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Seja muito bem-vindo ao "Aprender a Comer: Conselhos de Nutrição", sempre com a nutricionista Mariana Chaves, aqui na Rádio Observador. Olá, Mariana.
Olá, Nelson.
Tens um programa, ou pelo menos um tema muito engraçado para hoje. Nós estamos aqui a tentar perceber se a forma como comemos pode ser influenciada pelas pessoas que estão conosco nessa altura. É uma boa pergunta. Será que há aqui um efeito de contágio à mesa? Isto é mesmo verdade ou estamos aqui a arranjar desculpas quando comemos muito e quando comemos pouco? Culpamos quem está ao nosso lado.
Parece que este efeito contágio existe. E se pensarmos um bocadinho nos nossos comportamentos, eu acho que todos vão identificar. O que a ciência fala? Fala que isto é uma influência social no comportamento alimentar. Dão o nome a isto em inglês e que está aqui traduzido para português, mas nós sabemos que socialmente tendemos a imitar o comportamento de outros, e na alimentação não é diferente. Mas é sem darmos conta, que isto também é importante. Ou seja, adaptamos o quanto comemos e o que comemos um bocadinho ao que está na nossa mesa ou o que está à nossa volta, o que eles estão a fazer. Portanto, não é consciente, mas acontece. E isto já é estudado há décadas e os resultados são consistentes, que é: tendemos a comer mais se os outros comem muito, e a comer menos se eles comem pouco.
Às vezes pode ser por uma questão de etiqueta. Se estão a comer pouco aqui junto a nós.
Sim, também! Socialmente, até pelas regras que se impõem. Mas se te lembrares das crianças pequenas, para quem tem filhos, já ouviu o pediatra dizer: "Dê o exemplo, porque eles vão imitar".
Eu ia perguntar se isso, porque eu acho que os miúdos têm um bocadinho essa tendência de começar a pedir o que veem os outros comer. Mas isto aplica-se também aos adultos?
Sim, de forma muito evidente. E um exemplo curioso que alguns estudos falam é nos encontros românticos.
Os dates.
Os dates. Mostrou-se que pessoas solteiras tendem a escolher refeições com menos calorias quando jantam com alguém, que consideram que é atraente.
Que é para não pensarem que são uns alardos. É tudo uma estratégia, eu já percebi. Mas eu estou a imaginar e isto está a acontecer mesmo, por acaso.
Sim, eu acho que isto é interessante, porque fazemos isso de forma involuntária. Mas principalmente, essa escolha, o que estava lá dito era, especialmente se não estão numa relação estável.
Se estiverem, já perderam a vergonha. É por aí.
E não é tanto que comam menos durante a refeição, mas sim, que fazem escolhas mais controladas, como tu dizias, para causar boa impressão.
Tudo para causar uma impressão, já se percebeu. Então, se estivermos com alguém que come muito, também vamos comer, se calhar, mais do que comemos habitualmente.
Parece que esse é o padrão. Quando estamos à mesa com pessoas que realmente comem muito e que vão repetindo, por exemplo, que é uma coisa também muito portuguesa, nós tendemos a imitá-las ou a acompanhá-las. Quem diga que é acompanhar. Portanto, o cérebro vai interpretando aqui um bocadinho como se fosse uma norma social e adapta-se, mas também há o oposto, que é comermos menos se quem está conosco come pouco. E por acaso eu identifico-me com isto também. Por isso, exemplos é quando comemos com estranhos ou em contextos mais formais, se calhar mais profissionais, muitas pessoas sentem-se inibidas a comer o que queriam e comem um bocadinho menos.
Eu queria voltar um bocadinho atrás a um ponto que já falamos aqui, que é: isto aplica-se a pessoas com quem temos confiança, como a família ou os amigos.
Sim, parece que sim. Pessoas que comem em refeições mais regulares com amigos e família. Isso acontece, e as quantidades serem maiores, mas normalmente não reconhecem isso, que é engraçado. Ou seja, admitem que comem menos com estranhos e que exageram em ocasiões especiais, mas não têm muita consciência de que no dia a dia, no convívio, que realmente pode haver um aumento de consumo, porque estamos com pessoas com quem estamos mais à vontade, como dizias bem.
E isto faz pensar um bocadinho, porque muitas vezes podemos comer não por fome, mas claramente por pressão do ambiente.
É isso. Ou seja, nós temos aqui duas vertentes. A vertente do apetite propriamente dita, fome. E depois temos esta questão social, contexto social. E a verdade é que muitos dos nossos comportamentos à mesa são automáticos e são influenciáveis. Sem nós termos muita consciência disso, principalmente em alturas de lazer. E de facto, mostra-se este efeito que cerca de um terço das pessoas reconhecem que são influenciadas por isso. Apenas um terço, já viram o importante que isto é. A maior parte não reconhece que é influenciada por isso, mas a verdade é que se vê em contextos sociais. Se há uma mesa com aperitivos, um começa a comer, todos os outros atacam, entretanto os aperitivos desaparecem.
É verdade. Mariana, isso faz lembrar também uma coisa que dizem um bocadinho das mulheres, mas eu acho que também dizem às vezes dos homens, principalmente quando eles começam a ganhar uma certa barriga e dizem que o aumento de peso, a culpa é do casamento. Depois de casar, aumentamos de peso. Isto tem alguma base científica?
A base científica é só de relato, ou seja, é só identificação. Verdade que, em média, as mulheres tendem a ganhar dois a dois quilos e meio ao longo de 10 anos depois de se casarem.
Não é assim muito.
Não, é até uma coisa que se estende, mas a verdade é que também aparecia sobre os homens. Mas é engraçado que o que é impactante aí é a mudança de rotina. Partilhar refeições. Os homens, vocês podem comer mais do que nós, na maioria dos casos, porque têm mais gasto calórico e, portanto, têm mais liberdade. Mas isso acaba por ser um contexto individual em casa, que se a mulher normaliza a quantidade de comida em relação ao parceiro, o que acaba por acontecer é que acaba por comer imitando o contexto que está à sua frente.
Há aqui conselhos que podemos seguir nestas situações?
Quando nós pensamos neste comportamento alimentar e quando estamos acompanhados, tem muito esta parte de estarmos distraídos também à conversa. E há personalidades que tendem a comer sem parar, principalmente se estão a socializar.
Sem dar por ela.
Sem dar por ela, porque o teu cérebro está focado naquilo que é desafiante, que é conversar, que é divertir-se. E o facto de comer é uma coisa que nos é inata. Todos nós sabemos desde pequeninos. E a verdade é que nós não conseguimos realmente prestar atenção às duas coisas ao mesmo tempo. E acontece muito as pessoas que comem demasiado, porque não estão a ter essa consciência. E o conselho que eu tenho para essas pessoas com essa personalidade que acaba os aperitivos todos, ou seja, vai acabar o patê ou vai acabar o queijo até ao fim, só porque começou. Para essas pessoas eu costumo dizer que é importante elas antes de chegarem a essa refeição, tomarem as suas decisões. Ou seja, ou vou tomar a decisão no aperitivo de beber dois copos de água antes de começar a comer.
Isso é sempre bom para enganar logo a fome.
Claro, ter certeza que não é sede. E também pensar que muitas vezes as pessoas começam a beber álcool antes de jantar ou antes de almoçar, isto em termos sociais, e isso faz com que abram mais apetite. Se calhar essa decisão de deixar o álcool, sempre de forma muito moderada, atenção, não estou aqui a aconselhar beber álcool, mas se o fizerem a meio ou no final da refeição, é sempre uma estratégia melhor para controlar o que comem. Mas também, por exemplo, decidirem: "Ok, não vou comer aperitivos, eu vou só comer umas azeitonas, vou começar no prato". Ou quando eu chegar à mesa e vou estar a conversar. Há muita tendência para partilhar pratos. E isso é um perigo, porque se eu vou partilhando pratos a picar, identificas-te com isso, se calhar, Nelson?
Claro que sim.
No final não sabes o que comeste. E o que eu aí aconselho é: vão partilhar pratos? Ótimo. No vosso prato, ponham aquilo que vocês querem comer e não repitam.
O problema é se estás com uma pessoa que influencia a tua escolha, que acontece muito.
É isso.
Que é: "Eu quero comer isto". "Não, mas pega antes aquilo", que é para comer o dela e depois o teu também um bocadinho. Também acontece.
Exatamente.
Mas nesta questão social podemos usar essa influência dos outros também a nosso favor. Isto pode não ser mau.
Sim, sem dúvida. É pensarmos um bocadinho que há zonas do globo onde há grupos de pessoas que vivem mais anos, as chamadas blue zones, são mais longevas. E nós também podemos fazer isso no nosso pequeno mundo. Poderá ser rodearmo-nos de pessoas que cuidam da alimentação como nós, mas também poderá ser puxar o nosso grupo, a nossa tribo, para ter hábitos mais saudáveis. Eu muitas vezes digo às pessoas para experimentarem ter disponível palitos de cenoura ou tostas mais integrais e ver o que acontece. E a maior parte das vezes dizem-me sempre que adoraram e comeram até ao fim. Isto com as crianças, com os pais, com os amigos. A verdade é que nós podemos influenciar o nosso grupo também para ser mais saudável e não temos que estar à espera que os outros façam isso por nós.
Muito bem, está feito mais um episódio do "Aprender a Comer" com a nutricionista Mariana Chaves. Muito interessante este tema, a forma como o nosso ambiente ou as pessoas que estão conosco à mesa nos influenciam para comer mais ou menos. E há estratégias para não cairmos nessa ratoeira. Aqui deixadas pela Mariana Chaves, num episódio que já sabes, está sempre disponível no site do Observador e também nas plataformas de podcast. Até para a semana, Mariana.
Até para a semana, Nelson.