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Será que Deus tem um nome próprio? Este é o terceiro episódio de "As Histórias da Bíblia", o podcast da "Rádio Observador", em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou o Francisco Martins, padre jesuíta e professor do Instituto Bíblico de Roma.

Eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.

Todas as semanas, com a ajuda destes dois especialistas, vamos olhar para uma parte da Bíblia e percorrer este livro do início até ao fim. Nós na semana passada estivemos a falar sobre a criação do mundo, sobre Adão e Eva, e neste terceiro episódio vamos andar uns séculos e uns quilómetros no espaço e no tempo, neste espaço e neste tempo incertos dos primeiros livros da Bíblia. Vamos até ao Egito dos faraós para conhecer Moisés e vamos acompanhar a fuga do povo hebreu, a travessia do Mar Vermelho, os Dez Mandamentos, enfim, tudo, episódios marcantes da nossa cultura, que influenciaram óperas, pinturas célebres e até filmes de desenhos animados. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Esta semana vamos falar daquilo que é provavelmente um dos momentos mais famosos da Bíblia. Até quem nunca leu a Bíblia já ouviu falar da fuga do Egito e dos Dez Mandamentos. E há muito a dizer sobre isto, sobretudo, por exemplo, sobre a importância da lei na religião judaica. Mas antes disso, vamos tentar perceber muito rapidamente como é que chegámos até ao Egito. Nós neste podcast estamos a percorrer a Bíblia do início até ao fim, através obviamente dos episódios mais significativos e mais marcantes. Isso implica, obviamente, que temos de saltar algumas partes e, portanto, deixem-me só resumir muito rapidamente as dezenas de páginas que saltámos agora. Nós depois dos relatos da criação do mundo, que falámos na semana passada, encontramos Abraão, o primeiro patriarca, aquele homem que é chamado por Deus a seguir para a terra prometida. Depois disso, o livro do Génesis conta-nos a história de Isaac e de Jacob, que vamos depois conhecer como Israel. Este é o tempo dos patriarcas. E a certa altura, um dos filhos de Israel, que se chama José, vai para o Egito para trabalhar na casa do faraó e os seus irmãos, todos os filhos de Jacob ou os filhos de Israel, acabam por juntar-se a ele lá. E é assim que encontramos no início do livro do Êxodo, que é o segundo livro da Bíblia, para o qual vamos olhar agora, o povo de Israel, composto, portanto, pelas tribos destes filhos de Israel, no Egito. João, contei bem a história ou acelerei demasiado? O que aconteceu até chegarmos ao Egito?

Sim, acho que contaste bem a história. De facto, os capítulos do Génesis que vão de 12 ao 50 falam de quatro gerações de uma só família. Poderíamos até, se quiséssemos atualizar à cultura contemporânea, uma espécie de "Sopranos", porque há muita violência, às vezes aqui metida, não muitos traumas, mas muitas intrigas familiares. Muito embora nós não tenhamos tanta certeza se podemos fazer uma relação direta de genealogia entre Abraão, Isaac, Jacob e José, mas também é muito difícil dizer que estas pessoas não existiram, também é um salto exagerado. Estamos aqui a falar de várias gerações que fazem muitas viagens, estão à procura de um modo de vida. Nós não sabemos bem se elas eram nómadas, não seriam nómadas no sentido clássico, mas também não praticavam a transumância propriamente dita. Mas esta história também permite fazer um ponto que é: Deus começa, de certa maneira, a distanciar-se. Deus fala muito com Abraão, fala cada vez menos com Jacob, por exemplo, e quase nunca ou nunca com José. Portanto, nós começamos a ver aqui uma espécie de distanciamento que permite depois o ser humano tomar uma espécie de rédeas da história.

Da sua própria história.

Sim, da história que segue.

Ora bem, nós no início do livro do Êxodo, que é o segundo livro da Bíblia, Francisco, parece que está tudo a correr bem. Ou seja, o José trabalha lá na casa do faraó, o povo judaico está a viver no Egito, a dada altura, parece que está tudo a viver feliz, mas a certa altura, há uma mudança de faraó, vem um faraó que já não reconhece a importância de José e da sua descendência, e começa ali uma opressão, uma subjugação daquele povo, e a dada altura, vai ser mais ou menos neste ponto da história que vamos encontrar esta figura absolutamente central do Antigo Testamento, que é Moisés. Como é que chegamos a esse acontecimento que depois vai provocar a famosa fuga, o famoso êxodo?

Exato. Tu, João, estavas a dizer, o livro do Génesis concentra-se basicamente nas peripécias de uma família, essas suas quatro gerações, de Abraão até José, e depois esta família, que são 70 pessoas, descem ao Egito. O livro do Êxodo, aliás, em hebraico, não se chama livro do Êxodo, chama-se livro dos Nomes. Por quê? Porque o livro do Êxodo começa com os nomes das 70 pessoas que desceram ao Egito, na altura de José. E, portanto, este povo depois está no Egito e começa a crescer, de alguma forma. E é este novo faraó, que também não tem nome, como o nome do primeiro faraó não existe também, é este novo faraó que diz: "Bom, este povo está a crescer demasiado, o melhor é começar a oprimi-lo para ver se reduzem os números". Obviamente que isto não reduz números nenhuns, pelo contrário, porque isto no fundo cria aqui a expectativa da redução, mas continua a aumentar, até que ele decide começar a matar os primogênitos, portanto, a matar os varões das famílias hebraicas. Se calhar, só dizer isto, que entre José E esta geração, que será a geração de Moisés, de acordo com a cronologia bíblica, passam 400 anos. São 400 anos de opressão. Cronologia bíblica é uma questão muito complexa, se calhar podemos falar dela em outro momento.

Aliás, estavas a mencionar um aspecto interessante que é: nem sequer é referido o nome do faraó. Mesmo quando falamos de tentar situar estes acontecimentos num tempo concreto, numa cronologia concreta, até numa veracidade histórica, é complicado.

É complicado. Mas isto faz tudo parte, que aqui é mais a ideia do faraó do que um faraó concreto. É mais a ideia do rei do Egito como um opressor, uma espécie de símbolo do opressor, do que propriamente um faraó concreto. A história de Moisés, concretamente, Moisés é desta geração, 400 anos depois da história de José. Moisés é de uma família sacerdotal, nasce e estaria condenado à morte, de acordo com esta ideia de que é preciso reduzir o número dos hebreus no Egito, e acaba por ser colocado pela sua mãe numa cesta, enviado pelo rio abaixo e depois recolhido por alguém que trabalha para a filha do faraó e educado na corte do faraó. Um hebreu reconhecido como tal, educado na corte do faraó. E depois a história tendo um desenlace um bocadinho problemático, que é Moisés reconhece que ele próprio é hebreu, de alguma forma, e vê a opressão a que estão sujeitos os hebreus. E há um dia que tenta, quando viu um egípcio a bater num hebreu, que mata o egípcio pra tentar salvar o hebreu. E isso acaba por criar o problema que leva à fuga de Moisés do próprio Egito. Passa a ser sabido que ele matou um egípcio e isso poria a sua própria vida em risco e parte para longe, nesse momento, onde depois realmente recebe a revelação de Deus e é reenviado ao Egito como libertador do povo.

Como libertador. Temos a falar aí de uma figura que, sendo central na libertação do povo, e sendo ele próprio hebreu, emana da corte do faraó. Ou seja, está ali na elite egípcia.

Exato. Atenção, é preciso saber que esta história do Moisés realmente é elaborada com base também noutras biografias daquela zona e daquela época, sobretudo biografias heróicas de outros reis, sobretudo os reis assírios, onde esta ideia de que aquele que será o grande chefe, o grande rei, o grande imperador, tem uns inícios humildes e sobrevive nas condições mais improváveis, cria uma certa ideia de milagre, de uma certa ideia de que realmente esta é a pessoa escolhida, porque senão nunca teria sobrevivido às condições.

Eu acho que é interessante só introduzir aqui um tema. Eu já mencionei aqui que o Francisco é autor de um livro chamado "A Bíblia Tinha Mesmo Razão", com um ponto de interrogação no final, justamente sobre uma série de acontecimentos narrados na Bíblia que ao longo da história da humanidade procurou tentar perceber se são verídicos ou não. E eu lembro-me de ler esse livro e de encontrar lá umas notas interessantes sobre este texto. E eu acho que é interessante começarmos talvez por perceber qual é que é o gênero literário desta história para a qual vamos olhar, que é a de um povo a fugir, a atravessar o Mar Vermelho, a atravessar o deserto e a tentar regressar à Terra Prometida. Ou seja, eu lembro-me que tu nesse livro falavas da ideia de isto poder ser uma narrativa um pouco exagerada, de um acontecimento talvez reequacionado a partir depois do exílio, como já falámos, depois da experiência do cativeiro do século VI antes de Cristo. É assim também que devemos olhar para este relato?

A questão do gênero literário, neste caso, é muito importante, como também no caso do Gênesis 1 a 11. É um gênero literário um bocadinho diferente. O outro era o mito, aqui estamos diante da epopeia. Nós até, se calhar, como portugueses, temos mais facilidade em perceber do que é que se está a falar, por causa d'Os Lusíadas, da nossa própria formação durante o tempo da escola. Esta ideia de um relato que tem realmente um núcleo histórico, tem ali uma história detrás, de alguma forma, alguma coisa histórica por trás, mas que faz uma enorme elaboração de caráter literário, às vezes até quase mitológico. Quais são as expectativas justas em relação a este gênero literário? O João falava já a propósito do Gênesis, dos Lusíadas, e eu gosto de dar sempre este exemplo do Adamastor. Se se pergunta a uma pessoa: o Adamastor é histórico ou não é histórico? A resposta não é fácil, porque o Adamastor realmente não é histórico. Como monstro, não é. Mas as dificuldades em atravessar o Cabo das Tormentas, depois o Cabo da Boa Esperança, são muito históricas, são reais, foram experimentadas. E portanto, quem lê sabe o que é que se está a falar. De alguma forma, o faraó do Egito é uma espécie de Adamastor desta história. Não tem nome, é um monstro.

E contrasta com o nome de Deus.

E contrasta com o nome, exatamente. Contrasta com Deus, que é aqui a figura com quem ele se debate. No fundo, a luta aqui não é exatamente Moisés-faraó. Embora depois nos filmes pareça ser que é Moisés-faraó. A luta é Deus-faraó.

Claro!

Este é um gênero literário onde há o núcleo histórico, mas há imensa elaboração literária. O núcleo histórico, também falava sobre isto no livro, o núcleo histórico é muito difícil de reconstruir. Temos uma época muito recuada. Talvez tenha sido a experiência de um pequeno grupo de ex-escravos do Egito que conseguiu fugir e que experimentou essa fuga, essa libertação, de alguma forma, como a obra de um deus chamado Yahweh. Jamais fala o nome de Deus, mas um deus chamado Yahweh, e que a partir daí construiu a sua própria experiência Como é que eu diria? A sua própria experiência de fé, a sua própria elaboração de fé desta história. Posteriormente, quando estes textos são escritos, essa elaboração ainda conhece outras camadas e outras experiências de opressão e libertação, como o exílio, que são também aqui introduzidas e elaboradas e reelaboradas.

Que aprofundam, de certa maneira, a necessidade de contar esta história com grande intensidade. Por exemplo, aqueles números em que vemos não sei quantos milhares de pessoas a sair.

Sim, são números inimagináveis. Eu acho que os próprios autores sabem que são inimagináveis. O número é 600 mil homens, sem contar crianças nem mulheres. Um milhão de pessoas a atravessar o deserto durante 40 anos a fugir dos egípcios. É um pouquinho difícil de imaginar, um milhão de pessoas.

João, achas que neste episódio podemos encontrar, de certa maneira, um primeiro passo da história de um povo, este povo judeu, que depois, ao longo da história, parece viver nestes ciclos de busca permanente da liberdade, em resposta a opressões constantes vindas de diversos lugares, do Egito, da Babilónia, etc. Parece que há aqui uma marca que atravessa toda a história do povo judeu.

Eu acho que, como o Francisco dizia, tratando-se de uma epopeia e tendo nós até a relação com "Os Lusíadas", nós percebemos claramente que a grande câmara de eco da nossa história é "Os Lusíadas". Aqui também me parece a grande câmara de eco, até porque é uma câmara de eco que tem ressonância de outras coisas que já foram acontecendo, como é o caso do exílio para a Babilónia, é o grande leitmotiv de toda a Bíblia, neste caso do Antigo Testamento, talvez um dos pontos referenciais. Mas ainda hoje, esta ideia de que existe uma terra prometida, por exemplo, a história dos Estados Unidos como a terra prometida, o facto de em 1779 Benjamin Franklin ter pedido ou sugerido aos pais fundadores que a imagem de Moisés estivesse no grande selo americano, dos Estados Unidos, representa bem a ideia de que isto, apesar de não ser um momento sindical, preciso também fazer esta distinção, parece que é quase como se fosse o 25 de Abril, não me parece que seja justa esta apropriação, mas apesar de não ser um momento sindical, como dizia, esta história de que há um povo que procura a liberdade é ainda a história que nos inspira hoje a entender uma espécie de futuro que tem uma espécie de deserto no meio. Há aqui também esta ideia. Ou seja, não se chega à terra prometida sem um deserto e acho que isso ainda hoje é muito sonante.

Já voltamos de seguida, depois de um curto intervalo, para a segunda parte das histórias da Bíblia. Vamos, como disse no início, tentar perceber se Deus tem um nome próprio, mas além disso, vamos tentar compreender se além de uma história, a Bíblia é também um código penal. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Francisco Martins. Nesta primeira parte estivemos a falar sobre Moisés e sobre a fuga do Egito relatada no Êxodo. Vamos continuar a falar deste célebre episódio bíblico e vamos também continuar a olhar para estes cinco livros, estes primeiros cinco livros da Bíblia, a que chamamos habitualmente o Pentateuco. Há aqui um aspeto fundamental deste período bíblico, que é a ideia da lei. Ora, o povo judeu foi libertado de Israel por Moisés. Podem ajudar-nos também a perceber um pouquinho melhor esta dinâmica, isto que aconteceu aqui do libertador Moisés, que colocou este povo no deserto, mas o povo judeu, depois de libertado por Moisés do Egito, está no deserto a caminho da terra prometida. No livro do Êxodo encontramos o célebre relato dos 10 Mandamentos, que Moisés recebe no Monte Sinai. Depois, mais à frente, o livro do Levítico é também uma enorme coleção de leis que foram recebidas por Moisés. Encontramos, por exemplo, lá no meio dessas leis, as especificações técnicas para a construção do tabernáculo, que foi o primeiro templo, ainda no deserto. Eu gostava de perceber, Francisco Martins, por que é que a lei tem uma preponderância tão grande neste período da narrativa bíblica? Ou seja, por que é que neste momento, em que talvez possamos identificar esse momento fundador da religião judaica, como é que acontece isto? Moisés liberta o povo e depois durante essa fuga, a lei tem uma preponderância tão grande.

A lei é um aspeto central do Antigo Testamento, isso é inegável, e também da experiência do judaísmo atual e de toda a história do judaísmo. Talvez esta ideia da lei, às vezes, é um bocadinho ingrata na expressão "a lei", de alguma forma, porque a palavra em hebraico, Torah, fala mais de ensinamento, de regra de vida, que no fundo, de alguma forma, é aquilo que eu devo fazer para que a minha vida diante de Deus realmente cumpra todos os requisitos e seja uma vida bem vivida. É esse o significado, mais do que: "estão aqui umas leis e agora é para cumprir e acabou, e nada disto tem qualquer objetivo a não ser cumprir a lei". É verdade que o judaísmo, e se calha começar por aí, o judaísmo é muitas vezes acusado de legalismo. Muitas vezes no seio do cristianismo, esta ideia do judaísmo como uma religião legalista é muito comum. Mas a lei que se encontra no Pentateuco tem duas características que fazem dela uma espécie de experiência ou, se quiserem, de princípio revolucionário, verdadeiramente. A primeira é que é uma lei divina, uma lei dada por Deus. Isto parece-nos óbvio hoje em dia, mas no antigo Médio Oriente, a lei nunca era dada por Deus. A lei era do rei. O rei era a lei. Agora, a lei no Antigo Testamento, e isto é único naquela época, naquele período, naquela zona, a lei é um contrato, uma aliança entre Deus e o povo. Isto é uma revolução total, teológica e eu diria quase para democrática, num certo sentido. Porque aqui, no fundo, não é Deus que faz um contrato com o rei e depois o rei estabelece a lei para o povo. Não, é Deus diretamente com o povo que lhe dá a lei e o povo está numa aliança direta com Deus, não através do rei.

Ainda assim, há uma intermediação, por exemplo, de Moisés.

Mas Moisés não é uma figura real. E é muito curioso, porque a lei, num certo sentido, Moisés tem que morrer no final do Pentateuco pra que a lei possa permanecer e funcionar de alguma forma. Moisés não entra no sítio onde a lei se aplica, que é na Terra. O segundo aspeto, só pra dizer isto, é que a lei é dada fora da Terra. O João Francisco estava a dizer isto, é um aspecto essencial. A lei é dada no Sinai, fora da Terra, fora de onde o povo vai viver. Isto é uma mensagem fortíssima: é possível viver bem como judeu fora da Terra. Aquilo que já dissemos no episódio aqui há umas semanas, esta ideia de que a Bíblia ou a lei, se quisermos, é uma espécie de pátria portátil. Portanto, o judaísmo, de alguma forma, concebe esta ideia de uma identidade vivida em pleno, mesmo fora da Terra. É possível viver na Terra, e a lei está a pensar também em viver na Terra, mas é possível viver fora da Terra e ser plenamente judeu.

E esta questão da lei, por exemplo, nós hoje em dia temos uma visão que o Francisco já aflorou por causa do significado da palavra Torá, que é ver esta lei como uma espécie de mandamentos. Até, se calhar, muitos dos nossos ouvintes frequentaram a catequese, conhecem os mandamentos, foram obrigados a saber, a decorar, porque têm que cumprir aquilo e até acham ridículo que Deus diga para não roubar. Toda a gente sabe que não se deve roubar, por que Deus precisa dizer isso? Agora, nós temos que ver que a lei e os mandamentos, por exemplo, funcionam como uma espécie de baias no ringue. Num ringue de boxe, nós temos aqui os quatro lados, estão mais ou menos protegidos por umas cordas, mas dentro do ringue, os lutadores fazem o que querem. E se calhar, aqui, até voltando à ideia do limite que falámos no último episódio, na semana passada, os mandamentos formam um limite dentro do qual se amplia a liberdade. Ou seja, se calhar, o mais interessante até dos 10 mandamentos e do decálogo, que é o conjunto dos 10 mandamentos, o nome técnico, mais ou menos, é que o decálogo não diz propriamente o bem que é pra fazer, porque o bem está depois entregue a uma certa responsabilidade humana. E acho que isso é que é interessante, o facto de o decálogo funcionar assim, parece-me interessante.

Estabelece um mínimo.

Sim, é como se fosse estabelecer um mínimo, o mínimo do ringue. E começa claramente, como o Francisco estava a dizer, com uma relação, que é: antes dos mandamentos, o primeiro é: eu sou o teu Deus. Esta ideia da novidade no tempo da Terra. Quando nós vamos ler as proibições, não é? "Não matarás", temos que entender o que está antes, que é precisamente esta ideia: eu sou o teu Deus. O Êxodo, aliás, é a história de um só povo, numa só terra, num só Deus.

Mas e já agora, claro que os 10 mandamentos são a face mais visível da lei que marca um bocadinho este período da história bíblica, e são relativamente conhecidos, e é conhecida a história das tábuas de Moisés, etc. Mas a verdade é que, além dos 10 mandamentos, o Êxodo e depois o Levítico trazem-nos uma série de códigos legislativos com coisas muito concretas, tipo proibição da carne de porco e do sangue, coisas que nós hoje associamos essencialmente à religião judaica, uma série de proibições sexuais, uma série de questões relacionadas com a pureza ritual. Quer dizer, uma série de coisas que talvez a partir da nossa perspectiva pareçam não fazer muito sentido ou que podem já não fazer muito sentido. Mas que lugar é que estes códigos muito concretos sobre a vida e a alimentação e as práticas das pessoas, que lugar é que estes códigos tinham na Bíblia? Estão a olhar um pra outro a ver quem é que descalça esta bosta.

Há aqui uma dimensão que é também, de certa maneira, contextual. Ou seja, há um contexto que favorece a que certas normas sejam dadas. Há um conjunto de higiene, de forma de sociabilidade, que é diferente da nossa e nós também temos que entender isso. Agora, parece-me que a lei tem aqui uma dimensão importante que é: a prática da liberdade mostra claramente, e a prática da lei, que a liberdade e o êxodo também nunca é feito de uma vez por todas. Portanto, há claramente aqui também na ideia de lei e na ideia do êxodo, uma espécie de êxodo contínuo. O povo é chamado, de certa maneira, a cada geração ou cada pessoa, ou enquanto comunidade, a praticar o êxodo permanente e a lei, nesse sentido, tem uma dimensão, como já dissemos, até de baia moral. A ideia de que também hoje é muito comum, de que sem lei nós viveríamos até muito melhor. Isso não faz qualquer sentido. Portanto, há aqui uma ideia que parece-me interessante também no código legislativo, que pra nossa sensibilidade pode ser muito extenso, compreendo isso.

Sim, há este aspecto que o João dizia. Outro aspecto talvez também importante, esta questão dos códigos, nós às vezes temos uma ideia de que estes códigos de alguma forma serviam, não sei, o juiz tinha um caso diante dos olhos e ia julgar a partir daquele código. Estes códigos não funcionavam assim na antiguidade. Estes códigos eram, sobretudo, uma declaração Da justiça, no caso do governante, do rei, ou neste caso, de Deus. Estes códigos nós fixamos muito nas coisas concretas. Se o teu boi se largar do curral e for partir o poste do teu vizinho, tens que lhe pagar o poste. Tudo bem. Nós podemos fixar na questão concreta e dizer: "Realmente, isto é justo, não é justo, o poste não devia lá estar, o boi já era assim", não interessa. Mas o essencial não é isso. O essencial destas leis e destes códigos é declarar: "O nosso Deus é justo". Era essa a ideia. A ideia de justiça era muito mais importante, porque a prática concreta da justiça não era baseada nestes códigos, era baseada nos costumes e nas práticas tradicionais nos diversos lugares. Era mais uma declaração.

Estas coisas até traduziam aquilo que já era uma prática entre esse povo.

Traduziam, eventualmente, uma prática concreta de um sítio, mas o seu valor era mais de caráter simbólico.

Do que propriamente normativo, de letras.

Exatamente. Não era que o juiz, para julgar, ia lá consultar o código Deuteronómio ou o código do Levítico. De alguma forma, estes códigos eram uma declaração da justiça e também da identidade de um povo. Quando se toca em questões de sexualidade ou, por exemplo, de dieta alimentar, tudo isso também tem a ver com a questão de constituir um povo como povo e como um povo separado, nesse sentido, como qualquer outro povo. Como um povo separado, que tem uma relação privilegiada com este Deus concreto que lhe dá a lei.

Que lhe dá orientações concretas para a sua vida.

Nós temos aqui esta dimensão, que é o facto, que o Francisco já aludiu, de o rei não ser o legislador, mas ser Deus, é particular também nesta dimensão da lei. Há aqui também um prisma de separação que permite olhar, se nós quisermos olhar com os nossos olhos modernos, uma certa ideia de secularidade. Ou seja, o monarca não é Deus, nenhum membro daquele povo, e nós veremos no próximo episódio, até no caso de David, apesar de ter sido ungido, não é propriamente a pessoa mais exemplar ou acima de toda a suspeita. Há aqui uma separação entre o que é o Estado, entre aspas, quem é Deus, o que é o povo, e isso, na prática da lei, também se reflete. Por isso também é a lei do povo, que é, acima de tudo, a lei que Deus dá.

Eu gostava de tocar aqui num ponto que tem a ver com a Bíblia como objeto literário. Eu acho que uma pessoa que faça a experiência de começar a ler a Bíblia desde o início, talvez aqui quando entra no Levítico ou ainda no Êxodo, quando se entra no deserto, talvez seja o primeiro grande choque literário para um leitor médio da Bíblia, porque desde o início parece que estamos a ler uma história, desde o Gênesis. Estamos a ler uma história, a criação do mundo, o mundo foi criado assim, depois veio Adão e Eva, depois veio Caim e Abel, depois veio a Torre de Babel, depois veio os patriarcas todos e depois veio a opressão no Egito e depois Moisés consegue libertar o povo do Egito, Moisés sobe uma montanha e páginas, e páginas, e páginas, e páginas de códigos legislativos, normas, etc., que para um leitor médio, não sei o que vocês acham disso, mas para um leitor médio que esteja a ler uma história, o leitor médio, neste caso, estou a usar-me a mim próprio como referente, estou a ler uma história, uma história, uma história, depois: "Isto é chato agora. Agora estou a começar a entrar em códigos legislativos". E era um bocadinho por isso que eu vos perguntava, por que houve a necessidade de incluir no contexto da Bíblia, no contexto do Pentateuco, logo do início, uma porção tão grande de código legislativo? Isto era importante para os primeiros leitores da Bíblia?

Sim, seguramente, essa questão da aliança com Deus e a questão da aliança ter um código, isto era o normal naquele período. No fundo, as estipulações da aliança entre um rei e o seu vassal, por exemplo, e aqui também entre Deus e o seu povo. Havia já esta expectativa, de alguma forma, que se o povo entra numa aliança com Deus, que esse Deus lhe dá uma lei, lhe dá um conjunto de normas, de regras, que permitem a esse povo viver plenamente a aliança com Deus. Deus também se compromete, de alguma forma. Nessa aliança, Deus também diz o que é que fará, porque quando diz ao povo: "Se te comportares da forma A, B, C, D, E, H, eu farei chover e as colheitas serão sempre a tempo e horas". Há uma forma aqui, um compromisso mútuo entre Deus e o povo. Os primeiros leitores esperariam, de alguma forma, que este código legislativo estivesse ali, nesta dupla dimensão de dizer: "Isto é o código da aliança" e, ao mesmo tempo, "este nosso Deus não é um Deus qualquer, é um Deus justo, é um Deus que nos trata de forma justa, é um Deus a quem interessa a justiça".

A justiça entre os homens também.

Entre os homens também. Não é só eu e Deus sozinho, ou nós e Deus sozinhos, mas até tratar com o estrangeiro, até tratar com o que passa pela minha terra, até tratar com os outros que a gente encontra.

Há aqui também uma dimensão de racionalidade. No Gênesis não falámos sobre isso, mas o relato também tem uma ideia de que o mundo é inteligível e é racional, tem uma espécie de ordem. E isso também é repercutido agora na questão do Êxodo, sendo que não me parece quem ouvia e quem ouve isto, não diria nas nossas assembleias católicas cristãs, mas na assembleia judaica, não tenho a sensação que está a ouvir a Constituição ou Código Penal. Não é como nós quando estamos a ler os Maias e passamos aquelas páginas das descrições do Ramalhete e começamos a dizer: "Eu queria era ver a história que acontece ao Carlos Eduardo e à Maria Eduarda". Eu percebo essa sensação, mas realmente nós temos que nos recordar sempre que tal como nos Maias, a descrição da casa tem um sentido narrativo, para lá do exemplo imobiliário, aqui também nós temos um código legislativo que está para lá Daquilo que é propriamente a norma da lei. E a ideia do código penal não é: "Vem um código penal", é uma espécie de relação de fidelidade e de promessa de Deus para com aquelas pessoas, até do interesse, como o Francisco dizia, pelo seu bem-estar.

Vamos só recuar um pouco. Nós entrámos muito rapidamente neste período do deserto, em que o povo já está no deserto em caminho para a terra prometida. Mas eu não sei se me conseguiam explicar muito rapidamente e para que todos possamos compreender, o que aconteceu ali entre o momento em que Moisés percebe que tem que libertar aquele povo e depois a chegada ao deserto? Porque nós temos aquelas imagens, obviamente oriundas da Bíblia, mas que temos dos filmes, as pragas, aquele combate todo com o Faraó, o Mar Vermelho que se abre e os soldados do Faraó que se afogam todos. Enfim, tudo isto, toda esta ideia de um Deus que lança pragas contra os egípcios, que afoga os egípcios, que propósito é que serve ali? Serve ali a ideia de um Deus que está sempre a proteger o seu povo, que está ali a cuidar do seu povo?

O que é sempre um propósito, é sempre importante dizer, é um propósito narrativo. Tal como no Génesis, nós vimos o preço que o texto paga, aqui também há um preço, porque também pode-se passar um bocado a imagem de que Deus é castigador, porque mata, por exemplo, os primogénitos dos egípcios e manda-lhes um conjunto de pragas e doenças, e isso realmente mostra como Deus é castigador. Não me parece que seja essa a tónica do texto. A tónica do texto claramente é narrativa, essencialmente é uma ideia de que, por exemplo, o Faraó é aquele que, de certa maneira, fantasia na relação com os hebreus um conjunto de perigos, quer preveni-los com medidas prudentes, mas as medidas prudentes do Faraó parecem nunca resolver nada. Aliás, até são muitas vezes contraditórias. Por exemplo, é o caso das parteiras, e isso nós até poderíamos abrir aqui todo um outro capítulo, que é, por exemplo, a imagem e o papel que várias mulheres têm, porque às vezes pode parecer que isto é uma narração exclusivamente masculina, e apesar de não há claramente uma ideia de feminismo na Bíblia como nós entendemos, mas até este ponto em que nós estamos da história, nós temos aqui um conjunto de mulheres, e no Êxodo, então, a mãe de Moisés, a filha do Faraó, as parteiras hebreias. Tudo isso ajuda a entender que o Faraó, mesmo naquelas pessoas que mais controlaria, não consegue controlar nada. O Faraó está claramente de mãos e pés atados diante de Deus. Isso tem um sentido narrativo, depois nos exageros que a própria epopeia depois cria.

E que depois é um texto, a ideia que tenho, é que é um texto que volta muito na tradição cristã, por exemplo, a ideia da fuga do Egito é sempre lida, por exemplo, na vigília pascal, que é um texto que é importante, que depois molda muito a teologia cristã. Estou certo nesta...?

Sim. Este texto, o João estava a dizer isto, este texto cria aqui o Faraó torna-se uma espécie de monstro, é aquela figura que mesmo quando está a ver que está tudo a correr mal, continua a insistir no mal. Mas isso é de propósito. No fundo, é este Faraó que já está a levar a primeira praga, segunda praga, terceira praga, quarta praga, a pessoa pensa assim: "Mas até quando é que ele vai desandar a perceber que o melhor é deixá-los partir?". Mas a ideia é precisamente essa, no fundo, criar aqui uma figura um bocadinho monstruosa para que a libertação de Deus tenha um caráter maravilhoso. No fundo, é este contraste que é importante.

Queria tocar ainda para finalizar, porque estamos a chegar já ao final do nosso tempo deste episódio, mas há um aspeto fundamental no relato de Moisés e da libertação do Egito e na entrega da lei, que é esta ideia de um Deus que se dá a conhecer ao povo, que se revela. O célebre momento da sarça ardente, por exemplo, em que o texto do Êxodo diz qualquer coisa como: "Moisés fica muito perplexo. 'Como é que eu digo ao povo que tu nos queres salvar, se nem sei o teu nome?'". E Deus responde-lhe misteriosamente, apresentando-se, dando um nome próprio, daí a pergunta que eu fiz no início do episódio, e diz: "Eu sou aquele que sou". Francisco, o que é que os autores deste texto pretendiam? Ficamos a saber o nome próprio de Deus?

Esta ideia da revelação do nome é um momento quase íntimo na Bíblia. Inicialmente, não é uma proclamação aos quatro ventos, é Deus e Moisés num momento muito íntimo, na montanha onde Deus dá a conhecer o seu nome. Não há dúvidas que Deus tem o nome próprio, Yahweh, como todos os deuses daquela zona tinham nomes próprios. Ashur, etc., por aí fora, Quemosh, etc. Há um nome próprio que é Yahweh. Mas ao mesmo tempo, o texto bíblico tenta evitar que o nome próprio de Deus se torne uma espécie de fetiche, uma espécie de talismã. Vamos agora aqui usar o nome de Deus e eu controlo Deus e se precisar do nome de Deus para usar para isto e para aquilo, uso. E portanto, Deus, num certo sentido, desconversa na resposta a Moisés. Ele tem o nome próprio, mas desconversa. "Eu sou aquele que sou". No fundo, dizer simplesmente: "Eu sou aquele que estou convosco". No fundo, é isso que Deus quer dizer. Portanto, de alguma forma, eu tenho nome, mas não te fixes nisto, fixa-te na minha presença no meio do povo.

Tanto que depois conhecemo-lo como Deus.

Exatamente.

Muito bem. Obrigado aos dois. Olhem, foi o terceiro episódio das Histórias da Bíblia, aqui no podcast da Rádio Observador, em que estamos a decifrar o maior best-seller da história da literatura. Nós, no próximo episódio, vamos andar mais uns séculos pra frente, vamos entrar num período histórico muito relevante, vamos tentar perceber quem eram figuras célebres como os reis David e Salomão e vamos também tentar perceber as origens de Israel como uma entidade política. Até para a semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Francisco Martins e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes. A música do genérico é de Tiago Afonso e a sonoplastia é de Artur Costa.