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Mais coisa menos coisa para as eleições nos Estados Unidos e prometem ser três semanas cheias. Donald Trump voltou à campanha cheio de vontade de dar beijinhos e a sentir-se protegido por uma capa de imunidade à Covid-19, e voltou também aos ataques ao Sleepy Joe Biden, contra quem consideraria uma vergonha perder. A verdade é que as sondagens continuam a apontar para uma vitória de Biden, sleepy or not, mas 2016 ainda foi ontem, por isso duvido que até lá alguém se atreva para garantir quem é que ganha. Esta semana também começaram as audições de Amy Coney Barrett, a juíza indicada por Trump para o Supremo, que tem resistido em assumir posições futuras sobre vários temas, mas já lá vamos. São tudo temas para mais um Café América, que começa agora. Esta semana com o Henrique Borné e a Madalena Resende. Olá a ambos.

Olá.

Olá, viva.

E como sempre, com o João de Almeida Dias e comigo, Sara Antunes de Oliveira. Também como sempre, começamos pelos prêmios e pelo Frank Underwood. E a primeira palavra vai para Madalena. O primeiro prêmio é teu. Para Trump, creio.

É verdade. Trump consegue ainda ser o mau da fita, não sabemos por quanto tempo mais, esperemos que por não muito. Mas de facto, foi longe demais esta semana. Uma das coisas que fez foi lançar a desclassificação dos e-mails de Hillary Clinton e outros ataques diretos aos seus adversários políticos. E lembrava o Wall Street Journal que nem na sua pior fase, quando estava realmente completamente desesperado, Nixon fez uma coisa parecida. Portanto, Trump está mais uma vez a criar precedentes errados.

E isso é a imagem desse desespero, de facto?

Nós podemos dizer que ele não precisa estar desesperado para fazer coisas do gênero, mas a impressão que dá nestas últimas semanas, já semana passada falamos disso, é que há aqui uma fuga para a frente da parte de Trump em toda a linha. Quebrando os seus próprios recordes de desrespeito pela tradição, pelas leis e pelo costume que qualquer presidente americano antes de si tenha estabelecido. Parece-me parte desse ambiente que ele está a conseguir afirmar à sua volta, em particular desde que foi infectado pelo Covid e a sua já difícil candidatura e vitória se tornou ainda mais improvável, diria eu.

Madalena, eu acho que se pode resumir o que tu estás a dizer, dizendo: não há absolutamente nada de institucional em Trump, o que por isso o desqualifica completamente para presidir aos Estados Unidos. Eu acho que resume tudo. Não há nada de institucional, não tem a menor noção do que é presidir a um país.

Exato. Estas ações governamentais diretas contra os seus opositores são mais outro do conjunto de ações que ele tem vindo a tomar e segundo a minha visão, a agravar-se conforme ele se aproxima, eventualmente, da sua derrota. Vamos ver como é que vai lidar com ela, eventualmente.

E ainda assim, Henrique, tu ainda encontras aí espaço para um prêmio que está relacionado com uma possibilidade que ainda vês de os democratas perderem.

Eu acho possível os democratas perderem ou Biden perder. Já se percebeu que espero que não aconteça, mas acho que ao longo dos últimos anos, a comunicação social americana tem vindo a contribuir para esta divisão. Nós temos muita mania de falar das redes sociais, etc, mas eu acho que a comunicação social americana tem contribuído para esta separação. E antes mesmo de ir falar do projeto 1619 do New York Times, eu ao longo dos últimos anos tenho acompanhado a CNN, até porque como estou em Bruxelas, muitas vezes é a minha televisão de lareira, digamos, e começa a ser completamente absurdo o nível que passa de informação para posição. Há uma obsessão contra o Trump que faz com que o espectador normal deixe de ver. E se o espectador normal deixa de ver, aquelas mensagens só chegam à própria plateia. Um exemplo disso, se quisermos neste sentido, foi o chamado Projeto 1619 do New York Times, que a certa altura veio apresentar esta ideia dizendo que 1619, a data de chegada dos primeiros escravos negros à América, era essa, sim, a data de fundação dos Estados Unidos da América e não 1776, da Declaração de Independência. Isto obviamente criou uma discussão, na bolha das pessoas que leem jornais como o New York Times e das pessoas que andam mais nestas discussões, mas tem muito que ver com esta ideia. Este era o contributo do New York Times para a percepção de que a América não é uma democracia, mas uma escravocracia, começou quando os primeiros escravos chegaram e, portanto, é preciso refazer a história. Isto é tão cômico, passa a expressão, que deu uma discussão com um grupo de marxistas, de historiadores marxistas, que acham que isto estraga a ideia de que a história é uma luta de classes. Eu acho que o problema disto tudo, como eu disse, é que a comunicação social deixa de estar a fazer o seu papel de comunicação social e fica obcecada em tomar partido como um dos lados. E depois os eleitores deixam de ter boa informação para poder escolher.

Mas tomar partido não é propriamente uma novidade nos Estados Unidos. O que diz é mais o extremismo desse partido.

Eu acho que há uma diferença, Sara, entre um jornal, uma televisão, editorialmente assumir: "Nós achamos que nestas eleições, este é o melhor candidato", mas isso não os desobriga de fazer jornalismo. Isto é, não estão desobrigados de continuar a reportar e passar as informações. E ainda há pouco, de novo na CNN, a propósito do tema que vamos falar hoje, certamente, da audição da Coney Barrett A CNN, a certa altura, houve de seguida três opiniões de objeção à juíza. Portanto, qualquer pessoa que queira estar medianamente informada, diz: "Eu aqui não me consigo informar, porque eu quero ser eu a escolher o que penso, não quero que pensem por mim."

Já diria isso antes em relação à Fox News.

Precisamente.

A novidade aqui, e em 2016 isso já era verdade, mas hoje é muito mais verdade ainda, é que a CNN tornou-se na Fox News da esquerda. Em relação à imprensa, pelo menos em termos de quantidade, de facto, há mais jornais mais próximos do Partido Democrata ou daquilo que é a esquerda norte-americana, e isso nota-se. Hoje em dia lemos trabalhos em jornais mainstream como o Washington Post e o New York Times, que se calhar há oito anos apenas leríamos numa revista pouco conhecida que é a The Nation ou noutra que começou não há oito anos, há menos, que é a Jacobin. Portanto, de facto, há essa polarização dos media, é verdadeira. Curiosamente, esta semana a revista do New York Times publica um trabalho bastante interessante sobre Donald Trump e a maneira como os comediantes reagiram a Donald Trump acabou por estragar a maneira como se faz comédia, como se faz sobretudo nos talk shows. Se calhar era um texto que podia ser substituído também toda a parte em que se fala de comédia e falasse também de jornalismo e podia ler-se muito bem na redação do New York Times e em alguns sítios. Continuam a fazer trabalhos sérios, importantes, com notícias e caixas jornalísticas importantes, mas de facto há esse problema que tu referes e alinho, pelo menos nessa crítica.

E é por isso o segundo Frank Underwood deste episódio do Café América. Se calhar já adoçávamos um bocadinho a conversa agora com um donut de ouro. Que vai, Henrique, para bons republicanos como Mitt Romney.

É exatamente o oposto do que estávamos agora a falar. Eu acho que o Partido Republicano demorou muito tempo e tem sido muito pouco a parte do Partido Republicano que tem tido a preocupação de mostrar decência e distância em relação ao presidente. E houve vários que eu acho que foram verdadeiras desilusões. Ia chamar a atenção precisamente para uma declaração do senador Mitt Romney, que foi candidato presidencial contra Obama e insuspeito de ser um republicano, e que veio fazer uma declaração basicamente a dizer que o que se está a passar na América é insuportável. De um lado, temos um presidente que chama monstro à candidata à vice-presidente, que chama louca à Speaker of the House, que ataca a governadora do Michigan no mesmo dia em que se descobre que há um plano para a raptar. Mas depois também diz: "Bom, mas os democratas também, porque a Speaker of the House, a Nancy Pelosi, rasga o discurso do Estado da União em frente à televisão. Há um outro político democrata que chama terrorista ao presidente e depois diz: 'Os media, à esquerda e à direita, ampliam isto, amplificam isto tudo.'" E depois diz uma coisa que eu acho que é verdade, que é: "E o mundo olha para a América com horror e escândalo." Eu acho que o Mitt Romney não diz aqui que apoia o Biden, mas fica-se a pensar que é difícil não estar pelo menos muito longe de votar Trump, mas diz aqui uma coisa que é verdade: o nível de polarização e sobretudo não é só de polarização, é de agressividade dos dois lados, é insuportável e é intolerável. E portanto, aconteça o que acontecer, sobretudo se ganhar Biden, o passo seguinte vai ter que ser o de curar esta distância. Não curiosamente, e eu acho que ele dá um sinal também, ele chama a atenção que, felizmente, o candidato democrata, Biden, não tem participado neste exercício, ou pelo menos tem sido comedido neste exercício.

Não tem ido tão baixo. É isso que ele disse. Era precisamente isso que eu ia realçar, é que Mitt Romney faz uma crítica dos dois lados, mas ao nível dos nomeados, dos candidatos à presidência, não me parece que ele coloque ao mesmo nível. E portanto, acaba por dar-se esta situação em que Mitt Romney, entre Donald Trump e Joe Biden, parece que até prefere Joe Biden. Eu, pelo menos, quando li aquela declaração, fiquei com essa ideia. Não sei se vocês ficaram também com essa ideia.

Eu fiquei pelo menos com a ideia de que se calhar Mitt Romney ocupou aqui um espaço nesta declaração, deixado vazio por John McCain, numa espécie de consciência geral e de equilíbrio e de moderação. Não sempre, vá lá, mas em tempos de posições extremadas, quase me pareceu que era esse o lugar que Mitt Romney estava a ocupar.

Estamos com saudades.

Estamos a ver um partido moderado a surgir, não é? No meio dos dois.

Eu acho que foi isso. Por acaso ocorreu-me exatamente o mesmo. E acho, como diz o João, que aquela referência que ele faz ao Biden indicia de que lado é que ele está, sem o dizer expressamente. Mas sim, que saudades de republicanos que fazem a diferença. Aliás, para me lembrar dessa América, já não me lembro como é que me apareceu esta semana, fui ver o elogio do Joe Biden no enterro do McCain.

Não vi o do Biden, vi o do Obama, e também esta semana. Portanto, se calhar foi um algoritmo maluco nas redes sociais das pessoas do Café América.

É um painel salguista.

Exato. Estamos aqui todos a ver o "West Wing" pela quinta ou sexta vez. Só nos faltava mesmo isso. Vamos então ao disparate desta semana ou aos disparates com o prêmio Sarah Palin. Na semana passada falamos de anúncios com animais, com cães, e esta semana, João de Almeida Dias, voltamos a falar de um anúncio, mas de um anúncio que teve um fact check feito pelo próprio.

Sim, Donald Trump fez um anúncio em que utilizou palavras de Fauci, Anthony Fauci, a pessoa que está a liderar, do ponto de vista técnico, a resposta dos Estados Unidos à pandemia. Usou palavras de Anthony Fauci, fazendo passar como se fosse um elogio a Donald Trump, a dizer que ele não poderia estar a fazer mais do que aquilo que está a fazer. E evidentemente, Anthony Fauci veio dizer que aquelas palavras não eram assim, não eram para Donald Trump e corrigiu-as e disse: "Eu não disse isto." Perdão. Há aqui uma reação má. Eu peço perdão, estou aqui a ter um problema com a minha vozinha.

Eu se calhar vou aqui interromper-te para te permitir.

O Anthony Fauci também tem uma voz muito mas ele teve problemas nas cordas vocais.

Não sei se queres respirar um bocadinho.

Já vou.

E só aqui dizer que eu, na verdade, não compreendo. Eu acho que isto valia um grande dono dor para Fauci, porque eu não percebo muito bem como é que ele se mantém com o destaque que tem e com a relevância que tem, porque, em tese, ele teria sido logo corrido por Donald Trump às primeiras vezes em que desdisse o presidente.

Ele está no cargo dele desde 1984.

Mesmo assim.

Foi nomeado pelo santo padroeiro Reagan, o que se calhar vale alguma coisa ainda nestes tempos. Mas agora já com a minha voz recomposta, queria apenas dizer que sim, que acho que isto é um mau episódio, acabam por truncar essas palavras de Fauci, o que é péssima ideia. Ele sai, evidentemente, a público para dizer que não era disso que eu estava a falar. E depois a campanha de Biden fez um vídeo que eu achei muito engraçado, em que fazia uma montagem com palavra a palavra de diferentes discursos de Donald Trump. Evidentemente, era uma montagem e acabou por gozar com esta situação, porque acaba por ser um pouco isso, é uma situação risível e é um erro que é fácil demais evitá-lo e mesmo assim caíram nisto. Acho que isto demonstra também que há alguma urgência de Donald Trump de ir para a frente na campanha. A história, como a Madalena disse ao início, de falar dos e-mails da Hillary Clinton outra vez, parece-me apenas mais um elemento nessa longa lista.

E desclassificá-los, que é pior, não é?

Sim.

Para o seu poder.

Eu acho que é mais uma ferramenta entre tantas outras que Donald Trump vai utilizando, nalgum desespero de causa. Este foi um erro muito mais evidente, acho que de palmatória, e portanto levou aqui, da minha parte, o prêmio Sarah Palin.

Desculpem, achei que algum de vocês ia juntar algo mais chega a este prêmio. Se não...

Só para dizer que acho que vale imensa pena ver, mas é o vídeo da campanha de Biden, que fez a gozar. É ótimo.

Este feito na sequência do Fauci, não é?

Este feito na sequência do Fauci, é muito bom.

Muito bem. Então, se calhar, antes de terminarmos, nós estamos mesmo a chegar ao final, eu propunha aqui o meu prêmio desta semana, que é também o Sarah Palin, que serve aqui um bocadinho de ponte para a segunda parte e para aquilo que vamos debater. O Sarah Palin é um prêmio para o maior disparate, e eu confesso que pensei várias vezes disparate quando ouvi a Amy Coney Barrett, nas audições que começaram esta semana no Senado, a não responder a uma série de questões por achar que são questões colocadas de forma política. E eu achei que ou esta magistrada é muitíssimo ingênua, ou então sabe que está a dizer um enorme disparate, porque claro que estas questões, ou grande parte delas, são questões colocadas de forma política ou a propósito de questões políticas, porque estamos a falar de uma nomeação que é política, senão não havia a guerra que há para controlar melhor as nomeações do Supremo, o tipo de órgão propriamente dito, e além disso, o atual momento. Esta juíza não pode não saber que está a ser indicada e está a ser avaliada pelo Senado em plena campanha eleitoral e nesta campanha eleitoral, especificamente, e depois da saída de uma magistrada democrata por causa da sua morte. Portanto, eu confesso que ouvia aquelas justificações e pensava: ninguém no seu perfeito juízo ou com toda a seriedade, pode estar a apresentar como justificação para não responder esta pergunta, o fato de ela ser política.

Deu assim um certo ar de repartição de finanças, não é? Dizer que tem que preencher o formulário tal, e se não preencher o formulário tal, a gente não avança aqui. Uma certa rigidez.

Eu, por acaso, tenho uma opinião um bocadinho diferente. Acho que, de fato, os democratas estão a ir longe demais na maneira como estão a usar estes hearings no Senado. Mas iremos lá. Acho que ela está a ter uma posição institucional até bastante ponderada e bem calculada. De facto, ela está a responder como uma juíza. Portanto, não está a responder como uma política e está a defender que deve haver separação de poderes. Isso é, do meu ponto de vista, uma posição certa neste contexto, mas iremos lá.

Então iremos à segunda parte. Henrique, já não vai ser possível, já ouvimos aqui as campainhas. Mas na segunda parte prometo que começamos por ti. Até já. Segunda parte do Café América desta semana. Bem-vindos de novo e o seu dono, começa o Henrique, que eu travei no final da primeira parte. Estávamos a falar de Amy Coney Barrett.

Obrigado, Sara. Eu estava só a querer garantir que ficava ali na primeira parte ainda a dizer: "Eu discordo dessa interpretação." Era só para fazer o devido.

Era só pra dizer que discordavas do meu prêmio, era isso que tu estavas.

Exatamente.

Tivesse eu sabido disso antes . Calava-te um tom nesta segunda parte . Mas sim, eu compreendo o que a Madalena dizia e também o que presumo que vais dizer, mas não sei, acho que eventualmente algumas perguntas eram excessivas, mas noutras não.

Eu vou dar um exemplo daquilo onde acho que tens razão, mas deixa-me dar antes onde acho que tens razão. Mas antes disso, dizer uma coisa. Primeira coisa é: quem me dera a nós que nós tivéssemos em Portugal situações semelhantes, isto é, audições de nomeados para lugares com esta envergadura.

Bem verdade.

Isto é, ouvíssemos o procurador-geral da República, ou procuradora-geral da República, antes de tomarem posse, o presidente do Tribunal de Contas e por aqui fora, quem me dera que nós pudéssemos passar por isso.

Muito bem, senhor deputado.

O que não quer dizer que estes exercícios sejam sempre de uma lisura ou de uma correção enorme. Já quando foi a audição do último juiz que Trump nomeou, o Kavanaugh, eu acho que os democratas estavam compreensivelmente incomodados com estarem a perder um lugar, porque vinha um juiz conservador, que nem sempre se de forma conservadora, há que distinguir a cabeça e o que eles pensam sobre o mundo.

Mas isso só se viu depois, não é?

Exato. As perguntas daquela vez foram todas à volta de um suposto episódio que se teria passado na sua juventude, em que ele teria eventualmente abusado ou ter-se excedido sobre uma rapariga, etc. E eu acho que os senadores ali perderam uma oportunidade para falar sobre o juiz e portanto acho que ali foram por um caminho errado. Eu acho que os democratas estão a fazer o que é compreensível, que é tentar dar a ideia de que Trump está a nomear uma juíza para o Supremo Tribunal que vai pôr em causa o Obamacare e que pode pôr em causa o Roe v. Wade, portanto, o que está já estabelecido sobre o aborto.

E ela está a fazer o seu papel, que é dizer que está a ser nomeada para interpretar leis baseadas no texto, na Constituição, em vez de implementar um programa político. Eu acho que ela está a fazer bem o seu papel.

Ela nisso está, diria, correta. E não me parece que qualquer nomeado para a posição dela diria algo diferente. Eu acho que a questão aqui, e aqui acompanho a Sara, tem a ver com algumas respostas que ela não dá. Nomeadamente, a resposta que ela não dá, ou também o que ela diz ao senador Cory Booker, que é democrata de Nova Jérsia, que lhe pergunta se qualquer presidente, todos os presidentes, ele não especificou se querem Donald Trump, se se devem ou não comprometer de forma inequívoca com a transferência pacífica de poder. E o que esta juíza respondeu foi que isso é uma questão que está na ordem do dia no debate político e, portanto, não quer ser puxada para o meio dessa questão e, portanto, não vou dar a minha opinião. Eu acredito que na posição dela seja ingrato estar, por exemplo, a ser pressionada para responder sobre o que ela faria em relação a determinadas decisões, tendo em conta, por exemplo, a sua fé católica. Acho que isso é uma pergunta e é uma maneira de colocar as questões que pode ser injusta. Acho que deve haver um reconhecimento de boa fé da capacidade desta juíza para ser independente, mas ela acaba por também pôr isso um pouco em causa, ou pelo menos a lançar dúvidas que são desnecessárias e indesejadas, quando não responde se qualquer presidente dos Estados Unidos se deve comprometer de forma inequívoca com a transição de poder de forma pacífica caso perca as eleições. Eu acho que isto é um grande problema de Amy Coney Barrett. Ela está a ser empurrada para o meio de um debate político, mas acaba por também mexer nessas águas quando não responde a isto de um ponto de vista institucional.

Mas se respondesse também iria ser acusada, não é?

Mas ela pode perfeitamente responder que qualquer presidente tem de fazer a transição pacífica de poder.

João, eu diria que isso seria verdade se a questão não fosse colocada apenas e só porque está neste momento em causa aquilo que Trump andou a dizer. E portanto, é inevitável qualquer resposta que ela dê não é uma resposta em abstrato sobre se ao longo dos séculos é assim que deve ser. Está-lhe a ser perguntado pra ela comentar o que diz Trump. E portanto, eu acho que ela está a resistir. Eu devo dizer que acho que aí, como acho quando lhe perguntam se ela vai pedir escusa para julgar eventuais queixas que haja do processo eleitoral, e ela diz: "Eu só na altura é que verei se se justifica pedir escusa ou não, por ter sido nomeada agora e, portanto, com isso aumentar a suposta maioria para o Trump, uma eventual maioria para o Trump", o que apesar de tudo é um pouco bizarro, porque neste momento já é, mesmo que ela não fosse nomeada agora, já seria cinco, três, portanto, de qualquer maneira, também haveria essa maioria. Mas eu acho que nessas questões, eu acho que ela tem tido o cuidado de ser bastante cautelosa e tem feito aquilo que se espera de um juiz, que é: um juiz deve dizer: "Isto é o que diz a lei, quando vierem os fatos, eu olho pra lei e interpretarei. Não posso em abstrato dizer o que penso." Onde eu acho que ela, por exemplo, dá uma resposta que é uma fuga disparatada, é quando lhe perguntam sobre as alterações climáticas, porque ninguém lhe falou em abstrato, ninguém disse se ela era a favor de combater as alterações climáticas ou não. E ela diz: "Eu não sou uma cientista, mas tenho lido umas coisas sobre o assunto." Calma, porque se lhe perguntassem se ela tinha noção de que a Terra era redonda, ela não ia responder: "Tenho lido umas coisas sobre o assunto." Portanto, eu reconheço que ela está a ser hipercautelosa. Agora, há uma coisa que eu não estou a perceber.

Estão a tratar como se fosse um comício político, não é?

Exatamente. Compreensivelmente, é o resultado.

Mas também podemos olhar para isso como sendo a função deles. Se a juíza está a cumprir a sua função como magistrada, e eu acho que o disparate está precisamente na cautela para lá do que é razoável, que eu vejo e que vocês não, e está tudo bem. Os senadores estão a fazer o mesmo. Eles são os políticos, eles estão a fazer o papel de políticos.

Exato. Eles estão a fazer papel de políticos e ela está a fazer papel de juíza.

Certo, mas estão a tratar uma instituição, que é uma instituição que deve ser separada das instituições de decisão política, como se fosse uma. Estão a dizer que ela deveria fazer o mesmo. Agora, eu acho que isso é prestar um mau serviço à lei e ao sistema judicial. Portanto, eu acho que eles também deviam saber separar o que é o sistema judicial do sistema executivo e legislativo. E portanto, tratar esta audição como a audição de um juiz para um tribunal e não para um parlamento, etc. E ela tem sido muito cuidadosa ao continuar sempre a separar. Agora, eu posso concordar com vocês em dizer que ela está a ser demasiada, que deveria ser um bocadinho menos estrita, mas acho que também na situação em que ela está, em que tudo o que ela vai dizer vai ser extremamente politizado, não sei se não é uma boa estratégia, uma boa posição. Aparentemente, ela tem esta fama de ter esta posição.

Se ela sair daqui inatacável enquanto juíza, mas desinteressante politicamente ou inaproveitável politicamente, eu acho que ela fez a parte dela. Para dar um exemplo há bocado, quando eu estive hoje de manhã a ver a CNN a propósito do debate. A certa altura, há um dos senadores que levanta a questão, porque foi levantada a questão de uma opinião que ela deu num julgamento sobre se o Estado pode ou não tirar o direito de voto a condenados. E ela é confrontada com isso, mas não pode tirar o direito de uso e porte de arma a alguém que tenha sido condenado por um crime não violento. E este senador diz: "Mas isto é inaceitável, isto é um desequilíbrio." Nós podemos perceber que fará pouco sentido isto, mas o que ela diz é: "Eu limitei-me a dizer o que a lei diz, e a lei prevê que os estados podem tirar o direito de voto como sanção acessória de um condenado e não podem tirar o direito de uso e porte de arma como sanção acessória de um crime não violento." Isto é o que se espera de um juiz, não que diga: "Eu acho que devia ser desta ou daquela maneira", mas o juiz diz o direito que é, não o direito que gostava que fosse.

Que gostava de ser, exatamente.

Mas a discussão não está toda inquinada logo à partida?

Está por causa de ser feita neste tempo. Não devia ser agora, como é evidente.

Que é precisamente o ponto. Não dá para ignorar que é agora. E também não dá para ignorar, se quiserem, até a forma como este processo é conduzido. A Madalena dizia: "Ah, porque eles deviam estar concentrados em escolher só bem uma magistrada e perceber se ela tem as qualificações que são necessárias para ocupar aquele cargo que é importante." Mas isso eu não sei sequer se é possível, quando para trás há todo um processo em que a lógica é ocupar o maior número de lugares possível de pessoas que politicamente estão mais de um lado ou estão mais do outro.

O que é um trunfo.

Portanto, eu não sei se a discussão sequer pode limitar-se às capacidades e às características profissionais do magistrado em questão.

Sara, mas mais grave para mim, e aí a resposta é política, é o facto de Biden não responder à pergunta se ele vai fazer o que se chama o pack decort.

Certíssimo. Court packing.

Porque isso parece mais uma questão política.

O Biden e a Kamala Harris também não respondeu nesse debate.

Nenhum dos dois respondeu.

Fugiu bem fugida.

Bom, então se ganharem.

Mas isso é uma resposta política. E se é má política, seria fazer má política. Mas seria fazer má política.

Está bem, mas aí é que eu acho que um eleitor deve esperar, não de uma candidata à juíza do Supremo, mas de um candidato a presidente dos Estados Unidos, deve esperar que responda à pergunta: se o resultado do Supremo Tribunal ficar este que se prevê, o senhor, para compensar, vai nomear uma catrefada de juízes? Porque isso sim é uma coisa relevante. É verdade que o Trump teve uma sorte, salve-se seja, fora do lugar, nomear três juízes para o Supremo. E parece-me que todos concordariam, enfim, provavelmente aqui, que não deveria ter feito uma nomeação agora. Agora, a nomeada está perante a circunstância. E de resto, reparem, ela não está a ser atacada como sendo inapropriada para o lugar. O que estão a tentar é que ela diga coisas que até estão à espera que ela contrarie o presidente. Reparem que até há esse lado engraçado, que é ninguém está a encostá-la para provar que ela é uma perigosa

Conservadora.

Conservador. Chama a atenção a questão do Obamacare e do aborto, mas o que estão a tentar é pô-la a dizer coisas contra o presidente, o que é compreensível do lado dos democratas, mas não acho que fosse esse o ponto principal. Mas pelo andar das sondagens, pode ser que o problema não se coloque.

Acho que do lado dos democratas não há aqui uma grande esperança de reverter este processo. E a partir do momento em que se sentam naquela sala ou lá chegam de forma virtual, de fato aquilo é um comício de cada um. A Kamala Harris é uma dessas senadoras que está naquela comissão e faz isso. Há, aliás, uma questão que é interessante, que é perceber que há uma grande preocupação da parte dos senadores democratas em perguntarem a Coney Barrett o que ela vai fazer com o Obamacare, e não há assim tanta preocupação em relação ao tema do aborto. É verdade que alguns senadores o fazem, mas o Obamacare é ali o assunto. E também Joe Biden, quando tem falado isso ultimamente, pega sempre no tema do Obamacare. Por quê? Porque o tema da saúde é um tema muito aborrecido deste lado do Oceano Atlântico, mas lá é muito prático e lá também rende muitos votos. Aliás, os democratas em 2018, quando conseguiram virar a Câmara dos Representantes, foi também um pouco à conta da sua política para a saúde. E portanto, isto é, do lado dos democratas, um jogo político. Agora, isto sempre foi um jogo político, isto é um tema em que ninguém tem o cadastro limpo, têm todos telhados de vidro. Há bocado dizias, Henrique, que se calhar todos achávamos que Coney Barrett não devia ter sido nomeada agora. Eu, na verdade, acho que ela devia ter sido nomeada agora, mas da mesma maneira, há quatro anos, Merrick Garland, que foi nomeado por Barack Obama em fevereiro de 2016, quando morreu o juiz conservador Antonin Scalia, Merrick Garland foi nomeado por Barack Obama e os republicanos, alegando que as eleições estavam já ao virar da esquina, faltavam nove meses nessa altura, bloquearam essa nomeação de forma totalmente partidária, como os senadores democratas fariam agora também se tivessem esses números. Portanto, isto é uma hipocrisia que está a ser agora aqui exposta. Seria exposta em vice-versa se fosse essa a situação, e portanto é mesmo claro sublinhar aqui que não há telhados de vidro. Mas só para dizer que eu, de fato, acho que faz todo sentido ela ser nomeada agora. O que não fez sentido foi não ter sido nomeado Merrick Garland há quatro anos. As instituições são importantes e não devem depender das eleições. É pelo menos essa a minha visão e creio que isto está a ser desrespeitado a vários níveis, sempre, constantemente.

Eu acho que há quatro anos tens toda a razão, porque de fevereiro para as eleições havia uma distância bastante grande. Desta vez tenho algumas dúvidas porque como se está a ver, o debate está a acontecer em plena campanha e portanto é muito fácil acontecer o que está a acontecer, que é confundir os temas. Aliás, eu acho que a questão do Obamacare não tem tanto que ver com a posição que ela tenha ou deixe de ter, trata-se apenas a partir do pressuposto que ela sendo republicana, pode ter ali um conjunto de objeções. Há um caso para ser discutido e aquilo que se quer mostrar são duas coisas ao mesmo tempo: é que por esta nomeação, isso pode estar em casa, mas muito mais importante, porque isso será irreversível se fosse esse o problema, o que se quer chamar a atenção é que um presidente Trump quererá reverter o que existe e portanto é usar o tema para um tema que é percebido como sendo muito importante, sobretudo neste período, por causa do Covid, por um lado, e por outro lado, porque há uma quantidade de gente mais velha que está exatamente assustada e que é um eleitorado que importa tentar agarrar nestas eleições. E eu acho que neste momento, que é um dos aspectos que nos interessa olhar, está tudo a olhar ao detalhe, às sondagens. E onde é que faz diferença, onde é que estão os três ou quatro eleitores que podem ser suficientes. Eu acho que estamos nesta fase.

É para esse caminho que vamos exatamente agora, para a questão das sondagens, partindo aqui de um ponto prévio, por sugestão do nosso João de Almeida Dias, tem a ver com o regresso em força de Donald Trump à campanha. Muitos comícios. Esta madrugada voltou a atacar Joe Biden dizendo que seria uma vergonha para ele se perdesse para um candidato como Joe Biden. Este regresso em força traduz a preocupação precisamente com as sondagens e com o que elas têm dito ou não dito. João.

Respondo eu. Acho que sim, está a correr atrás do prejuízo. Já tinha dito isso antes. Donald Trump faria, creio eu, sempre isto, ou seja, sem pandemia, com pandemia, à frente ou atrás das sondagens, faria sempre vários comícios nesta altura. Ainda assim, sabemos que ele esteve infetado com Covid-19, não era recomendado a vários níveis fazer isto, e a verdade é que na segunda-feira partiu para um comício quando a Casa Branca ainda não tinha dito oficialmente, o médico ainda não tinha dito que Donald Trump tinha testado negativo para Covid-19. Portanto, há aqui uma pressa tremenda que também pode ser interpretada como sendo parte normal desta campanha, mas agora o que vamos ver, como é evidente, é Donald Trump a fazer vários comícios ao dia.

E o town hall amanhã, tal como o Joe Biden também vai fazer e à mesma hora. Portanto, não haverá um debate, mas os dois estarão lado a lado em dois canais de televisão diferentes, a ABC e a NBC, a responder a perguntas.

Se calhar, como se faz nos jogos de futebol, ouvir o relato do jogo que está a decorrer no estádio ao lado. Não sei se vão fazer isso, mas ainda bem que estamos todos a rir, porque a situação é literalmente risível.

Mas Madalena, ias dizer? Desculpe interromper-te.

Ia dizer que, de facto, o Donald Trump é um bom político de campanha. Todos estes comícios e estas town halls, etc, é onde ele realmente se encontra no seu elemento primordial, está como peixe na água. E portanto, não admira que ele esteja a apontar e a apostar em toda a linha neste tipo de atividade. Visto que tudo o resto, aparentemente, está a correr mal.

A verdade é que vão surgindo detalhinhos, permitam-me a expressão, nas várias sondagens que estão a sair, mas depois, se juntarmos tudo e fizermos a média, mantém-se tudo na mesma, que é uma vantagem relativamente consistente de Joe Biden, mas nenhuma garantia.

Porque nós já conhecemos a história de 2016, não é?

Eu acho que não é só por isso. Também não disparou.

Há três cenários e nos três cenários continua a ser sempre, por enquanto, expectável que Joe Biden ganhe. Portanto, os três cenários apontam para que, de facto, consiga de qualquer maneira bater Donald Trump nos estados que são pivô, como se diz na gíria. E portanto, toda essa especulação, que foi também uma especulação que houve há quatro anos, mas que depois resultou, penso eu, em que alguns democratas não foram votar, eu penso que esse erro não se vai repetir outra vez. Ninguém vai achar: "Isto já são favas contadas, portanto não vale a pena ir votar." Pelo contrário, acho que neste cenário, apesar de apontar para esta vitória de Biden, ninguém vai apostar nisso e ficar em casa.

Não, aqui o que eu acho que pode acontecer, vamos lá ver, oxalá não haja grandes complicações depois, de facto, nas contagens. Aí é que eu acho que isto ainda pode levantar alguns problemas, sobretudo se houver muitos votos por correio e muitos votos por antecipação e alguma discussão à volta. E isso pode ser uma coisa muito problemática.

E quem vai decidir isto é a Connie Bert.

Não é a Connie Bert, já disse que já estava cinco três. Mas eu acho que há que ter em conta esse aspecto. Agora, neste momento, a previsão começa a ser de que uma probabilidade de o Trump ganhar é de um para 10. E portanto, neste momento começa-se a acreditar que aqueles à volta de 13%, 10%, pode dar mesmo vitória de Trump. Mas pela barra de cesta é vindima. Até o Washington de cestos e vindimas.

E com este momento de grande eloquência, chega ao fim.

Emoldura essa frase, por favor.

Eloqüência em estrangeiro.

"Laudable, chega o Café América."

Chega ao fim o Café América desta semana. Henrique, Madalena, João, muito obrigada. Nós voltamos para a semana.