Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindo às manhãs 360 do Observador. No ao vivo de hoje é nosso convidado o ator Sérgio Praia. Bom dia, muito obrigada por teres aceitado o convite para estar no Observador.
Obrigado eu.
O filme "Variações de João Mai" estreou a semana passada. Já vamos olhar para o número de pessoas que já assistiram ao filme, porque é impressionante. O filme faz com que se reviva o percurso de António Variações, especial foco no período entre 1977 e 1981, interpretado brilhantemente por ti, que disseste recentemente andares há mais de 10 anos a preparar este personagem. Isto deve-se a quê? Sabias que o convite ia chegar?
Não, de forma alguma, não sabia. Aliás, quando fui chamado pro casting, eu não tinha relação nenhuma com o António, sabia muito pouca coisa. Várias pessoas me disseram que eu era parecido e quando me chamaram, eu até disse logo que não queria ir fazer, porque eu estava a fazer uma peça na altura e não queria desfocar. Portanto, nem me interessei no casting. Mas, pelos vistos, foram várias pessoas a darem o nome e chegaram até mim e eu acabei por ir ao casting. Estudei ali dois dias antes do casting e percebi que o António era viciado na Amália e eu acho que ali foi o meu primeiro link. E então lá fui ao casting, cheio de nervos, pus uma caveada e os olhos pintados.
Deste um risco negro.
Sim, era inevitável, o risco negro.
Mas, de facto, não precisas de muito mais para além do risco negro, porque já tens imensa parecença.
És muito parecido fisicamente.
Eu não acho muito, mas acho que a Magali Santana, a responsável pela maquiagem, pela transformação, e a Patrícia Dória, pelo guarda-roupa, fizeram um trabalho extraordinário comigo também.
Algumas crônicas, algumas análises deste filme chamam de reencarnação mais do que interpretação. E pegando nesta pergunta da Maria João, houve aqui uma sorte este papel ter te calhado no colo? Tornaste-te muito fã?
Uma sorte foi, de certeza. Eu acho que tive aqui a possibilidade, de certa forma, de quase pôr em prática alguns caminhos que eu acho que são perto do António, nomeadamente esta questão que é universal, que é este caminho que a gente faz desde miúdo ou desde muito cedo, termos uma noção muito concreta daquilo que queremos fazer na vida. Eu lembro-me que desde sempre eu sempre quis ser ator.
Mas foste estudar outras coisas.
Sim, claro. Fui estudar outras coisas.
Tiraste outros cursos. Seguiste logo a carreira de ator.
Foi logo a carreira de ator. Quer dizer, fiz o nono ano, claro, história da arte e design. Eu desde miúdo já encenava na escola, digamos assim, as festas finais, tudo que era Teatro do Agreste, Sarelicando.
Agora fizeste-nos voltar ao passado.
Claro. Rock Santeiro, Ninon e Rosali, o Banana Não Tem. Eu encenava essas coisas todas com as minhas amigas na escola. Portanto, eu tinha muito esse foco. Achava que nunca ia conseguir sair da terra, isso é verdade. Trabalhei nas obras durante muito tempo e eu lembro-me de muitos baldes de massa que acartei e que pensei: "Não vou conseguir sair daqui, mas vou sonhar o mais alto que eu conseguir". Eu acreditava sempre que sonhasse muito alto, possivelmente conseguiria alguma coisa. Nunca pensei conseguir tanto, mas acho que foi isso que, de certa maneira, também me começou a ligar um cadinho ao António na minha pesquisa. E assim fui caminhando e percebendo que tínhamos algumas coisas em comum.
Sérgio Praia, o filme "Variações" ficou em primeiro lugar nas bilheteiras dos cinemas portugueses. Mais de 12 mil pessoas foram à estreia. Um número que supera qualquer outro filme de produção portuguesa e até algumas estreias internacionais, como por exemplo, o Rocket Man, sobre Elton John, que teve 1700 espectadores e, por exemplo, um outro filme que foi muito falado, "A Sinar uma Estrela", que moveu cerca de 5 mil espectadores. No fim de semana da estreia, o último, Variações, ocupava o primeiro lugar na tabela dos filmes mais vistos com cerca de 50 mil espectadores. Como é que tu encaras estes números?
Eu tento não pensar muito nos números, mas é inevitável, porque é importante números para as pessoas, principalmente, neste caso, para os portugueses. Acho que estamos felizes, principalmente, por termos feito este projeto e por percebermos que, de facto, há muito amor à volta do António, à volta deste personagem, e ajuda também, de certa maneira, a fazer com que as pessoas saiam de casa e vão ao cinema português. Eu acho que é muito importante isso. E o António veio-nos aqui dar uma certa ajuda. Portanto, só podemos estar todos muito felizes.
Fizeste justiça ao António Variações nesta parte da vida em que o cabeleireiro quer ser cantor e faz tudo para que isso aconteça. Achas que lhe fizeste justiça na tua interpretação?
Não posso ser eu a dizer isso. Acho que o público é que vê isso e no fundo acaba por construir o António que quer à medida daquilo que precisa. E a única coisa que tentei fazer foi não ficar preso a esta coisa da responsabilidade de estar a fazer o António, porque eu considero o António um homem muito simples, é uma pessoa como nós, portanto, tentei nunca estar muito preso a essa responsabilidade. Agora, a única coisa que eu tinha que fazer, isso era óbvio, era deixar o meu coração e o meu corpo aberto para poder dar todo o amor que tenho, porque eu, de facto, o que eu adoro e o que eu amo é pôr-me na pele das outras pessoas. Respeitar o António e trazer à luz alguns temas que são precisos ser debatidos, mas com sol e não com sombra.
E como foi o teu método de preparação? Viste muitos vídeos, ouviste muitas das músicas do António Variações?
Eu dividi isto em três momentos. Eu falei com muita gente que trabalha na música, que esteve perto, de certa maneira, do António, mas foquei muito em pessoas que estão a tentar ser cantores. Tentei esta coisa do escavar e não conseguir, ainda.
Porque é sobre isso que o filme fala muito especificamente, não a parte em que Variações já é conhecido.
E eu precisava de sentir esta força, esta coisa de querer rasgar aqui qualquer coisa e essas pessoas que acreditam muito no sonho, têm muito isso. E isso pra mim é o que me mantém vivo. Depois, tentei falar muito com algumas pessoas que estiveram próximas dele, nomeadamente a Lena d'Água, a Xana Guerra, várias pessoas, mesmo pessoas também da família, mas foi uma parte que eu não escavei tanto como outras, porque eu acho que ninguém, e isto é uma opinião minha, mas eu acho que ninguém conheceu o António Variações.
Verdadeiramente.
O António Ribeiro. Não, acho que não. Ele era um homem extremamente fechado e era extremamente neutro e não se abria muito. E depois tentei perceber um bocadinho uma coisa que pra mim é importante, enquanto Sérgio, que é o caminho mais escuro, digamos assim, a parte mais negra, a parte relacionada mais com o sexo, relacionada mais com o perigo. E o António era um animal de caça, muito reservado. No fundo, somos todos, com níveis diferentes, mas todos andamos aqui à procura de amor, nem que seja durante um minuto. E eu tentei perceber um bocadinho isso. Fui a muitos bares, andei muito sozinho à noite a ouvir Conan Osíris, Filipe Sambado, Mariza Liz, muitas coisas portuguesas, GNR, Xutos & Pontapés.
E isto, pra quem ainda não viu o filme, é importante dizer que, além de seres o protagonista e de toda a interpretação brilhante que fazes, toda a interpretação física, tu cantas todas as canções.
É verdade. Eu nunca quis cantar.
Isso é uma coisa impressionante. É um duplo desafio.
Tem sido. Sempre disse ao João que achava que não era correto da minha parte, ainda por cima o que nós temos de mais bonito do António são as letras, as músicas e o tom, o timbre dele, que entra tão cá dentro.
Que é tão característico.
Tão característico. E qualquer pessoa que ouça, percebe logo que não é o timbre dele. Mas a certa altura, nesta luta toda destes anos, na dificuldade que tivemos, fui percebendo que era preciso, de facto, esta energia da pessoa que está a escavar, à procura de qualquer coisa. E eu via muito isso nas cassetes que eu tenho dele e onde estudei muito. E havia sempre essa coisa presente da tentativa e erro. E só poderíamos fazer isso com alguém, de facto, a cantar. Com os playbacks seria impossível passar um bocadinho essa energia.
Não, Sérgio, e é importante dizer que foi criada a banda sonora do filme. Músicas que foram editadas um dia depois da estreia, em formato físico e digital. Contam com o "Quero Dar nas Vistas", que é um tema inédito.
Original, exatamente.
Recriado por Armando Teixeira, dos Bué.
Até me arrepiei agora, porque eu acho lindo.
E como é que é ouvires agora estes temas? Por exemplo, estamos a ouvir aqui por baixo alguns dos temas do filme.
Foi muito trabalho. Acho que só posso estar feliz com o resultado. Acho que nunca esperei que as pessoas aderissem tanto também ao timbre e que a certa altura se esquecessem um bocadinho que não estão a ouvir o António e que se entregassem um bocadinho ao filme. Essa pra mim é das melhores felicidades deste filme. A certa altura, a gente tentar esquecer que não é aquela pessoa, porque no fundo nós todos queremos fazer uma celebração. E de facto, 2019 é uma celebração do António Variações. Eu acho que isso é que é o mais importante.
Além do cinema, podemos ver-te todos os dias na novela Prisioneira, da TVI. Que outros projetos? Portanto, agora estás em todo lado. Estás nas televisões, nos cinemas.
É verdade. Na rádio.
Na rádio também.
Pra já, estamos a preparar agora a digressão com a banda, que vamos fazer pelo país. Ainda não posso adiantar grande coisa.
Estávamos à espera de saber pormenores sobre a digressão.
Vamos andar por aí, sim, vamos celebrar com Portugal. Uma das coisas que eu nunca quis também fazer-
A digressão? Nem cantar?
Nem cantar, porque isso é um bicho do António.
Mas como dizias, está a dar-te um gozo enorme.
Porque eu acho que as cenas que nós fizemos, tanto do Trump como de Nova York, nós percebemos que havia uma felicidade tão grande na figuração, nas pessoas que estavam à nossa volta, que começamos a perceber que aquilo não podia ficar ali e não podia ficar só comigo e só com o filme. O António é do país, portanto, nós temos que celebrar. E depois há aqui toda uma história também que, de facto, eu não tenho obrigação de o fazer, mas o António não conseguiu fazer nem metade dos concertos antes de morrer. Houve ali um lado já muito debilitado dele nos últimos concertos. E então acho que isto também é uma celebração.
Daquilo que ele não conseguiu fazer.
Daquilo que ele não conseguiu. E o Nós Alive, por exemplo, serviu muito também pra isso, para perceber que, de facto, eu tinha que fazer, é uma opção minha e do Armando Teixeira, e nós tínhamos mesmo que fazer esta celebração com os portugueses.
Sérgio Praia, o nosso convidado ao vivo de hoje é António Variações, no filme que recorda um dos músicos mais emblemáticos da história da música portuguesa. Muito obrigada por teres aceitado o convite pra vires às Manhãs 360 e muitos parabéns por este sucesso.
Obrigado.