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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado o antigo ministro social-democrata Miguel Poiares Maduro. Bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Obrigado.
Costuma ouvir cinco perguntas?
Costumo ouvir, sim.
Mas não sabe bem como funciona. São cinco perguntas, cada resposta certa, cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda, que é como quem diz escolha múltipla, e acertar, recebe dois. Esta semana, só pra ter uma ideia, o Diogo Fey fez 22 pontos e o João Vale de Almeida ontem fez 19.
Pouca pressão, portanto. Começam logo.
Há quem tenha feito a totalidade.
É verdade. Mas não foram muitos, foram nove. Apenas nove convidados fizeram os 25 pontos. Nasceu em Coimbra.
Se eu disser que sim, já são cinco pontos ou não?
Ainda não. Só mais um pouco.
São cinco pontos para o João.
Terra da universidade mais antiga do país. Como se chama o toque mais famoso da Torre dos Quatro Relógios, dos quatro sinos, aquele que está virado pro rio?
Não faço a mínima ideia. O que vocês não sabem é que eu nasci em Coimbra, mas eu não vivi em Coimbra.
Mas viveu na Figueira da Foz.
Nunca vivi em Coimbra. Cresci na Figueira da Foz, portanto, fui nascer em Coimbra. Eu, portanto, conheço, mas não tenho a mínima ideia.
É uma simbologia lá da torre.
Quem é o presidente da Câmara da Figueira da Foz?
Sant'Ana Lopes.
Eu vou dar-lhe uma ajuda, pode ser que assim alguma coisa soe mais familiar: a Cabra, a Mula ou a Malambra. A Cabra. Estamos a falar de uma das universidades mais-
Pelo nome, lembrei.
Pelo nome, exatamente. Uma das universidades mais antigas da Europa. Na corrida a Belém, a idade, a experiência também conta? A última sondagem dá a vitória ao segundo mais novo, André Ventura.
Conta a idade no limite que estabelece a Constituição. Estabelece uma idade mínima. A partir daí, o que conta é a experiência. Eu acho que a experiência é importante, como é importante em tudo na vida.
A experiência política.
Particularmente a experiência política, toda a experiência que seja relevante para o exercício das funções presidenciais. Penso que no caso das funções presidenciais, é particularmente importante a experiência política. E por quê, na minha opinião. E acho que é mais importante neste momento e neste contexto em que vivemos. Nós vivemos num contexto de crescente fragmentação política, polarização política, o que, na minha opinião, torna muito importante alguém que conheça bem como funciona o sistema político, conheça bem os diferentes atores políticos, de forma a conseguir, nesse contexto de fragmentação e polarização, construir compromissos, consensos, acordos que vão ser cada vez mais fundamentais. Neste contexto em que vivemos, e que é também um contexto de enorme incerteza e, ao mesmo tempo, internacional, acho que é muito importante alguém que conheça muito bem como funciona o sistema político, saiba como funciona o sistema político. Não é alguém que esteja prisioneiro de práticas do sistema político das quais muitos nós nos queremos libertar. Como sabem, eu apoio um candidato, Marcos Mendes.
Sim, faz parte da Comissão Política.
A quem eu conheço em particular, foi uma das razões pelas quais o apoiei, porque foi alguém que foi um líder político, no fundo, perdeu a liderança política porque correu o risco de se comportar politicamente de uma forma de acordo com certos critérios éticos e de integridade.
A história da não aceitação de autarcas como candidatos que estavam com problemas com a Justiça.
Não é questão de estar apenas com problemas com a Justiça, cujos problemas com a Justiça criavam dúvidas éticas sérias, que ele entendia que impediam, naquele momento, não é um juízo que se faz sobre as pessoas, é que para o exercício de funções públicas, é importante que as pessoas não estejam sujeitas a determinado tipo de dúvidas e de sombras que existiam sobre esses candidatos. E, portanto, que levou a que ele entendesse que eles não devessem ser criados pelo PSD, com oposição interna do partido. E eu, que no PSD tenho trabalhado muito nesses temas, que já fiz uma moção no Congresso propondo várias formas sobre esses temas, sempre tive essa admiração relativamente ao Luís Marques Mendes, porque acho que é raro um político que coloca isso em primeiro lugar e arrisca perder a liderança, como ele perdeu nessa altura.
E que explicação encontra por que esta sondagem, mais uma, dê a vitória a André Ventura?
Eu acho que porque, num contexto, mais uma vez, de grande fragmentação política, André Ventura é o candidato que mais facilmente mobiliza a sua base eleitoral. Ou seja, este é o momento em que as pessoas definem preferências políticas muito por uma adesão emocional a candidatos. Sabemos que os candidatos populistas, como André Ventura, funcionam sobretudo através dessa capacidade de adesão emocional. André Ventura tem uma cassete com dois, três temas, que é: isto é culpa toda dos imigrantes, da classe política que são todos corruptos. E a partir daí, gera esse tipo de identificação emocional. O que significa isto? Diz-nos alguma coisa que é uma coisa séria, que todos os políticos têm que refletir, que é: se ele consegue ter sucesso com esta mensagem, é porque ela tem alguma ressonância nas pessoas. Ou seja, porque as pessoas veem algo de verdadeiro nisso. E isso significa uma enorme desconfiança relativamente à classe política. Agora, a solução não passa por aquilo que diz André Ventura, que, aliás, não apresenta solução nenhuma, mas apresenta essa mensagem que gera adesão emocional e que muito mais facilmente mobiliza o eleitorado. Os outros eleitorados são eleitorados que, por um lado, não estão na política neste momento ativa, não são líderes partidários. Ele é o único que é um líder partidário, o que também contribui pra essa capacidade de mobilização. E, portanto, nesse contexto de fragmentação, aquilo que a sondagem nos diz é que ele está a conseguir, e isso é visível nos debates dele, a agressividade, é que ele não está a procurar alargar a base de apoio que teve nas legislativas. Ele está a procurar é mobilizar aquela base de apoio que teve nas legislativas. Daí a agressividade muito grande que tem tido nos debates. E a sondagem diz-nos que desse ponto de vista parece estar a conseguir.
Muito bem, vamos em frente. Dois pontos, Miguel Poiares Maduro, na primeira questão. Vamos à segunda questão: qual é o rio que atravessa Florença?
O Arno.
Certíssimo, é o Arno sim, senhor. A pergunta vem do quê? O Miguel esteve em Florença durante muito tempo, foi diretor do Programa Global de Governança do Instituto Universitário Europeu, é uma das suas áreas também de especialidade. Podemos olhar para a arquitetura da governação da Europa e sentir que ela está ultrapassadíssima e precisa ser revista.
Acho que ela está bastante ultrapassada. Acho que é muito necessário ultrapassá-la, num sentido, na minha opinião, que reforce a União Europeia. Eu sou favorável a isso, podemos discutir por quê.
Isso é o quê? Federalismo?
Eu não gosto de usar esse tipo de noções, porque elas vêm com um conjunto de uma bagagem que leva as pessoas muitas vezes a trompar o que isso significa e o que isso significará na Europa. O que eu acho é o seguinte: o que o mundo nos diz hoje em dia, por exemplo, o que está a passar a nível geopolítico os Estados Unidos da América, é cada vez mais para sermos relevantes no mundo global, a escala interessa, a dimensão interessa. Trump só responde, e nesse ponto de vista é semelhante a Putin, por exemplo, perante quem tem uma força idêntica. Ele é muito claro sobre isso. Por exemplo, a forma como ele trata o problema da Ucrânia é: a Ucrânia devia desistir, porque a Rússia é mais forte, mais poderosa, pode invadir. Portanto, é um mundo em que a dimensão conta.
E ele é muito mais forte, de alguma maneira.
A razão pela qual a nova política de segurança norte-americana defende a fragmentação, a desintegração europeia, é porque sabe que consegue muito mais facilmente impor a sua vontade perante países isolados europeus do que perante a União Europeia, que tem um mercado de 500 milhões de pessoas, com toda a dimensão que isso pode dar aos Estados europeus quando atuam em conjunto. Portanto, do meu ponto de vista, neste mundo é fundamental, para nós salvaguardarmos os interesses dos cidadãos portugueses, continuarmos a ter a União Europeia. Ao mesmo tempo, reconheço que ter essa União Europeia num contexto de identidades políticas nacionais diferentes não é fácil. E, portanto, nós temos que tentar conseguir que a União funcione, consiga exercer e mobilizar essa sua capacidade coletiva de uma forma que ao mesmo tempo respeite essas identidades políticas nacionais. Não é fácil, eu costumo dizer que se nós olharmos pra forma como as pessoas lidam com a União Europeia, nós percebemos o paradoxo e a dificuldade ao mesmo tempo do resolver. Eu dou um exemplo sempre que é do Annie Hall. No final do Annie Hall há aquela anedota-
O filme do Woody Allen?
Do Woody Allen, há aquela anedota que conta no final, que do meu ponto de vista, é a forma como as pessoas abordam a União Europeia, que é duas pessoas que estão a jantar em Nova York e dizem terrivelmente mal da comida. "Esta comida é péssima, é horrível, é péssima. Nunca comi tão mal, isto é intragável." E depois concluem: "E as doses são tão pequenas." E se nós pensarmos, é a forma como as pessoas falam da União Europeia, que é: a União Europeia é péssima, é terrível. Mas a União Europeia não consegue fazer eficaz. A União Europeia não faz isto, não faz aquilo.
Faz, mas como é que se ultrapassa isso?
A União Europeia não conseguiu que se diminuísse a importação de gás da Rússia. Não conseguiu por quê? Pelos Estados nacionais, porque os governos nacionais não deixaram. Portanto, sejamos ao menos coerentes na forma como avaliamos da União Europeia. Eu acho que a forma séria de tratar o problema europeu é compreender que nós necessitamos da União Europeia para fazer frente à forma como se regulam as plataformas digitais, para um conjunto de matérias muito grandes. Necessitamos da União Europeia, necessitamos muito do mercado europeu pra conseguir ser competitivos a nível internacional. Agora a questão é perceber que, ao mesmo tempo, ter uma União Europeia que funcione implica abordar um conjunto de desafios muito difíceis de resolver.
Tipo o fim das regras de unanimidade?
Eu acho que em muitas matérias temos de abdicar disso. Em grande medida já há princípios de maioria a funcionar, mas eu acho que ao mesmo tempo isso ia acontecer com a alteração da forma como se calcula a maioria na União Europeia.
Muito bem, isso é mais complexo depois. Muito bem.
Mas essa é uma questão muito mais longa, que eu já tratei academicamente, mas posso cá vir outro dia durante uma hora se quiserem.
Então vamos para outra questão longa. Miguel Poiares Maduro, quem foi o último país vencedor do Festival Eurovisão da Canção?
Foi a Suíça, não foi? Não foi.
Ela aperta.
Não.
Suíça foi no outro.
Então espera lá. Israel? Não, Israel não foi. Espera. Áustria.
Muito bem. Mas não vamos falar da qualidade da canção austríaca, mas da RTP. Fez bem em aceitar a participação de Israel no festival?
Eu acho que faz sentido não discriminar relativamente a um país como Israel, que é um país que é uma democracia.
E que é diferente da Rússia, no caso.
Completamente diferente da Rússia. Eu acho que uma coisa é sanções internacionais relativamente a países, e isso não quer dizer que eu concorde com aquilo que Israel tem feito em Gaza. Não concordo. E acho extremamente grave, e há violações claras do direito internacional pelo comportamento israelita. E o fato de Israel ter sido inicialmente atacado, que é uma diferença muito significativa quando se faz o paralelo com a Ucrânia, não justifica depois o comportamento que o governo israelita teve a seguir. Mas eu que conheço muitos acadêmicos israelitas, por exemplo, que são críticos do governo israelita, que eles próprios têm criticado. Sou amigo, por exemplo, da Aeyl Benvenisti, que é um dos grandes juristas de direito internacional e que é israelita. Ele já defendeu que as tropas israelitas e os comandos israelitas deviam recusar obedecer certas ordens do governo israelita por serem contrárias ao direito internacional, claramente contrárias ao direito internacional. Portanto, Israel tem essa sociedade civil. Ora, nós, num país que ao mesmo tempo tem essa sociedade civil que é crítica daquilo que está a passar, não devemos penalizar a própria sociedade civil. Acho que há uma diferença muito grande nesse tipo de matérias.
Mas esta decisão deveria caber à RTP ou ao governo?
Eu não sei se a RTP nessa matéria agiu do ponto de vista E daquilo que era a decisão do conselho de administração da RTP ou do Conselho Geral Independente da RTP, ou se numa matéria desse tipo, em que está em causa a representação e a posição internacional do Estado português, não consultou o Estado português e o governo português. Portanto, acho que provavelmente terá consultado o governo português, que é quem define esta matéria, a política internacional do Estado português. Mas não sei. Mas imagino que isso possa ter acontecido e acho que deveria acontecer.
E quanto ao reconhecimento do Estado da Palestina, os países ocidentais que avançaram para esse reconhecimento fizeram bem?
Eu acho que sim, que simbolicamente era importante dar esse passo. Quer dizer, neste momento, atendendo ao que tinha acontecido, ele não vai ter e não tem tido grande impacto concreto, mas era um passo simbolicamente importante para manifestar perante Israel e em particular perante o atual governo israelita, que é inaceitável o comportamento que tem tido na Faixa de Gaza e que tem tido relativamente à Palestina nesta matéria.
Aquele argumento por parte do governo de Israel, de que era uma cedência como reação ao atentado de 7 de outubro, na sua opinião, não é um argumento válido.
Não é pela seguinte razão: porque foi claro após o atentado de 7 de outubro qual foi a reação de todos os países europeus e da grande parte da comunidade internacional, pelo menos da parte da comunidade internacional dos países democráticos e da Europa em particular. Este reconhecimento do Estado da Palestina não é consequência do ataque de 7 de outubro, é consequência da forma como este governo israelita reagiu ao longo de mais de dois anos ao atentado de 7 de outubro. Portanto, não se podem inverter as coisas dessa forma.
Vamos avançar para a quarta pergunta, 12 pontos. Esta aqui, para além de cinco pontos, pode lhe dar direito a bônus ou então à perda de nacionalidade, se falhar. Em que ano foi travada a Batalha de São Mamede?
Acho que vou pedir a fiscalização do Tribunal Constitucional para ver se é. A Batalha de São Mamede?
Batalha de São Mamede. Isto muito importante para-
Para o que segue a seguir. Não sei. Vou pedir ajuda.
Vamos lá. 1128, 1143 e 1139.
1128, talvez.
1128. Agora tem se falado muito, por causa das comemorações dos 900 anos da batalha que ocorreu em 1128. O CDS propôs a comemoração da Batalha de São Mamede.
Vamos passar a comemorar alguma coisa todos os dias no país, não é?
Eu acho que íamos quase. Feriados todos os dias.
Feriados nunca são maus.
O governo tem razão nas queixas em relação ao Tribunal Constitucional, não só em relação à questão da Lei da Nacionalidade, mas também em relação à Lei dos Estrangeiros, ou esta Lei da Nacionalidade com algumas das alíneas estava morta à partida?
Digamos que acho que há temas diferentes que essa questão suscita. Primeiro, e acho que é relativamente público, que eu sendo do partido que está no governo, fui muito crítico das alterações, quer à Lei dos Estrangeiros, quer à Lei da Nacionalidade. E crítico, em primeiro lugar, politicamente, ou seja, pelas opções políticas, independentemente do juízo constitucional. Relativamente à Lei dos Estrangeiros, achava que era importante rever e reformar a Lei dos Estrangeiros, que a política adotada nos governos anteriores foi uma política, do meu ponto de vista, irresponsável na forma como lidou com a imigração e portanto compreendia a necessidade de regular a imigração, de colocar fim à manifestação de interesse. Acho que o governo foi muito longe na direção contrária, politicamente, e eu fui crítico dessa forma.
E por que isso aconteceu? Foi por pressão do Chega?
Já falei várias vezes sobre isso, não sei. E já o disse, se não foi por pressão do Chega, eu acho que ainda seria pior, porque seria por convicção própria de algo com que eu discordo. Portanto, eu sou crítico de uma forma ou de outra. Tento dar um sentido político, ou seja, se eu fizer uma análise política, a análise política pode ser querer tirar oxigênio aos temas políticos do Chega. Posso compreender essa opção política de vamos tratar disto de uma forma a tentar retirar ao Chega este tema como uma alavanca do seu crescimento político. Acho que não vai funcionar dessa forma, que o que faz normalmente nessas matérias é credibilizar o Chega como força de governo e portanto tem o efeito contrário.
Visto de outra forma também, estas leis não poderiam ser aprovadas sem o Chega.
Podiam ser aprovadas com o Partido Socialista também.
Provavelmente não estas, outras.
Mas eu acho que o Partido Socialista já tinha reconhecido o erro anterior e portanto havia aí uma oportunidade nessa matéria. Mas seja como for, essa é a avaliação política. Relativamente à Lei da Nacionalidade, há uma matéria em que eu era particularmente crítico, em que para além da crítica política, eu achava que era claramente inconstitucional. Há dois diplomas, o da Lei da Nacionalidade em si e depois o outro que foi separado.
A alteração do Código Penal.
A alteração do Código Penal para retirar a nacionalidade a quem tivesse cometido determinado tipo de crimes. Eu acho que isso era politicamente um erro. Por quê? Porque criava duas formas de nacionalidade distintas e sobretudo porque introduz uma distinção na nacionalidade que eu acho extraordinariamente perniciosa, que era a ideia de que havia os portugueses de origem, que podiam ser serial killers, homicídios em série, que nunca iriam perder a nacionalidade, e que havia os outros que de alguma forma eram sempre portugueses de segunda. Portanto, nunca são os mesmos portugueses. Esses aí têm que ter um comportamento mais certinho, porque senão podem perder a nacionalidade. Isso pra mim é inaceitável do ponto de vista da concessão da nacionalidade e sobretudo reintroduzia uma ideia. E é uma questão que só funcionava do ponto de vista simbólico. A aplicação daquela lei Ainda ontem eu vi o Jorge Pereira da Silva dizer isso. Só teria um ou dois casos por ano, se tanto. Enquanto o Jorge Pereira da Silva, de quem eu sou amigo, concordava pela dimensão simbólica que introduzia, eu discordava precisamente por essa dimensão simbólica, por essa distinção.
Não resolve nada, porque não temos aí um problema.
Não temos aí nenhum problema. Mas já agora dizer, parece-me do ponto de vista constitucional, que praticamente todos os constitucionalistas eram claros, se há discriminação com base na origem é essa. Se há uma lei que claramente diz: "Vamos tratar os cidadãos diferentes, consoante são cidadãos de origem ou não são cidadãos de origem", é uma discriminação com base na origem que a Constituição proíbe claramente. A Constituição só abre uma exceção à discriminação com base na origem, que é no acesso à função presidencial.
Do presidente.
E é a própria Constituição que a prevê. Nos outros casos é proibido. Independentemente da questão mais ampla do Tribunal Constitucional, só pra terminar, acho que isso se viu nessa matéria porque o Tribunal Constitucional decidiu por unanimidade, portanto, juízes indicados por vários partidos políticos e por várias dimensões.
Portanto, nesse caso não houve partidarização.
Do meu ponto de vista, nesse caso, não. Os tribunais constitucionais são contestáveis e o governo pode contestar e discordar deles, etc. Eu acho que a função dos tribunais constitucionais, em geral, continua a ser importante, independentemente dessa controvérsia. Isso não significa que os seus acórdãos não sejam discutíveis e não possam ser contestados e debatidos.
Muito bem, 14 pontos, Miguel Poiares Maduro. Até agora estivemos aqui a falar de-
Não estou ao nível do meu Sporting, mas estamos lá.
Está muito bem.
A próxima não é sobre o Sporting.
Vamos agora falar de coisas verdadeiramente importantes na última questão. Qual é o país do mundo com mais restaurantes que têm três estrelas Michelin?
Que têm três estrelas? Eu acho que é o Japão. Não é o Japão?
Está quase.
Está quase.
Podia ser.
Podia ser.
Uma segunda oportunidade.
Michelin.
Mas em absoluto do país?
Número de restaurantes com três estrelas.
Ou por cidades?
Não, país.
A Michelin há muitos países que não têm guias de todos os países, só têm de algumas cidades.
Não, mas são a premiação de três estrelas.
Mas em proporção ou em absoluto?
Em absoluto, número de restaurantes por país com três estrelas. Não é o total de estrelados com três, dois, um.
Nem o rácio por habitantes.
Exato.
Não sendo o Japão, sendo próximo, será a China?
Se calhar é o mais óbvio.
França mesmo? Continua a ser a França?
É a França. Eu também andei à procura dos dados para fazer esta pergunta para ter certeza.
A minha acusação acho que é por cidade, acho que é Tóquio tem mais.
É possível.
Tem mais per capita.
O Japão é o segundo. Já agora, 30 em um.
Mas tem guias em muito menos cidades. A razão deve ser essa.
É possível.
Eu sou um fã do Japão, vou ao Japão todos os anos dar aulas, portanto, estava aqui a tentar puxar pro meu país favorito.
E conhece bem a gastronomia.
Amassa o sushi.
E em terceiro lugar aparece Espanha com 16.
Tem muito mais que o sushi, já agora, o Japão. Muito mais.
Ainda bem.
E a nossa gastronomia é mesmo uma das melhores do mundo ou é um daqueles mitos que nós gostamos de alimentar pra nos agradarmos?
Eu acho que nessas matérias de gosto, a ideia de dizer o melhor do mundo é uma coisa completamente absurda. A gastronomia portuguesa é fantástica. Há outras gastronomias no mundo que são igualmente fantásticas. O que é importante, e que eu acho que tem acontecido em Portugal, é que a nossa gastronomia tem evoluído de uma forma muito positiva. Quer a gastronomia mais tradicional, ao contrário do que se dizia, que nós sempre tivemos, mas que muitas vezes estava abandonada. Porque fazer pratos tradicionais, mas sem a mesma qualidade do produto, não são tão bons. Mas hoje em dia voltou-se muito mais a valorizar essa qualidade do produto, do cabrito, a forma como tudo isso é feito. E isso tem melhorado a gastronomia tradicional. E ao mesmo tempo, aquilo que tem acontecido, tem acontecido também uma geração de novos chefs que têm trazido alguma renovação e alguma inovação à gastronomia. E é muito importante, do meu ponto de vista, que a gastronomia, como em outras áreas da vida, tenha uma base tradicional e uma base de mais inovação, de criatividade. Eu acho que, por um lado, nós necessitamos dessas experiências diferentes. Eu tanto gosto de ir comer a um restaurante muito tradicional, como ir comer a um restaurante mais estrelas Michelin, com mais inovação e criatividade. Gosto das duas coisas e acho que as duas coisas são importantes uma pra outra.
É um conservadorismo liberal ou um liberalismo conservador?
Eu sou mais liberal, politicamente liberal, do que conservador, claramente. Vê-se logo nos temas sobre a integração europeia. E o laicismo dá muita liberdade às pessoas. Mas eu acho, por exemplo, só se pode ser criativo, só se pode inovar quando se conhece bem a tradição.
Qual é o seu prato favorito?
É difícil. Direi que se eu tiver, emocionalmente, é um doce, eu pedia abade de Priscos, que também era do meu pai.
E se tivesse que passar o resto dos dias com uma só cozinha de um país, qual é que escolhia?
A portuguesa, por razões emocionais, porque era a que me lembraria a minha família, sempre, as pessoas que me são próximas. Uma das coisas fascinantes pra mim na cozinha é a dimensão social. Eu gosto de cozinhar, mas é muito diferente cozinhar pra amigos, viver uma refeição com amigos. Acho que grande parte do desfrutar de uma refeição é o fato de a fazermos socialmente com outros.
E as nossas memórias também estão ligadas às nossas comidas.
O Miguel Poiares Maduro é conhecido, de fato, por ser um bom cozinheiro.
E fiquei com curiosidade em relação à gastronomia japonesa. Então o que é que há assim de-
Tem, desde logo, imensas coisas de inspiração portuguesa. A tempura japonesa são os nossos peixinhos da horta, foram os portugueses que levaram pra lá, mas muitos doces portugueses têm.
Tem um pão-de-ló, não tem?
Tem o pão-de-ló, que eles chamam castela, mas não é castela por Espanha, é castela por ser batido de claras em castelo. Tem fios de ovos, que eu encontrei uma vez no Japão, uma amiga japonesa ofereceu-me e disse: "Isto é de origem portuguesa." Mas é produzido em Fukuoka. E aconteceu uma história extraordinária, que eu fui visitar. A família continua a produzir isso em Fukuoka, que não falava nem inglês, usava um trator pra comunicar comigo e estava a família toda à porta pra esperar o português que estava na origem dos doces de ovos que eles produziam. Toda a família à porta. Lá está, mais uma vez, a gastronomia como uma ponte pra um encontro, pras pessoas conviverem. Foi extraordinário.
E os japoneses sabem muito bem como é que funciona a coisa.
Nós devíamos usar mais isso como arma diplomática. Não sei se funcionaria com Donald Trump, podemos tentar com os doces pra Casa Branca ver o que é que acontece.
Miguel, não temos abade de Priscos, mas temos uns pastéis de nata, também tipicamente português. Obrigada por ter vindo.
Obrigado.
Foi um gosto.