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Esta é a Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje recebemos o socialista João Soares. Bom dia, bem-vindo.
Bom dia. Muito obrigado este convite como arguido para a Comissão de Inquérito. Dá uma grande alegria. Completa uma lacuna no meu percurso pessoal.
Agora já pode pôr no currículo, certinho. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda, damos-lhe escolha múltipla, e se acertar, recebe dois pontos. Portanto, são 25 pontos que estão em jogo. Vamos a isto, João Soares?
Vamos a isso.
Vamos lá. Começamos por recuar no tempo. Hoje em dia, os governos mudam com alguma frequência, mas nada se compara ao início da nossa democracia. Em que ano batemos o recorde ao termos três primeiros-ministros diferentes no mesmo ano civil?
Eu estou agora a ler o livro que saiu sobre a breve história da Revolução dos Cravos e tenho seguido com alguma atenção.
Foi por aí.
É por aí, seguramente. Mas eu estou justamente na transição do Palma Carlos pro Vasco Gonçalves, ainda em 74.
Ora bem.
Portanto, aí só houve dois. O Vasco Gonçalves aguentou-se até o fim do quinto governo, em finais de 75, a crise de agosto, Fonte Luminosa, etc. E aí, talvez tenha havido três. E aí talvez há três e eu lembro-me bem.
Então foi 75?
Exatamente, é o 75, Pinheiro de Azevedo a seguir. Não.
Não, está a ir bem.
Está.
Depois ficou doente o Pinheiro de Azevedo.
Isso é verdade. O Pinheiro de Azevedo, aliás, é um caso espantoso. Eu conheci-o mal, mas apesar de tudo, apertei-lhe a mão mais do que uma vez. Era um homem simpático, aliás, percebia-se pelas intervenções televisivas. Lembro-me dele uma vez dizer em São Bento: "Eu estou farto de ser sequestrado, não gosto de ser sequestrado." Ou aquela célebre frase do "é só fumaça", eu também lá estive. E conseguiu uma coisa prodigiosa, que é ter quase 15% dos votos numa eleição presidencial, estando já em coma, o que é uma coisa que significa-
No Porto, não é? Sentiu-se mal no Porto.
Não sei onde foi que ele se sentiu mal, mas ele estava no hospital e estava numa situação já difícil e ainda apanha a volta de 15%. Espero não estar errado.
João Soares, então fechamos em 1975.
Fechamos por aí.
Cinco pontos, está certíssimo. Acredita que o atual governo dure até o fim da legislatura? Os cartazes de José Luís Carneiro não são já uma espécie de pré-campanha eleitoral?
Vamos lá ver, o José Luís Carneiro é um homem de grande dignidade e muito sensato, e não está a pedir eleições. Nós, socialistas, não queremos eleições. Nós queremos que os mandatos se cumpram e que os governos exerçam as suas funções em condições de poder ser responsabilizados no final dos mandatos por aquilo que fizeram. Isto é uma regra básica da democracia. Nós às vezes temos, isso faz parte também das nossas qualidades e dos nossos defeitos, uma tendência pra querer que as coisas se precipitem. Eu, pessoalmente, acredito que este mandato pode cumprir-se. Não é nada de espantoso. E até desejo que ele se cumpra pra depois não haver álibis em relação a incapacidades e falhanços que já são hoje completamente evidentes em áreas vitais, como saúde, etc. E sobretudo, o incumprimento de compromissos que foram claramente assumidos, sem ambiguidades nenhumas, durante a campanha eleitoral e no início do mandato do Luís Montenegro. Eu, aliás, não tenho pessoalmente nenhuma antipatia por ele. Reconheço que ele tem qualidades de comunicação como orador e como alguém que procura a simpatia das pessoas, como é normal naquelas funções.
Mas enfim, o João Soares tem uma vasta experiência política. Não cheira aqui aquele ambiente de quem já está a contar as espingardas?
Não, a contar as espingardas, chame-se Sérgio. Vocês têm melhores condições pra ter uma avaliação direta dessas coisas do que eu. Mas em política nunca se faz outra coisa senão contar as espingardas. Fazem-se algumas outras coisas, mas infelizmente-
Ou está-se na guerra ou estão a contar as espingardas.
Exatamente. Normalmente, contam-se as espingardas durante a guerra, como se tem visto nas guerras mais ferozes. Agora, eu acho que há uma coisa que é muito importante: é que nós somos um país de paz. Desde 25 de abril de 74, somos um país de paz, somos um país de liberdade e somos um país de tolerância. Agora, há aí umas manchas de umas coisas, que são umas nódoas negras que querem alastrar, que correspondem àquilo que se vê um pouco por toda a Europa e no mundo. Quer dizer, é o trumpismo, se quisermos ir pra uma analogia fácil. Mas por aí estão a tentar também manchar a vida política nacional. Mas eu acho que nós devíamos tirar partido deste capital imenso que nós temos. Eu tive responsabilidades internacionais numa organização muito interessante, que agora está numa decadência completa, que era a Assembleia Parlamentar do OSCE. O OSCE cobre todo o hemisfério norte, como se diz na gíria, como se dizia na gíria do OSCE, que ainda existe, de Vancouver a Vladivostok. Portanto, é praticamente o hemisfério norte todo. Praticamente, não, é mesmo o hemisfério norte todo. E foi uma organização que sempre tinha um papel no quadro da liberdade e da paz. Portanto, eu tive a oportunidade de visitar, com uma única exceção, que era o mais turístico dos países, todos os países que saíram da antiga União Soviética, da antiga Jugoslávia, aquilo tudo, desde os pequenos Estados, como Mônaco, San Marino, até aos grandes Estados da Ásia Central, que praticamente ninguém conhece em Portugal, os Cazaquistões, o Tajiquistão O Turcomenistão, etc. Nós somos, desse ponto de vista, do melhor que há. E devo dizer que a nossa identidade fazia-se muito através do Cristiano Ronaldo, e penso que ainda se fará. Que era o português mais conhecido nessa época em que eu lá estive. Mas eles reconhecem que nós somos um caso espantoso. Ainda há pouco tempo estive num colóquio no lançamento de um livro sobre o império, do Edgar Vales, que é um velho amigo meu de faculdade, irmão da Cita Vals, que foi assassinada no 27 de maio de 1977 em Angola, quando houve o maior massacre da África Subsaariana, e nunca se fala disso. E ainda hoje não se sabe as condições como morreu, e estava grávida. E eu disse: "Nós não temos que ter vergonha da nossa história, pelo contrário, temos razões pra ter orgulho. Nós fomos o único império que transferiu a capital". Quando eu dizia isto lá nos tempos da OSCE, eles ficavam espantados. Transferiu a capital da metrópole, que era da Europa, para a mais importante das colônias, que era na altura o Brasil. Não foi por 15 dias, foi por 15 anos. E depois, também tivemos, durante a Primeira República, um homem fantástico, notável, que foi o general Norton de Matos, depois foi um grande resistente contra a ditadura, foi preso já velhote, etc. Protagonizou uma candidatura presidencial, que quis criar uma capital na altura, a mais importante colônia que tínhamos, que era Angola. E foi aí que nasceu a Nova Lisboa, que hoje é o Ombe. Eu era muito amigo de um homem que teve um grande sucesso como escritor em Portugal, e acho que a justiça me título, que era o Luís Povo, chileno. Tinha sido guarda pessoal do Salvador Allende, tinha estado na cadeia, à melhor dele foi torturadíssimo, etc. Depois conseguiu sair através de uma embaixada, andou por todo lado do mundo. E ele disse, não foi pra ser simpático, mas foi também simpático comigo: "Vocês são um povo único. São os melhores do mundo. Do que eu já vi, Alemanha do Leste, Alemanha Ocidental, Rússia, Estados Unidos, Canadá, vocês são os melhores do mundo. Só têm um vício, passam a vida a dizer mal uns dos outros." E isto ficou-me na cabeça. O Luís Povo morreu, como sabem, foi a vítima do Covid. Aliás, tinha estado em Portugal três dias antes.
Na Póvoa de Varzim.
Na Póvoa de Varzim, eu não estive na Póvoa de Varzim. Antes de ir pra Póvoa de Varzim, ele festejou os seus 70 anos num jantar oferecido pela porta editora aqui em Lisboa.
Era muito nobre e muito amado por todas as pessoas.
Onde eu estive com ele também na altura.
José Soares.
Vamos continuar a dizer mal uns dos outros.
Divergimos aqui um bocadinho, mas vamos à próxima pergunta.
Mas ainda há mais hipóteses? Que eu estou pronto.
Ah, não.
Se isto é uma comissão de inquérito, temos que apurar isso.
Divergimos no sentido em que voamos aqui muito longe e isso foi ótimo, mas agora vamos voltar aqui ao Partido Socialista. Tínhamos falado aqui dos cartazes que estão na rua. O que lhe perguntamos agora pra "Cinco Pontos" é: o que dizem esses cartazes? São duas palavras, quais são?
Segurança e confiança. Não, confiança e futuro.
Confiança é?
Confiança é.
Confiança é altíssimo. A outra palavra?
E a outra palavra pra além dessa, que pode ser o que lhe surge assim à partida, olhando para o PS.
Eu sei que vocês vão dizer que eu sou suspeito, mas o que o Partido Socialista me inspira a mim, como português, é de facto confiança e uma garantia de seriedade.
E em relação ao atual governo, a outra palavra em relação ao atual governo, o PS é uma...?
Garantia de segurança.
Vamos dar três hipóteses. Seriedade, alternativa ou unidade.
Seriedade.
Alternativa.
Alternativa.
Alternativa e confiança.
Mas eu ia justamente a dizer seriedade, não fui eu que fiz os cartazes.
A confiança estará ligada à seriedade.
Não, mas eu acho, sinceramente, que se olharmos pra nossa história. O problema é que no mundo contemporâneo, com os telemóveis e as redes, as aplicações, as pessoas já não têm memória pra coisas mesmo da véspera. E esse é um dos grandes desafios do tempo que estamos a viver.
E o José Luís Carneiro tem desafios internos, agora olhando mais concretamente para dentro, está aqueles nomes que aparecem algumas sombras.
Sinceramente, não os vejo, com o mínimo de consistência, evidentemente. E já vi muitos dentro do Partido Socialista e houve momentos em que houve debates vivos e animados. Eu lembro, por exemplo, quando o primeiro secretário-geral do Partido Socialista, e antes mesmo dele sair, houve uma contestação interna muito grande, que levou à dissidência do chamado ex-secretariado e à saída do Salgado Zenha, que é um homem por quem eu tinha, e tenho, em termos de memória, um profundíssimo respeito.
Neste momento, o Partido Socialista está mais unido em torno da figura do José Luís Carneiro?
Está tranquilo, o Partido Socialista está tranquilo. E eu penso que a generalidade das pessoas, como eu próprio, confiamos no José Luís Carneiro, porque ele é um homem sério. É um homem decente, se quiser, em termos de postura. E eu estou à vontade, porque eu não o apoiei. Quando ele foi candidato pela primeira vez, eu apoiei o Pedro Nuno Santos. Por quem continuo a ter imensa estima. Espera, aliás, esta semana temos aí uma almoçarada prevista.
O que é que lhe vai dizer?
Eu vou ver se nós comentamos talvez um cozinhar portuguesa, embora já estejamos numa fase de temperaturas muito elevadas.
Mas o que estava a dizer mais ativo ao Pedro Nuno Santos?
Não, estive ainda há pouco tempo com ele, ele está nos órgãos próprios, está no Parlamento. Foi uma saída absolutamente tranquila e que representa também um gesto de dignidade, que é reconhecido por toda a gente, a começar por José Luís Carneiro. É um gesto de dignidade. Ele perdeu umas eleições, teve esperança de as ganhar. Eu também tive esperança que tivéssemos tido o melhor resultado nessa altura. Empenhei-me na medida do que pude e continuo a empenhar-me Na medida do que me solicitam e se eu me sentir à vontade para.
Para participar. Muito bem, vamos continuar aqui sobre o PS.
Falhei a segunda palavra.
A segunda falhou.
Falhei a segunda palavra.
É verdade. Está com cinco pontos. Esta, já não sabe. Vamos ver. E a terceira pergunta é esta: de acordo com a lei atual, a proposta do governo do Orçamento do Estado tem que dar entrada no Parlamento até que data?
Em princípio, até outubro.
Até outubro. Há um dia.
Sim, isso do dia... Eu tenho uma visão, eu posso contar também uma história pessoal. A minha mulher é de origem belga, mas hoje já é uma portuguesa de coração. E uma das grandes dificuldades que eu tive no início foi explicar-lhe o que é o conceito de cinco minutos para os portugueses. Eu disse: "É uma dimensão do tempo que é efetiva. Para nós, 30 segundos e a eternidade."
Não tem a ver com o relógio.
Quando eu te disser: "Daqui a cinco minutos isso está resolvido." Ela dizia: "Mas tu disseste que fazias isso em cinco minutos." "Então não fiz, demorou uma hora e meia, não tem problema nenhum, isto podia ter demorado um ano." Ou estou a chegar, também é outra coisa. E ela agora converteu-se. Eu vou-lhe dizer uma coisa, quando ela agora me diz: "Olha, são só cinco minutos", eu digo: "Não fala em francês já te converteste de tal maneira."
É puta de um relógio. Mas é outubro, certamente.
É outubro, pois. A data mais bonita pra mim.
Já foi 15 de outubro.
A data mais bonita pra mim é 5 de outubro. Agora, não sei. É capaz de ser 15 ainda.
Não, já não é.
Não é aquela farsa da revolução dita de Outubro, que foi em novembro.
Não, claro.
Esse é o maior embuste do século XX. E eu tenho respeito pelos comunistas, pelos que ainda há.
Portanto, uma data bonita é 5 de outubro, já foi 15 de outubro, está no meio.
Sim, então é 10. É que é um número redondo.
Dez de outubro.
E fico com 10 pontos.
Fica com 10 pontos, exatamente. Cinco mais cinco. Muito bem. Sobre o orçamento, nós tivemos há poucos dias Ferro Rodrigues a pedir ao PS que não viabilize o próximo orçamento de 2027, alegando que há claramente, é o que diz Ferro Rodrigues, uma aliança entre o PSD e o Chega, e que o PS deve ficar de fora. Acha que o PS deve ter esta atitude?
Não, eu tenho muito respeito por Ferro Rodrigues. Como nós dizemos, somos da mesma colheita. Costumamos dizer que somos da mesma colheita, que é a colheita, aliás, do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Nascemos no mesmo ano, eu não vou dizer qual foi, mas vocês podem ver. Como eu digo, quando perguntam a idade que tenho, eu digo: "Façam as contas", como disse o secretário-geral das Nações Unidas. Não, mas acho que isso não tem sentido nessa perspectiva. Quer dizer, eu acho que os partidos da oposição, o seu papel, como eu os vejo, não é obstaculizarem aqueles que estão no poder no exercício do direito democrático. Não me agrada nada que esse partido que referiu, e cujo nome eu nem gosto de citar, os tais extremistas populistas descarados.
Aqueles de quem Ferro Rodrigues acusa de estarem, no fundo, a ajudar o governo.
Não, mas seguramente que estão. E até está a ajudar de uma forma que eu acho que é dramática pro PSD, porque o PSD ou toma um juízo, ou arriscam-se nas próximas eleições a ficar em terceiro lugar atrás desse partido. E atrás de nós, evidentemente, que vamos ganhar as próximas eleições.
Acha que o PS vai ganhar?
Hoje em dia acho que sim.
Acha que a atitude do PS deve ser semelhante para o próximo Orçamento do Estado? Deve ser semelhante àquela que teve no último Orçamento do Estado, que no fundo acabou por se abster, viabilizando a proposta?
Vai depender do que for apresentado. As questões são questões de substância e de forma, e as questões de substância nesta matéria são mais importantes que as questões da forma.
António José Seguro, quando estava em campanha-
Disse que, isso é claro
...desligou o chumbo do orçamento a uma dissolução do Parlamento. Antes de mais, acha isso saudável? E ponto dois, até que ponto é que isso não desresponsabiliza a oposição e liberta os partidos da oposição, seja o Bloco de Esquerda, e o PS também, para chumbar eventualmente a proposta do Orçamento do Estado?
Acho saudável e acho que libertar desse peso também é positivo pra vida política portuguesa e para a qualidade da nossa democracia, porque se formos observar, eu agora já não sei dizer com os novos países que entraram, mas no quadro da União Europeia, é raro que a aprovação do orçamento condicione a existência de um governo ou de uma maioria parlamentar, e que dê origem a eleições, a não aprovação.
A Espanha, por exemplo, está há vários anos sem o orçamento aprovado.
Exatamente. E pelos vistos tem saído muitíssimo bem. Olhando para os valores da economia espanhola, eu sei que agora há uma névoa por aí, provavelmente vocês não querem fazer acusações sem ter lido nada, mas deve haver muitos comentadores vossos que dizem que aquilo é o diabo e acusam disto e daquilo.
Está a falar de Pedro Sánchez, não é?
Estou a falar de Pedro Sánchez e dos ataques que o Vox e o PP têm feito a Pedro Sánchez, que são miseráveis. Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há. Já vivi o suficiente pra ver que há. E que de fato, ele foi o homem que teve a coragem, o único líder europeu que teve a coragem de enfrentar o Trump num momento extremamente complicado. Ah, isso foi. E que isso normalmente se paga. São as tais bruxas que eu não acredito, mas que as há. E pode ter havido aí também um dedinho. Influências transatlânticas ou coisas desse tipo. Eu sempre fui pró-americano.
Essa é uma boa deixa pra próxima pergunta.
Eu sempre fui pró-americano. Atenção, no confronto da Guerra Fria, nunca tive dúvidas, e é raro na esquerda terem pessoas que foram sempre pró-americano. Sempre fui pró-americano, tenho consciência do que lhes devemos, os milhares que vieram morrer nas praias da Normandia no dia 6 de junho de 1944, e depois o papel decisivo que tiveram pra que o Muro de Berlim ficasse em Berlim e não em cima do Atlântico, na margem do Atlântico. É bom também não esquecer essa dívida de gratidão. Agora, isso não implica que eu não veja que o senhor Trump é um, eu tenho que me conter do ponto de vista da adjetivação, uma pessoa que não serve pras funções que está a exercer e já devia ter sido substituído.
Vamos lhe perguntar precisamente sobre Donald Trump, qual é o nome do meio do atual presidente dos Estados Unidos? Ele tem se esforçado muito por divulgá-lo, embora apenas com a inicial.
Ela é J, é um J.
É um J.
Mas isso eu não sei. Até ficaria mal com a minha consciência se eu soubesse o nome completo . Olha, eu vou lhe dizer uma coisa.
Dava cinco pontinhos aqui.
Dava cinco pontinhos, mas eu ficaria sem eles.
É com J.
Com J.
João Soares, é com J.
João? Não é João. John.
John está certo.
Bem, mas isso foi baixo. Isto foi batota. Estes pontos não mereço. Mas olha, eu ia dizer uma coisa. Eu tenho momentos de grande alegria em minha vida, também já tive alguns momentos mais difíceis, acontece a todos. Mas um dos melhores momentos da minha vida foi a oportunidade, a sorte e o acaso que tive de poder ter conhecido Salgueiro Maia, na tarde de 25 de abril, no Largo do Carmo. Quer dizer, é uma coisa que dá uma snobeira. "Andou no Concorde ou foi no avião, no comboio?" Não, eu conheci o Salgueiro Maia no Largo do Carmo.
Em plena operação.
Em plena operação. Aliás, cheguei lá com o Pedro Coelho, de quem eu era primo, fundador do PS, com um braçado de República, que eram os primeiros que tinham saído no início da tarde de 25 de abril de 64, sem ir à censura e com uma mancha. Aliás, assisti à discussão. Não participei, porque o reino disse: "Não te metes na conversa, porque isto aqui é não sei o quê." Estava ele, o Zenha, o Catanhese, o Raul Rêgo, que evidentemente era o diretor.
Não sei se o Sousa Tavares talvez.
Não, o Sousa Tavares esteve lá, mas não participou nessa discussão nenhuma. Porque os tipos da censura, que eram mesmo em frente da Rua da Misericórdia, era um prédio mesmo em frente da República, mandavam os continuistas e diziam: "Mandem as provas da primeira página". E eles tiveram que discutir se mandavam ou não, porque o República era um vespertino. Havia quatro vespertinos em Lisboa e havia quatro matutinos em Lisboa. E o único que saiu às 15h e tal da tarde, com uma banda em letras vermelhas embaixo dizendo: "Este jornal não foi à censura", foi o República.
João Soares, ainda sobre Donald Trump, pra lhe fazer uma pergunta sobre as relações transatlânticas. Esta atual administração norte-americana está a corroer as relações com a Europa de uma forma que pode vir a ser definitiva?
Não, definitiva espero que não, porque isto pode ser uma coisa, eu ia tentar dizer que uma das grandes alegrias que tinha tido, pra além dessa de 25 de abril, foi estar a chefiar a missão de observação das eleições americanas da primeira vez que o presidente Obama foi eleito. Foi em 2008. Eu tinha sido eleito presidente da Assembleia Parlamentar e estava numa missão aí com cento e tal parlamentares de vários países, incluindo russos. Há também uns episódios. Eu depois perco-me nestas histórias deliciosas que há pelo meio.
Mas são já muitas.
Há uma história deliciosa, mas vou lhes dizer.
Ainda nos falta uma pergunta.
A noite da vitória do Obama foi uma das noites também mais felizes da minha vida. A minha filha, hoje médica e tal, está com a tia na direção do Colégio Moderno. Não quero fazer publicidade, aliás, não é preciso.
Não é preciso.
Mas tinha estado lá numa universidade americana, esteve lá comigo e eu disse: "These guys não vão sair à rua. Estás enganado, vais ver." E, de facto, saiu imensa gente à rua nessa noite pra celebrar a vitória do Obama contra um candidato que, aliás, era um tipo de grande categoria, o candidato republicano, que era o McCain, John McCain. Eu ia lhe dizer o nome todo, completo. Porque assim tinha meio ponto.
Então diga lá.
John McCain. É o homem a quem perguntaram: "O que você pensa do Putin?", porque ele já tinha estado em reuniões com o Putin, e ele deu uma resposta que eu tenho citado muitas vezes, explicando que eu conheci pessoalmente o McCain, não o Putin, mas conheci o Lavrov bem também. Mas o McCain deu uma resposta que é fantástica. Ele já morreu, como saberão. Mas disse: "Sabe, eu olho pros olhos dele e só vejo três letras: K, G, B". E é de facto uma resposta fantástica.
João Soares, estamos em cima do tempo, mas ainda lhe vamos pedir para recuar um bocadinho aqui nas suas memórias, e tem aqui tantas para partilhar. Esta é mais uma: como se chama a mítica discoteca da Foz do Arelho, que encerrou em 2013 e que marcou muitas gerações?
Eu há bocado disse que era da cueca dos estagiários das Nações Unidas em António Guterres. Quando eu passei os verões todos da minha infância até ao sétimo ano do liceu, portanto já há muitos anos, tenho que fazer as contas.
Não havia.
Ainda não havia. Chamava-se, salvo erro, Green Hill.
Exato.
Mas eu nunca lá fui. Tenho que confessar, assim que gostava de ter ido, mas pronto, se fosse um bocadinho mais novo.
Mas a pergunta não tem a ver com a discoteca, tem a ver com o facto de ter dito que aprendeu a nadar na Foz do Arelho, não foi?
Aprendi com o meu pai, que era um bom, era um corajoso nadador. Minha irmã e eu aprendemos com meu pai. Quem aprende a nadar numa praia como a Nazaré, a Foz do Arelho, São Pedro de Moel.
Fica pronto.
Chega ao Algarve e acha que está a entrar numa banheira. Com todo o respeito.
Então a pergunta aqui assim um bocadinho provocadora. Não acha que se pôs um bocadinho fora de pé quando escreveu sobre a Operação Emergente, que parece ter tido motivações políticas?
Esta é a última coisa.
Esta última, sim.
A primeira coisa que eu achei é que é de um imenso mau gosto. O Otelo já tinha praticado esse mau gosto em 75. Fazer uma operação de fiscalização de um partido político, que ainda por cima é o símbolo da democracia e da liberdade na nossa terra, com buscas dentro de um partido político, com pretextos inconsistentes. Num dia 28 de maio, ou se é ignorante do ponto de vista histórico, ou não se faz uma coisa à data assim que não se deve. A 13 de maio, eu não sou crente, mas tenho um grande respeito. Mas quer dizer, há coisas que não se podem fazer a 13 de maio, porque é preciso ter em conta as convicções da esmagadora maioria dos portugueses.
Mas o problema aqui foi a data?
Não foi só a data, mas a data é de muito mau gosto e revela ignorância. O Otelo mandou prender 400 militantes do MRPP, incluindo o Arnaldo Matos, que era na altura considerado por muitos como o grande educador do proletariado português. Viu-se onde é que está o proletariado. No dia 28 de maio de 75. E depois eu fui lá. Fui lá logo nesse dia, quando soube disso, e falei com as pessoas que lá estavam a receber. Aquilo é uma operação montada. Vocês, aliás, deviam ter reivindicado também ter sido informados antes para lá terem, como estava a CNN, salvo erro, ou a Nau, era a CNN, com banca montada meia hora antes da operação decorrer.
Mas isso é a tese da cabala.
Não é tese, eu não tenho tese nenhuma de cabala, nunca falei de cabalas, falo direto e faça-me a justiça de reconhecer que eu falo olhinhos nos olhos. Quando não sei, digo: "Olhe, não sei". Agora, que aquilo foi de muito mau gosto, foi. Não fazia sentido. Uma das funcionárias que andou com os sete ou oito inspetores ou membros da Judiciária e um responsável do Ministério Público, disse que um deles lhes disse: "Nós podíamos ter pedido isto por telefone". Isto tudo foi contado a mim por alguém que lá andou com as pessoas. Então monta-se uma operação e divulga-se a narrativa das 300 elementos da polícia em todo o país para ir ao Largo do Rato. No Largo do Rato há coisas muito mais interessantes para ir essa hora, que é às 10h30. Olhe, o melhor croquete de Lisboa é a Pastaria 1800 no Largo do Rato. E na época do bolo rei, vão lá comprar o bolinho rei miniatura, que é uma delícia.
Fica essa puxa.
E se me convidarem para essa altura, eu cá viro, eu trago o bolo rei.
Está bem, fica marcado. João Soares, 20 pontos.
Obrigada.
Em 25 foi ela. Muito obrigada por ter vindo à emissão da ICÁRTO.
Ajudaram-me numa delas.