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Esteve na primeira geração de sempre na qualificação para o Euro 84. Na Suíça, em 1982, saltou do banco para jogar 17 minutos pela equipa das Quinas. Foram os únicos, mas muito saborosos e que lhe valeram estar aqui nas primeiras. Na altura, tinha 23 anos, jogou pela empresa Elevador Fortes, União de Coina, no Tenente Valdés, em Odivelas, e no Futebol Benfica. Hoje tem 63 anos e leva no nome a bandeira que já vestiu. Temos conosco Isabel Portugal, que é mais uma das primeiras. Isabel, muito obrigado por estar aqui conosco, por ter aceitado o nosso convite para estar aqui na Rádio Observador. Eu gostava de lhe perguntar, em primeiro lugar, tendo em conta que não esteve no primeiro jogo de sempre da nossa seleção, que foi em 1981, esteve um bocadinho mais tarde, em 82. Quando é que foi a primeira vez que ouviu falar de uma seleção feminina e quando é que soube que havia uma seleção nacional feminina?
Isso foi nessa altura, em 80. Porque naquela altura ouvia-se pouco o futebol feminino, havia poucas equipas. E depois eram mais as equipas do norte. O Boavista, que era a mais conhecida, e depois o União de Coimbra, e depois é que começaram a vir aqui para este lado, porque na altura ouvia-se pouco. Havia poucas equipas, era muito pouco. Não havia muita concorrência.
Era tão pouco que eu tenho aqui esta curiosidade para tirar consigo. Disse-nos que a primeira equipa onde jogou não era propriamente num clube, mas era uma equipa de uma empresa de elevador Fortes. Como é que surgiu esta situação? Foram os funcionários da empresa que decidiram criar a equipa?
Na altura, a gente jogava numa equipa de andebol no Benfica. E havia uma jogadora de andebol do Benfica cujo pai era diretor dessa empresa. E então a gente, do andebol, começámos a jogar futebol de salão. Na altura era futebol de salão. Não era futebol cinco, nem futebol sete, era futebol de salão. E começámos assim. Depois do futebol de salão, conseguimos, entre as pessoas mais diretas que estavam conosco, o treinador da altura era o Diamantino Batista. Ele com o pai dessa jogadora, organizaram uma equipa de futebol de 11 a representar os Elevadores Fortes.
Portanto, a Isabel nem sequer trabalhava para essa empresa, não é verdade?
Nada, ninguém trabalhava para essa empresa.
O que a Isabel fazia na altura, quando foi chamada pela seleção e nesse início dos anos 80, qual era a sua ocupação?
Eu, nessa altura, trabalhava numa editora ali na Avenida República.
Então uma mudança de vida muito radical.
Muito radical mesmo.
Como é que teve conhecimento depois, um ano mais tarde, em 1982. Como é que soube que tinha sido convocada para a seleção nacional feminina? Quem é que lhe deu a notícia?
Foram os diretores do clube, o treinador, o Diamantino Batista, que me disse que tinha sido convocada para a seleção.
E como é que foi a sua reação?
Foi boa. Não é como agora. Não tem nada a ver, mas fiquei feliz, porque ir à seleção é normal.
Claro que sim. Na altura, a seleção era muito dominada, e já mencionou isso aqui também, pelo Boavista e pelos clubes lá de cima do norte. Como é que foi para a Isabel, sendo uma das poucas representantes de clubes da zona de Lisboa, aqui dos arredores, como é que foi para si chegar à seleção? Já conhecia as outras jogadoras?
Não, não conhecia ninguém.
Não conhecia ninguém, portanto, era das poucas jogadoras que foi à seleção sem conhecer ninguém. Como é que foi para si gerir isso também?
Foi na boa, porque na altura a gente vai com amor ao futebol, mesmo. Não tem nada a ver amor à camisola, é amor ao futebol. Desde que fosse jogar à bola, para mim estava tudo bem. Eu queria era jogar à bola e mais nada. Mas foi tudo bem, fomos bem recebidas, não há nada a dizer, foi impecável.
E que sacrifícios é que teve de fazer na altura para ir a esse primeiro estágio e único estágio que fez? Porque agora é tudo mais fácil. As jogadoras vão para a Cidade do Futebol, têm tudo pago. Como é que foi na altura para a Isabel, até tendo em conta daquilo que percebi, os estágios eram feitos no norte do país. Que sacrifícios é que teve de fazer para poder jogar na seleção nacional feminina?
Eu na altura que estava na seleção, até nem estava a trabalhar.
Que dificultou um bocadinho mais, não é?
Pronto, facilitou um bocadinho mais. Só que depois os treinos eram lá no norte. A gente aqui segunda-feira de manhã íamos apanhar o comboio para o Porto. Ia eu e mais uma colega minha que jogava comigo na equipa, que era a São Cerqueira, íamos as duas. Era assim, íamos segunda-feira e vínhamos à sexta-feira à noite para casa. À tarde. De tromba.
Pois. E era a Federação Portuguesa de Futebol que pagava essas deslocações?
Sim. Não, eles pagavam tudo. A gente não pagava nada.
E esse ambiente como era na seleção? Era um ambiente saudável?
Era bom. Era ótimo. Nada a dizer, era espetáculo.
Claro, até porque estavam todas a realizar o seu sonho, não era?
Exatamente. Para mim e pelas pessoas com quem eu lidava, aquilo era uma família, éramos todas amigas, não havia problema nenhum.
Voltaram a ver-se desde esses tempos? Nunca mais voltaram a reunir-se?
Eu depois tive que deixar a seleção, porque entretanto arranjei trabalho, e o patrão disse logo que eu tinha que esquecer o futebol da seleção.
Pena.
Porque o futebol aqui, os treinos eram à noite, não implicava nada com o horário de trabalho, mas que eu tinha que deixar a seleção porque ele não me ia dispensar para ir à seleção.
Isso é um ponto interessante, Isabel, porque neste momento, felizmente, qualquer mulher que seja profissional e que esteja na seleção, que na altura não era o caso, mas neste momento quem joga na seleção, em princípio já será profissional e não terá de escolher entre uma carreira e poder seguir o seu sonho. Na altura, como é que foi para si esse dilema, entre ter de escolher um emprego e ter de escolher o seu sonho? Como é que foi para si lidar com essa escolha?
Foi um bocado mau, foi triste. Custou um bocadinho.
Claro.
Mas não tinha outra escolha, porque na altura também estava a viver com os meus pais. E eles também precisavam de ajuda, então tive que optar mesmo por deixar.
Para que os nossos ouvintes tenham aqui a noção, como nos disse, a Federação Portuguesa de Futebol pagava as despesas, as viagens que tinham de fazer, mas vocês recebiam alguma coisa, algum salário, alguma contribuição por estarem a representar a seleção nacional?
Sim, nos jogos, sim.
Mas nos clubes já não daria para viver disso.
Não. A única coisa que a gente tinha nos clubes era o passe. Alguns. Muitos nem isso pagavam. Era a única coisa que a gente tinha, não tínhamos uma nota, subsídios, nem ordenado, não tínhamos nada disso.
Isabel, olhemos para momentos mais felizes e vamos aqui ao dia 10 de outubro de 1982, no Stadium do FC Solothurn, na Suíça. Um jogo para a qualificação do Campeonato da Europa feminino, 1984, em que a Isabel Portugal começou no banco de suplentes, mas depois entrou ao minuto 73, ou seja, pôde jogar 17 minutos com a camisola da nossa seleção feminina. Gostava de perguntar, em primeiro lugar, como é que foram aqueles 73 minutos em que esteve no banco de suplentes, certamente a roer-se de vontade para ir lá para dentro. Como é que lidou com essa vontade enquanto estava no banco de suplentes?
Lidei bem. A torcer pela equipa. Mas lidei bem. Sempre à espera daquele momento em que pudesse entrar para jogar. Mas lidei bem.
Ainda se lembra quando foram ao banco de suplentes chamá-la?
Não, já não me lembro de nada disso.
Nem do momento em que entrou?
Não, nem no momento em que entrei. Sinceramente, não. Sei que joguei aquele tempo, que foi bom, gostei de entrar e pronto. São coisas passadas para mim.
Mas que ainda estão bastante presentes, ainda se recordam desses momentos de vez em quando.
Sim, claro. É sempre um momento de orgulho representar a seleção. A pena foi o pouco tempo que estive lá, que cortaram-me as pernas, mas pronto, nada a dizer.
Nunca pensou depois, ao longo dos anos, quando os anos foram passando, em tentar regressar ao futebol, ou isso foi mesmo uma porta completamente fechada?
Não, foi uma porta fechada mesmo. E depois também o futebol teve uma altura muito parado. Havia poucas equipas, muito poucas mesmo. As raparigas quando jogavam à bola muitas vezes eram criticadas. As pessoas não apoiavam muito o futebol feminino.
Chegou a ouvir algumas críticas, algumas coisas que não gostasse?
Não. Eu quando jogava à bola só ouvia coisas boas. Vou lhe dizer muito sinceramente, que havia muita gente que me chamava ou Maradona ou Solano. É sério, sinceramente.
Incrível. A Isabel jogava em que posição? Para quem não a viu jogar, dos nossos ouvintes, como é que se descreve como jogadora na altura?
Eu, como jogadora, descrevo-me como uma jogadora vadia.
O que isso quer dizer?
Corria, podia jogar em qualquer parte do campo. É média, ponta de lança, já joguei defesa central também. Dava-me em qualquer lado. Jogava em qualquer posição, onde o treinador quisesse eu jogava. Porque eu queria era jogar à bola, porque quem era jogador de rua, como eu era, era uma jogadora de rua Tanto joga em qualquer parte do campo, o que interessa é jogar à bola.
Já agora, como é que começou essa sua relação com a bola? Foi na rua? Como é que começou a gostar de futebol?
Foi na rua mesmo. Foi muito nova mesmo.
E jogava com outras raparigas?
Não, jogava só com rapazes, as raparigas não jogavam. Era bem poucas raparigas a jogar à bola. Era só com os rapazes do lado do bairro onde eu vivia, que era o Benfica, era no Bairro de Santa Cruz, ao pé do FóFó. A gente jogava aí na rua. Até que houve uma ocasião, depois não veio a acontecer, que passou lá um senhor que era do Atlético e que estava a falar comigo que era para ir jogar para lá, mas nunca cheguei a ir. Cheguei a ir falar, mas não gostei e então não fiquei. Nem sequer fui treinar.
Claro.
Não.
E portanto, já se distinguia face aos rapazes que andavam lá na rua a jogar. Dava mais nas vistas.
Sim.
Isabel Portugal, neste momento temos aqui uma geração que tem dado muitos frutos na nossa seleção, com as primeiras presenças em fase final, Campeonatos da Europa, Mundiais. Como é que tem visto também esta geração da seleção nacional e se continua a acompanhar o futebol, principalmente o futebol feminino, neste caso?
Sinceramente, não acompanho muito. Porque eu acho que há jogadoras que não me diz nada. Estão ali e não sei como é que eu te explicar.
Mas em termos de qualidade futebolística ou de atitude?
De atitude. Não podem levar um toquezinho, mandam-se logo para o chão e depois andam para ali às voltas. Não é futebol.
Para quem teve de fazer tantos sacrifícios, acredito que ver isso também não é fácil de ver.
Não gosto. Tira-me o interesse pelo futebol mesmo, essas atitudes. Porque antes nós jogávamos em pelados, não havia relvados. Muitos nossos jogos aqui. Na seleção não, na seleção era relvado, como os jogos para a taça também era em relvado. Mas tirando isso, os jogos que a gente fazia entre clubes, quando eu estive em Coina, na Póvoa, no Odivelas, era tudo pelado.
Claro.
E a gente levava uma porradinha, a gente levantava-se ia atrás da bola ou ia atrás da jogadora para disputar a bola e não estávamos ali com tangas.
Claro.
Como se costuma dizer.
Claro.
Estou feliz da maneira como estão a apoiar o futebol feminino, fico feliz com isso. Muito feliz, mas há muitas jogadoras aí que não. Pronto, é assim. É o que é.
Isabel, nesta altura, se pudesse deixar algum conselho, nesta véspera de Campeonato da Europa, para as nossas navegadoras, se pudesse deixar alguma dica à atual seleção nacional feminina, o que é que lhes diria?
O que eu diria? Jogar à bola os 90 minutos e não fazerem errónia.
Claro.
Não queimar tempo, porque isso às vezes é um erro dos jogadores. Estarem ali porque depois há o tempo de compensação e nesse tempo de compensação pode-se perder tudo.
Claro. Isabel Portugal, para fecharmos a nossa conversa, que não temos mais tempo, infelizmente, gostava de lhe perguntar se atualmente em 2025, se ainda houver uma mulher, uma rapariga, que tenha de fazer a escolha que a Isabel fez há uns anos, ou seja, optar pelo futebol ou pela carreira, se puder deixar uma palavra a essas mulheres, o que é que pode dizer a essas mulheres que têm neste momento essa escolha difícil pela frente?
Olha, é pensarem bem, se tiverem condições para o fazer, para escolher pelo futebol, é optarem pelo futebol. Se eu pudesse, tinha feito. Agora, se não tiverem, olhem, têm que ir à procura da carreira delas.
Claro. Isabel Portugal, agradeço muito a disponibilidade por ter estado conosco aqui na Rádio Observador, nas Primeiras. A Isabel Portugal, que jogou na primeira geração da seleção portuguesa em 1982, conseguiu cumprir o seu sonho. Sonhos que as nossas navegadoras têm agora também neste Campeonato da Europa. Isabel, muito obrigado e até a uma próxima.
Obrigado, Will. Até uma próxima. Obrigada.
Obrigado.
Obrigada.