Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Tinha apenas 12 anos quando começou a dar os primeiros pontapés na bola. Mais tarde, com apenas 17 anos, foi convocada para o primeiro jogo de sempre da seleção feminina. Jogava no Leixões, mas vestiu também a camisola do Boavista, do Gatões, do Lobão e do Merelinense. Fez 30 jogos pela nossa seleção, marcou quatro gols e nunca mais tirou o futebol da cabeça. Atualmente, é treinadora da equipe feminina do Boavista, mas já treinou também o Lobão, Gatões, Várzea ou Estrelas de Fânzeres. Nas primeiras de hoje, recebemos uma campeã nacional por quatro vezes, vencedora da Taça de Portugal e, acima de tudo, uma das primeiras embaixadoras do futebol feminino no país. Hoje, com 61 anos, conhecemos a Alfredina Silva. Alfredina Silva, muito bem-vinda à Rádio Observador, bem-vinda às primeiras. Gostava de começarmos em 1981, que foi quando tudo isto começou. Foi uma das convocadas para o primeiro jogo de sempre da seleção feminina. Estamos a falar de um Portugal-França, um jogo amigável, 0 x 0. Foi uma das jogadoras que fez os 90 minutos e eu gostava de perguntar quando é que soube, pela primeira vez, que ia começar o projeto da seleção nacional? Lembra-se desse primeiro zum-zum de que isto vai acontecer mesmo?
Sim, em 81 não existiam ainda campeonatos organizados pela Federação. Havia só os campeonatos organizados pela Associação de Futebol do Porto, que começou em 78. Nos bastidores, nós começamos a ouvir que possivelmente a Federação iria participar num jogo amigável com uma seleção estrangeira. Isso ouvíamos, mas não acreditávamos muito nisso. Entretanto, quando o Leixões enviou a convocatória, passamos a ver que era uma situação real e que teríamos uma oportunidade de participar por Portugal num jogo amigável com a França. E foi um momento de grande alegria e de uma conquista que nós tínhamos conseguido por estarmos constantemente a tentar que o futebol feminino tivesse visibilidade e que a Federação acolhesse o futebol feminino com a organização de campeonatos nacionais.
E como é que soube que tinha sido convocada para a seleção? Foi uma carta, foi alguém que lhe contou?
Foi uma carta. O Leixões enviou uma carta às jogadoras convocadas. E foi daí que tomei conhecimento.
Acredito que tenha sido uma reação, obviamente, de muita felicidade, mas qual é que foi a primeira sensação quando leu essa carta?
Primeiro foi de não acreditar que realmente as coisas estavam a acontecer. E depois, claro, acho que qualquer jogadora gosta e é um sonho representar o país. E foi um momento realmente de felicidade e de acreditar que o futebol feminino poderia vir a ser reconhecido. Era um jogo que ultrapassava aquilo que era o jogo, que era que a Federação reconhecia o futebol feminino com a criação desta seleção nacional, nem que fosse para este jogo amigável, e que realmente haveria possibilidade de nós termos visibilidade e termos a possibilidade de a Federação olhar para o futebol feminino e criar os campeonatos nacionais. Portanto, foi um momento de felicidade enquanto jogadora e enquanto participante ativa no jogo como jogadora, mas também um momento em termos sociais, de ultrapassarmos mais uma barreira e sermos reconhecidas enquanto modalidade, enquanto futebol feminino.
E na altura, como é que era o ambiente nessa seleção? Tendo em conta até que a seleção era muito dominada por três, quatro clubes, tendo em conta que, lá está, como disse há pouco, não havia propriamente muitos clubes em termos femininos a jogar futebol. Havia muitas jogadoras do Boavista, do Leixões, de outros clubes também. Como é que era o ambiente nessa seleção?
Intenso com o Elima também.
Do Elima, exatamente. Como é que era o ambiente nessa seleção, tendo em conta que certamente vocês já se conheciam, muitas de vocês ou quase todas?
Sim, conhecíamos dos jogos em que participávamos. E o ambiente foi com certeza ótimo, porque estávamos todas entusiasmadas e estávamos todas a cumprir um sonho em estar a jogar por Portugal.
Claro. Alfredina, chega o grande dia. Estamos a falar do dia 24 de outubro de 1981, França-Portugal. Um jogo amigável, como disse. Os rumores sempre se confirmaram, era um jogo amigável entre Portugal e uma equipe estrangeira. Jogo fora, foi na cidade de Le Mans. Pergunto se conseguiu dormir no dia anterior ao jogo.
Sempre aquele nervosismo, obviamente que sim, mas queríamos entrar em campo, queríamos ser competitivas e queríamos mostrar que em Portugal existia talento. E acho que conseguimos estar competitivas nesse jogo, conseguimos mostrar a nossa alma lusitana e conseguimos surpreender uma França que tinha muito mais experiência internacional e de seleção. O nosso era o primeiro jogo, a França já tinha participado em várias Em várias fases dos Campeonatos da Europa. Representar Portugal, estar no estrangeiro, jogar com uma equipa com mais experiência do que nós, provoca sempre aquele friozinho na barriga e aquela ansiedade pré-competitiva. Mas acho que quando vestimos a camisola ou ouvimos o hino, acabamos por mostrar toda a nossa raça, toda a nossa determinação e todo o nosso talento. Foi extraordinário aquilo que vivemos e que sentimos nesse jogo.
Alfredina, para os nossos ouvintes também perceberem a dimensão desse feito. Dizia aqui que a França já tinha estado em fases finais, em anos anteriores.
Sim, participação em Campeonatos da Europa.
Exatamente. Portugal está a fazer o primeiro jogo oficial, nunca tinha tido uma seleção. Isto é um feito inacreditável. Portugal ter conseguido ficar invencível nesse primeiro jogo, ficou 0 x 0. Como vocês se prepararam para esta partida, que era a primeira, tendo em conta que nem nunca sequer tinha havido um estágio da Seleção Nacional?
Sim. Acho que havia aqui uma vantagem de existirem muitas jogadoras de um determinado clube. Porque isso ajuda a criar alguma ligação daquilo que é o jogo. Mas foi com a nossa determinação e acho que nós mostramos que tínhamos muitas jogadoras talentosas que conseguiam ombrear com estas seleções. Nós trabalhávamos aqui de uma forma totalmente amadora. Treinávamos três, quatro vezes por semana. O estágio foi curto, mas deu para nós conseguirmos mostrar aquilo que muitas vezes os portugueses conseguem, que é surpreender pela sua alma, pela sua determinação, pelo seu querer, pela sua forma de estar. E obviamente, não foi só isso. Também havia qualidade e acho que isso acabou por surpreender o nosso adversário, que certamente estava à espera de alguma facilidade ou um jogo com menos dificuldade. Conseguimos surpreender e criar dificuldades à equipe francesa.
Alfredina, uns anos mais tarde, estamos a falar em 1983, ou seja, dois anos mais tarde. Para ser mais preciso, no dia 3 de abril de 1983, Alfredina torna-se a primeira portuguesa, mulher, a marcar num jogo oficial pela Seleção Nacional de Futebol. Antes já tínhamos tido um gol num Portugal-Espanha, que Portugal venceu. O primeiro gol a ser marcado em termos oficiais foi da São Tato, mas foi num jogo amigável. Mas em jogos oficiais, Alfredina foi a primeira a marcar num Portugal-Suíça, 1 x 1, jogo para a fase de qualificação do Europeu de 1984.
Contra.
Exatamente. O que é que se lembra deste gol? Também para os nossos ouvintes que não o viram, como é que o descreve? Mas principalmente, que emoção é essa de marcar um gol pela Seleção Nacional, ainda mais quando tantos sacrifícios vocês faziam, certamente, para poder lá estar.
Sim, foi um momento importante, foi um momento em que a equipa tinha tido alguns outros jogos em que não conseguimos equilibrar as coisas, embora os resultados nessa qualificação para o Campeonato da Europa não fossem desequilibrados. Estávamos com a Itália, com a Suíça e com a França. Marcar um gol é o culminar, é representar Portugal, sei lá, tantas coisas que nós sentimos, tantas emoções, que para mim, são difíceis de explicar por palavras. Mas foi um momento único, um momento especial, uma memória que vou guardar para a vida toda.
Lembra-se de tudo dessa jogada?
Não só individual, como coletivo. Foi muito importante.
Claro. Lembra-se de tudo dessa jogada do gol?
Sei que finalizei numa jogada que foi de um cruzamento, que foi praticamente encostar o pé e fazer o gol. Mas o importante é que nós conseguimos chegar à baliza adversária e conseguimos marcar gol. Foi ótimo, foi uma sensação mesmo única e especial.
Imagino. Olhando um bocadinho mais à frente e aqui olhando para um momento mais triste. Nesse mesmo ano, 1983, a seleção feminina acaba. A Federação Portuguesa de Futebol interrompe o projeto feminino, só o retoma 10 anos depois, praticamente, foi em 93. Deram-vos alguma justificação na altura para que houvesse esse hiato, houvesse essa interrupção do vosso sonho? Porque era isso de que estávamos a falar, era de um sonho de muitas mulheres na altura.
Não, não houve qualquer justificação, apenas que iam interromper a atividade da Seleção Nacional Feminina. Foi duro, foi difícil. Consideramos que nessa altura foi um retrocesso daquilo que poderia ser a visibilidade da jogadora e do futebol feminino português. Foi um atraso enorme dos outros países europeus, na Europa e no mundo. Por outro lado, a federação em 84, 85, fez o primeiro encontro nacional Em termos de competição, mas o fato de ter parado a Seleção Nacional durante 10 anos. Foi muito difícil. Quase que nós não acreditávamos que em 93 iam novamente reativar a Seleção Nacional Feminina. Mas foi um sonho de uma geração, de uma década, que ficou por cumprir.
Claro. E passados esses 10 anos, Alfredina, a seleção, daquilo que vemos até das fichas de jogo, está já muito diferente ou praticamente diferente, porque são muitas jogadoras novas face a essa primeira geração. A Alfredina é das poucas que se manteve nessa segunda geração, vamos assim dizer, em 1993.
Já com 29 anos, não é?
Exatamente. O que notou de diferença nessa segunda geração? Porque acredito que muitos sonhos tenham morrido de muitas colegas suas. Muita mágoa deve ter existido de muitas colegas suas. O que notou nessa nova seleção e se notava que havia também uma ainda maior necessidade de provar alguma coisa, o que quer que seja?
Sim, existe sempre o lado desportivo e o lado da visibilidade social que tem esse desporto. Em 93, esta segunda geração viveu também ainda muitas dificuldades, embora já tivessem campeonatos nacionais, já existissem alguns clubes que apostavam na formação. Portanto, encontramos aqui uma realidade completamente diferente e, embora lento, de algum desenvolvimento. Quando chegamos à seleção, já havia clubes que também treinavam em relva. Não esquecer que muita da minha formação toda foi feita em campos pelados.
Claro.
E com outras condições. Realmente havia mais praticantes, havia mais possibilidade de escolha de jogadoras e foi um encontrar gerações que eu acho que é sempre bom nós encontrarmos diferentes gerações no mesmo espaço. Porque conseguem perceber quais foram as dificuldades. Algumas ainda tiveram dificuldade também na prática do futebol e acaba por nós conseguirmos unir gerações e conseguirmos realizar treinos, estágios e jogos que permitam voltar a acender um sonho e voltar a acreditar que é possível que os talentos portugueses, se lhes derem condições, conseguem ter bons resultados. Obviamente que aquele início, aqueles 10 anos de interregno, levaram-nos a ter muito maus resultados. Não tivemos resultados positivos.
Ainda nota isso atualmente? Acha que esse interregno ainda tem impactos no dia de hoje?
Sim, eu acredito que sim, embora com a aposta que neste momento e com o que estamos a fazer no futebol feminino, as jogadoras com mais talento estão a jogar nos melhores campeonatos, competições com grande qualidade. Isso claro que ajuda em termos de seleção. Tendo a jogadora portuguesa com talento, com condições de trabalho, obviamente que essa diferença diminui. Agora, claro que num contexto onde nós continuávamos a treinar só quatro vezes por semana, num contexto totalmente amador, é evidente quando jogávamos nos Mundialitos, quando jogávamos com as melhores seleções, isso notava-se claramente a diferença, sobretudo porque não seria no talento, naquilo que a jogadora era capaz de desempenhar, mas nas condições que tinha para treinar. Basta as outras jogadoras terem treinos diários e terem condições que praticamente já eram profissionais e nós mantínhamos num contexto completamente amador. Portanto, isso fez a diferença.
Claro. Alfredina, estamos infelizmente a acabar o nosso tempo, com muita pena minha, mas queria perguntar-lhe ainda sobre a sua, vamos dizer, terceira vida no futebol feminino, porque teve a primeira geração, teve depois a segunda geração, onde seguiu a sua carreira como jogadora até o final. Já estamos a falar no final dos anos 90, em 1997. Mas gostava de lhe perguntar sobre a terceira vida, que é ser treinadora. Está nesta altura no Boavista, é treinadora principal do Boavista. Treinou uma série de outros clubes: Lobão, Gatões, Várzea, passou por vários escalões do Boavista, já conquistou quatro campeonatos nacionais como treinadora, uma Taça de Portugal feminina, uma segunda divisão nacional também. O que a levou a ser treinadora também? Porque foram poucas as jogadoras da sua geração que mantiveram essa ligação. Que bichinho é que ficou aí?
Este grande amor pelo jogo, amor pelo futebol, esta paixão que eu tenho por o jogo e não podendo jogar, sempre gostei de ficar ligada à modalidade e enquanto tiver esta paixão irei continuar. Nós passamos por diversas fases e passar esta mensagem às nossas jogadoras. Elas perceberem que realmente o que hoje têm e que conseguimos conquistar foi difícil Foi quebrar muitas barreiras. Barreiras sociais, barreiras dentro da família, barreiras dentro dos clubes, barreiras institucionais.
Notou essa barreira também na sua família, nos seus amigos, por exemplo?
Eu por acaso não. Os meus pais eram pessoas que para a altura eram muito abertos. Na década de 70 não me restringiram nunca o fato de eu gostar e querer jogar futebol. Foi ótimo. Mas tive muitas amigas que ficaram pelo caminho porque vinham jogar, às vezes sem os pais terem conhecimento, e depois acabavam por ter que abandonar porque não aceitavam.
Claro.
Os meus amigos também nunca tive problemas porque sempre me aceitaram, eu jogava com eles.
E certamente jogava melhor do que eles.
A minha formação foi muito na rua com os meus amigos, com rapazes e também algumas raparigas, mas sempre me aceitaram e nunca me vi colocada de parte pelo fato de gostar e de jogar futebol. Portanto, era algo natural que ia acontecendo normalmente. Nunca tive esse tipo de restrição. Mas percebia que próximo de mim havia muita gente que ficou pelo caminho. Houve uma geração de muitas jogadoras também com bastante talento que nunca jogaram. Pelos estigmas sociais que existiam e mesmo dentro das famílias também não aceitarem o fato de uma rapariga jogar futebol.
Tempos que felizmente já lá vão, de certa forma. Alfredina Silva, chegamos ao fim da nossa conversa. Muito obrigado por ter aceitado o convite da Rádio Observador e por ser uma das primeiras a estar aqui conosco, dar-nos essa visão de como era jogar futebol como mulher no início, quando tudo isto começou, quando começou a Seleção Nacional Feminina. Muito obrigado e até uma próxima.
Muito obrigada. Até à próxima. Muito obrigada.