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Voltamos a contar aqui hoje com a Mariana Chaves, é a nossa nutricionista. Para além de estar aqui às terças-feiras no Aprender a Comer, tem também a sua newsletter. Todas as quartas-feiras à tarde sai uma nova Posso Comer? É assim que se chama a newsletter da Mariana Chaves e que todas as semanas traz conselhos de nutrição. Podem subscrever esta newsletter também no nosso site em observador.pt. Mariana Chaves, bem-vinda, como estás?
Obrigada, Nelson. Está tudo bem.
Esse verão está a correr bem?
Muito bem.
Ótimo. Estamos quase no final de agosto e hoje resolvemos falar aqui de toranja. Eu tenho que admitir que uma vez comprei por engano.
Achavas que era laranja.
Claro. Já me aconteceu. O que é facto é que eu nunca voltei a comprar, não sou consumidor de toranja. E a Mariana resolveu hoje falar disto porque a toranja, apesar de ter muitos benefícios, porque é uma fruta, obviamente, associamos sempre isso a uma alimentação mais saudável. No entanto, queríamos olhar aqui com a ajuda da Mariana para esta questão da toranja, que pode ter alguma interferência com alguns medicamentos. Antes de irmos aí, a toranja é como a laranja, tem os mesmos benefícios em termos de vitamina C?
A toranja até tem mais benefícios do que a vitamina C. Tem um fitoquímico muito importante, que são as flavononas.
Bom nome para uma banda.
Complicado, exatamente.
Uma banda punk.
Sim.
Que nós achamos que tem um efeito vasoprotetor, ou seja, que ajuda a reduzir um bocadinho a rigidez dos vasos sanguíneos e, portanto, ajuda a reduzir o risco cardiovascular. E agora em 2022, este ano, saiu um estudo exatamente sobre o efeito do sumo da toranja nas mulheres em pós-menopausa, que é uma altura mais crítica para este risco cardiovascular e, portanto, tem esse efeito protetor cardiovascular. Não é tudo mau, mas realmente a toranja é dos poucos alimentos que temos ter um bocadinho mais de cuidado, pela sua interação de alimento-medicamento.
É curioso. Eu nunca tinha ouvido falar num fruto que pudesse ter essa interferência.
Se calar até nem é o único.
Não, não é o único. É o que tem mais interações. A lista é uma lista bastante extensa, com mais de 30 medicamentos, mas, por exemplo, haverá aqui alguns medicamentos pontualmente, estamos a falar de dois ou três, que podem interagir, por exemplo, o consumo da laranja ou o consumo da maçã. Mas aqui a toranja, o que acontece? Ela pode interferir aqui de duas maneiras, tanto na parte de metabolização como na parte de absorção. O que isto quer dizer? Se interfere na parte de absorção, quer dizer que absorvemos menos e, portanto, não vamos ter o efeito que queríamos com aquele medicamento. Se interfere com a parte de metabolização. Metabolização é como se fosse digestão, como se fôssemos partir uma coisa em bocadinhos. Portanto, vai interferir, vai haver menos metabolização, quer dizer que pode ter efeito tóxico, de repente esse medicamento ficar em altas concentrações no nosso sangue. Portanto, também não nos interessa muito se é por uma razão ou se é por outra. Interessa-nos saber realmente que temos que ter algum cuidado.
Estamos a falar de que medicamentos?
Um muito utilizado em Portugal, que são os medicamentos para reduzir o colesterol. É do mais utilizado, a sinvastatina.
Isto está tudo ligado com o fígado, não é?
Sim, está tudo ligado com o fígado, porque todos os medicamentos são metabolizados no fígado. Mas, por exemplo, mesmo para quimioterapia, é uma coisa completamente desaconselhada. Não é o único que é desaconselhado, mas realmente a toranja não deve ser utilizada nunca.
Porque sobrecarrega o trabalho do fígado?
Não, porque interfere no funcionamento, na metabolização dos medicamentos em si. E não é na altura, porque às vezes pode passar a mensagem errada de que no dia do tratamento não vai tomar.
Ia perguntar-te isso, qual é a distância que a podemos fazer?
A toranja pode ter um efeito até três dias e, portanto, temos mesmo que ter esta janela. Se nós tomamos uma medicação diária, então que interfira, não devemos de todo fazer o consumo de toranja, seja em sumo ou seja em fruta fresca. Nestes casos de tratamentos também temos que ter esse cuidado. Portanto, faz sentido, primeiro que tudo, informarmos com o nosso médico, informarmos com o nosso farmacêutico também, porque a sinvastatina é um medicamento muito vendido, muito comum e portanto, faz sentido chegar ao farmacêutico e perguntar se há alguma interferência.
Tu falaste em colesterol.
Certo.
Mas há mais, não é?
A questão da quimioterapia também.
A questão da quimioterapia.
Mas tu falavas em muitos, são mais de 30 substâncias que podem interferir com a toranja. De facto, o colesterol é uma situação bastante portuguesa, diria.
Como é que é? Sinvastatina?
Sinvastatina, sim. E para além disso, temos também para controlar a pressão arterial, que é outra coisa muito comum em Portugal, controlar o ritmo cardíaco, infeções como a malária, anticoagulantes, mas que normalmente as pessoas que tomam anticoagulantes já são pessoas que estão mais despertas para o assunto, porque há muita interação com esses medicamentos. De qualquer forma, as pessoas podem aceder a listas, como sendo um site que tem drugs.com, tem lá toda a listagem da interação da toranja com medicamentos, ou um onde estão medicamentos mais raros, que se chama rxlist.com. Aí vão encontrar todas essas listagens, mas de qualquer forma, se é uma amante de toranja, acho que faz sentido falar com os profissionais de saúde sobre isso também.
Tinha aqui uma outra questão. Isto pode ser perigoso ou desaconselhável também noutros produtos que possam ter toranja e a gente nem imagina. Se calar um fruto mix de frutas, se calar tem toranja e a gente nem sabe.
Exatamente.
Por que se associa tanto as toranjas às dietas? Não associas? Eu associo um bocado.
Por ser cítrico? Não sei.
Não sei. Porque aquela ideia de que não engorda tanto, será possível?
Não te sei responder. Eu acho que talvez um váse.
Para além de novelas brasileiras. Em novelas brasileiras há o pequeno-almoço.
Há o pequeno-almoço. Aquele pequeno-almoço.
Ah, sim?
O pequeno-almoço da Globo.
Sim, o pequeno-almoço da Globo.
Na verdade, também tem frutose. Não é como o limão, que é isento praticamente de frutose. É uma fruta que também tem frutose. O facto de ser muito ácido, eu acho que todas as pessoas associam isso a não existir calorias. Como se fizesse uma limpeza no nosso corpo. Mas não se trata disso. E tendo estes benefícios todos que falei no início, e estas interações todas, é realmente um alimento que é muito potente no nosso corpo, mas daí a fazer-nos emagrecer, de todo. Não há evidência nenhuma. Isso que dizias, Nelson, é muito importante, porque mesmo nos refrigerantes com sabores a citrinos, é importante para estas pessoas em questão que falámos, que tenham estas medicações, verificar na lista de ingredientes se existe extrato de toranja, porque sendo um alimento tão potente, mesmo em extrato, poderá ter interação. Senão não faz sentido.
Eu estava com essa dúvida, que é: num refrigerante, que se calhar tem muitos frutos, essa quantidade de toranja que lá vai ter, que ainda por cima é um extrato de toranja, pode ainda assim interferir?
Aroma.
Sim. Eu já nem acredito que ali exista toranja realmente.
Mas se estivermos a falar de sumos de fruta naturais, aí é diferente, não é?
Quando é extrato, quer dizer que é mais concentrado. Quer dizer que é um pó concentrado e, portanto, toda a ação. Imaginem a fruta maçã desidratada. Parece-vos muito pequena, mas está lá tudo, exceto a água e as vitaminas que saem com a água. Mas neste caso, estes fitoquímicos em questão que estamos a falar, permanecem mesmo na ausência da água, portanto, iriam estar nesse extrato. Eu acho que não se corre o risco. Acho que é um pouco por aí. Tendo este conhecimento, deve-se ter mais cuidado.
A triar bem.
Exatamente.
Estavas aqui a falar na questão da toranja como sendo dos alimentos que mais interações tem com a medicação. Lembras-te quais são os outros mais comuns, se calhar até alguns mais comuns ainda na nossa dieta?
Sim. O chá, por exemplo, o chá verde tem muita interação com medicamentos e mesmo em tratamentos oncológicos, muitas vezes é falado para se ter algum cuidado. O chá de hipricão, chá de palarco, completamente desaconselhado. Nós falamos nos tratamentos oncológicos.
O chá de hipricão é muito associado à digestão também, não é?
São chás desintoxicantes e, portanto, mais uma vez vão interferir com o funcionamento do nosso fígado e temos que ter algum cuidado. Não é a mesma coisa de tisanas clássicas como a camomila e a cidreira. Os chás são um bom exemplo de como as ervas realmente têm poder no nosso corpo, mas também têm interação com outras substâncias e medicamentos em questão.
Toranja, um medicamento. Agora já estava eu a pensar aqui nas interações com os medicamentos da toranja, este fruto que tem os seus benefícios, obviamente, mas que tem aqui também alguns cuidados, principalmente para quem estiver a fazer uma medicação mais regular. E a Mariana falou-nos aqui mais no caso do colesterol, da tensão também que falavas.
Pressão arterial.
De pressão arterial e que é preciso aqui algum cuidado, porque este alimento pode interferir no efeito do medicamento e depois na sua metabolização pelo nosso organismo. Mais alguma dica para a toranja ou fechamos este nosso capítulo? Gostei muito de saber disto. Primeiro, porque não associamos. Aliás, quando se fala destas interações com medicamentos, fala-se sempre no álcool, não é? "Não pode consumir álcool", porque tem o mesmo efeito.
E outros medicamentos, uns com os outros que podem ser prejudiciais.
E mesmo o leite. O leite também é um alimento que pode ter interferência com alguns medicamentos. Portanto, eu acho que aqui a mensagem a passar em relação aos medicamentos é que se devem beber sempre com água, ponto. E que há alguns alimentos, não falando agora do álcool, mas o caso do chá, o caso da toranja, não deve ser na mesma refeição. A toranja não deve de todo, tem que se ter mesmo cuidado.
E ficamos com essa dica também de que pelo menos durante três dias não devem estar juntos a medicação e a toranja.
Exato.
Muito bem, pra semana voltamos a falar com a Mariana Chaves no "Aprender a Comer". Subscrevam também a newsletter "Posso Comer?", que todas as quartas-feiras está pelo site do Observador. Mariana, até pra semana, obrigado.
Obrigada, até pra semana.