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Começa agora mais uma Boa Moeda, Má Moeda, sempre com o Paulo Ferreira. Paulo, continuamos a desprezar a poupança a longo prazo, mas há um novo estudo que o demonstra, não é?

É verdade. Seis em cada 10 portugueses, portanto, 60%, se quisermos, fazem poupanças, sobretudo centradas no curto prazo, e não para complementar o rendimento futuro, mais longo prazo, o rendimento de reforma. Isto é o que revela um estudo da BPI Vida e Pensões, a empresa, a unidade do grupo Banco BPI, dedicado precisamente à gestão de fundos de pensões e fundos PPR. O estudo chama-se Pensar o Futuro, como os portugueses investem no seu futuro em saúde, relações sociais, espaços e ambiente e finanças. Foi lançado ontem, dado a conhecer ontem, teve a coordenação científica Maria João Valente Rosa, especialista em temas demográficos. E, no fundo, um estudo extenso sobre essas áreas todas, mas aqui indo ao essencial, que tem a ver com finanças pessoais. Os portugueses, de facto, estão conscientes da sua maior longevidade, portanto, sabem que vão viver mais. Aliás, é curioso que se pergunta às pessoas quanto tempo é que elas vão viver e a média das respostas está muito próxima daquilo que é, neste momento, a esperança média de vida, logo a seguir aos 80 anos. Há uma noção muito clara disso. Têm noção disso, têm noção também da necessidade de investir na saúde pessoal e nas finanças pessoais a longo prazo, até porque também sabem que as pensões de reforma tenderão a ser significativamente mais baixas do que o último salário, a tal taxa de transformação, que vai caindo lentamente ao longo dos anos, sobretudo para as pessoas que tiveram progressões mais relevantes na carreira. Isto é, que começaram por baixo, com salários mais baixos, porque agora o que conta para a reforma é toda a carreira contributiva.

E não os últimos anos, como era outrora.

E não os últimos anos, como até à viragem de século, mais ou menos. Houve uma altura que eram os melhores 10 dos últimos 15. O que levava muitas vezes a manipular a reforma. Como as pessoas que tinham alguma influência no seu próprio salário, aumentavam-se nos últimos anos.

Algumas até declaravam mais.

Declaravam mais, exatamente, naqueles últimos anos, precisamente porque sabiam que aquilo é que contava.

De forma mais estratégica.

Exatamente, contava para a pensão. Agora não. As pessoas que têm um puxão grande na carreira e, portanto, nos salários, acabam por ser prejudicadas de alguma forma porque estão a entrar com a média dos primeiros anos, se quisermos, que às vezes são 10 ou 20 anos de carreira com salários mais baixos. As pessoas têm a noção disto tudo, mas depois, na prática, acabam por valorizar mais outros fatores, como por exemplo, o investimento em relações sociais ou o investimento na casa, na habitação, nos espaços onde vivem. A preparação específica para a reforma parece muito reduzida. Apenas 22% dos inquiridos.

Se preocupam com ela.

A noção de que é necessário está lá, mas depois, na prática, só os tais 22% é que se preocupam, é que fazem qualquer coisa, é que referem, por exemplo, perseguir um plano de poupança reforma, enquanto a poupança continua muito centrada em instrumentos de baixo risco. Falamos aqui habitualmente nisso, depósitos a prazo e certificados de aforro, e estes têm muito menor potencial de valorização ao longo do tempo. Antes pelo contrário, se deixarmos o dinheiro no depósito a prazo, daqui a 20 ou 30 anos, temos muito menos dinheiro de poder de compra do que tínhamos no início quando deixámos, porque a inflação vai comendo taxas de juro, porque as taxas estão abaixo disso. E segundo cálculos aqui da BPI Vida e Pensões, se nós fizermos uma poupança mensal de apenas € 30 por mês, estamos a falar de € 360 por ano, investida em instrumentos que têm retorno de 5% ao ano, chegamos ao fim de 40 anos, portanto 5% ao ano, 40 anos, com €46 mil. Se o retorno médio for de 1%, um depósito a prazo, passados os 40 anos, temos apenas €18 mil. Portanto, 46 mil, 18 mil. O mesmo investimento. Sendo que estes 18 mil, mais uma vez, não cobrem a inflação.

Claro.

E, portanto, compram menos do que compravam no início. E Isabel Castelo Branco, que é a CEO da BPI Vida e Pensões, diz mesmo isso, olhando para o estudo, diz que como sociedade não estamos mentalizados para preparar o longo prazo, porque a sociedade de vidas longas é um fenómeno recente, nós sabemos disso, e por isso é importante tomar consciência de que há ações que estão no nosso controle pessoal, mas que nós temos que as praticar para olhar para isso. Portanto, este apelo a uma poupança de médio e longo prazo é cada vez mais recorrente e é essencial.