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55% da população mundial vive nas áreas urbanas. Em 2050, e de acordo com estimativas da ONU, esse valor irá subir para 70%. Como será a mobilidade nas cidades? Ricardo Lopes é o diretor de marketing da Renault. Ricardo, sendo os automóveis um dos maiores problemas das cidades e sendo estes um dos focos no combate às alterações climáticas, como é que um fabricante de automóveis pode ser parte da solução?
Desde logo, seguramente propondo produtos, neste caso, automóveis, cada vez mais eficientes. Mais eficientes em termos energéticos e, sobretudo, eficientes naquilo que são as emissões de CO₂. Mas não apenas no produto automóvel, mas também na componente dos serviços e, sobretudo, na forma de aquisição ou de utilização da mobilidade. Muito também na transição daquilo que é a posse do automóvel para a aquisição da mobilidade, com o que isso significa em termos de otimização do recurso automóvel, nomeadamente em termos de partilha entre várias pessoas.
Ser dono de um automóvel é uma ideia que pode estar já, não diria a desaparecer, mas é um conceito que está em mudança.
É, efetivamente. Há cada vez, sobretudo nas gerações mais jovens, um sentimento de não posse do automóvel e, sobretudo, de utilização. Sobretudo com o que isso significa em termos de menor custo para essas pessoas e também por uma consciência quase social e ecológica de redução daquilo que é a utilização dos recursos do planeta.
Ricardo, que soluções é que a Renault já desenvolveu no sentido de ajudar a tornar as cidades mais sustentáveis?
Desde logo naquilo que foi um investimento, que já data de mais de 10 anos, na tecnologia do veículo elétrico. Portanto, lançamos não apenas um modelo, mas uma gama de modelos elétricos, sejam modelos de passageiros, sejam modelos de comerciais, 100% elétricos, portanto, zero emissões, com o que isso significa em termos de redução da pressão ambiental do veículo automóvel nas grandes cidades. Simultaneamente, estamos a lançar, desde o ano passado, também uma gama de veículos híbridos, que necessariamente significa uma redução muito importante das emissões de CO₂ face àquilo que é a nossa gama térmica. E paralelamente, desenvolvemos diversos projetos no sentido de fomentar todo um ecossistema muito mais sustentável, não apenas no que diz respeito ao veículo automóvel propriamente dito, mas todo o impacto na sociedade. Queria destacar, sobretudo, um projeto muito interessante que está a ser desenvolvido na ilha do Porto Santo, em conjunto com o Governo Regional da Madeira e com a Empresa de Eletricidade da Madeira, no sentido de reutilização daquilo que são as baterias em fim de vida dos Renault Zoe, e a possibilidade de elas servirem como armazenamento de energia de fontes renováveis, obviamente, e depois de serem difundidas, distribuídas à população, depois, nomeadamente, durante a noite, no momento onde a energia solar já não funciona. Portanto, é um projeto que conjuga o veículo automóvel e a economia circular dos componentes do veículo automóvel elétrico, neste caso, e depois também a possibilidade do próprio automóvel servir como armazenador da energia e depois também como fornecedor da energia à rede. Portanto, um projeto que conjuga o automóvel, mas numa vertente mais integrada naquilo que é a vida de uma população.
É uma espécie de uma segunda vida, não é?
É, exatamente, porque é um dos grandes desafios da mobilidade, no seu todo, e sobretudo da mobilidade elétrica, que é o que é a segunda vida das baterias. E neste caso, acaba por ser quase uma vida não eterna, mas quase, e sobretudo no sentido de combater um desafio enorme que é o armazenamento da energia, que são soluções que até hoje não eram evidentes, portanto, toda a energia produzida era perdida, ou era utilizada ou era perdida. E, neste caso, conseguimos armazenar esse bem tão precioso que é a energia e colocá-la à disposição das populações.
Ricardo, quais são as grandes mudanças que se vão operar nas cidades no que à mobilidade sustentável diz respeito?
Desde logo, toda a sociedade está num processo de transformação muito acelerado com todo este contexto de pandemia, no sentido de um diferente equilíbrio entre o trabalho físico e o trabalho em casa, o teletrabalho, que, a meu ver, vai fazer com que a forma como nós nos relacionamos com a cidade e como nos relacionamos com a proximidade do trabalho, vai mudar de uma forma muito importante. Eu antevejo que as populações vão cada vez mais escolher o seu local para viver, não tanto em função do seu local de trabalho como acontecia até hoje, mas sobretudo com outros fatores: qualidade de vida, escolas para os filhos, proximidade da restante família, o que vai inevitavelmente alterar aquilo que é a forma de mobilidade em relação às cidades, em relação aos locais de trabalho. Portanto, antevejo uma periferia que se vai alargar, uma mobilidade que necessariamente vai ser cada vez mais partilhada. Todas as marcas de automóveis, e acho que toda a sociedade vai muito nesse sentido, e acho que isso também vai conduzir a que a pressão de automóveis nas cidades se reduza e, inevitavelmente, aquela que se vai manter será tendencialmente cada vez mais elétrica ou eletrificada e que permitirá uma redução daquilo que é o nível de emissões de CO₂ e que aumentará por si só a qualidade de vida nas cidades de uma forma muito importante.
Ricardo Lopes, diretor de marketing da Renault, obrigado por ter estado na Rádio Observador, com vista para o futuro.
Muito obrigado.
Este programa tem o apoio de BP. Conduza carbono neutro.