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Está no ar a conferência de imprensa da Rádio Observador, altura em que destacamos histórias ou artigos da imprensa nacional e internacional que vale a pena conhecer. E começo precisamente pelo internacional e por um artigo que está no The Guardian sobre o Mundial. E não, não é o Three Stocks. O jornal divulgou as regras da organização para filmagens e fotos e parece que a vida dos jornalistas que vão estar no Qatar não vai ser fácil. Vão existir muitas limitações, porque o governo quer impedir a captação de imagens em qualquer local privado, mesmo que os proprietários permitam. Além de publicado no The Guardian, este atentado à liberdade de imprensa surge também no próprio portal do Campeonato do Mundo. Segundo o regulamento, as televisões e fotógrafos só vão estar autorizados a captar imagens em locais restritos de Doha, nomeadamente a Marginal e a zona do West Bay. De resto, capturar imagens de edifícios governamentais, universidades, locais de culto e hospitais é totalmente proibido, bem como qualquer área privada, mesmo com a autorização dos proprietários.
É surreal, de facto.
É surreal isto. Nas regras não é feita nenhuma referência, no entanto, à proibição de falar sobre certos temas. Isto num país onde centenas de migrantes terão falecido em locais de construção, mas esta limitação ao trabalho de jornalistas vai ser seguramente um obstáculo a qualquer investigação extra futebol. Porque vão estar impedidos de aceder a esses locais privados. A FIFA diz que está em contacto com a organização para assegurar que os media tenham as melhores condições para trabalhar, sem qualquer restrição. Os media que, atenção, foram avisados que podem ser responsabilizados civil e criminalmente se acontecer alguma quebra a estas diretrizes quanto à captação de imagens. Nos últimos meses, a organização do Mundial de Qatar, que arranca daqui a pouco mais de um mês, é a 20 de outubro, tem assegurado que está a aligeirar algumas regras para os milhares de adeptos que vão viajar até ao estado do Médio Oriente. Por exemplo, a embriaguez em espaços públicos não será punida com prisão, mas depois surgem notícias como esta. É como se fosse uma coisa do outro mundo, não é?
Não será punida com prisão.
Exatamente. Vamos ver se a FIFA consegue então, de facto, mudar alguma coisa. Está no The Guardian.
E se calhar é tarde para mudar o que quer que seja, mas enfim, vamos lá. Olha, continuamos no desporto. E continuamos, de alguma forma, com um escândalo, mas agora para algo completamente diferente. A notícia é um trabalho que está no Observador, aqui na casa, da Mariana Fernandes. Uma coisa relativamente impensável. O título remete-nos logo e coloca-nos a questão: génio ou batoteiro? Conta-nos a história de Hans Niemann, o ciclista que se tornou jogador de xadrez e que é, de facto, protagonista de um escândalo. É o tema de que se fala há várias semanas, há meses mesmo, no mundo de xadrez. E o protagonista, então, este Hans Niemann, é um americano de 19 anos que é acusado de batota pelo melhor jogador do mundo. Ele, o acusado, já viveu nos Países Baixos, era praticante de ciclismo, apaixonou-se pelo xadrez e a sua ascensão meteórica, de facto, na modalidade, deu nas vistas. Até que as suspeitas, os rumores de batota começaram a surgir. Niemann defendeu-se delas. No início, admitiu que quando era mais novo, sim, que fez batota. Algo que se continha ali entre 12 e 16 anos de idade, mas que aprendeu com isso e nunca mais voltou a fazê-lo. Até que o atual número um do mundo, Magnus Carlsen, que é cinco vezes campeão do mundo de xadrez, é considerado o melhor jogador de sempre, entrou em cena e trouxe para o primeiro plano e com acusações formais, aquilo que eram apenas as suspeitas que corriam nos bastidores. Em setembro, defrontaram-se ambos pela primeira vez num torneio em St. Louis, nos Estados Unidos. E de facto, aí aconteceu o impensável. Niemann, que é o suspeito de batota, venceu então Carlsen, número um do mundo, e isso levou o campeão do mundo a desistir de um torneio pela primeira vez na sua carreira. Depois, emitiu um comunicado. Diz acreditar que Niemann fez mais batota e mais recentemente do que aquilo que já tinha admitido publicamente, lá entre os 12 e os 16 anos. Diz que o progresso dele na modalidade é muito pouco usual. E sobre esse jogo em St. Louis, disse: "Fiquei com a ideia de que não estava tenso, nem completamente concentrado na partida durante momentos críticos, em que me superou de uma forma que só alguns conseguem. Esse jogo contribuiu para a minha mudança de perspectiva". Foi isto que explicou Magnus Carlsen, de facto, num comunicado que publicou nas redes sociais e onde garantiu que não voltaria a defrontar o norte-americano. Com os rumores, o norte-americano acabou por ser removido mesmo do site chess.com, que é um site popular entre praticantes da modalidade, onde jogam à distância ou contra os computadores. A administração do site diz que partilhou com o jogador provas detalhadas sobre esta decisão, isto é, no fundo, tentou justificar a expulsão do jogador deste site. E depois o escândalo alastrou-se de tal forma que até surgiram teorias menos ortodoxas para explicar isto. Como é que dois jogadores frente a frente, com câmaras de televisão, sem aparelhos visíveis, sem nada.
Como é que há batota?
Como é que um consegue fazer batota, de facto. E nas redes sociais começaram a circular hipóteses menos ortodoxas, incluindo uma possibilidade de Hans Niemann.
Poder da mente?
Quase, não diretamente, mas fazer batota, imagine-se, através da utilização de um aparelho anal com ligação wireless, que recebe informação de uma terceira pessoa, que pode estar a assistir à partida cá fora e que é essa terceira pessoa, com apoio de inteligência artificial, isto é, com simuladores de xadrez, envia então indicações através desse aparelho, através de vibrações, se quiserem. Atenção, é só uma teoria, nada está provado, até porque a revista que se faz aos jogadores é limitada na informação que é feita, como é evidente. Na semana passada, uma investigação que foi realizada pelo site chess.com e pela revista The Washington Post concluiu que Hans Niemann terá feito batota em pelo menos 100 jogos, recebendo provavelmente assistência ilegal. Provavelmente assistência ilegal está aqui entre aspas. Lá está, não se sabe como essa assistência chega. Como é que a investigação foi feita? Comparou as jogadas escolhidas pelo norte-americano em centenas de partidas, de jogos, com aquelas que são aconselhadas em cada momento, em situações de jogo idênticas, por computadores, através da inteligência artificial. E no fim, as coincidências encontradas foram tantas que o relatório diz que Niemann, e aqui citamos também o trabalho da Mariana Fernandes, cita isto no Observador, diz que Niemann fez batota mais do que frequentemente e que existem seis jogos específicos que merecem mais investigação baseadas nestes dados. Portanto, é um caso que ainda está no início, ainda vai fazer correr muita tinta. Para já, obviamente, o caso está a ter consequências na imagem de Niemann, na forma como os jogos são acompanhados e escrutinados e até na cautela adicional adotada sempre que participa num torneio. Isto já aconteceu neste polémico de St. Louis, nos últimos dias, quando o segurança responsável pelo detetor de metais foi muito mais minucioso com o norte-americano.
Agora percebe-se por quê.
Exatamente. Do que com os restantes jogadores. Batota no xadrez de alto nível, não se sabe muito bem como. Um caso a acompanhar. O trabalho é mais extenso da Mariana Fernandes, está no Observador, está incrível e conta-nos um bocadinho também do passado, da história deste Hans Niemann.
Conferência de imprensa na Rádio Observador. Amanhã há mais para ouvir. Esta edição junta-se às anteriores e dentro de minutos fica disponível em podcast.