Não, nunca tinha tido. Nunca. Porque eram todos superabusivos de todos, mas uns porque eram muito novos, eu também, outros porque queriam sempre mudar alguma coisa em mim. Ou seja, todos gostavam de mim até certo ponto. "Mas tu és demasiado feminista, tu falas demasiado alto." Eu não me sentia 100% confortável com nenhum e daqueles que eu gostei mesmo, ou eu não gostava e era uma relação ok, ou não era uma relação muito fixe e eu gostava mesmo. Não sei.

Mas nada a este ponto.

Não, nada a este ponto. Briefly, quando eu tinha 13 anos, mas não conta. Portanto, não, nunca tinha tido nada assim.

E como é que a tua família reagia a ver-te nesta relação?

Houve a minha prima e a minha tia que no início ficaram: "Nós não adoramos esta pessoa", de perfil. Mas eu acho que grande parte da minha família, mas da minha família também do pai, não se apercebiam, porque víam-nos, nós estávamos superunidos quando estávamos juntos e super com piadinhas e viam-me finalmente a gostar de um rapaz e a ir morar com ele e a fazer planos e a acalmar um bocado, obviamente. E então achavam que eu estava só a crescer. O namorado do meu pai disse-me no outro dia: "Tu estavas tão bem, estavas tão adulta, eu via-te numa relação tão adulta. Eu nunca pensei que fosse assim tão mau." Tive uma conversa com a minha prima no outro dia em que ela me estava a contar como é que foi receber-me em casa quando eu acabei a minha relação. E ela disse: "No início foi ok, eu agora tenho que abrir espaço na minha vida para ajudar a Inês, que ela está triste" e que ela passado uns dias, ia sabendo mais coisas, ia vendo o meu estado grave e começou a ficar, ela própria assim: "Então espera lá." Porque a minha prima chegou a conhecê-lo e chegou a ir à nossa casa. Então ela dizia: "Então daquela vez que isto aconteceu, ele não estava a ser querido." Ela própria começou: "Isto tem uma dimensão que eu não sabia que isto tinha." Ou seja, as pessoas não tinham como saber, era impossível.

Ele já fazia parte do teu dia a dia familiar, de ir a aniversários e festas.

Sim, algumas coisas, sim.

Isso também influencia.

Super.

Depois é assim, toda a gente conhece, já faz parte da família, já moro com ele.

E é super educado, é giro. Ou seja, tem aquela coisa de-

Tem tudo.

Sim.

Todos os checks.

Sim, mas depois tinha ali algumas coisas que...

E depois como é que foi quando acabaste?

Ok, agora vamos entrar no tabuado que tu querias. Como é que foi? Foi uma semana depois, eu estava: "Estou pronta. Dating life, vamos?" Claramente não estava nem pronta, mas eu estava: "Eu não quero. Eu não quero que ele seja a última pessoa que eu dei um beijinho, que eu dei um abraço, que eu gostei. Eu não quero." Eu comecei com o primeiro passo, ele eliminá-lo da minha vida. Portanto, não vamos falar, não vamos seguir, não ter contacto nenhum. E agora eu vou. Vou a muitos cafés, vou a muitos copos com os meus amigos, vou fazer várias atividades, vou focar-me no trabalho para voltar a ganhar a minha individualidade. E portanto, começou assim.

Mas quão difícil foi de descobrires as coisas que gostavas sem ele, o dia a dia?

Não foi difícil. Imagina, eu sinto que a Inês parou naquele dia em que o conheceu e aí foi tipo retomar a Inês. Obviamente que psicologicamente eu estava supermal e cheia de dúvidas, mas eu estava com vontade de viver. Eu estava: "Há dois anos que eu não vou sair. Eu quero ir sair, estou em liberdade."

Sim.

Portanto, começou assim muito de vamos para apps.

Entraste logo no dating?

Logo. Zero preparada. Zero reflexão, zero por que acabaste aqui, vamos recentrar, zero isto. Foi logo vamos rápido, vamos pôr em andar 2.0.

Isto foi há quanto tempo? Quando é que acabaste?

Isto foi em fevereiro de há dois anos, 2023. Sim.

E como é que correu as primeiras experiências?

Ai, não, foi péssimo. Foi tudo péssimo, obviamente. E muitos momentos: "Ok, se calhar vamos parar, vamos desinstalar tudo, agora vamos parar um bocadinho." Interessante, conheci um rapaz que era um ursinho, era um rapaz incrível, fofo. E ele foi superimportante para mim, porque imagina, ele foi o colo que eu não tive durante aquele tempo todo. Ele era meu namorado e N vezes que eu chorava abraçada a ele, eu estive tão mal. Ele foi mesmo muito importante para mim.

Mas tu estiveste muito tempo sozinha antes desse rapaz?

Não. Tive três meses. Eu conheci-o logo. Portanto, aquilo não tinha como resultar. Eu estava supertraumatizada, super mal comigo e ele não era para ser o amor da minha vida, e já lhe disse isso, já conversamos sobre isso, mas eu precisei muito dele. Ele foi uma pessoa mesmo importante pra mim, eu já lhe disse, foi mesmo importante. Só que depois também foi: "Eu não quero entrar já nisto, eu não tenho capacidade, eu não quero. Eu quero descobrir-me, quero viver a minha vida, quero experimentar coisas". E eu dizia-lhe isto e ele olhava pra mim e era tipo: "Inês, vai, tu sabes que eu não quero mesmo nada disso pra mim, mas vai à tua vida". E pronto, acabei por amigos, tudo bem, fui à minha vida.

Mas tu não tinhas medo, se calhar percebeste logo que ele não era esse tipo de pessoa, mas não tinhas medo de escolher errado, de entrar numa relação que pudesse depois evoluir pra isto outra vez?

Não. Imagina, eu cheguei a ter mais um date com imensos rapazes em que não é o meu ex-namorado, obviamente, mas este gajo não é fixe.

Já estavas com o chip de procurar estas red flags.

Sim, mas ignorava, novamente. Ou seja, eu não tinha refletido, Mariana. É como se eu me tivesse magoado e eu de repente já estava pronta pra outra pessoa e tipo: "Inês, calma!" Ou seja, eu tinha dates e as pessoas diziam coisas e eu: "Este gajo é tóxico."

Se calhar até quero.

Mas não ia embora. Ficava tipo: "Eu sei que este gajo é tóxico, será que eu consigo fazer diferente?" Sabes?

Tipo desafio. Oh, meu Deus!

Mas...

Será que eu consigo mudá-lo? Será que desta vez eu consigo que isto resulte?

Estava pronta pra entrar outra vez nisso. Só que felizmente, o rapaz com quem namorei era zero isso. É um gajo incrível, o oposto total.

Mas achas que avançaste com ele por ter sido o oposto daquilo que tu tinhas vivido?

Sim, 100%. Ou seja, precipitei imenso. Primeiro eu sempre estive esta, de passar de namorado pra namorado. Nunca estava sozinha.

Não achas que te fez falta também de passar uns tempos sozinha?

Sim, 100%. Eu depois passei, porque isto já foi há 10 anos também. Depois, durante um ano e meio, estive sem namoros, vamos só focar em mim, etc. E não sei, era de uma de: "Não fui eu que errei no amor. Eu não quero ter errado no amor. E, portanto, vamos tentar outra vez. Vamos outra vez." E pronto, obviamente, correu mal, tinha como correr mal. E tu, agora é tua vez.

Minha vez. Olha, eu lá está, acabei quando na altura entrei pra faculdade e também foi porque "oh, meu Deus, imensos rapazes aqui, se calhar até existe mundo pra além daquilo que eu estou a viver" que ajudou também a tomar a decisão. E na altura fui me interessando por um rapaz, outro, mas sempre de coisas muito leves e nunca namorei durante oito anos. E agora, se isto está associado a trauma da relação passada, não sei, mas é bem possível. Mas imagina, o meu chip também virou tipo, vai pra trabalho. Eu estava tão envolvida naquela relação e na altura estava na ginástica, estava a viver muito aquilo.

Ginástica?

Acrobática.

Já tínhamos falado sobre isso.

Sim, e ele também era atleta, então vivíamos a nossa bolha ali. E depois quando rebentou, bateu certo com eu acabar e eu saí da ginástica também. Então, de repente, é uma nova vida, uma nova personalidade. Que vai pra faculdade, que depois vai de Erasmus. Então foi, de repente, descobrir também a parte social, porque a ginástica também me prendia muito, eu não podia sair à noite.

Eu também tinha isso com o balé, mas percebo.

Pronto, então depois foi de repente a Mariana nasce e tem amigos e vive a dinâmica, e sai à noite, e isto e aquilo. Então eu estava muito nessa fase, depois entrei na fase muito de trabalho e sinto que passei muitos anos a viver coisas muito superficiais. Nunca me interessei por ninguém e acho que também nunca dei espaço pra isso.

Mas é isso. Ou seja, está mal no sentido em que estavas a evitá-lo, estavas com medo de entrar.

Eu acho que sim, até porque por acaso eu estava a pensar nisto agora, que eu durante estes anos todos, e por isso é que eu depois também entrei mais tarde em terapia, porque eu sentia que pra eu conseguir estar com alguém, eu preciso resolver isto que não está claramente resolvido, porque eu duas ou três vezes por semana, Inês, eu tinha pesadelos com ele, em que eu estava presa e era a sensação de aperto e não consigo sair.

Nós já falamos sobre isso. É que eu tinha literalmente isso.

Não.

Literalmente isso.

Tinhas?

Ainda tenho às vezes, mas muito menos. Mas tinha duas, três vezes por semana, na altura, pesadelos de ele perseguir-me. E era sempre tipo, eu encontro-te, não vais conseguir fugir. Que sinistro. E eu acordava a chorar.

Estou arrepiada.

Imagina tu estar num carro, eu nem conduzo, e estar meio a fugir e de repente ele está sentado no lugar de trás. "Eu vou sempre encontrar-te". Tipo filme de terror. Portanto, exatamente igual.

Durante muito tempo que tiveste isso?

Sim.

E deixaste de ter?

Sim, agora eu tenho às vezes, e fico "ei, sei como é isso", mas muito raro.

Eu não tenho tido, mas eu entrei e na altura, foi há uns meses que comecei EMDR terapia.

Ok, sim.

É tipo pós-traumático.

Sim, 100%.

É muito de aquilo que sentiste e aquilo que viste, associado aos sentidos.

Sim, é tirares o peso das memórias.

Sim.

Porque eu tinha pequenos episódios de discussões que estavam tão agarradas a mim que eu acho que isso é que me puxava depois pra pesadelos.

E com oito anos. Ou seja, de relação até aos oito anos.

Eu continuei a ter pesadelos até agora, até há pouco tempo. Oito anos. Sim, são oito anos.

Vocês andaram cinco anos, isso é fogo.

Quatro e meio. Mas também eu acho que tem a ver com a altura, porque eu era miúda, estava a crescer, acho que isso também influencia imenso. Moldou-me muito.

Sim, foi tua primeira relação, portanto estavas mesmo tipo, é pra ser isto ou não é?

Pronto, então foi aquela fase em que eu estou focada na minha vida profissional, porque é isto que eu sou. Também punha muito meu valor na minha parte profissional, quero que isto aconteça. Então era tipo, eu nem sequer olho pra ninguém. Estou muito focada nisto. Por quê? Porque depois também se eu olhar, vou perder a minha liberdade, vou deixar de fazer aquilo que eu gosto de fazer. Na altura, por exemplo, eu não podia publicar no Instagram, coisa assim. Era esse tipo de controle que eu sentia que se eu agora entrar numa relação, eu vou deixar de ter amigos, eu vou deixar de poder fazer o meu trabalho, vou perder a minha liberdade. Estás a ver?

Achavas que todas iam ser exatamente iguais.

Achava que tudo ia ser assim.

Então fizeste o oposto de mim. Eu fui de cabeça pra mais 50 e tu ficaste tipo não.

Zero.

Ok.

Ambas completamente erradas.

E tu nesse ano e meio que depois estiveste sozinha, o que é que tu fizeste? Ou seja, foi tipo: "Vou focar na Inês, não quero." Ou foi não aconteceu?

Imagina, fui viver para Luxemburgo. Foi o Erasmus que eu nunca tinha tido, o Erasmus verdadeiro. De muito sair com as amigas, estar muito com as amigas. Obviamente que tinha dates, mas eu sabia que nunca nada ia resultar em nada, nunca nenhum deles. E esses cinco meses em que eu estava a trabalhar, mas era como se fosse Erasmus, eu estava só a viver, a conhecer. Os meus amigos eram um grupo de 12 pessoas, todas internacionais, todas europeias, portanto isso foi muito fixe estar no mundo. E depois comecei a ter uma sensação de eu querer assentar. Eu quero ir para Lisboa, porque eu sabia que ia para Lisboa, eu quero ter a minha casa, eu quero parar, quero estar sozinha um dia por semana, eu quero começar a ter isso. E com isso vinha pensares muito, obviamente, e refletires. Eu estava pronta para dar esse passo.

Mas esse passo de assentar ou esse passo também de arranjar alguém?

Ambos. De parar um bocado, refletir sobre as coisas e depois quando tive de aparecer, apareceu. E então foi de começar a ouvir todo o tipo de podcasts de relações.

Jura?

Sim, ouvi esse tipo de tudo, de ver imensos vídeos, de ler muitos livros sobre isso, estar muito tempo sozinha a pensar, a refletir. As pessoas diziam-me todas ao longo destes dois anos que passaram entretanto: "Vai ao psicólogo." E eu digo: "100%, mas eu preciso primeiro de assentar algumas ideias." Então fiz isso e depois chegou outubro do ano passado e eu tipo: "Estou pronta, vamos ao psicólogo." E cheguei lá à primeira consulta. "Tive um namorado abusivo", e ela: "Pronto, eu estou a ver que isso está tudo resolvido, não precisamos de falar sobre isso." E eu: "Eu estou há dois anos a preparar esta consulta" e de repente ela tipo: "Está tudo bem. A Inês parece que está resolvido em relação a isso, não preciso de falar sobre nada." E eu: "Pronto, de facto escrevi um livro entretanto sobre isso." Então foi isso. No total foram estes dois anos de eu estar aos poucos a refletir sobre uma coisa, escrevi o livro, aprender muito sobre o amor e hoje em dia sou uma pessoa que nunca tinha sido antes. Acho que nunca estive tão bem.

Mas achas que foi esse trabalho todo que te levou agora a escolheres melhor? Saberes aquilo que queres?

Sim, mas não. Eu acho que eu nunca tinha sido tão incrível. Ou seja, eu acho que eu hoje sou melhor namorada do que alguma vez fui na minha vida. E continuo a querer aprender e a melhorar todos os dias. Porque eu hoje de manhã estava a ouvir o teu podcast, porque a Inês eu disse, e estava a pensar: "Por que eu agora estou tão bem na vida, amorosamente, o que será? Será que é 100% pela pessoa?" E depois fiquei tipo: "Não, eu também acho que é por minha causa." Ou seja, porque se eu tivesse a relação que tenho agora há cinco anos, não era o incrível que é hoje em dia. Ou seja, eu acho mesmo que fiz o esforço, fiz a análise mental, mudei e acho que agora eu sou uma pessoa fixe. Que eu acho que nunca tinha sido a este ponto antes. Não sei, acho que também tem a ver com isso.

E acho que também tem a ver com melhoraste a ti e também escolheste a pessoa certa.

Isso 100%.

Porque se estás constantemente também atrás de padrões como estavas quando acabaste. Padrões, se calhar, semelhantes ao teu ex-namorado.

Mas eu não estava à procura. Eles vinham e eu não dizia que não. Portanto, eu acho que, se calhar, hoje em dia, porque eu tenho muita dificuldade em dizer que não. Portanto, eu não sei até que ponto é que, senão não me teria despertado interesse, mas eu não teria tido a reação de me levantar e ir embora, como se deve ter com este tipo de pessoas. Portanto, 100%, a relação com a que eu estou neste momento, caiu-me do céu. Foi a coisa mais short, mas eu não tive nada a ver com isso. Por acaso encontrei uma pessoa incrível e a partir de então as coisas resolveram-se. Foi por aí. Porque eu acho que, por exemplo, na minha fase, nestes anos em que estive solteira, eu sinto que sempre fui atrás de pessoas que eu sabia que estavam emocionalmente indisponíveis, porque na verdade eu não queria, porque eu tinha medo. É mesmo engraçado, porque nós temos a autossabotagem agressiva, mas diferente.

Diferente.

A tua é não vou procurar e vou procurar pessoas que não queiram. E eu é tipo, eu não tenho bons padrões de relação, portanto vamos procurar pessoas com maus padrões de relação para eu confirmar que não tenho relações fixes. Não, é completamente oposto.

Para mim era totalmente para confirmar "tu és uma merda". E ele não te vai querer.

Como é que curaste isso? Eu sei a resposta, mas conta, como é que curaste isso?

Para mim foi terapia, foi crescer, honestamente. E foi terapia. Eu fui fazer terapia porque queria resolver esta questão dos pesadelos, e sentia que havia um bloqueio meu em não me conseguir abrir.

Mas é isso, como é que tu começaste a conseguir abrir-te?

Foi ter vontade de curar isso.

Pois é.

Porque imagina, ao longo de todos os anos eu sabia que estava errada e sabia que eu estava a fazer.

Não estavas pronta.

Mas estava a pôr a culpa nas pessoas que eu escolhia. Imagina, eu até estou a gostar daquele rapaz, mas ele está a ser tóxico, narcisista. A culpa não é dele. A culpa foi eu avançar para uma coisa com uma pessoa que eu sei que não está disponível para isso.

Mas não, mas está errado.

O quê?

Quem está errado era ele.

Está errado ele, mas eu também estou errada por me estar a manter numa situação que eu sei que não vai avançar.

Sim, claro.

E eu sei que estou a escolher esta situação e aquela e aquela e aquela, porque no fundo eu sei que isto não vai resultar. Percebes?

Sim.

E foi chegar a um ponto, e estava sempre também na minha cabeça de eu não quero porque eu também estou focada no meu trabalho, tenho outras prioridades e sei que vai me desvirtuar do meu caminho se eu me meter numa relação que me vai tirar a minha liberdade. E acho que foi chegar a um ponto também de maturidade e tudo mais, de não, eu sinto que quero e sinto que estou pronta. Já gosto de mim, porque eu não gostava de mim E isto também foi um ponto muito importante. Foi construção de querer trabalhar, querer treinar, querer me mexer, querer gostar de mim, querer sentir-me bem comigo em primeiro lugar. E depois já estava num ponto que eu disse: "bem, eu acho que agora se alguém viesse podia acrescentar. Agora eu tenho medo." Mesmo assim tinhas medo? Tenho medo, porque essa pessoa pode entrar e pode me tirar mesmo a minha liberdade, porque eu posso afinal ser essa pessoa que não é capaz. E como é que resolveste isso? Ainda tens essa medo? Terapia. Ah, ok. Não, hoje em dia não tenho esse medo. Eu sei que não. Ok, terapia. Mas isto é tudo muito recente, mas eu acho que o clique foi eu me sentir pronta. Porque acho que a terapia é superimportante e eu tentei vários anos fazer também para falar desta situação da relação. Mas eu acho que enquanto tu não estás pronta… Mas é isso que eu estava a dizer. Eu mal acabei a minha relação, os meus amigos e família a tentar com paninhos, devagarinho. Mas tu podias ter ido para a terapia e não falar disso e teres outro tipo de approach. Não, eu já tinha feito imensa terapia nos anos anteriores, mas aí eu estava a viver em Itália. E quando volto, eles dizem isso e eu tipo: "Podem dizer as coisas sinceramente, eu sei que tenho de fazer terapia, mas não consigo mesmo agora. Agora não quero. Eu não quero lidar já com isto." Ou seja, eu sei que está cá e aos poucos, obviamente, que fui pensando nisso, mas eu preciso viver um bocadinho antes de parar e auto questionar-me de porque fiz isto. Eu percebo, a mim foi igual. Eu tentei e nunca deu bem certo. Porque não querias curar-te, digamos assim. Porque era um mecanismo de fuga. Se eu me vou curar e vou entrar para uma relação, se o medo é eu entrar para uma relação, por que eu me vou meter em terapia para curar isso para depois viver esse medo? Espera, são muitas coisas. Ou seja, se o meu medo deep down era quando eu entrar para uma relação, vou perder a minha liberdade, então eu não quero, na verdade, curar isto, porque eu estou bem a viver o meu trabalho e não preciso de mais nada na minha vida. Se fores para a terapia é porque queres ter uma relação e a consequência última seria perderes a liberdade, claro. Não há outra hipótese. Sim, mas acho que o primeiro ponto foi mesmo passar a gostar de mim, porque o escolher aquele tipo de pessoas e aceitar aquele tipo de pouco amor que aceitava, migalhinhas, literal, era porque eu tinha pouca confiança em mim, pouca autoestima, achava muito pouco de mim. Eu punha sempre estes gajos num pedestal. E "oh meu Deus, ele está me a escolher. Portanto, eu tenho que fazer tudo, vou mudar como é que eu sou, vou me adaptar para ele gostar de mim." Exato. É mesmo amor-próprio. Mas imagina, eu acho que obviamente que temos um bocado de culpa, mas a culpa não é nossa, porque tu cresces com todo o tipo de mensagens a serem o príncipe que vem ter contigo e a gata borralheira, e ele apaixona-se por ela, não sabemos bem como. Tu achas que isso influencia a nossa forma de ver amor? 100%. E mesmo hoje em dia, que nós temos 20 e tais, já somos pessoas que têm pensamento crítico. Eu vejo as minhas amigas a verem certas séries e não sei quê, e a terem certos comportamentos, que custa-me tanto. Eu digo: "Porquê?" Mas tu já passaste por isso, elas também precisam de passar por isso. Mas não é de terem relações tóxicas. Aceitar pouco, não é? Sim, imagina, uma amiga vai a um date e sai: "Ah, mas eu não sei se ele gosta de mim" e eu tipo: "Mas tu gostaste? Tu gostas dele? Já pensaste se tu queres?" "Achas? Queres ou não queres?" "Não sei, porque ele é não sei o quê." "Ok, mas como é que tu te sentes?" Mas não achas que é porque hoje em dia também é difícil encontrar pessoas para ir a dates? Pelo menos olhando para a realidade das minhas amigas, eu sinto que está complicado. Então se está complicado, tens ali um momento de conhecer alguém, crias logo, projetas logo a vida, crias logo mil ideias, então meio que vais tentar aceitar coisas que se calhar nem aceitarias porque já tens 27, 28 anos, se calhar. Percebes? Ok, muito mais complicado. Certo. Sim, mas eu acho que as pessoas nem fazem isso conscientemente. Claro. Mas nós como amigas, que para mim é o frustrante, é estar de fora e estar a dizer: "Mas tu não gostas." Imagina, aquelas conversas 100% de raparigas, que é interpretar uma mensagem de um rapaz durante cinco horas e meia. E chegamos ao fim das cinco horas e eu tipo: "Tu nem sequer gostas dele. Porque que nós estamos?" Ou "porque que tu não lhe perguntas só?" Isto acontece muito. "Não vou estar a perguntar, porque vou receber não sei o quê." Eu diria, eu perguntava logo. "Ok, mas tu és a Inês, tu és uma pessoa que diz logo as coisas todas e pergunta, e não sei o quê." "Eu não posso fazer isso." Pronto, então vamos ficar mais cinco horas a interpretar a mensagem de um rapaz que ela nem sequer gosta. Eu não tenho muita paciência. Eu sempre fui essa pessoa. Portanto, eu quando vejo amigas minhas a ter esses comportamentos, eu percebo e tento validar, porque eu também precisava dessa validação. Validar como? Esses sentimentos. Imagina, eu na minha cabeça e olhando a situação de fora, aquilo não vai resultar. E não lhe dizes? Digo, mas tento dizer de uma forma que não invalide os sentimentos dela. Certo. Percebes? Sim, percebo. Tento ter empatia, porque eu também já passei por isso. Sim. Calma, de repente eu pareço um monstro. Não, mas percebes o que eu estou a dizer. Se calhar tu nunca tiveste essa postura na vida. Nunca. E eu tive muito, percebes? Então eu acho que consigo ver as coisas. És mais sensível. Sim, zero. Aquela cena de ele mandou mensagem há 17 minutos, mas demorou cinco horas a responder. Portanto, eu vou abrir daqui a cinco horas e depois vou demorar sete minutos. Os rapazes também devem fazer isto, mas eu tenho amigas a fazerem-me isto. Acho que as raparigas é muito mais. Eu já te disse isto, eu adoro as maluquices que as pessoas fazem na parte dos dating. Para mim isto é uma maluquice, isto não faz sentido. E eu a estas não tenho mesmo paciência. E já me aconteceu. Ela ficou mesmo chateada comigo. Estamos num sítio e o rapaz flerta com ela e ela estava tipo: "Mas eu só vou demorar 45 minutos a abrir a mensagem" e eu tipo: "Ele está sozinho à tua procura no meio desta festa, com licença" e abri a mensagem. E ela ficou chateadíssima comigo e eu tipo: "Desculpa, eu sei que invadi a tua liberdade, mas tu percebes que não estavas a ser uma pessoa ok. Ele estava sozinho à tua procura." E no dia seguinte ela

Claro que fizeste bem em abrir a mensagem." E eu: "Claro que não, claro que não devia ter mexido no teu telemóvel." Estas coisas em que eu fico tipo: "Sejam sinceros, não me entreguem jogos." Não sei, se calhar é um bocado insensibilidade da minha parte.

E achas que quando vai resultar não há joguinhos?

Sim, não vai. Uma relação perfeita, voltamos a "nobody wants this", não tem joguinhos, não tem estas coisinhas. Sejam só sinceros, porque uma relação perfeita não é a pessoa aceitar-te tal e qual como tu és? Então mostra tal e qual como tu és. Não estou a dizer aparece deserto e de puxo no primeiro date. Mostra logo aquilo que tu és.

Eu acho que é estar tão habituada a padrões de pessoas que não estão disponíveis e que parece que estás sempre num joguinho a tentar descobrir se a pessoa está interessada ou não.

Eu acho é que é ego. As pessoas começam a namorar.

É uma luta de ego.

Mas não deveria ser. Tu estares numa relação é tu te desprenderes do teu ego a 100%. É tu dizeres: "Olha..."

Mas isso é já estares numa relação, estamos a falar de quando ainda estás a conhecer.

Mas no início. Imagina que eu e tu temos primeiros dates. Vou-me dando a conhecer e de repente chega o momento em que eu já gosto de ti, pega Mariana, está aqui o meu coração, eu confio-te o meu coração. É isto. Se eu no primeiro date começo logo e estou-te a mentir e estou a fingir que sou uma pessoa que não sou e a rir-me de piadas tuas que não têm piada, imagina, coisa assim do gênero. Tu não me estás a conhecer, como é que é suposto tu gostares de mim a certo ponto, verdadeiramente?

Mas isso já precisas de estar super segura de ti para estar nesse ponto.

Pois, então façam como a maioria das pessoas, não andem durante com ninguém durante oito anos.

E vão para a terapia.

Sim, porque eu não consigo mesmo perceber, custa-me imenso. Estas coisas, as minhas amigas explicam-me, eu não consigo perceber. Adoro, não consigo perceber.

Quando tu nunca tiveste uma relação saudável e estás habituada a esses padrões, isso é o normal, que nem sequer questionas.

É, mas pensa, por que é que vais esperar 17 minutos para abrir uma mensagem? Tu estás com o telefone na mão. Tu abres a mensagem.

"Mas eu não quero dar demasiado, não quero que ele ache que estou demasiado interessada."

Mas estás interessada.

Porque na cabeça é: "Mas ele pode não estar."

Esse gajo não é fixe para namorar. Ou ele não está interessado.

Mas não há muitas opções, então eu tenho de moldar este gajo para que dê certo.

Não, não vais.

Ter uma família. Eu estou a tentar explicar o raciocínio da cabeça.

É um argumento muito fraco, de tipo, "ele vai achar que eu sou maluca", porque então ele não é para ti, ele não está tão interessado. Então este não está interessado em ti, não queiras estar com ele. É fácil. Imagina.

Se é racional, mas nestas coisas não somos racionais.

Pois não. Pois é verdade. Mas por outro lado, eu acho que não vais mesmo fazer uma relação, posso estar enganada, mas não vais ter uma relação incrível, sincera, que tenha este tipo de coisas.

Quando conheceste a pessoa que tens hoje, que sinais é que tu percebeste: "Ok, isto vai ser seguro, isto vai ser saudável"?

Desde o início, ser totalmente sincero. Sou totalmente sincera. Desde logo e comigo também e, portanto, não sei, não há jogos. O primeiro date foi tipo, estava a enviar um áudio e estava a fechar a porta. "Estás a entrar em casa?" "Sim." "Olha, não queres estar agora? Bora." É não jogar jogos, é ser sincero, é as coisas fluírem todas com naturalidade. Não sei, acho mesmo que se tivesse começado logo com essas coisas, não seria a relação que eu tenho hoje.

Desculpa, não começaste por essas coisas por quê?

Nunca comecei.

Porque a outra pessoa também não jogou esse jogo?

Mas se tivesse jogado, não era a pessoa para mim. Eu não tenho esta paciência. A menos que eu estou com o telefone na mão, não me apetece responder, não respondo durante cinco horas, porque não me apetece, estou a fazer a minha vida. Mas se a pessoa do outro lado cobra-me isso, não és pessoa para mim. Não és, de todo. Não faz sentido ou não estás preparada para estar numa relação. Acho que ninguém devia cobrar isto a ninguém. E acho que devias poder dizer tudo. Não sei, estar numa relação e saber dizer tudo. Já me aconteceu algumas vezes ter de dizer alguma coisa meia tensa à pessoa com quem eu estou e estar, assim como estamos com a minha melhor amiga, em discurso direito. As duas a fazer: "Vais dizer isto" e eu começo: "Então vou dizer: olha, nananã" e ela: "Não, não podes dizer isso, isso é nananã". Estamos a ensaiar. E de repente eu digo e a pessoa tipo: "Ok, era só isso, está tudo bem." Eu acho que se tu fores mesmo sincera e tu própria, tu também vais atrair isso do outro lado. Vais atrair só uma relação confortável, sincera, que funcione. Não sei, tu não jogas jogos.

Nota-se que estás mesmo bem.

Já estive aqui.

E agora estou aqui. E agora também tentas ajudar, se calhar, as tuas amigas a tentar alertar para isso.

Sim, mas eu sinto às vezes que sou um bocado maluca. Porque eu estou a dizer isto aos meus amigos e eles estão todos tipo: "Está bem, mas tu és a Inês, isso funciona contigo, isso não funciona com ninguém" e eu: "Mas por quê?" No outro dia uma amiga minha estava a dizer: "Tem de ser os gajos a vir ter comigo, porque sempre que eu vou ter com os gajos, não funciona."

Tem a cena de tem de ser ela a mandar a mensagem.

E eu estava a ter uma conversa paralela, eu: "Com licença, mas por quê?" "Porque sempre que eu vou ter com os gajos não funciona" e eu: "E muitas vezes quando os gajos vão ter contigo também não funciona. Mas por que tem de ser eles?"

Nós criamos estas...

Se tu estás interessada nele, vai lá.

Umas coisas na nossa cabeça.

Se ele não curtir, não é gajo para ti.

Acho que é como o date está complicado. O que é que tu achas? Dating apps?

Eu acho que isto é o pior, as pessoas não quererem namorar. As pessoas não querem namorar, as pessoas querem ter um cãozinho ou uma namorada. Muitos rapazes fazem muito isto, ter uma namorada durante um dia. E então é, vão num date e é um date incrível e estão ali a mostrar-se mesmo incríveis.

Acho que é o jogo da conquista até lá chegar e depois...

Sim, e eu tipo: "Gostei mesmo de ti, etc., para viajar, etc." E depois dá-te ghost todo esse tempo.

Love bombing.

Já me aconteceu tantas vezes e acontece às minhas amigas e até amigos meus. E eles tipo: "Por que isto acontece?" Eu: "Porque essa pessoa não queria namorar. Essa pessoa queria ter uma pessoa durante um dia e depois quer ir à vida dela." Não estão preparados.

Mas achas que está toda a gente assim ou simplesmente estás à procura de pessoas assim? Encontras pessoas assim?

Encontro as pessoas assim. Eu nunca estive assim, mas eu encontrei muitas pessoas assim. Mas eu a essas pessoas disse: "Não estás pronto para estas coisas, pode só ser sincero à partida." É horrível o que as pessoas fazem de ser sincero. Queres estar com uma pessoa uma noite? Diz. Queres dar umas voltas? Diz.

As pessoas não são sinceras.

Mas vês?

E é sempre aquele joguinho que estás no date ou estás a falar com a pessoa e tipo, eu a falar com a minha amiga: "Olha, tu achas que ele só quer dormir comigo ou está realmente interessado?"

Mas percebes.

É um joguinho de tentar adivinhar.

É tudo joguinhos. Há uns maiores que outros, mas é tudo um jogo e, portanto, deixem-se disso. Sejam só sinceros. Olha, gostei imenso de ti, não és a minha cena. Ok, está tudo bem. Há mais sete milhões de pessoas à minha procura, uma coisa assim do género. Mas acho que isto é o principal. Não sei se tens outra coisa.

Imagina, para mim, eu tive de estar segura de mim para poder chegar a esse ponto de: "Eu já percebi que tu só queres uma coisa casual e eu não quero isso." Porque enquanto não estava segura de mim, é tipo: "Ok, não há assim tanta gente, eu estou aqui no date com este, se calhar vou mudá-lo."

Mentias a ti própria.

Mendia-me a mim. Eu deep down sei que ele só quer dormir comigo, mas se calhar eu até consigo mudá-lo e vou fazer com que ele goste de mim. Sabes, porque também já não há muitas opções.

Mas é o que eu digo novamente, a culpa não é tua, porque eu acho que a pessoa que te faz isso devia te dizer no primeiro minuto: "Olha, Mariana, eu só quero dormir contigo." E aí tu dizias sim ou não. Mas as pessoas não dizem isso, dizem: "Tu és uma gaja mesmo incrível, os meus pais iam gostar imenso de ti." E de repente não quer nada contigo.

Mas sabes, olha, houve um date que eu tive que ele me disse isso.

Dos pais?

Não, me disse que só queria-

Só queria casual.

Sim. E eu pus uma postura de eu também.

Mentiste, claro.

Menti. Não, porque eu vou mudá-lo. Ele vai passar a gostar de mim.

Jogaste o jogo.

Joguei. Resultou? Claro que não.

Claro que não.

Olha, de que forma é que vês o amor hoje em dia?

Eu acho que o amor fixe hoje em dia é tu estares na tua vida e tu teres uma pessoa que está ao teu lado. Para mim é um bocado isso, foi o que eu já disse há bocado, é um bocado isso. Tu tens as tuas coisas, tens os teus amigos, tens os teus interesses, tens as tuas maluquices, toda a gente tem, mas tens uma pessoa que está ao teu lado para quando tu quiseres e quando ela precisa e fazem um bocado o caminho de mãos juntas, mãos dadas, mesmo que uma pessoa tenha mais dinheiro que outra, uma pessoa tenha mais sucesso na carreira do que outra, uma tem mais saúde mental que a outra. Ok, mas vão andando de mãos dadas.

Nos altos e baixos.

É um bocado isso, sim. E tu?

Não, eu concordo 100%. Acho que é mesmo aquilo que é o acrescentar, não é o preencher. E acho que ao longo destes anos sempre foi um bocadinho aquilo que eu fui procurar. Sempre estava vazia e precisava de alguma coisa que me preenchesse. E acho que isso sempre foi a postura errada, porque atraía estas pessoas que não estavam disponíveis e eu própria acabava por entrar em loops que eram pouco saudáveis e depois não conseguia sair, porque sentia que precisava daquilo para estar completa.

Mas deixa-me só dizer uma coisa. Eu acho mesmo que esta cena de eu atrair este tipo de pessoas, eu não acredito bem nisso. Eu acho que tu não atrais esse tipo de pessoas. Eu acho que quando tu já tens essas ferramentas, tu vês essas pessoas e não queres. E se calhar, quando não tens, se calhar conversas mais 10, 15 minutos com ela.

Eu digo atrair do género.

Mas a culpa não é tua. A culpa de haver gajos que são horríveis não é tua. E a tua vida cruzar-se com eles não é tua, tu não tens culpa, não é?

Sim, eu tenho culpa de ficar, de querer.

Sim, aí sim.

É isso que eu estou a dizer.

Ok, sim.

É isso que eu estou a dizer. E se calhar, até na altura, até posso ter-me cruzado com pessoas que não eram assim, mas para mim, o não ser tóxico, afastava-me. Percebes?

Certo. Ok, pois, porque podia funcionar e tu não estavas preparada para entregar-te. Certo.

É nesse sentido. O que te fez escrever o livro?

Eu sempre escrevi, mini coisinhas. E houve um dia na minha relação, que é o meu capítulo preferido, que foi só mais um, mas para mim foi especialmente mau, porque eu tive momentos mesmo maus comigo própria. Esse dia foi horrível, mas não sei, acho que está poético esse dia, digamos assim. E então havia um concurso literário, eu escrevi esse capítulo, entretanto submeti, mandei aos meus amigos e família, e eles tipo: "Olha, está fixe, escreve mais." A minha tia disse-me: "Escreve mesmo como se fosse diário, até pode nem fazer nada com isso, mas escreve." E eu escrevi isto. E no fim tinha o manuscrito nas mãos, enviei para a editora, fiquei com a editora, com a Singular, que é uma chancela. E foi muito isso. Mas desde o início as pessoas diziam-me, muita gente dizia: "Mas é vingança?" Já tive jornalistas a perguntarem isto e eu: "Não, zero." Imagina, eu quero ser amiga destas pessoas durante estas três horas, no teu caso, que as pessoas leram o livro, quero lhes dizer: "Olha, isto aconteceu comigo e se calhar tu estás numa relação ou estás a entrar numa relação assim ou vais entrar, não entres, por favor, porque isto foi o que aconteceu comigo e isto não é fixe." E imagina, não há aqui uma lista taxativa de coisas que te vão dizer ou fazer para estares numa relação tóxica, mas tem sinais e explica-te até o ponto máximo de mau que vai ficar, aquilo que tu vais sentir, o nojo que vais ter de ti. E também te mostra como sair. Portanto, se também for preciso tu saíres e precisares dessa coragem para sair da bolha, também tens um exemplo. É um bocado dar um abracinho às pessoas, tipo, eu passei por isso, não passem ou saiam, eu estou aqui para vocês. E acho que já resultou. Já tive pessoas a dizerem-me que tipo-

Saíram das relações.

Sim, eu fiquei tipo, era isto.

Era mesmo para isto.

Ya. Porque muitas vezes até pode não ser as mesmas coisas, os mesmos triggers, mas a forma como tu te sentias, é isso que é super relatable. Era o que eu estava a dizer ao início. As pessoas não são todas iguais, mas as coisas que acontecem e como tu te sentes e a merda que te sentes, acontecem em quase todas as relações. E, portanto, eu acho que é relatable nesse sentido.

Olha, eu acho que está mesmo um grande livro. Já te dei os parabéns e volto a dar, porque me identifiquei imenso, mesmo já sendo há anos e lá está, como também fui desligando de muitas coisas. Parece que quando tens um trauma que apagas, vais apagando memórias, isso aconteceu comigo e ao reler o teu livro foi tipo ok.

Sim, e é incrível tu lembrares-te de cenas que aconteceram há cinco anos.

Há oito.

Há oito? Porra, já há oito.

Há oito anos. Foi noutra vida, foi literal noutra vida.

Pois. Mas eu ainda hoje tenho dessas, vejo um candeeiro e eu: "Oh!" E desbloqueio uma memória e penso: "Fogo, isto estava top para estar no livro." Agora já não dá. Portanto, eu ainda tenho dessas.

Pronto, parte dois, agora conta esta parte.

Não, já está bom. Está bom, vamos para outra, vamos para outra história.

Olha, gostei muito desta conversa.

Eu também. Obrigada.

Gostei mesmo e fico muito feliz que estejas bem e que tenhas encontrado um amor seguro.

Obrigada. E eu também fico feliz que tenhas curado os teus avoidance issues.

Ya. Estamos nisso, estamos na luta. Obrigada, Inês, foi ótimo.

Obrigada, Mariana.

Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?