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As cidades precisam respirar. Como as tornamos mais humanas e mais sustentáveis? Paula Teles, especialista em mobilidade. Paula, que tendências vão marcar o futuro das cidades?
Eu diria em duas palavras-chave, que a humanização das cidades e a descarbonização delas vão ser os dois grandes acontecimentos. Por um lado, nós trabalharmos e gerirmos as cidades para que elas libertem menos dióxido de carbono pra atmosfera, portanto, os efeitos necessários da descarbonização como forma inequívoca de um colete salva-vidas para o nosso planeta. E aqui não esquecer que a mobilidade é um dos três focos principais que enviam essas partículas nefastas para o meio ambiente, e portanto, tem um papel muito relevante na componente da qualidade do sistema. E depois a questão da humanização, que é devolver outra vez o espaço ao peão. Aquele espaço que está entre os edifícios, mas que foi totalmente ocupado pela infraestrutura, de forma geral, a infraestrutura rodoviária, que tomou conta desse espaço todo entre edifícios nas grandes cidades e que agora temos que libertar. Para quê? Para modos suaves, que é andar a pé e andar de bicicleta, para corredores ligados aos transportes públicos, para novas formas mais inteligentes também de mobilidade, mas acima de tudo, para espaços de vivência, onde o elemento verde e água tem que passar a estar no nosso imaginário. E tem que passar do imaginário para aquilo que é o real. Ou seja, criamos sistemas corredores verdes, onde nós possamos também, através deles, percorreremos a cidade. E isso é um trabalho que vai ter mesmo que ser feito a muito curto prazo de tempo.
Paula Teles, a pandemia acelerou o processo de conscientização de que é preciso transformar as cidades?
Sim, eu tenho muita esperança que a pandemia, como um problema tão grande para todo este mundo que estamos a ver, para este planeta que estamos neste momento a sentir e a viver nele, passe, do ponto de vista da vida da cidade, a ter uma componente favorável. Que não podemos continuar a ter o nosso ritmo de vida que estávamos a ter. Não podemos continuar a ter os nossos hábitos que estávamos a ter. As cidades não podem continuar a ser monofuncionais. É preciso voltar a uma vida diferente. A cidade tem que passar a ser realmente diversa, multifuncional. Nós temos que viver mais no centro da própria cidade. Quem puder, tem que viver mais no centro da cidade. E tem que passar a ter menos deslocações de automóvel. E tem que ser redesenhadas. Nós temos que as redesenhar para elas absorverem aquilo que hoje a pandemia veio dizer, que é: temos que ter mais espaço livre. Nós não podemos estar todos dentro de apartamentos e apartamentos dentro de edifícios, edifícios amontoados em cima de edifícios, em que não temos um entorno livre para podermos caminhar, para podermos apanhar um pouquinho de vitamina D, que é apanhar o sol.
E que é essencial.
Para podermos levar o cão ou as crianças à rua. E portanto, a pandemia vem trazer essa mudança, mudança no sentido que eu sim, vou perceber que o ideal era, de facto, eu viver numa cidade 15 minutos, como se tem referido ultimamente. Para isso, nós temos que transformar a cidade em menos asfalto e algum do espaço, dos metros quadrados de asfalto, tem que passar para metros quadrados de área de estadia. Seja verde ou azul.
E o país ainda vai a tempo de corrigir os erros urbanísticos do passado, onde o betão e o automóvel eram o centro das preocupações de quem pensava as cidades, Paula Teles?
É difícil responder-lhe essa pergunta. Muito difícil, mas eu acredito que os decisores, que ainda temos, consigam perceber que estamos num ponto de ter que mudar. Estamos num ponto de viragem, de mudança. Da mesma maneira como nós temos que esbater a curva da mobilidade, como se fosse a curva da pandemia, que são as horas de ponta, ela tem que esbater, tem que aplanar. Portanto, nós para isso temos que ter novas formas de utilização das cadeias de locação em horas de ponta, através, muitas vezes, do teletrabalho ou de horários não tão apertados, que pode acontecer e que é muito fácil resolver isso em termos da nossa vida do trabalho. Por outra, os decisores políticos, e em particular os autarcas, têm que tomar decisões muito sérias, sem medo de pegar naquilo que é hoje o excesso de asfalto que temos, e transformar nestas vias que eu estou a dizer, vias resilientes, vias mais amigas, mais sustentáveis. À minha frente tem uma estrada, na cidade do Porto, com três faixas de rodagem. Essas três faixas de rodagem estão neste momento a ser transformadas, uma para ciclovia e outra para corredor bus. Não estão a ter obra, estão apenas com alguns elementos urbanos a colocar, chama-se isto medidas pop-up. É isto que vai ter que acontecer. Não vamos ter dinheiro para fazer grandes obras, como nós estamos habituados. Calçada portuguesa lindíssima, embora não acessível, mas pronto, isso é outro assunto. Não confortável.
Portanto, o que está a dizer é que com alguma imaginação e pouco dinheiro, é possível pensar o futuro da mobilidade e promovendo outro tipo de mobilidade, é isso?
Sim, nós não vamos tirar automóveis. Vamos, sim, criar outras áreas que vão ocupar grande parte do lugar que o automóvel ocupava. E ele vai perceber ao longo do tempo que já está a ser condicionado, está a ter maior estresse naquilo que é a mobilidade dele, que era completa, era plena, era 100%, tinha a mobilidade 100% da cidade. A cidade estava desenhada em estradas e não em ruas, e nós temos que transformar todas as estradas em ruas, tirando aquelas que naturalmente são estradas, vias coletoras ou de distribuição de tráfego, e portanto, essas vão ter que existir sempre, porque o carro vai existir. Mas se nós temos 60% das locações urbanas, das grandes locações em áreas metropolitanas, têm menos de 3 km, esses 3 km vão ter que ser feitos, no futuro, a pé, de bicicleta ou transporte público. E a cidade tem que se transformar no nosso ginásio ao ar livre Se nós formos para o trabalho ou formos à mercearia, começamos a ter a capacidade de fazer as compras no nosso comércio tradicional, que é isso também que se pretende. Ao mesmo tempo, estamos a promover a economia circular, os nossos produtos endógenos. Nós estamos a fazer esse exercício físico, estamos a promover a caminhabilidade ou até o andar de bicicleta e, com isso, estamos a trabalhar neste contexto de melhorar e aplanar as nossas curvas das deslocações em automóvel e a melhorar a nossa qualidade do ambiente urbano e, simultaneamente, estamos a trabalhar para a nossa saúde pública.
A Paula Teles escreveu um livro intitulado "A Cidade das Bicicletas", que é uma espécie de guia para tornar as cidades mais recetivas às duas rodas. A deslocação de bicicleta dentro das cidades portuguesas é uma utopia ou é algo que é possível?
É algo que é possível. Como é que é possível andar de bicicleta no norte da Europa, com climatologia horrível, mau tempo, sempre escuro, chuva intensa e neve, e não é possível andar de bicicleta num país como é o nosso? Que está maioritariamente em sol e grande parte das cidades ainda são planas, nem todas têm grandes colinas.
Nesse caso, o que é que é preciso fazer para promover o uso da bicicleta? É preciso mudar a legislação, é preciso criar infraestruturas, é preciso mudar mentalidades?
Eu diria que, em primeiro lugar, a mentalidade tem que ser mudada. Essa é a primeira e última, essa é transversal. Mudar mentalidades é transversal. A aposta muito grande nas novas formas de mobilidade através das crianças é um objetivo muito grande. E primeiro, nós temos que levar essas novas alterações de mobilidade às escolas e temos que ensinar as crianças também que elas próprias têm que ter outro modo de deslocação. Deixá-las ir pra escola a pé, para que eles comecem a aprender a andar a pé e andar de bicicleta, porque essas crianças cresceram sem aprender a andar a pé e andar de bicicleta. Ponto dois, é preciso realmente fazer pistas cicláveis. Eu acredito que se nós fizermos um desenho das cidades aproveitando os canais que estão neste momento em excesso por automóvel e aproveitando só esse canal, limitando-o, nós vamos ter mais pessoas a andar de bicicleta. Portanto, há aqui esse trabalho, claro, de redesenhar a cidade, de melhorar a infraestrutura. Adicionalmente, eu diria que é necessário dotar no sistema de mobilidade também a bicicleta pública.
Como especialista em mobilidade e que tem estudado estas questões, e face à urgência, parece que é consensual, de que é preciso mudar algo dentro das cidades, os decisores políticos deveriam dar o exemplo?
Sim, claro. Foi assim que começou no norte da Europa com os decisores, e é assim que ainda é hoje. Aliás, vai-se a Bruxelas e vemos um conjunto enorme de decisores a irem de bicicleta para o Parlamento Europeu. E nós aqui temos também que fazer isso. Mal é dos nossos decisores que não deem esse exemplo. Têm que começar desde logo a substituir a sua frota autárquica e governamental por veículos mais amigáveis, sejam elétricos ou de outra natureza, outras energias mais renováveis. E eles próprios têm que começar a colocar o sistema de toda a frota automóvel da Câmara Municipal também em outras soluções alternativas, onde se pode começar justamente por meios de bicicleta, carro de partilha, etc. Carro mais pequenino e, portanto, um sistema dessa natureza. É muito importante que os políticos também andem de transporte público e também cheguem ao trabalho de bicicleta e também cheguem a pé.
Muito bem, Paula Teles, especialista em mobilidade. Obrigado por ter estado na Rádio Observador, com vista para o futuro.
Obrigada eu.
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