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Tarde em direto, fazemos uma viagem no tempo. Hoje vamos a 1992, na K760 da Judite França.

K760.

Há músicas que me fazem regressar à infância. Esta é uma delas. Não que eu tivesse visto o Polvo, nem pensar, para já nem sabia ler legendas. Depois, a série era muito violenta, mas dava na hora do jantar. Recordas-te, Bruno?

Perfeitamente. Lembro-me de ver alguns episódios e de ter ficado muito assustado.

Pois.

Eu lembro-me de uma cassete beta com o Polvo, que era antes do VHS.

Ela passava no televisor, só que eu estava estrategicamente sentada de forma que não conseguisse ver o ecrã e ouvia o italiano, que não percebia, mas achava lindo. E claro que ouvia esta música, que ficou para sempre na minha playlist de séries e filmes.

A música é de Ennio Morricone, o homem mais falado no painel da tarde em direto, ou pelo menos um dos homens mais falados.

É provável.

Só lhe chegam aos calcanhares o James Bond, séries de espiões e União Soviética.

Com certeza.

E eu acho que é mesmo por essa ordem. Mas não vamos falar do Polvo, vamos falar de coisas reais, sérias, brutais. Em Itália, ninguém se esquece o que fazia pouco antes das 18h, a 23 de maio de 1992.

"Palermo, 23 de maio 1992. Às 17h48, um Falcon do SISDE, partido do aeroporto de Ciampino, aterra em Punta Raisi. A bordo estão o juiz Giovanni Falcone e sua mulher, Francesca Morvillo. Para esperá-los na pista-"

À revista brasileira Veja, Marco, que agora é taxista e engana turistas incautos, diz que à época estava a jogar pingue-pongue com os amigos em Capaci. Ouviram a explosão, pegaram nas motas e aceleraram pela estrada atrás da nuvem de fumo negro. Ao chegar ao entroncamento com a estrada que levava ao aeroporto de Palermo, três carros desfeitos, centenas de metros de asfalto arrancado e a terra do campo parecia lavrada com sangue.

A polícia ainda não tinha chegado. Este Marco e os amigos souberam depois a hora exata da explosão do atentado, porque o tremor foi registado pelo Instituto de Geofísica e Vulcanologia do Monte Erice. Mas eram quase 18h. As agulhas do sismógrafo mexeram ligeiramente, mas foi um pequeno abalo na Terra, um grande abalo histórico para a Itália.

Nesse dia, o juiz Giovanni Falcone quis conduzir. A mulher, também magistrada, Francesca Morvillo, ia ao seu lado. Nenhum usava cinto de segurança e com a explosão, foram arremessados para fora do carro. Três escoltas.

Eram polícias.

Três polícias que seguiam com o casal também morreram neste atentado.

Numa mudança de modus operandi que visava o terror e a intimidação generalizadas, a Cosa Nostra destruiu o carro de Falcone com meia tonelada de explosivos, matando-o e à mulher, para além de três agentes de segurança.

Do lugar onde o Fiat Chroma branco saltou pelos ares, a poucos metros do desvio em direção a Capaci, pode-se ver a pequena colina de onde Giovanni Brusca, por ordem de Salvatore Totò Riina, ativou o detonador dos mais de 400 quilos de TNT escondidos sob a estrada de Trapani a Palermo. Na torre branca, onde se escondeu para ver quando os carros passavam, alguém escreveu em letras negras garrafais: "Não à máfia".

Mas só depois. Ontem completaram-se 30 anos do assassinato de Falcone. O destaque da revista Veja faz a ponte com o juiz brasileiro Sérgio Moro, que comandava a operação Lava Jato. Esta celebração da revista Veja é dos 20 anos da morte de Falcone. Dizia que Sérgio Moro queria ser uma espécie de superjuiz antimáfia, no caso anticorrupção, e aparentemente tem uma grande estima pela memória de Giovanni Falcone.

A explosão de Capaci antecedeu a que atingiu Paolo Borsellino, 57 dias depois, matando também cinco polícias.

57 dias depois, foi a vez do adjunto de Falcone, Paolo Borsellino, perder a vida. Aquelas bombas dinamitaram os equilíbrios de poder entre a máfia e o Estado, que se afundava com o enorme caso de corrupção Mani Pulite ou Mãos Limpas. A guerra sem quartel devastou o país, mas também a Cosa Nostra, cuja repressão permitiu a organizações também criminosas, como a 'Ndrangheta, aumentarem a influência e tecerem uma extensa rede internacional.

Salvatore Totò Riina foi o último grande capo dei capi, o chefe dos chefes da máfia siciliana. Foi responsável pela morte de mais de 150 pessoas, das quais 40 assassinou com as próprias mãos. Membro da máfia desde os 16 anos, Totò Riina matou desde a juventude e ainda hoje, aos 87 anos, continua a dar ordens à organização a partir do interior da cadeia.

Giovanni Falcone, além de descobrir a pedra Rosetta da máfia, a lendária confissão de 329 páginas que Falcone obteve de Tommaso Buscetta, o primeiro arrependido, o magistrado revolucionou também o sistema de investigação de dentro do seu famoso bunker.

O segredo era o dinheiro, lembra Luca Rossi, escritor, cronista daquele período, autor de obras como "I Disarmati", "Os Desarmados", em tradução livre. Amigo do juiz, do tal juiz que temos falado desde o início, Giovanni Falcone, adquiriu um caráter de profecia autocumprida. Falcone era o escudo e uma vez eliminado, o resto soube que cedo ou tarde se reuniriam com ele, lembra o presidente da Câmara de Palermo, Leoluca Orlando. Ele, que tinha a certeza disso Quando escreveu um livro chamado "Eu Deveria Ser o Próximo".

A morte de Falcone trouxe o 41 bis, um regime prisional que deixa os presos incomunicáveis para acabar com essa capacidade de comando e sob o qual ainda permanecem 728 detidos. E reduziu assim a Cosa Nostra à mínima expressão de uma organização mais antiga do que a própria Itália. Cosa Nostra, que terá feito qualquer coisa como 4000 mortes desde a sua origem. Depois de emitidas as condenações do chamado Maxi Processo di Palermo, Riina ordenou a dois dos seus homens de confiança, Giovanni Brusca e Nino Gioli, que tratassem do trabalho.

E assim foi.

É uma história. É sempre bom regressar a Itália em 1992. É uma época cheia de convulsão social, mas também com muita história ainda para contar.

Itália era sempre época de convulsão social.

É verdade. E se formos a Sicília, a Nápoles, então é convulsão atrás de convulsão.

Mas só o número de governos, eu não sei. Depois da Segunda Guerra devem ter sido mais de 50 governos italianos.

Eu acho que havia alturas em que sem governo era melhor.

Sim.

De qualquer das formas, era como se não tivesse, muitas vezes.

Ora bem, partindo desta história trazida aqui pela Judite de França para uma viagem, de facto, 1992, mas hoje ficamos por Itália. Fui até ver como é que era o top de números um de Itália durante este ano. E lembrem-se que 92 é já um ano em que o eurodance bomba nas rádios do velho continente e daí que o single que mais tempo aguentou no primeiro lugar em 1991 tenha sido este aqui. Consegue a maior temporada em 1992 a liderar o top italiano "Rhythm is a Dancer" de Snap.

Snap. Foi a primeira música em que pensei quando pensei em 92, em 1992.

A sério?

Foi. Foi a primeira música que me veio à cabeça.

Eu adoro eurodance.

Ele tem isto compartimentado por anos.

Sim. E por géneros.

Sai o cheiro. Aliás, o gosto duvidoso voltaria a liderar a tabela italiana no final desse ano, graças a um fenómeno chamado Jordy.

"Dur Dur D'Être Bébé".

Ele sabe.

É um bebê francês que está no livro do Guinness como o cantor mais jovem a ter um single no primeiro lugar de vendas em vários tops. "Dur Dur D'Être Bébé" versava sobre as agruras da vida de um pequenote que, como sabemos, não é nada fácil.

Obrigado, Bruno. Meus braços, ainda em álga.

Isto é tão mau que é bom.

Dá a volta.

É tão mau que é bom.

Isso é uma coisa que tu inventaste.

Entretanto, fui ver qual era a vida do Jordy. Depois fez aquele trajeto do Big Brother lá de sítio.

Tipo Saúl. Também encontramos italianos a liderar o top do país em 1992 e a maior temporada foi conseguida pelo duo Alessandro Baldi e Francesca Alotta nesta "Non Amarmi". O tema valeu à dupla o prémio Revelação do Festival de Sanremo. Esta música eu acho que depois apareceu em alguma telenovela. Depois vou confirmar. E anos mais tarde foi recriado por uma outra dupla, Jennifer Lopez e Marc Anthony, com o nome de "No Me Ames".

"No Me Ames". Eu não sabia que o Marc Anthony também cantava.

Sim.

Ele cantava primeiro. Ele era uma espécie de Eric Clapton Júnior. Ele cantava e depois fez uma perninha em cinema.

Também fez a perninha da Jennifer Lopez.

Eu achei que ele era só casado.

Na altura, eu acho que eles eram um casal.

Eu achei que ele era só casado com a Jennifer Lopez. O que faz o Marc Anthony? É casado com a Jennifer Lopez.

Não, Marc Anthony era uma estrela da música latina.

Aliás, era uma estrela antes da Jennifer Lopez ser uma estrela. Um passado ali na América Latina.

Ele é que era a estrela.

Exatamente. Só recordar, depois fui ver a carreira do Alejandro Baldi, que era um senhor invisual, e fui ver a atuação dele com a Francesca Alotta nesse festival de Sanremo, onde ganham o prémio Revelação em 92.

Mas não o viu. E já que falamos de festivais, Itália foi representada na Eurovisão de 1992 por Mia Martini, com o tema "Rapsodia Mia", que, como poderão confirmar, tem voz de Martini.

Isto é do gênero da Gianna Nannini.

Sim. Eu já tinha lido isto e mesmo assim, quando agora tive que dizer, ri-me.

Sim, é um bocado Rod Stewart também. Um tipo de rouquidão.

Quer dizer, não é bem Martini, isto é uma coisa mais forte.

Isto é uma...

É bagaço.

É bagaço.

É bagaço 69. Em 1992, estava ainda no forno um dos discos italianos mais bem-sucedidos da década, "Tutte le storie" de Eros Ramazzotti. Foi um verdadeiro fenômeno de vendas, também aqui em Portugal. Foi gravado em 92, só chegou às lojas no início do ano seguinte.

Muito português sabia trautear isto em italiano durante 1993, 94.

Claro! Eros Ramazzotti, que tem uma das músicas desta altura, o videoclipe foi realizado pelo Spike Lee.

What?

É verdade.

Isso não conhecia.

Agora não me lembro qual é que é a música.

Mas é deste disco? Do "Tu Tu Storia"?

Não é deste, é do seguinte. Mas ele esteve em alta. Aliás, é na altura que ele faz também um dueto com a Tina Turner.

Isso lembro-me, de haver um dueto com a Tina Turner. Outro fenômeno italiano que é muito apreciado por estas bandas aqui em Portugal dá pelo nome de Jovanotti. Ele que ainda estava há dois anos, em 94 lançou o sucesso em todo o mundo, "Penso Positivo". Antes disso, em 92, também editou um álbum que tinha uma canção que era um verdadeiro retrato do ano. "Estate 1992" é mais apropriada para os dias de calor que se esperam a partir de amanhã, até porque tem uma grande parte do refrão com a frase "ma che caldo fa". E também tem uma descrição de 1992, logo no início. Ouçam lá, Jovanotti no fim da Cassete 60 de hoje, viagem a 92.