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Ao vivo, na Rádio Observador.

É debaixo da cama ou da mama que eles querem a tua mão, a outra mão, só para se estar mais à vontade. Deixa estar a mãozinha ser só minha que eu já te acerto o passo. Ai, esse passo, só para se estar mais à vontade. À vontade, ouve-me bem. Ai, bem, bem, não é à vontadinha. Ai, não, não. Só para se estar mais à vontade. Já faz tempo que eu não vivo, nem salto, nem atiro ao chão para ver terra na minha mão. Já faz tempo que eu não vivo, nem salto, nem atiro ao chão pra ver terra na minha mão. Em vez disso, oiço um não, não, só me querem ter na mão, na sua mão, só para se estar mais à vontade. Eu aqui vos juro que não, não, não é à vontadinha, que salta bão, vos vai deixar mais à vontade. Vou deixar a mãozinha ser só minha com a presa solta na minha mão, só para se estar mais à vontade. Ai, dizem eles, bem, bem, mau, mau, bem, bem, mau, mau, bem, bem, mau, mau. Bem, já faz tempo que eu não vivo, nem salto, nem atiro ao chão pra ver terra na minha mão. Já faz tempo que eu não vivo, nem salto, nem atiro ao chão pra ver terra na minha mão.

E o ao vivo desta semana é com o Tiago Vilhena. Trouxe-nos "Mau, Mau, Bem, Bem". É uma das canções de "Salatrano", o novo disco que surge aqui quatro anos depois do "Canções Mundanas". Olá, Tiago, bem-vindo.

Olá.

Obrigado por teres vindo à Rádio Observador mais uma vez. Acho que fizemos aqui a apresentação na altura do "Canções Mundanas". E de resto, ainda temos, dessa altura, algumas músicas que vão rodando aqui na nossa playlist. Está aqui de regresso um novo disco. Por que quatro anos? É muito tempo na carreira de um músico.

É, eu percebo.

Mas é a vida a acontecer.

A vida acontece, há muitas coisas pelo meio. Eu, para pagar as minhas contas, faço outras coisas que não música. Sou engenheiro civil, tenho um trabalho a tempo inteiro, oito horas ou mais por dia. E acabo por compor as minhas músicas.

Estás bem na vida, não precisas da música também para nada, não é?

Preciso. Se não faço a música, estava muito mal na vida. Não diria em termos financeiros, mas em termos emocionais, preciso dela.

Percebo.

E preciso de compor as minhas músicas. E componho mais do que os discos que lanço. Agora, para uma pessoa que não tem o tempo inteiro para depois tratar de distribuir, promover, divulgar, tratar de vídeos, de capas, de juntar músicos para tocar ao vivo, todas essas outras coisas que implicam ser músico, para além de fazer músicas, acabo por não ter tempo para isso tudo. Mas faço músicas.

O que é que é salatrano? Foi uma coisa que tu próprio inventaste, uma palavra? Agora és linguista, Tiago Vilhena.

Pelos vistos, sou. Não sabia, mas acabei por ser. Eu acho que sou linguista inconsciente, porque foi num sonho que essa palavra me chegou. A busca dos nomes de músicas acaba por ser fácil, porque vou escrevendo uma música e uma música aborda um tema e esse tema sugere um título, que muitas vezes é uma frase da música, outras vezes não. Nesses é fácil. Ao nomear um disco, ou uso o nome de uma música, que nunca o fiz, e acho um bocadinho menos interessante. A menos que não. Estava à procura de um nome para este disco e ele surgiu-me. E surgiu-me de uma forma engraçada, que foi num sonho.

Tem algum significado?

Eu não me lembro o que é que o meu sonho me dizia que era salatrano. Lembro-me que me dizia que salatrano era o nome do disco.

Ok.

Mas acabei por fazer um romance todo à volta desta palavra, mas é a minha mera opinião. Portanto, eu não sou dono dessa palavra, foi o sonho que foi o criador. E a minha perspetiva, a minha visão sobre esta palavra é que é um adjetivo.

Ok.

Um adjetivo para retratar uma pessoa boa onda e malandra.

Ok.

É um malandro boa onda, bom coração.

Gosto dessa definição. Parecia-me agora até que estavas a falar de Jorge Palma numa semana também.

É verdade, eu acho que ele era um bom salatrano.

Muito bem. Olha, já fizeste parte dos Savana, já foste Jorge Marvinson, agora és Tiago Vilhena já há algum tempo, mais assiduamente. Este novo disco, o "Canções Mundanas" já tinha esta característica, que é de tu próprio também, esse lado malandro ou castiço, passa para as letras das tuas canções, para as histórias que vais contando nas tuas canções. Neste disco, isso é acompanhado, diria ainda, de mais coisas que estão a acontecer instrumentalmente. Parece que há mais mistura até de géneros, para além do teu indie rock.

Sim, original.

Sim, como é que isto aconteceu? Quase consigo ouvir ali kizomba e coisas desse género.

Espero que oiças, porque eu tento. Eu normalmente componho músicas à guitarra e à voz. Uma ou outra ao piano, mas a maioria é uma guitarra clássica e voz. Sento-me, começo a tocar uns acordes, com caderno à frente, começo a escrever umas letras, umas palavras, palavras viram frases, frases geram sentido, o sentido motiva o próximo acorde e vou desenvolvendo músicas assim. Eu acabo de compor uma música, ela é uma estrutura feita com uma letra acabada do início ao fim e só depois é que normalmente vou pro meu estúdio pessoal começar a fazer arranjos. E eu adoro fazer arranjos, assim como adoro também sentar-me à guitarra e à voz. Mas essa parte dos arranjos motiva-me muito e eu perco muito tempo nisso e acabo por depois ir juntando muitas influências. Tenho muitos instrumentos, sintetizadores, muitas coisas de percussões, djembês, bongôs.

Esse processo também é mais sozinho. Pensei que ele podia até acontecer já com mais gente, mas continua a acontecer sozinho.

Não, essa parte do arranjo faço-a sempre sozinho. Isolo-me, gasto muitas horas a juntar, a experimentar e depois acabo por também ajustar a música, às vezes acelero o tempo, baixo o tom, subo o tom, faço experiências com a música que aparentemente já estava criada e vai-se criando uma envolvência nova.

Mas este disco tem muitas envolvências.

Tem muitas envolvências. Porque eu também ouço muita música variada, eu não me cingo a um estilo só, assim como eu acho que a maioria das pessoas que gostam de música acabam por não se cingir só.

E também não ouves um poeta só, não lês só Ário dos Santos. Que serviu de inspiração para "Amadores da Praça", é uma das canções de homem.

É verdade. Eu, na verdade, nem me lembro qual era este poema. Eu tenho lá um livro, uma coletânea de poemas do Ário dos Santos e às vezes folheio para me entreter ou mesmo para procurar inspiração. E lembro-me de passar por um poema, que já não me lembro qual é, mas que tinha um verso que era: "amadores da praça". Só isto, "amadores da praça". E eu achei esta frase espetacular, já nem me lembro do significado deste poema, mas dei-lhe um novo enredo.

Isto porque as tuas canções também se movem muito facilmente, já aqui tinha dito, entre essa ironia ou às vezes a observação do banal, e o título "Amadores da Praça" para uma das canções também tem um bocadinho esse lado do observador que está distante.

Constantemente.

Mas eu acho que tens sempre um olhar relativamente cómico sobre as coisas.

Mas forço o olhar cómico, porque eu acho que naturalmente tendo a ser uma pessoa um bocadinho mais soturna, mais isolada e com um tom mais baixo. Mas eu gosto de músicas que te atiram pra frente, que te sobem a moral, que te motivam, que te dão energia, que te dão vontade de te levantar, de sair de casa e de te mexeres. Até porque eu preciso disso. Eu preciso que me motivem a fazer coisas. Essa motivação é muito importante pra mim e eu acabo por fazer esse esforço para as minhas próprias músicas me motivarem a fazer isso.

Isso é bom.

E se motivarem outras pessoas, ainda melhor.

Olha, estou com muita vontade de ver isto ao vivo. Espero que se concretizem em breve concertos de apresentação deste "Salatrano". Acompanhem o Tiago Vilhena também nas suas redes sociais. Um salatrano de bom coração que veio aqui ao "Ao Vivo" desta semana, com as suas novas canções, precisamente o novo disco que sai esta sexta-feira, "Salatrano". Dele ouvimos há pouco "Mau Mau Bem Bem". Como é que fechamos o "Ao Vivo"?

Com o "Vem Cantar Amigo", uma música sobre a amizade.

Olha que bem. Obrigado, Tiago Vilhena, no "Ao Vivo" desta semana na Rádio Observador. Um abraço.

Um abraço. É numa noite ao luar que vos encontro. Debaixo da chuva canto uma cantiga pra nós. Uma cantiga pra nós. Sem saber se alguém vou hipnotizar. A canção é uma flor com espinhos pra me atormentar. Para me atormentar. Ao pensar que um dia vai acabar. Junto-me ao grupo pra durar. Tenho a vida pra aproveitar. Eu junto-me ao grupo pra durar. Vem cantar, amigo. Vem dançar. Vem correr o mundo com o olhar. São tempos pra dar e pra viver. Todos juntos pra aproveitar sem nada receber. Sem nada receber. Sem saber se algum dia vai mudar. Juntos pra pensar e falar e a diferença louvar. E a diferença louvar. Ao pensar que um dia vai acabar. Junto-me ao grupo pra durar. Tenho a vida pra aproveitar. Junto-me ao grupo pra durar. Vem cantar, amigo. Vem dançar. Vem correr o mundo com o olhar. Vem cantar, amigo. Vem dançar. Vem correr o mundo com o olhar.

Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.