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É uma de 16 mulheres que podem dizer que estiveram lá no primeiro jogo de sempre da Seleção Nacional Feminina. No dia 24 de outubro de 1981, com 18 anos, foi titular e não marcou, até porque o jogo ficou zero a zero frente à França. Mas quatro jogos mais tarde não só marcou, como fez o primeiro gol da história da nossa seleção feminina, ficando para sempre na história do desporto no nosso país. No total, vestiu a camisola da equipa das Quinas sete vezes, representou ainda o Boavista e o Leixões e fez parte da primeira geração de sempre da nossa equipa feminina. O nome é Maria Assunção Tato, mas no mundo do futebol é conhecida por São Tato e hoje está conosco na Rádio Observador. São Tato, bem-vinda. Obrigado por ter aceitado o nosso convite para estar aqui na Rádio Observador.

Obrigada.

Gostava de começar em 1981, nesse que foi o primeiro jogo de Portugal no feminino. É uma das primeiras, como se chama também este nosso programa. Como é que tinha sido convocada na altura para a Seleção Nacional, tendo em conta até que era a primeira convocatória de sempre?

Sim, eu acho que foi pelo clube.

Pelo Boavista, que estava na altura.

Sim.

E foi algum funcionário que lhe disse, foi uma carta, como é que funcionava na altura?

Eu acho que foi no balneário que alguém nos disse. Já não me recordo muito bem, mas acho que foi através de um diretor no balneário ou coisa assim no gênero.

E como é que reagiu?

Com satisfação.

Claro.

Afinal de contas, era uma luta que a gente tinha.

É uma luta muito mais difícil do que agora.

Muito mais, nem tem comparação. Isso já vai há 40 e muitos anos.

Pois, certo. Na altura, a São tinha 18 anos, agora tem 61 anos.

Vou fazer 62.

62. Vai fazer em dezembro, não é assim?

Sim.

Na altura, a São jogava no Boavista e não foi a única a ser convocada do Boavista. Havia muitas jogadoras do emblema atrasadas.

Fomos oito.

Oito jogadoras.

Oito do Boavista, cinco do Coelima, duas de Leixões e uma do Foz.

E já agora, como é que se lembra? Como é que sabe isso de cor? Como é que memorizou? É por ter sido tão marcante?

Há coisas que sim, que a gente esquece o que é de agora e não esquece o que é de 40 anos atrás.

Claro, sem dúvida. Na altura, tendo em conta que havia oito jogadoras do seu clube, oito jogadoras do Boavista.

Do Boavista.

Como é que era o ambiente? Vocês conheciam-se quase todas.

Sim. Mesmo com as que não eram do Boavista, o ambiente era muito bom. Nunca tivemos nada de especial umas com as outras. Tudo bem.

Até porque estavam todas a viver o mesmo sonho, não era?

Exatamente. Era uma luta muito grande.

Claro. Agora é mais fácil, não é? A Cidade do Futebol.

Nós trabalhávamos, pegávamos de manhã cedo, muitas delas às 5 ou às 6 da manhã tinham que se levantar para ir trabalhar para as fábricas, especialmente as do Coelima, algumas eram de Guimarães, depois tinham que ir para o Porto para treinar. Aquilo era um bocado complicado. Depois chegavam a casa à meia-noite, quase 1h da manhã também, porque iam para Guimarães ainda. Aquilo era muito complicado antigamente.

Claro. Que sacrifícios é que, por exemplo, aqui neste caso, agora temos a Cidade do Futebol. As jogadoras vão todas para lá, ficam lá estagiar com todas as condições. Na altura, que sacrifícios é que a São teve de fazer para poder fazer o estágio da seleção, para poder ir com a seleção para onde quer que fosse?

Tive que deixar de trabalhar, porque por acaso era um irmão meu que era meu patrão, na altura.

Isso é mais fácil ou mais difícil?

Era mais fácil, no fundo era mais fácil, mas a federação escrevia uma carta para o meu irmão me dispensar do trabalho, pagando os dias que eu perdia de trabalho e eu tinha que ganhar esses dias, porque eu estava ao serviço da seleção. Eles pagavam e pagavam ao meu irmão para ele ir jantar fora ou almoçar fora, porque não me tinha a mim, eles tinham que sair mais tarde do estabelecimento.

Para compensar.

Era muito complicado.

Claro. Ainda se recorda quanto é que lhe pagaram para jogar pela seleção? Na altura era em contos, não é?

Era contos. No estágio, quando era cá em Portugal, ganhávamos 500 escudos por dia. Quando íamos para o estrangeiro, ganhávamos 1000 escudos por dia, que são agora €5.

Exatamente. Portanto, fazendo a comparação é surreal.

É, não tem nada a ver. Os tempos são outros. Não tem nada a ver. As mentalidades mudaram mais um bocadinho. Ainda não está 100%, mas já está para aí a 80% ou 90%, porque a gente ia jogar e ainda nos mandavam lavar a louça e lavar a roupa, esse gênero de bocas que a gente ouvia.

Claro.

Mas pronto.

Já vamos a esse ponto, mas gostava de primeiro ir a memórias mais alegres. Dia 24 de outubro de 1981, França-Portugal, jogo amigável, o primeiro jogo da história da seleção feminina, em Le Mans, na cidade de Le Mans, em França.

Le Mans, sim.

Conseguiu dormir na noite anterior ao jogo?

Sim, consegui dormir. Embora sempre com o nervosinho ali a germinar, mas dorme-se.

Como é que foi cantar o hino nacional agarrada às suas colegas?

Isso é uma emoção muito grande.

Lembra-se dessa sensação?

A gente arrepia-se toda. Não há hipótese.

Claro. Havia muitos adeptos portugueses?

Hoje em dia a gente ao ouvir mesmo a seleção nacional de futebol, feminino ou masculino, não interessa, a gente arrepia-se toda na mesma.

Claro que sim. Havia muitos adeptos no estádio, adeptos portugueses nesse jogo, daquilo que se lembra?

Sim, quando íamos para Alemanha ou França havia sempre os imigrantes.

Claro.

Aqui em Portugal, quando foi da seleção que jogamos no Bessa e jogamos na Tapadinha, acho eu que não estou errada.

Exatamente.

Haviam alguns adeptos, sim, mas não como no estrangeiro.

Claro.

Quando fomos jogar à Itália, haviam cerca de 20 mil espectadores num estádio em Itália. Aqui era impensável.

Claro. E como era para uma jogadora tão jovem, 18 anos, e que estava habituada, acredito eu, no Boavista, a jogar perante muito menos gente, de repente jogar perante 20 mil pessoas. Isso mexia consigo, conseguia a altura?

Muito. Isso sim. É muito diferente. Nem tem nada a ver.

Claro.

É muito diferente mesmo.

Mais à frente, depois, em 1983, 5 de fevereiro de 1983, a São Tato entra para a história do futebol português porque marcou o primeiro gol da história da seleção feminina. Estamos aqui a falar no amigável contra a Espanha, em Pontevedra. Um gol marcado ao minuto 80. Ainda se lembra de como é que foi todo esse gol?

Lembro.

Descreva-nos lá.

Foi de livre para 30, 35 metros.

Uau! Livre direto, portanto?

É. Livre direto, sim.

Era a sua especialidade, São?

Não, eu tinha um chute muito forte e normalmente era eu que marcava os livres, mas foi o primeiro livre que marquei e que deu o gol pela seleção.

Claro.

Porque já tinha marcado outros, mas no clube.

E como é que foi depois a parte dos festejos? Porque o gol é seu, mas é de toda uma equipa, na verdade. Todo um país.

Claro. Os festejos foram muitos, das colegas. E eu sei que no dia seguinte, veio num jornal, que eu não sei qual foi o jornal, que dizia: "pé de canhão chuta à Eusébio". Era assim qualquer coisa deste género. E eu tenho pena de não ter esse recorte do jornal.

Sim.

Mas sei que há uma colega minha, de certeza absoluta que ela o tem, que é a Jena, que era a guarda-redes.

Sim, a Jena Teixeira, não é?

Jena Teixeira, sim. Essa tem o recorte do jornal.

Muito bem.

Tenho pena de não ter.

Claro, é uma memória imortal, sem dúvida.

Exatamente.

E depois no dia seguinte, e no balneário também, quando acabou o jogo, como é que foi a festa da equipa? Jantaram alguma coisa assim mais de festa?

Não, não me lembro.

Não foram jantar fora, nem nada?

Não.

Mas mereciam. Esse gol mudou alguma coisa no seu dia a dia ou na sua carreira, na altura?

Não. Passei a ser um bocadinho mais conhecida, talvez, mas não mudou assim mais nada.

Como é que era a São Tato como jogadora? Já sabemos que tinha um pontapé forte. Mas como é que se descreve como jogadora e também, obviamente, para quem não a conhece, em que posição jogava habitualmente?

Defesa central. Era possante, tinha um chute forte e era um bocado irreverente.

Em que sentido?

Eu também era um bocadinho cheinha, já tinha um bom físico e quando encostava às colegas adversárias, elas não tinham hipótese, a maioria delas.

Iam ao ar, quase. Então, São, na altura, olhando aqui para a parte menos boa desta primeira geração, é que chegamos a esse ano, em 1983, coincidentemente, o ano em que Portugal tem a primeira vitória, acaba por ser o ano em que também a seleção feminina acaba ou é interrompida ali durante algum tempo. A Federação Portuguesa de Futebol interrompeu o projeto feminino, só é retomado praticamente 10 anos depois. Que justificação é que na altura vos deram a vocês, jogadoras, equipa técnica, para que a seleção feminina acabasse ali?

Olhe, não me recordo honestamente, mas acho que nem deram explicação nenhuma. Mas não tenho 100% de certeza.

E como é que vocês lidaram com isso, e a São em particular?

Com tristeza. Acabaram uma coisa que se tinha começado há tão pouco tempo, e acabaram. Depois também entretanto eu deixei de jogar a bola e pronto.

Deixou o futebol também por causa disso? Foi uma opção?

Não. Foi uma opção.

Não querendo, obviamente, estar aqui a entrar por caminhos privados.

Não. Foi uma opção um bocadinho forçada, porque um diretor do Boavista queria me obrigar a fazer coisas que eu não queria. Na altura, tinha acordado umas coisas com eles e esse diretor rompeu, deu dito por não dito, e eu acabei mais cedo do que devia. Foi mais por causa disso.

Acabou com que idade, São, a sua carreira?

21, sensivelmente 22. 21.

Pois, ainda muito nova. E na altura, também para os nossos ouvintes perceberem, não havia a oferta de clubes que há agora. Havia muito menos clubes.

Não. Mas eu depois saí um bocadinho revoltada também por causa disso e tive para aí 15 anos que nem ligava sequer a ouvir de futebol. Já cortei mesmo.

Entretanto fez as pazes com o futebol, podemos dizer?

Sim.

O que ajudou a que essas pazes tivessem sido feitas?

É o bichinho que fica lá dentro.

Claro.

Enquanto a gente está um bocado revoltada, nem quer ouvir falar, nem quer nada, mas depois aquilo passa e a gente começa outra vez a ver e a ouvir. Já passou.

O que a São faz agora, se não for em inscrição?

Eu já estou reformada.

Já está reformada.

Por antecipação.

E dedicou-se a outra carreira depois do futebol?

Não. Eu tenho uma colega que de vez em quando a vou ajudar, que ela tem uns restaurantes E eu vou ajudá-la e pronto. É de vez em quando.

E nunca pensou em ser, por exemplo, treinadora ou estar ligada de outra forma ao futebol?

Não.

Ficou para trás.

Ficou. Porque aquela tal revolta da qual eu tinha deixado a bola, tirou-me as ideias todas. Não dá.

Claro. São Tato, agora temos esta geração que tem dado muitos frutos, as primeiras presenças em fases finais. Como é que olha para esta Seleção Nacional? Acompanha? Costuma ver os jogos das Navegadoras actualmente?

Às vezes. Quando posso, vejo.

E o que acha?

E gosto bastante. Sim, acho muito bom.

Nota, por curiosidade, a diferença-- claro, as condições são muito diferentes, como já dissemos, mas nota realmente a diferença entre o que as mulheres da sua altura conseguiam fazer e o que as mulheres que agora representam a Seleção Nacional conseguem fazer desta vez?

Olhe, em relação às diferenças, elas são muito óbvias. Porque elas agora têm realmente umas condições que nós não tínhamos.

Claro.

Mas todos nós lutamos pelo mesmo.

Claro.

Salvo as guardas, as diferenças, a vontade é a mesma.

Se pudesse falar com estas jogadoras, com a Seleção atual, se pudesse deixar algum conselho ou algum pedido a estas jogadoras também, o que dizia?

Que nunca percam a esperança, que lutem sempre.

Gostava de, São Tato, terminarmos a nossa conversa, que está a ser maravilhosa e acho que poderíamos ficar aqui mais uma hora a falar. Gostava de lhe perguntar, tendo em conta também tudo aquilo que lutou e que lutaram as mulheres da sua geração para poder jogar futebol, porque era apenas isso, era apenas poderem jogar futebol. Gostava de lhe perguntar se em 2025, uma mulher já pode ser livre para ter esse sonho de ser jogadora de futebol.

Pode. Pode e deve, que ninguém manda em ninguém.

Ora bem.

Acho que lutem. Têm esse direito.

Muito bem, São Tato, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador para esta conversa maravilhosa, em que nos pôde contar um bocadinho como é que era jogar futebol na altura, na primeira geração da Seleção Nacional de Futebol Feminina. Esta que é uma das primeiras, daquelas que foram as fundadoras da nossa seleção em 1981. São Tato, mais uma vez, muito obrigado e até uma próxima.

Obrigada, Sr. Maia. Obrigada.