Há dias em que saio do hospital ou consultório, abro o Instagram e parece que entrei num casino com estacionamento para Ferraris. Há Lamborghinis, Ducatis, férias no Dubai e jovens milionários cuja profissão permanece um mistério. Basta gostar de motos para o ecrã se encher delas. Depois aparecem relógios, mansões e um cavalheiro de dentes impecáveis que promete ensinar-nos a enriquecer. Primeiro vende o sonho. Depois, apostas, investimentos milagrosos ou esquemas em pirâmide. O carro é dele. O risco é nosso.
É a economia da atenção: oferecemos os nossos gostos para que alguém descubra a melhor maneira de nos vender desejos. O narcisismo fornece a montra, os algoritmos escolhem a clientela e certos influenciadores tratam da caixa registadora. Chamam-nos «família» enquanto negoceiam o preço da nossa confiança.
Eu conheço o outro lado desta festa. E garanto que não tem Ferraris.
Vejo em consulta pessoas com dívidas de oitenta mil euros, insolvências pessoais, empréstimos sucessivos e património familiar delapidado. Mas o dinheiro nem sempre é a maior perda. Há casamentos destruídos, filhos que deixaram de acreditar nos pais e pessoas que continuam a amar alguém em quem já não conseguem confiar. É uma solidão terrível: dormir ao lado de quem amamos e ter medo de acreditar numa única palavra.
«Doutor, comecei com cinquenta euros. Depois perdi quinhentos. Pensei que, se apostasse mais, recuperava tudo. Quando dei por mim, já devia vinte mil. A minha mulher não sabe de metade. Às vezes olho para ela e penso que sou a pior pessoa do mundo. Mas, se conseguir recuperar, não preciso de lhe contar.»
Há frases que ficam connosco muito depois de fechar a porta do consultório. Nesta, a tragédia está inteira: o jogador já não aposta para ganhar. Aposta para apagar o passado. Quer recuperar o dinheiro, a dignidade e a pessoa que era antes de começar. A psicologia clínica chama-lhe perseguição das perdas. Eu prefiro descrevê-la como a tentativa desesperada de sair de um buraco cavando mais fundo.
Na dependência do jogo, a mentira não é um pormenor. Torna-se, muitas vezes, uma maneira de viver. «Mãe, preciso de dinheiro para pagar a renda.» «Amor, o ordenado ainda não entrou.» «Emprestei quinhentos euros a um amigo.»
Começa-se por esconder uma aposta, depois uma dívida, depois a própria dimensão do problema. Apagam-se mensagens, inventam-se despesas, contraem-se empréstimos às escondidas. Há quem tenha duas vidas: a que apresenta à família e a que se desenrola secretamente no telemóvel.
«Eu sei que lhe estou a mentir. Mas não consigo chegar a casa e dizer-lhe que perdi o dinheiro das férias, as poupanças da nossa filha e parte do empréstimo. Ela vai deixar-me. Por isso jogo mais uma vez. Se ganhar, resolvo tudo. Se perder… nem quero pensar nisso.»
É uma das contradições mais cruéis desta perturbação. Muitas destas pessoas não deixaram de amar os familiares. Mentem-lhes, em parte, porque receiam perdê-los. A dissonância cognitiva ajuda a compreender como alguém procura conciliar o comportamento com a imagem que tem de si próprio. «Não sou um mentiroso. Estou apenas a esconder isto até resolver o problema.» A justificação protege momentaneamente a identidade enquanto a mentira a destrói.
É um crédito emocional com juros absolutamente criminosos.
O cérebro também participa nesta tragédia. O reforço intermitente, através de recompensas imprevisíveis, alimenta a persistência do comportamento. A antecipação do ganho mobiliza circuitos de recompensa e motivação, enquanto a ilusão de controlo e a aversão à perda ajudam a sustentar decisões cada vez mais irracionais. Se perde, precisa de recuperar. Se ganha, convence-se de que finalmente descobriu o caminho. A matemática diz-lhe para parar. Mas a esperança, convenientemente, não estudou matemática.
«Doutor, prometi à minha mulher que nunca mais jogava. Juro que naquele momento estava a falar a sério. Aguentei três semanas. Depois recebi o ordenado, recebi um telefonema do meu gestor de jogo com uma oferta de 500 euros para jogar e pensei que podia ganhar algum dinheiro sem ela saber. Quando perdi, fiquei desesperado. E voltei a jogar para recuperar.»
Uma promessa pode ser sincera e, ainda assim, não ser cumprida. O arrependimento existe. O desejo de parar também. Mas a ansiedade, a vergonha e a oportunidade de apostar podem sobrepor-se à decisão anterior. Não é simplesmente falta de carácter. É uma dependência que compromete o controlo do comportamento, sem apagar a responsabilidade pelas suas consequências.
E essas consequências têm rostos.
«Doutor, já não sei quando é que o meu marido está a dizer a verdade. Descobri um empréstimo, depois outro, depois um cartão de crédito que eu nem sabia que existia, não sei como o banco deu essa possibilidade. Ele chora, pede-me desculpa e promete que acabou. Eu quero acreditar. Mas agora, quando o vejo ao telemóvel, sinto medo. Continuo a amá-lo, mas já não consigo viver assim.»
É assim que o amor se transforma em vigilância. Companheiras e companheiros tornam-se detectives, pais fiscalizam contas bancárias e filhos aprendem a desconfiar. A intimidade transforma-se numa auditoria permanente. A hipervigilância instala-se: uma mensagem fora de horas, um atraso ou uma transferência bancária tornam-se sinais de perigo. Há casais que continuam apaixonados, mas já não conseguem viver juntos. Não por falta de amor. Mas oor excesso de mentiras.
E há os pais, frequentemente os últimos a desistir e os primeiros a ficar sem poupanças.
«Ele disse-me que precisava de dinheiro para não perder a casa. Dei-lhe o que tinha. Depois descobri que tinha jogado tudo. Agora voltou a pedir-me ajuda. Se lhe der, tenho medo de estar a alimentar o problema. Se não lhe der, tenho medo do que ele possa fazer. Diga-me, doutor, o que é que uma mãe faz?»
Não há uma resposta universal. Mas pagar uma dívida sem enfrentar a dependência pode apenas abrir espaço para a seguinte. Ajudar alguém não pode significar financiar indefinidamente aquilo que o destrói. Há famílias que hipotecam o futuro para salvar alguém do passado. E acabam todos a pagar prestações de uma aposta que nunca fizeram.
Recordo-me também de um paciente que relatou um episódio num casino. Segundo ele, um jogador ganhou um prémio considerável e alguém do estabelecimento aproximou-se para lhe dizer: «Acho que por hoje já chega.» Não sei se aconteceu exatamente assim. Mas achei enternecedora aquela súbita preocupação com a moderação. Na história que ouvi, a vitória mereceu um conselho paternal. As derrotas não tiveram semelhante acompanhamento.
Conheço igualmente relatos de crupiês que desenvolveram problemas com o jogo, incluindo quem procurava jogar do outro lado da fronteira. Conhecer a roleta não torna ninguém imune à dependência. Saber que o fogo queima não impede necessariamente uma queimadura.
Entretanto, o casino mudou-se para o telemóvel. Já não precisa de lustres nem de empregados de colete. Cabe no bolso, acompanha-nos para a cama e está disponível durante a insónia, o desemprego ou uma discussão conjugal. Antigamente, para perder a casa, ainda era necessário sair dela.
Alguns influenciadores transformaram a confiança dos seguidores numa mercadoria. Chamam-lhes «família», enquanto promovem negócios que podem arruinar famílias verdadeiras. A publicidade ao jogo chega-nos através do futebol, da rádio, da televisão e das redes sociais. O adepto já não se limita a sofrer pelo clube. Pode agora sofrer pelo clube, pelo resultado e pela conta bancária.
«Jogue com responsabilidade.» Confesso que a frase me provoca uma irritação especial. Primeiro estimula-se o desejo, depois recomenda-se prudência. É como oferecer fósforos numa gasolineira e pedir que ninguém faça lume.
Há aqui uma questão de saúde pública. A indústria conhece os mecanismos psicológicos que tornam o jogo atraente: a antecipação da recompensa, a excitação da incerteza, a sensação de quase ganhar e a facilidade de repetir a aposta. Não é aceitável que toda a responsabilidade seja depois depositada sobre o indivíduo, precisamente quando a dependência lhe compromete a capacidade de resistir.
Portugal tem leis, fiscalização e mecanismos de auto-exclusão. São importantes, mas insuficientes. A auto-exclusão centralizada abrange os operadores online licenciados, não os ilegais. E nenhum bloqueio informático substitui o acompanhamento psicológico. Pedir a alguém que perdeu o controlo que se proteja sozinho, enquanto continua rodeado de estímulos para apostar, é pedir a uma pessoa que se afoga que preencha primeiro um formulário de segurança aquática.
A dependência do jogo não é uma extravagância financeira nem um simples defeito moral. É uma perturbação clínica associada a sofrimento psicológico, depressão, ansiedade, rupturas familiares e, nos casos mais graves, risco suicidário. Não é necessário perder oitenta mil euros para ficar sem o essencial.
Não defendo a proibição de todos os prazeres. Defendo maior responsabilidade na publicidade, melhor protecção das pessoas vulneráveis e acesso efectivo ao tratamento. E defendo que as famílias deixem de ser tratadas como figurantes. Porque ninguém sai ileso de viver anos entre promessas, dívidas e desconfiança.
«Doutor, já não jogo há seis meses. Mas a minha mulher continua a pedir-me para mostrar o extracto bancário. Fico zangado, porque estou a esforçar-me. Depois lembro-me de tudo o que lhe fiz passar. Se calhar, seis meses sem jogar não apagam cinco anos a mentir.»
Talvez seja uma das reflexões mais importantes de todo este sofrimento. A recuperação exige muito mais do que deixar de apostar. Exige aprender a viver sem mentir, aceitar as consequências, suportar a frustração e reconstruir a confiança. E compreender que algumas perdas não se recuperam com dinheiro.
Quando termino uma consulta, não fico a pensar nos prémios anunciados na televisão. Fico a pensar no pai que já não consegue olhar a filha nos olhos, na mulher que descobriu mais um empréstimo, na mãe que entregou as últimas poupanças e no casal que se ama mas já não acredita numa única promessa.
Diz-se que a banca ganha sempre. No meu consultório, vejo demasiadas vezes quem paga a conta. E raramente é só quem fez a aposta.
Alexandre Bogalho é psicólogo clínico e da saúde e neuropsicólogo. Exerce atividade no Serviço de Psicologia Clínica do Departamento de Saúde Mental da Unidade Local de Saúde de Coimbra, no Hospital CUF, no Hospital da Luz e na Clinica da Aveleira.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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