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Queria ser boa pessoa, aquela que não magoa quando a vida não sorri. Pensei como tu te davas, toda a luz que irradiavas e quis ser igual a ti. Pensei como tu te davas, toda a luz que irradiavas e quis ser igual a ti. Não tenho o dom do perdão e às vezes sei dizer não, quando a vida quer morder. Mas aprendi ao teu lado, que por trás de um triste fado, há uma força de viver. Mas aprendi ao teu lado, que por trás de um triste fado, há uma força de viver. Já roguei pragas à lua quando a morte se insinua, quando já tudo perdi. Tu sorris como em criança, trazes no olhar a esperança e quis ser igual a ti. Tu sorris como em criança, trazes no olhar a esperança e quis ser igual a ti. De onde vem essa vontade, esse manto de bondade que não encontro em ninguém? Todas as noites procuro uma estrela no céu escuro, a luz de uma estrela-mãe. Todas as noites procuro uma estrela no céu escuro, a luz de uma estrela-mãe. Todas as noites procuro uma estrela no céu escuro, a luz de uma estrela-mãe.
Que belo momento. Hélder Moutinho, na Rádio Observador, acompanhado aqui à viola pelo João Filipe. Muito obrigado a ambos por terem vindo à Rádio Observador e muitos parabéns, tenho adorado ouvir este "Os Dias da Liberdade". É o novo disco do Hélder Moutinho. Já me tinham dito, Hélder, que a tua voz está melhor que nunca. O que é que lhe fizeste? É uma ervinha especial, um chazinho de qualquer coisa. A voz também se transforma ao longo da idade.
Muito obrigado pelo convite de estar aqui também.
Prazer.
E acho que é a idade. Estou naquela fase, parecendo que não. Aquela história do ser como o vinho do Porto. Mas também tem a ver com a aprendizagem. Nós vamos cantando todos os dias, vamos cantando e vamos aprendendo com o tempo e vamos relaxando um bocadinho, portanto, vamos perdendo aquela necessidade de fazer muitos floreados. E vamos querendo cada vez mais contar a história e isso acho que é bom.
Olha, queria olhar contigo um bocadinho pra este "Os Dias da Liberdade". Eu tenho a ideia que não é o primeiro disco com João Monge, com as letras do João. É o segundo, creio.
É o segundo.
Por que o João Monge? Porque ele, de facto, escreve músicas que quase todos nós conhecemos e se calhar nem sabemos que são do João Monge. Mas isso também, pra ti, significa que o fado é talvez dos gêneros onde, de facto, a palavra continua a ter uma importância ainda maior.
O fado, eu costumo dizer que é a poesia ajudada. Obviamente, isso não é aquilo que está escrito, não tenho a certeza disso, mas acredito que o fado tradicional, quando se fala do fado tradicional, que foram os primeiros fados que surgiram, chama-se fado tradicional exatamente porque foram melodias que vieram Por causa da poesia tradicional. A poesia tradicional vive das quadras, das quintilhas. Especialmente vive de três pontos importantes, que é a métrica, a rima e o ritmo, que são as tônicas. É formada assim, com as quadras, com os decassíllabos, com as quadras em decassílabo, com as quintilhas, com as sextilhas, etc. E o fado veio um bocadinho pegar nessa poesia para ser cantado nas ruas, para funcionar como havia a história do soapbox na Inglaterra com música pop. No fado e em Lisboa, era a forma de contar histórias, era a forma de dar notícias às pessoas na rua, porque nem toda a gente tinha rádio. Ainda não havia Rádio Observador, não é?
Não. Essa não, de certeza.
No fundo, não deixava de ser uma canção de notícias, uma canção para contar histórias, uma canção também de algum protesto social. Não digo político, mas social, porque falava um pouquinho da sociedade. É isso tudo. A poesia é muito importante e é por isso que se diz que o fado é como se fosse poesia ajudada.
Falavas que o fado pode cantar também a atualidade. Poderá ser assim também nos dias da liberdade. Há aqui, de facto, um gancho ao 25 de Abril e à implementação da liberdade em Portugal. Continua a ser necessário cantá-la?
Continua muito, cada vez mais. Já existem canções feitas no passado que são tão presentes como nunca. Se pegarmos nelas, vamos olhar para elas e dizer assim: "Isto podia ter sido escrito hoje".
Podia ter sido hoje.
E depois, é importante continuar a escrever. Escrever e ler. Ler e cantar o João Mogue, eu acho que é importantíssimo por isso. Quando eu tenho a oportunidade de um poeta – porque eu acho que ele é um poeta, muito mais do que um triste, é um grande poeta – como o João Mogue me dizer: "Eu quero escrever um disco inteiro para ti", eu não posso perder essa oportunidade.
Como é que escolheste estas canções? Conseguiste com que o álbum tivesse alguma coerência também lírica das letras, das canções e da forma como as alinhaste?
Sim, elas foram chegando. O João Mogue ia apresentando algumas, não gravamos todas. E depois, conforme elas chegavam, fomos escolhendo ou os compositores para fazerem músicas novas, ou então outras achamos. Por exemplo, esta que eu acabei de cantar é um arranjo.
"Estrela Mãe"?
"Estrela Mãe", que pega neste poema do João Mogue, em sextilhas, para uma música já antiga do António dos Santos, que é um compositor que faz parte da história musical do fado, que se chama "Balada António dos Santos" e que muita gente canta no passado com outras letras. Eu próprio já cantava isto com outras letras. Então fizemos aqui uma ligação. Isto é muito comum acontecer nos fados.
Fala um bocadinho dos compositores, porque eu tenho a ideia que Mário Laginha, Pedro da Silva Martins também colaboram, são os únicos. Como é que foi esse trabalho com eles? O Pedro da Silva Martins também está aí.
E o Carlos Barreto também.
Carlos Barreto, ok.
O Marco Oliveira também está aqui. O próprio Manuel Paulo, da Ala dos Namorados.
A Ala dos Namorados cantou muito o Mogue.
Sim. Há aqui vários compositores. Havia aqui uma situação interessante.
Alguns traem um bocadinho do fado. O Mário Laginha, o Pedro da Silva Pereira.
Sim, são os compositores convidados.
Exato.
São os compositores convidados. Mas isso é uma coisa que sempre aconteceu. Há quase 100 anos que há uma série de compositores, maestros da música ligeira, que foram aqueles que fizeram com que começasse a surgir o chamado fado-canção e depois as novas composições. As próprias marchas populares não foram feitas pelos compositores dos fados tradicionais. Aliás, há fados tradicionais feitos por, por exemplo, o fado "Carris", que é um fado conhecidíssimo. Que é um fado tradicional mesmo, dos mais antigos que há, foi feito pelo Raul Ferrão, que era um maestro, um compositor, que não tinha nada a ver com o fado tradicional. Ou Ferreira Trindade, por exemplo, ou o próprio Alain Oulman, quando escreveu as coisas que escreveu pra Amália. Ou Paulo de Carvalho, que fez o "Lisboa, Menina e Moça" com o Fernando Tordo e com o Ary dos Santos, todos juntos. Eram pessoas que não eram dos fados, mas que acabaram por fazer grandes fados.
Isso é engraçado. Gostei que há pouco referiste assim ao de leve, ao fado tradicional. O fado tradicional parece que até tem alguns lugares. Mas cada vez, com o crescimento do fado, também tem mais palcos e sai de Alfama e da Madragoa e vai para outros sítios. Também se tem modernizado muito o fado através de alguns artistas. Como é que olhas para essa renovação que o fado tem feito? Porque me parece que pra ti também é importante que continue a existir alguém que continue a olhar para o tradicional e o continue a praticar.
Mas até mesmo alguns compositores novos que estão a aparecer agora e que vêm de outros gêneros musicais, mesmo da pop, já têm feito fados que depois acabam por ter uma estrutura tradicional e que vão se transformar, mais cedo ou mais tarde, em fados tradicionais. O próprio João Gil, que escreveu também para este disco mais do que um tema. Há aqui dois temas que, no fundo, mais tarde eu acho que vão pegar neles e podem ter outras letras, mudar as letras, porque são fados tradicionais também. A estrutura é tradicional. Eu acho que é importantíssimo não esquecer o fado tradicional. Felizmente, o fado tem essa vertente de evoluir bastante, mas volta sempre um bocadinho à casa. Eu acho que estamos nesta fase.
Pode andar pelo mundo, mas volta a Lisboa.
Sim, volta à casa sempre. E estamos nesta fase. Ele evoluiu muito e ficou muito na moda desde mais ou menos 2000, 2001. Ali com a história da Expo98 e depois 2000, 2001, com o Porto Capital da Cultura.
Depois passou a ser world music.
Entrou nesse esquema da world music. E depois a história do Fado, património mundial da humanidade também o fez surgir muito. Agora isto está um caso não tão dentro do circuito da world music, mas sim do circuito da música portuguesa a nível internacional. Nós já conseguimos ir a salas e vamos falar de fado, não vamos entrar no circuito da world music. Já é bom, porque já nos coloca num outro patamar. Mas acho que aquela história da moda, do boom do fado, etc., está um bocadinho a parar agora, está-se a acalmar e o fado está a voltar a casa. Há muitas casas de fado, felizmente. Há muitos restaurantes que dão fado e há vários tipos de locais onde há fado na cidade de Lisboa e no Porto. O Porto também está cheio de espaços com fado, o que é bom, porque faz com que venha malta nova e há trabalho para a malta nova mudar. Há muitos novos músicos fantásticos, há muita malta nova a tocar muito bem e também a cantar muito bem. Jovens fadistas estão a chegar a cantar muito bem. Agora, eu acho é que o fado está realmente a voltar outra vez para o gueto, para o pseudo gueto, para se reconstruir outra vez e daqui a mais uns 10 anos voltar outra vez a ficar na moda.
Muito bem. Podem ver o Hélder Moutinho ao vivo no próximo dia 23, no Centro Cultural de Belém, num espetáculo onde vai estar também o João Filipe, que o está aqui a acompanhar na viola. Creio que Ricardo Parreira, Ciro Bertini, Carlos Garcia e Yuri de Oliveira também te acompanham nesse espetáculo do CCB, dia 23 de abril, as canções de "Os Dias da Liberdade", um tributo a João Monge por Hélder Moutinho. Escutamos há pouco o estrela-mãe deste disco e agora fechamos o ao vivo de hoje com Hélder Moutinho em "Amor Sem Igual". Muitos parabéns, muito obrigado por terem vindo à Rádio Observador. Vamos a esse "Amor Sem Igual".
Quando eu partir, não vás ver-me à janela. Vamos fingir que eu volto para jantar. A nossa vida é uma longa viela. Sem ter saída, nem caso me levada. Não levo nada, deixo tudo onde está. Na almofada, deixo um sonho perdido. Fica o nosso cantinho à espera no sofá. E o meu fado dorido ao pé do teu vestido. E quando eu partir, não te vistas de luto. Vamos fingir que é tudo como dantes. Não tenhas medo, a saudade é o fruto. É o segredo da esperança dos amantes. Não levo nada deste amor clandestino. Hei de encontrar morada onde este amor morar. Dizem que o fado só encontra o destino quando o destino por nós se apaixonar. Dizem que o fado só encontra o destino quando o destino por nós se apaixonar.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto