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Ho ho ho, professor Carlos Filhais.
Quem é que fala assim? É o Pai Natal?
É o Pai Natal. Professor, já fez as compras de Natal ou sofre desse mal muito português, que é deixar tudo pro último dia?
Ora bem, eu fiz algumas, de fato, mas ainda faltam outras. De modo que vamos fazendo compras e é um tempo em que escolhemos coisas pra dar às pessoas queridas. E esse é um grande tempo, o tempo de Natal.
Muito bem. O programa de hoje é ótimo para os ouvintes que ainda andam à procura de um presente de Natal, porque o professor trouxe hoje alguns livros de ciência para aconselhar. Vamos começar pela área da astrofísica. Traz-nos dois livros, professor. Vamos começar pelo primeiro. Qual é?
Sim. Eu gosto muito de dar e, naturalmente, também de receber livros. De modo que vamos a isto, dar e receber livros. Eu vou sugerir alguns, embora haja outros, com certeza. O primeiro, da astrofísica, intitula-se "O Mensageiro das Estrelas", e o subtítulo é: "Um olhar cósmico sobre a nossa civilização". O autor é um divulgador de ciência muito conhecido, o astrônomo Neil deGrasse Tyson, que é norte-americano, diretor do Planetário Hayden, em Nova York, que tem vários outros livros, alguns deles em português, e filmes. Ele participou, por exemplo, nas sequelas do Cosmos, do Carl Sagan. Ele, aliás, conheceu o Carl Sagan. E é um livro muito interessante, porque fala do espaço, mas fala também da Terra, fala da nossa vida aqui. E se virmos, encontramos capítulos sobre conflitos, portanto, guerras, sobre riscos, até sobre alimentação, sobre gênero, sobre racismo, sobre problemas de lei e ordem, sobre o corpo e a mente. Por outras palavras, é uma iluminação feita por um cientista sobre as questões da humanidade. E o título foi retirado ao Galileu, "O Mensageiro das Estrelas" é um famoso livro de 1610, de Galileu.
Muito bem. Editado, este, "O Mensageiro das Estrelas" pela Objectiva. Também pela Objectiva, o "Buracos Brancos", de Carlo Rovelli. Falamos aqui tantas vezes de buracos negros, professor. Afinal, também há buracos brancos. Que buracos brancos são esses?
Não sabemos bem se há, é um pouco especulativo. Os buracos negros, temos a certeza. Os buracos brancos, estamos para saber. Mas este autor, Carlo Rovelli, é um dos físicos mais conhecidos agora e também um dos maiores divulgadores de ciência. Agora que já não temos conosco nem o Carl Sagan, nem o Stephen Hawking, Carlo Rovelli é, de facto, um nome incontornável e ele escreve muito bem. Este é um livro muito bonito, também da Objectiva, e intitula-se "Buracos Brancos: Dentro do Horizonte". É uma escrita sobre o pensamento da possibilidade de haver um sítio do universo onde apareça tudo. Tal como um buraco negro é o sítio onde desaparece tudo, um buraco branco é o sítio contrário, é o oposto. O buraco branco é o oposto do buraco negro. E, portanto, estamos para saber se existem, mas este livro faz-nos sonhar com essas possibilidades que um dia poderemos confirmar ou não.
Quem sabe? Passemos para a medicina. Traz-nos aqui um livro dum jornalista, David Quammen.
Isso mesmo. É um jornalista de ciência americano, um dos mais conceituados. Ele tem, aliás, um livro sobre contágios, intitula-se precisamente Contágio, nas vésperas da Covid. Foi um livro que eu li na altura com muito gosto. E este livro, então, é que é sobre a Covid. Portanto, ele fez um sobre o estado de contágio. De algum modo, ele estava a adivinhar a coisa, de uma certa maneira. E agora é reportagem por um grande jornalista, intitula-se "Sem Ar: a corrida da ciência para derrotar um vírus mortal". E é, de facto, um livro grande, tem 500 páginas, também da Objectiva, que está a editar bons livros. E este "Sem Ar" é um documento que fica pra nos lembrarmos deste tempo que foi difícil, o tempo dos confinamentos, o tempo das vacinas. E isto contado em direto e ao vivo por alguém confinado também, mas com os ouvidos muito atentos a tudo o que se passava no mundo. É uma grande reportagem sobre o tempo da Covid.
Parece que foi noutra vida, não é, professor?
Foi há pouco tempo. Mas sobrevivemos, cá estamos bem.
É verdade.
Exceto aqueles que infelizmente já cá não estão.
Claro. É a tendência natural do ser humano para se esquecer. Bom, por falar em vida, traz-nos aqui um livro de Manuel Antunes, "Uma vida com o coração nas mãos: reflexões de um cirurgião sobre a vocação, a carreira e o SNS." Que livro é este e que testemunho parece evidenciar este título, professor Carlos Filhais?
Manuel Antunes é um cirurgião cardíaco e dirigiu durante muitos anos o serviço de cirurgia cardiotorácica da Universidade de Coimbra. Só saiu por causa do limite de idade. E este livro sai na Gradiva. É uma espécie de autobiografia no sentido em que conta a sua vida, principalmente a sua vida científica e profissional. E isso vem na sequência da sua última lição, que ele deu na Universidade de Coimbra. Ele foi professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, ainda é, ainda professor convidado. E ele é uma pessoa que vem de uma pequena aldeia ali perto de Leiria, Memória, e depois foi pra Moçambique. Moçambique foi pra África do Sul, na altura da independência também de Moçambique, mas lá especializou-se num grande hospital de Joanesburgo. E de facto, ele vem depois pra Coimbra e foi um campeão de fazer cirurgias, organizou o serviço muito bem. Eu tenho o gosto de ter feito o posfácio pra este livro, que saiu na Gradiva, e o prefácio foi da antiga ministra da Saúde, Maria de Belém Roseira. É um documento não só sobre a vida dele, mas sobre a evolução do nosso serviço de saúde, os progressos, e também a falta deles, nas últimas décadas em Portugal.
Muito bem. Vamos passar pra botânica. Traz-nos aqui um livro de um senhor que Creio que faleceu este ano, não foi?
Sim, Hubert Reeves. Um divulgador da astronomia, da astrofísica, como o primeiro que falamos, Tyson. Este é canadiano. E este livro soma-se a vários outros, pertence à coleção Ciência Aberta da Gradiva, uma coleção que eu dirijo desde há muitos anos e intitula-se: "Eu vi uma flor selvagem". O subtítulo é: "O herbário de um astrofísico". É que Hubert Reeves não apenas gostava de olhar para as estrelas e contar-nos as maravilhas do céu estrelado, mas também tinha uma casa no campo, em França, e gostava de olhar para as plantas, designadamente as plantas selvagens, as flores. E este é um álbum ilustrado, lindíssimo, logo a começar pela capa, que ele está com uma lupa a ver algumas flores.
É verdade, estou aqui a olhar para a capa.
E este livro-
É uma fotografia.
Exatamente. E este está recheado de belas fotografias. É um ótimo presente de Natal, porque faz-nos descobrir coisas. Estas plantas existem cá, que nós olhamos, vemos no campo, vemos à nossa volta e às vezes não sabemos as particularidades dessas plantas, o modo como se reproduzem, as épocas em que aparecem as flores, essas coisas todas. Portanto, é um livro que nos faz olhar para a natureza e maravilhar-nos com este aspeto da natureza, que é sempre um aspeto muito marcante.
Muito bem. O próximo livro também nos convoca a isso, a conhecer a natureza. É uma viagem botânica por Portugal. Já vou calçar as botas de caminhada, professor.
Este livro, a "Viagem Botânica por Portugal" é de edições CTT, o que significa que tem selos e é daquelas edições mais luxuosas, portanto, é mais caro que os outros, mas vale a pena porque é uma edição única. Estas edições CTT não são reeditadas, são peças de coleção. E é em muito bom papel, ótimas fotografias, como aliás é timbre. Estes livros estão à venda nos postos dos CTT. E o autor é um especialista em botânica. Licenciou-se em Biologia, primeiro na Universidade de Trás-os-Montes, mas depois prosseguiu estudos, doutorou-se na Universidade de Coimbra e depois também na Universidade de Évora. E hoje é professor coordenador no Instituto Politécnico de Beja, onde dirige o Museu Botânico. O que é que há de particular neste olhar de botânico? É que não é apenas olhar para as plantas de Portugal. É etnobotânica que se trata, quer dizer, dos usos e tradições ligados às plantas das várias regiões do país. Portanto, está dividido por regiões. Começa nos Açores, Madeira, Algarve, Baixa Alentejo, bem por aí acima. E o que vemos é, sei lá, nas festas religiosas, que flores se usam, até nas decorações, nas obras de arte. No fundo, as plantas que a cultura apreendeu. E de facto, a cultura tem essa capacidade de apreender a natureza. Isto é um livro bastante original. É um livro que eu recomendo também pela sua originalidade. É olhar para nós, para o nosso património do ponto de vista botânico, mas casando-o com a cultura.
Foram os primeiros remédios da humanidade, não é? As plantas.
Sim. Este livro não fala tanto disso, mas fala da nossa grande proximidade às plantas. Nós precisamos de plantas para expressar até as nossas emoções. Olhe, nós vamos visitar alguém, levamos um ramo de flores.
É verdade.
Portanto, é sobre isso que trata este livro. A nossa decoração, até sei lá, das toalhas, tem representações de plantas e é este olhar muito curioso que este autor nos dá.
Muito giro. Vamos viajar no tempo através da arqueologia. "Portugal na Idade do Gelo: Território e Habitantes" do João Silhão. Um livro da fundação-
João Silhão é um arqueólogo.
É um arqueólogo.
Francisco Manuel dos Santos.
Francisco Manuel dos Santos é a fundação que edita este livro. Que livro é este, professor?
É um livro também muito bonito. Olha, aqui está uma edição que é muito oportuna de Natal, também com capas duras como o anterior, um formato grande e belas fotografias. E é um livro que fala sobre a pré-história portuguesa. Escrito por um dos melhores arqueólogos portugueses, que esteve muito tempo lá fora. O João Silhão esteve em vários sítios. Ele agora é professor na Universidade de Lisboa, mas já esteve em universidades de Espanha, de França, da Alemanha, do Reino Unido e foi responsável por aspetos da nossa arqueologia, o Parque Arqueológico do Côa, o Menino de Lapedo, que é o Neandertal ali da Leiria. E portanto, ele é quem sabe mais sobre os portugueses mais antigos, sobre os Neandertais que vieram a Portugal e conta-nos então a história dos primeiros portugueses. Isto feito desta maneira para toda a gente perceber, com os locais, com as grutas onde aparecem estas coisas. Refugiam-se nas grutas nos tempos de grande frio que houve na pré-história. É um livro também muito bonito, que nos faz pensar quão antigo é o nosso território e o seu povoamento, neste caso, quão antigo é o povoamento do nosso território.
Muito bem. Passemos então para a última sugestão de prenda de Natal do professor Carlos Filhais, dedicada à inteligência artificial. Chama-se "Inteligência Artificial e Cultura". É um livro que reúne textos de vários autores. É isso, professor?
Isso mesmo. Sai também na Gradiva, na coleção Ciência Aberta, e isto é a transcrição de um colóquio que houve em maio passado em Lisboa, organizado pela Sociedade Portuguesa de Autores e, portanto, foram convidadas pessoas de várias origens, dos quais um filósofo Espanhol, ou melhor basco, muito conhecido, Daniel Innerarity, mas também juristas como Patrice Acker e um jurista espanhol, Javier Gutiérrez Bicen, e filósofos, José Barata Moura, o historiador José Pacheco Pereira, o músico Pedro Abrunhosa, eu próprio estou aqui num capítulo.
Escreve sobre o quê, já agora, professor?
Eu escrevo sobre a história da inteligência artificial, como é que ela apareceu. Não é uma coisa que surgiu agora, é da minha idade. A inteligência artificial tem já 67 anos, pelo menos o termo, é mais antigo que isso. E eu digo o que ela é, que possibilidades é que tem, falo dos perigos, faço um apanhado geral sobre a inteligência artificial do ponto de vista, naturalmente, de um físico, de um cientista. E os outros falam de outros aspectos complementares, nomeadamente questões da aplicação. Certos autores estão interessados em saber se os sistemas de inteligência artificial vão substituir os autores, como por vezes se anuncia. Bem, não será bem isso, mas nós sabemos que existem sistemas como o ChatGPT, que têm grandes possibilidades que, de algum modo, podem ser considerados, com muitas limitações, mas criativos. Então a questão é: no futuro, como é? Isto é a relação com a cultura. Nós temos medo dessas possibilidades, é natural, mas também temos de as descobrir e ver até que ponto é que a inteligência artificial nos pode ajudar na criação artística. E já hoje está a ser usado na criação artística. Portanto, nós vamos conviver com isto e este livro trata dos vários aspetos, das várias possibilidades e também dos vários perigos. E isso é um assunto muito atual. Ainda agora a União Europeia aprovou o primeiro regulamento em todo o mundo de inteligência artificial. Portanto, é preciso regulamentar esta área. Esta área está nas nossas vidas e já está na arte e na cultura, já está na criação artística. Agora a questão é: qual é a parte humana? Quer dizer, no fundo, a questão é sempre quem somos nós. E é essa a questão a que vamos continuar a responder.
Muito bem. Oito sugestões de livros para os nossos ouvintes poderem oferecer ou poderem pedir aos seus amigos ou aos seus familiares. Eu já tomei aqui nota, há aqui um que já está sob o olho, professor.
Diga lá, já agora.
Não, ia ser acusado de ser parcial. Eu já lhe mando uma mensagem.
Eu escolho todos.
Muito bem. Professor, estamos de regresso na véspera de Natal. Até lá, boas compras e boa semana.
Boa semana. Muito bom Natal.