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Está a começar o Contracorrente aberto aos ouvintes. Até ao meio-dia vamos debater a polémica em torno da participação de artistas na Festa do Avante. O número de telefone para onde pode ligar e entrar em direto é o 910 002 4185, é o número WhatsApp para onde pode também, se preferir, enviar uma mensagem de voz ou envie-nos um e-mail para o endereço ouvinte@observador.pt.
A polémica por causa do concerto de Pedro Abrunhosa e das reações de São José Lapa veio recolocar na ordem do dia a responsabilidade dos artistas que aceitam participar na Festa do Avante, com vários colunistas a defender que eles se deveriam abster de um gesto que pode ser interpretado como sendo de apoio ao PCP. Dificilmente haveria um tema mais atual e mais polémico para um Contracorrente e hoje tenho especial curiosidade de saber de que lado estará o José Manuel Fernandes. José Manuel, quem é que tu apoias? Bom dia.
Bom dia, Carla. Eu apoio a necessidade de esclarecer o compromisso político dos nossos artistas, acho que isso é que é mais importante e acho que essa é uma boa altura para isso acontecer. Como sabes, eu sou um defensor da liberdade em qualquer frente. E por isso não sugiro, não podia sugerir o cancelamento de ninguém, não sugiro sequer um boicote à Festa do Avante, porque este ano a Festa do Avante até pode ter um significado especial, e eu acho que tem. Por isso, para começar, e para que isso fique bem claro, defendo sem quaisquer reservas, dos temas que tu falaste, aquilo que Pedro Abrunhosa fez em Águeda e defendo a atuação dele, não só por concordar com a mensagem política, de facto subscrevo essa mensagem, mas também porque defenderia mesmo que não concordasse com ela. Aliás, devo esclarecer que eu nunca aprecio especialmente Pedro Abrunhosa, nem a música dele, nem as letras dele, nem essas coisas todas. Também nem sempre gostei do seu ativismo, algumas coisas até um pouquinho exageradas e feitas para conseguir mais mediatismo e coisas desse gênero. E indo por mais longe, vou dizer que também não apreciei muito alguns dos comentários que fez sobre a sua relação com o governo e com António Costa nesta crise. Mas não é isso que está em causa, nunca esteve em causa. Os meus gostos nesta matéria não vêm para aqui para nada. Em primeiro lugar, o que está em causa é o direito de Abrunhosa a transformar o seu concerto num comício. Que eu acho que é um direito inalienável. O pior que lhe podia acontecer era perder alguns fãs. Porque eles também têm a liberdade de discordar de Abrunhosa, mas ponto final, parágrafo. Em segundo lugar, está em causa, e isso é que é aquilo que é preocupante, um evidente abuso da Embaixada da Rússia em Lisboa, um abuso por reagir nos termos e com a linguagem em que o fez, um abuso por ter passagens da sua mensagem que são ameaças, é isso mesmo, ameaças que podem ir até a uma queixa-crime. E eu não penso que isso são palavras vãs. A Embaixada da Rússia pode, de facto, recorrer aos tribunais. E eu devo dizer que eu já estive uma vez numa queixa-crime feita contra mim e contra o José Manuel Miados também, por exemplo, por um chefe de Estado estrangeiro, no caso era Angola, José Eduardo Santos, eu já recordei essa história aqui, e posso garantir que uma pessoa livrar-se dessa queixa dá imensa chatice ou pode dar imensa chatice, imensos problemas, muita perda de tempo. Portanto, para que não fique em dúvidas, estou com o Abrunhosa e por estar com o Abrunhosa, só posso lamentar o comportamento da São José Lapa.
Então e a São José Lapa também não tem o direito de não gostar da voz do Abrunhosa?
Não, claro que tem, mas o que eu pensei é que não é isso que está em causa. O que está em causa é uma questão diferente, é uma questão de oportunidade, uma questão de conteúdo, uma questão de posicionamento. Vamos lá ver. No primeiro post que ela colocou no Facebook, ela colocou dois. No segundo post é sobretudo para justificar-se e explicar-se. O que ela escreve? "A minha voz não é a tua voz, Pedro Abrunhosa." Obviamente, ela não está apenas a referir-se se o Pedro Abrunhosa tem boa ou má voz. Até porque logo a seguir ela acrescentava que ele bem podia, ela dizia assim: "Bem podes dizer vitupérios nos teus concertos, que São José Lapa está-se a nas tintas." Aqui não há equívocos. São José Lapa acha que Pedro Abrunhosa disse vitupérios. E disse vitupérios ao mandar Putin, os soldados russos, Moscovo, desculpa-me a expressão, a literalidade, ele disse: "Fuck yourself." Ok, passou, ninguém ouviu.
Eu já disse isso. Eu em concerto já fazia a tradução noutras épocas.
Exatamente. Mas quem está nos concertos está lá. Escolheu lá ir. E por isso não é por ter vindo depois fazer um post a dizer que o Putin é execrável e que o conflito da Ucrânia é, e vou citar: "Absolutamente inacreditável, absolutamente desumano", que São José Lapa muda seja o que for. Aliás, não muda, porque a posição dela também não muda. No mesmo post, que é o segundo post, ela também acha que logo a seguir a culpar Putin, também tem que culpar as indústrias de armamento. Eu acho esta retórica bastante despropositada, bastante idiota para dizer mesmo, porque nenhuma indústria de armamento, que eu saiba, invadiu a Ucrânia. E de resto, se conhecermos melhor a história, ainda há pouco tivemos a ouvir aqui quem nos informasse sobre isso, no Gabinete de Guerra, o material que os países ocidentais estão a enviar para a Ucrânia Por exemplo, o material que Portugal enviou para a Ucrânia é, em muitos casos, material suplente, que não está a ser fabricado especialmente para ir para lá. No caso português, até era material relativamente antiquado. Mas ela já colocou o Putin no mesmo patamar. Vale a pena ler a frase: "A indústria de guerra aumenta os cofres dos States, da França, da Old England, da Alemanha, etc." Esse tipo de linguagem, esse tipo de argumento, dá para perceber de que lado que esta senhora está. E nessas coisas é bom sabermos de que lado estão os artistas, porque eu acho que os artistas têm muitas qualidades, muitas virtudes, mas não são gurus em termos de política. Sandra Lapa, por exemplo, tem todo o seu talento, mas de vez em quando gosta de entrar na política. Já se candidatou pelo menos uma vez às primárias do LIVRE. Não sei se conseguiu ser candidata ou não, porque não consegui apurar isso. Candidatou-se a ser candidata por Setúbal. Quem googlar um pouco também vê que foi apenas uma das suas tomadas de posição públicas. Ela tomou mais, muito mais. Se bem que me parece que, ao contrário também do que já foi sugerido por alguns comentadores, não é correto dizer que ela esteja ligada ao PCP. De facto, ela teve uma irmã, que já morreu, a Fernanda Lapa, que essa sim, era militante do PCP, até uma militante destacada.
O que não é proibido.
Claro que não é proibido. Agora, há outra coisa. Eu acho que não tem nada a ver com as opções das pessoas, tem a ver com as opções dos partidos. Os partidos gostam muito, eu até acho isso um pouco bacoco, mas os partidos gostam muito, pelo menos alguns partidos, de andarem a catar o apoio de artistas, ou então de futebolistas, ou então de escritores, para depois os exibir nos períodos eleitorais. No fundo, celebridades. Não sei se um dia desses vão andar a cata agora dos Instagramers e dos influencers também para isso. Vamos ver. Todos nos lembramos, por exemplo, de almoços. Almoços cheios de gente para mostrar o seu apoio ao político A ou ao político B, almoços e jantares, coisas desse gênero. Se queres que te diga, eu nunca achei que isso fosse particularmente eficaz e que alguém fosse votar porque o artista A ou o artista B recomendava. Enfim, pelo menos a maior parte das pessoas. Eu lembro, por exemplo, como sabes, eu sou um pouco mais velho, lembro que logo nas primeiras eleições a seguir ao 25 de Abril, o PCP tinha uma lista imensa de artistas que abrilhantavam, por exemplo, os tempos de antena. Os tempos de antena nessa altura eram muito importantes. Hoje já não valem nada, mas naquele tempo eram muito importantes. Alguns desses artistas eram gente que até à véspera da revolução, a maioria de nós nem sequer suspeitava que fossem apoiantes do PCP, até às vezes suspeitava que eram apoiantes era do regime, porque não havia ali nenhum distanciamento. Mesmo assim, apesar de Cunhal ter aparecido rodeado de todos esses artistas, os resultados eleitorais do PCP foram muito miseráveis nessas eleições. Aliás, os do PCP e os da extrema-esquerda, que também tinham o seu naipe de artistas. E alguns deles muito meritórios e que ainda hoje nós apreciamos. E a extrema-esquerda teve resultados piores. Apesar de tudo, nessa altura já os portugueses sabiam distinguir, acho eu, entre artistas que gostavam de ouvir cantar ou de ver nos teatros e as ideias desses artistas que, devo dizer que em muitos aspectos nunca foram muito populares.
Mas, José Manuel, no meio disso tudo, a Festa do Avante ocupa um lugar à parte, porque parece sempre conseguir imensos artistas e também muito público.
Tens razão, mas é bom não termos ilusões. Eu acho que tem havido, ao longo de muitos anos, uma enorme competência, uma indiscutível competência na organização da Festa do Avante. E os cartazes que foi construindo, os artistas que trouxe, deve muito a alguém que infelizmente também já morreu e que era muito competente nisso, que era o Ruben de Carvalho, o seu pseudónimo. Mas apesar desse sucesso, a Festa do Avante é um evento político. É bom não perdermos isso, termos noção do que estamos a falar. E a prova provada disto que eu digo, foi toda a polêmica que rodeou a edição de 2020. Com certeza que te lembras disso tudo, não é?
Claro.
Nesse verão não houve festivais de música por causa da Covid, mas em setembro não falhou a Festa do Avante. E por quê? Enfim, a discussão foi mesmo grande. Houve uma parte do país que andou a contar o número de infeções que houve a seguir a setembro e a ver se as pessoas vinham da Festa do Avante. E se era por ter estado lá nos concertos e naquelas refeições todas, aqueles restaurantes todos que lá existem, essas coisas todas. Agora, a questão é: por que houve Festa do Avante? Houve Festa do Avante porque se considerou que a Festa do Avante era um evento político e foi o argumento do PCP e também o argumento do primeiro-ministro, que na altura apareceu a defender a opção. Ora, se é um evento político, como é que devemos olhar para os artistas que nela participam e participaram? Serão militantes, serão aquilo que habitualmente se designava por compagnon de route, portanto, vagos simpatizantes. Serão cúmplices, mas que não se assumem como cúmplices. Ou, alternativa radical, são simplesmente profissionais que tanto podiam estar ali como estar no Rock in Rio, no Paredes de Coura, um sítio assim desse gênero. Na verdade, ao longo de todas estas décadas, eu acho que na Festa do Avante já houve um pouco de tudo. Já podemos encontrar gente com essas características todas. Sendo, e esse ponto é um ponto diferente, a minha perspectiva é que também sempre houve pouco escrutínio sobre algumas opções. Por exemplo, ninguém foi fazendo as perguntas como as que estão a ser feitas este ano.
Pois, mas as pessoas olhavam para o cartaz da festa, iam lá porque gostavam do artista A, do artista B, e a entrada nem é cara. A verdade é que quase todos já lá fomos, não é?
Eu já lá fui, mas há muito tempo. Devo dizer que nunca mais lá voltei, mas confesso que não estou a fazer isso por discriminar a Festa do Avante. Estou a fazer isso porque não sou cliente de festas de verão, nem daqueles grandes concertos. Cada um tem as suas idiossincrasias. Eu sei que somos um dos países do mundo, e no outro dia ouvi uns dados sobre isso, onde mais se vai a festivais de verão e a concertos. Acho que um em cada três adultos vai pelo menos uma vez por ano. Isso é imenso. Mas não é a minha praia, como se costuma dizer, e por isso nunca tive verdadeira atração por lá voltar. E como nunca quis ser eleito Presidente da República, também não tive que lá ir para me mostrar, como fez o professor Marcelo. Mas adiante.
No ano das eleições, uns meses antes das eleições.
Exatamente. A questão que agora se coloca é saber se os artistas que este ano vão à festa se sentem ou não cúmplices da tomada de posição do PCP relativamente à guerra da Ucrânia. É isso que está a ser discutido. Eu diria que agora a sensibilidade está mais à flor da pele e aquilo que não fizemos durante muitos anos, estamos agora a fazer. Saber se eles são ou não próximos do PCP. Se queres que diga, eu acho que faz sentido colocar a questão, como teria feito sentido colocá-la em 2020, quando foi uma imensa gente, ou no ano 2000, ou até em 76, que foi o ano da primeira festa. Não sei se foi em 76 ou 77, julgo que foi em 76. Foi na FIL, em Lisboa, um território pequeno. Na antiga FIL.
Exato, em Alcântara.
Em Alcântara. Eu não pretendo que na Festa do Avante só atuem comunistas, não é isso que eu estou a defender. Mas a meu ver, não ficava mal a quem vai tocar numa festa que é de comunistas, dizer que o faz apenas porque é profissional e recebeu um convite, ponto final, parágrafo. É assim que é. Eu, na verdade, não espero que isso aconteça, nem sugiro que se torne isso uma norma obrigatória, e haja alguém à entrada e pergunte: "Olha, vem cá como militante, vem cá como simpatizante, vem cá porque gosta de música." Mas gostava de poder ler, isso aí já é mais um gosto, todos os anos o tipo de dislates que este ano estou a ler no que respeita às justificações dadas pelos artistas que lá vão atuar.
Mas digamos que este ano o cartaz é mais pobre.
Como te disse, não sou especialista, não costumo ir, mas isso parece-me indiscutível. Relativo a comparar o cartaz do ano da polêmica, o ano de 2020, com o cartaz deste ano, em que há outra polêmica, que é a polêmica da guerra. E o cartaz de 2022 fica claramente a perder, e a perder por muitos. Eu admito que em 2020 a festa tenha tido mais artistas, porque como não havia mais festivais, os artistas ou estavam mais disponíveis, ou precisavam profissionalmente de ir a algum sítio qualquer, fosse onde fosse. Mas também é possível que tenha acontecido outra coisa, que é em 2022 tenha havido mais gente a recusar convites, precisamente por sentir que não era muito boa ideia associar-se à Festa do Avante numa altura em que o PCP está a dizer o que está a dizer a propósito de Putin e da Ucrânia. Agora, há artistas repetentes, estiveram lá em 2020 e estão lá em 2022. Por exemplo, os Morta, o Dino d'Santiago, mas também há grupos que costumavam ir quase sempre, foram lá muitas vezes, caso dos Xutos & Pontapés, que esteve lá em 2020, e que este ano não está. Mas pode ser porque tenha outra agenda, não tenho informação para poder optar pela boa explicação. Agora, entre os que estão presentes, há quem tenha dito coisas extraordinárias para justificar a sua presença. Verdadeiramente extraordinárias, talvez porque antes ninguém lhes fazia a pergunta.
Mas quem é que disse coisas extraordinárias?
Aqui vou ter que ser um pouquinho chato e ler algumas citações. O Dino d'Santiago diz que é um filho do século XX. Acho que sim, basta contar os anos que ele tem. Depois acrescenta: "O século mais assassino da história da humanidade". E é verdade, foi o século mais assassino da história da humanidade. E dá a entender que por causa disso, esta guerra pouco lhe diz. Eu cito, a frase é muito incrível: "Relativamente a esta guerra entre dois países europeus, parece que finalmente despertou a compaixão do privilegiado eurocêntrico que hoje prova o sabor do seu próprio veneno ocidental. Onde estão quando a fome grita por socorro às crianças do Iémen?" Respiro. Eu diria que está quase tudo mal aqui. Primeiro, como é que alguém que se diz filho do século mais assassino da história da humanidade, que é uma verdade, ignora que esse foi o século mais assassino, mas por causa das guerras europeias. Foi aqui que se travaram, infelizmente para nós, as guerras mais assassinas. Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, Holocausto, Gulag. O que é que são? São horrores europeus. Por serem horrores europeus, eu vou deixar dizer: "Não, a mim só me interessa a África, só me interessa o Brasil". Ora bem, se ele associa a sua filiação ao século XX e aos horrores do século XX, então eu acho que é quase impossível que ele não se declare eurocêntrico, porque se tirarmos a Europa do mapa, o século XX teve coisas horríveis, mas não sei se já podemos dizer que foi o mais horrível de sempre. Na verdade, no século XX já provámos o veneno ocidental. E é precisamente por isso, precisamente por termos provado o veneno ocidental, que não queremos que o mesmo se repita agora pela mão da Rússia, que é o que está a acontecer. Ora bem, numa altura em que boa parte do mundo, e em particular a África, Dino d'Santiago, corre o risco de fome por causa do que está a passar com os cereais da Rússia e da Ucrânia, acho que dizer que este conflito é eurocêntrico Se quer que se diga, não é mais do que uma desculpa, e uma desculpa um bocado preconceituosa. Portanto, para mim, as declarações pela paz, que ela a seguir acrescenta no seu post, têm o mesmo valor que as declarações pela paz do PCP. Servem, no fundo, para eludir uma tomada de posição clara, ou melhor, para não tomar posição relativamente ao conflito da Ucrânia, para fugir à questão essencial, que é quem é o agressor. Outro exemplo, Adolfo Luxúria Canibal, líder dos Morta Penetra, que esteve em 2020 e volta a estar em 2022. Ele ao menos tem menos preocupações intelectuais e fica mesmo pelos argumentos mais básicos, argumentos mais colados aos do PCP. Para ele, e eu vou citar novamente: "Estamos entre duas forças políticas terríveis." Portanto, para ele, agressor e agredido estão no mesmo patamar. Aliás, ele faz mais e faz pior do que isso. Ele considera a Ucrânia um mal tão grande como a Rússia. Vou ler também para não haver ilusões. "A extrema-direita tanto está na Rússia ligada ao poder, como na Ucrânia, também ligada ao poder. Isto não é uma guerra política tradicional, no sentido esquerda-direita." Eu não sei se as guerras costumam ser entre a esquerda e direita, sinceramente. É basta olhar para o mundo e vê-se que não é. Isto é uma guerra entre duas extremas-direitas. Olha, sinceramente, não sei se o João Lima de Sousa argumentaria melhor que isto.
Olha, então pego também nas declarações de Bia Ferreira, uma atriz brasileira, que também estão a suscitar muita discussão. O Henrique Raposo escreveu sobre elas no Expresso e depois o Luís Osório respondeu-lhe na TSF.
É verdade. Essa polêmica entre o Henrique e o Luís tem aspectos que podemos ir a ela, mas vamos aos argumentos da Bia Ferreira, porque ali há dois temas. Como te disse, a Bia Ferreira é uma ativista LGBT e por aí adiante, e ia atuar numa festa do PCP. É esse o tema da discussão entre o Henrique Raposo e o Luís Osório. Pode ficar para adiante, vamos antes começar pelas declarações que ela fez, ou melhor, pelo que ela escreveu no Instagram. São Jorge lá para escrever no Facebook, Bia, mais nova, escreveu no Instagram, penso que assim podemos. São redes sociais com escalões etários diferentes. E são declarações muito significativas. Eu vou ter que ler outra vez. Desculpa lá, isto não está cá à Helena, mas vamos a isto. "As mortes na Ucrânia incomodam porque são brancos morrendo. Quanto vale a vida das pessoas mortas todos os dias pela violência do Estado no Brasil? Sabe a cor delas. Se não te comove, então você não é mais que um racista. E o Brasil é o país que mais mata LGBTQIAP+ no mundo." Pronto, eu tive que ler isto devagarinho que já me perco com tantas letras. Ou seja, voltando à mesma coisa da Tudinho de Santiago, só que agora somos racistas, não é? Não nos preocupamos com a cor da pele dos brasileiros que morrem. Só nos preocupamos com mortes brancos. Não queremos saber dos negros do Brasil. Apetece-me perguntar: quantos morrem no Brasil que não são negros? Apetece-me perguntar se ela tem noção de que no Brasil os LGBT podem existir e na Rússia são oficialmente perseguidos. Será que ela não sabe disso? Apetece-me perguntar se ela é capaz de sair das bolhas dos seus ativismos, que é onde ela está enfiada, e das suas obsessões, para olhar para o resto do mundo sem nos classificar logo a nós a todos de racistas. Até porque agora há coisas novas que me fazem, de facto, uma imensa impressão. Eu soube que no Brasil há manifestações destes grupos que andam a manifestar-se agora por estas ativias. Manifestações organizadas pela comunidade negra em que se escreve o seguinte: "Miscigenação também é genocídio." Bem, eu acho que não é preciso dizer nada. Se miscigenação é genocídio, estamos, acho eu, conversados sobre o racismo de quem quer que seja. Mas como se isto não fosse suficiente, ficamos também a saber que ela sofre por nossa causa. Ela sofre por nossa causa, porque o povo dela, acho que ela tem antepassados africanos, volto a citar: "Está assim porque o seu povo, nós, o escravizou." Pior ainda, porque na visão dela, e volto a citar: "Os seus antepassados escravizaram e mataram, exploraram e exploram até hoje a nossa gente." Se bem entendi, os meus antepassados exploram até hoje o povo dela. Não sei se eles andavam vivos, mas enfim. E tenho que estar em cuidado, porque avisa logo a seguir: "A sua conta vai chegar." Depois a seguir manda pesquisar quantas pessoas morriam no Brasil e comparar com as mortes na Ucrânia. Olha, já agora eu fui pesquisar. Fui mesmo. Verifiquei, o ano passado morreram 47 mil pessoas no Brasil de morte violenta. É muita gente, mas é o valor mais baixo desde 2011. Na Ucrânia, nós vamos em cinco meses, só russos terão sido 40 mil, não é um ano inteiro, é só russos. Se calhar morreu o número equivalente de soldados ucranianos. E quanto ao número de civis, neste momento ninguém sabe sequer calcular. Portanto, eu caso para dizer à Bia Ferreira, ela que vá ir pesquisar.
Eu já vi que tu fizeste isso, já pesquisaste não só isso, mas também o que todos estes artistas andam a dizer
Sim, fiz umas pesquisas, porque isto agora está tudo nas redes sociais. As redes sociais são muito boas, mas também são muito transparentes. Há mais declarações também um bocado surreais de outros artistas que vão estar na festa. Por exemplo, o Paulo Bragança, que é um fadista, também fez declarações um pouco estranhas, mas acho que estas já chegam, estas já mostram bem com o que estamos a lidar. Portanto, e para finalizar, já me fui longo e nem sequer vou à questão dela ser LGTB e ir a uma festa do PCP. Basicamente, está muito longe de mim sugerir que alguém deixe de ir à Festa do Avante. Só desejo é que vão bem informados sobre aquilo que vão encontrar, pelo menos sobre o que vão encontrar neste ano de 2022. Pessoalmente, eu não tenciono ir. E já agora acrescento, não vou à Festa do Avante, mas também não fui às iniciativas do Chega, que em 2020 também convidou um artista, em concreto o Olavo Bilac, que foi fundador dos Santos e Pecadores e como tal também já tinha estado na Festa do Avante. Mas sim, o Olavo Bilac, como foi ao Chega, foi logo julgado na praça pública. Eu acho que as pessoas não têm que ser julgadas, têm que se explicar, ponto final, parágrafo. Como te disse, não sou muito de festivais e quando quero ir a um concerto escolho coisas mais recatadas, mas cada um é como é. Não quero impor as minhas opções a ninguém. Agora, se cada um é como é, ficamos a saber porque é que há artistas que acham que ir à Festa do Avante é como ir às paredes de coura, porque não é a mesma coisa. A liberdade para irem é a mesma, as condições e o enquadramento são bem diferentes. Portanto, por mim estejam à vontade, tenham bom proveito, mas sejam também capazes de ouvir as críticas de quem não engole todas as justificações que estão a ser dadas. Porque, de facto, somos todos iguais, mas se somos todos iguais, temos que estar preparados para sofrer por igual. E se na Ucrânia morrem homens brancos e noutros sítios morrem homens pretos, não é por isso que passamos a ser racistas.
A questão está muito na ordem do dia e por isso vai ser debatida aqui no Contracorrente. Qual deve ser a responsabilidade dos artistas quando atuam num evento político, como é a Festa do Avante, mesmo que seja unicamente para subir ao palco e dar um concerto? Seria importante ouvi-los sobre que tipo de envolvimento têm com a organização. No fundo, ir à Festa do Avante significa apoiar o PCP e as suas ideias e também, como têm assistido à polémica que envolve Pedro Abrunhosa, queríamos ouvir os nossos ouvintes e vamos fazê-lo já daqui a pouco. O José Milhais terá sido uma das primeiras pessoas a levantar a questão da participação dos artistas na edição deste ano da Festa do Avante. Disse ele, e também faço a citação: "Pensem bem porque estão a participar numa festa que não é só musical, é uma festa política de um partido que apoia regimes hediondos e que neste momento está a apoiar uma guerra". José Milhais, bom dia, estás conosco. José Milhais, com esta ideia não estás a defender o cancelamento de artistas?
Carla, peço desculpa.
Não estás a defender o cancelamento de artistas quando pedes que pensem bem se querem participar numa festa como a que assistimos nesta semana?
Não, Carla. Eu não estou a querer nem cancelar, nem proibir, nem coisa nenhuma. Cada um faz o que quer e decide como quer. Agora, eu apenas chamei a atenção para uma questão, que é a questão de se participar numa iniciativa política de um partido que tem as ideias e os princípios que tem. Foi só isso, mais nada.
Sim, mas isso coloca-se todos os anos.
Claro que se coloca todos os anos e sempre. Agora, este ano é muito mais importante, digamos, porque este partido é um partido que apoia uma guerra e apoia vários regimes, nomeadamente a ditadura de Putin. Agora, é nesse sentido que eu peço que pensem. Eu não estou a proibir nada, porque eu não tenho poder sequer para proibir ou cancelar o que quer que seja. Daí que, por exemplo, aquilo que o José Manuel Fernandes leu da Bia Ferreira foi um comentário exatamente àquilo que eu disse na SIC. Eu acho que a Bia Ferreira é uma senhora que transborda racismo por todos os lados e então decidiu acusar os brancos de racismo. Quer dizer, eu isto também já vi, já estou habituado a este tipo de coisas, que quando não se tem argumentos, insulta-se. E é o que se está a passar neste momento. É tentarem fugir, como se costuma dizer, peço desculpa, com o rabo à seringa. Pensem e decidam, tomem uma posição.
José Milhais, desculpa, e foram tomando. E aliás, o José Manuel citou alguns, é fácil ir às redes sociais e perceber que se estão a justificar. Isso basta, portanto? Cada um está a evocar as suas razões, fica mais claro para quem participa, para quem vai assistir.
Carla, fica mais claro, exatamente. Nós vamos ver, ou melhor, vai ver quem aceitar aquelas explicações e quem considerar que pode e deve ir à Festa do Avante. Agora, depois é que não se venham queixar. Dizer: "Eu não estive ligado, eu não fiz, não é bem assim", etc. Quer dizer, porque isto aqui não vamos dizer que a Festa do Avante é apenas uma festa cultural, porque isso é falso
Se calhar conheces pessoas, não sei se já alguma vez foste. Há pessoas que vão à Festa do Avante! para ver um determinado artista e não têm qualquer ligação ao partido, nem simpatia necessária.
Carla, eu nunca fui à Festa do Avante!
Sim.
Nem iria para ver um artista muito preferido.
Nunca farias isso.
Porque há oportunidade de o ver noutro lugar.
Sim.
Mas as pessoas são o que são e cada um decide como decide. Agora, as explicações, algumas delas são um tanto ou quanto esfarrapadas, ou bastante até esfarrapadas. E outras insultuosas, porque aqui não se dá lugar, isto não é discussão, nem é crítica, isto é insulto. Quando tu não estás de acordo com alguém, passam imediatamente ao insulto, porque em termos de argumentos, os argumentos são fraquinhos.
Sim.
E eu espero, por exemplo, ontem, no meio dessa polêmica, foi anunciado que os Mão Morta vão à Festa do Avante!. Muito bem, tomaram a sua posição em consciência e que vão à Festa do Avante!. Agora, eu, olhando para os Mão Morta, posso ter uma posição a partir de agora diferente daquela que tinha, por considerar que um grupo de heavy metal, que por exemplo, eu ontem na SIC dei esse exemplo, um festival de heavy metal foi ontem cancelado, porque na Rússia festivais musicais não há de música nenhuma, porque eles temem que os espectadores comecem a gritar contra a guerra, como já aconteceu. E ontem foi proibido um festival de heavy metal. Mas se os Mão Morta consideram que podem participar na festa de um partido que apoia esse tipo de política, então tenham a bondade de ir. Eles são livres de fazer isso. Agora, eu também sou livre de dizer o que penso e conversar ou discutir. Agora, insultar, isso já não é comigo.
Já não é contigo.
Carla, peço desculpa. Vê o que aconteceu com o Pedro Abrunhosa, que é outro exemplo típico. Ele tomou uma posição clara. Nós sabemos que tipo de canções pode cantar Pedro Abrunhosa. Quando ele cantou aquela famosa canção, e no tempo do cabacismo, que era um hino anticabaco, toda a esquerda, ou melhor, a extrema esquerda, aplaudia, etc. Agora, que ele toma uma posição também clara face ao conflito e de uma forma que é artisticamente aceitável, começam a lhe chamar nomes e a atacá-lo. Por exemplo, aquela atriz, eu não conheço a senhora como atriz, porque não conheço, mas ao dizer aquilo que ela disse no primeiro post que meteu no Facebook, que o Abrunhosa não tem voz.
Sim, São José Lapa.
Isso é insultuoso, exatamente, a São José Lapa. E depois, a seguir, vem tentar emendar a mão palmatória, dizendo que o Putin que é execrável, mas por que ela não disse isso logo no primeiro post? É isto aqui que me faz a mim impressão. Como é que as pessoas não conseguem dialogar. E neste caso, são os chamados intelectuais. Não é uma discussão entre pessoas na rua, é uma discussão entre intelectuais. E passa-se imediatamente ao ataque de uma forma onde transborda o ódio, que é o que acontece nessas postagens. E a tentar liquidar intelectualmente essas pessoas. Mas felizmente, no caso de Pedro Abrunhosa, devo sublinhar que houve outros músicos que o apoiaram. E isso eu acho que é atitude muito digna, é tomar uma posição clara em relação à guerra. Eu estou contra ou a favor da guerra. Agora, os artistas, a forma de transmitir isso têm maneiras diferentes. Aquela é a maneira de Pedro Abrunhosa. E ele tem direito a isso, existe direito à liberdade. E aqui só mais uma coisa, Carla.
Sim.
É que o comunicado da embaixada russa é abjeto. A reação do nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros foi muito mansinha em relação a uma coisa daquelas que ali há intimidações e ameaças diretas. A embaixada russa tem que compreender que isto ainda não é a Rússia. Espero que nunca venha a ser.
José Milhais, tens informação se outras embaixadas russas noutros países tiveram reações semelhantes com manifestações que temos assistido também em muitos países a condenar a guerra?
Eu sei que teve numa, foi na Suíça Mas aí foi uma reação mais calma e mais educada, não sei se por estarem na Suíça. Mas como se costuma dizer lá, um jornal publicou a face de Putin com o nariz de palhaço e as cores do LGTB e por aí fora. E então, o comunicado à embaixada é que a embaixada iria levar a tribunal o jornal por calúnia. Pronto, mas não tinha nenhuma ameaça como tinha aqui no caso do comunicado à embaixada da Rússia em Lisboa.
Nesse aspecto, e estás a falar de capas de revista, aquela clássica da Time, em que Vladimir Putin aparece a simular uma página rasgada com o bigode de Hitler. E a reação é sempre assim tão musculada por parte das autoridades russas, mesmo quando estamos a falar de artigos de opinião ou de manifestações artísticas?
Claro que em relação a esse tipo de coisas, em termos internos, eles reagem de forma dura. Agora, que me lembro, em termos de teor de embaixadas russas no estrangeiro, eu não me lembro de haver nenhuma com um conteúdo semelhante àquela que foi escrita em Lisboa. E acho que isso é mais um motivo para nós vermos a falta de respeito que tem a embaixada e os diplomatas em Lisboa para com Portugal. E nós somos um país pequeno, é verdade, mas temos também, ou devemos ter, o nosso orgulho e devemos ter direito a escolhermos e a sermos livres, que é o que nós temos e os russos não têm.
E concluindo até, José Milhaços, por tudo aquilo que disseste, pelas críticas que fazes a quem participa na Festa do Avante, tudo o que acontecer naqueles dias em setembro, no Seixal, terá necessariamente uma leitura política. O número de participantes, os artistas que vão subir a palco, as pessoas que vão participar nos colóquios e nas conferências que são organizadas, tudo deverá ter uma leitura política.
Claro que vai ter. Por exemplo, quantos artistas terão coragem para falar da guerra, para apoiarem a guerra, para apoiarem Putin ou para dizerem não a Putin? Não nos termos até em que disse o Pedro Abrunhosa, mas em termos mais macios.
Sim, será que vai acontecer? É uma questão que se pode colocar.
Exatamente. Tudo isso pode acontecer e tudo isso irá exigir análises políticas. E eu acho que isso que é importante que se faça. E eu vou estar atento, não vou estar atento à festa, mas vou estar atento às mensagens. E por exemplo, no caso da cantora brasileira, ela vem com uma porrada de argumentos, absolutamente como mostrou o José Manuel Fernandes, falsos e até injuriosos para os portugueses. E nesse sentido, nós devemos estar atentos a ver qual vai ser o comportamento das pessoas. Não para os linchar, que aqui não se trata de linchar ninguém. Felizmente, em Portugal não se lincha ninguém, mas sim para que as pessoas compreendam qual a posição das figuras públicas que assumam uma posição.
É isso então que pedes, José Milhaços. Penso que ficou esclarecida a tua posição sobre esta questão da Festa do Avante. Terás sido uma das primeiras pessoas, um dos primeiros portugueses a lançar o tema. José Milhaços, obrigada. Bom dia para ti.
Obrigado eu, Carla. Bom dia.
Vamos ouvir mais opiniões, porque há muita gente a querer participar, João Miguel.
Ainda bem, através do 910 024 185, é o número de telefone para onde pode ligar para participar no Contracorrente até ao meio-dia. Nas redes sociais, por e-mail, chegam-nos várias mensagens. Carlos Silva escreve: "Andamos a bater palmas à liberdade e depois neste país as figuras públicas não se podem pronunciar na política ou no futebol, hipocrisia disfarçada." Carlos Silva escreve que não é fã do cantor Pedro Abrunhosa, mas está 100% a favor dele. À pergunta: ir à Festa do Avante significa apoiar o PCP e as suas ideias? A pergunta que se coloca no artigo que lança este Contracorrente no site do Observador. Manuel Eduardo Correia escreve: "A Festa do Avante não é uma festa, é um evento político e um comício para angariar fundos para o PCP." A mesma opinião tem Thiago Amaral, que escreve que o Avante não é um festival, mas um evento político. Luís Silva sai em defesa da festa, escreve que é uma das melhores festas do país e só fala mal quem nunca lá esteve. Quanto a Ana Lopes, enviou-nos um e-mail para repudiar a atitude dos artistas participantes na Festa do Avante. Escreve Ana Lopes que os artistas gostam de criticar a Europa e os Estados Unidos, felizmente, locais onde se pode criticar sem receber consequências. Ao contrário, escreve Ana Lopes, do país que estão claramente a apoiar a Rússia.
E agora vamos ouvir a nossa primeira ouvinte por telefone, que está em Lisboa, a Maria Ferreira, engenheira agrônoma. Bom dia.
Olá, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. A minha participação tem a ver com a justificação dos artistas quando justificam por que vão à Festa do Avante. Eu acho que eles não deveriam justificar como têm justificado, pelo menos esse senhor que leu essas duas declarações deles
São justificações racistas e acho que eles apenas deveriam dizer a verdade, que é: eles vão pelo aspecto lúdico da festa. A festa do Avante é bastante lúdica. Parte terá a ver com política, mas grande parte já não tem a ver com política. É uma festa com várias barraquinhas, com várias coisas regionais, que mostra um bocado Portugal. Eu nunca fui, pensei ir este ano e acho que ainda vou, mas vou sendo contra a Rússia, sendo contra a guerra, vou pelo motivo lúdico.
Não é incompatível ter uma posição diferente daquela que tem o PCP e ir à festa.
Eu não vejo caso de incompatibilidade. E ainda acho uma outra coisa, que é: sempre que se tenta ostracizar alguém, alguma coisa ou algum partido, tem-se o efeito contrário. Ou seja, o Chega, neste momento, eu acho que é um grande perigo para Portugal, mas eu acho que os partidos, nós os outros, não estamos a saber lidar bem com o Chega quando eles o ostracizam ou ridicularizam.
Estamos com muitas dificuldades na ligação com a Maria Ferreira. Perdão. Penso que pelo som percebíamos que estava a conduzir e perdemos a rede, mas percebemos também a posição desta nossa ouvinte. Chamava aqui a atenção para os riscos de ostracizar alguém. Deu o exemplo do Chega. Quanto mais isolados esses grupos ficam, mais força vão ganhando. Vamos continuar a ouvir ouvintes, também os que nos enviam mensagem por áudio, como o Carlos Santos, que está em Setúbal, é técnico de arquivo e quis deixar também a opinião.
Bom dia. Sobre o tema de hoje, a minha opinião, sim, quem vai ao Avante está a apoiar o PCP. Pode ser de forma consciente, de forma inconsciente, de forma direta ou indireta, mas acaba sempre por apoiar. Mas isto também revela muito da nossa política cultural. Provavelmente, se os nossos artistas fossem mais apoiados, se houvesse uma política de cultura séria neste país, eles não precisariam das migalhas do PCP. Mas também vou ser sincero, não critico quem vá. Cada um tem as suas razões. Uns vão por ideologia, à vontade, outros pela projeção mediática do evento, à vontade, e outros apenas por dinheiro. Não sou eu que vou julgar ninguém. Eu pessoalmente não vou, mas não critico quem vá. Estamos num país livre, cada um faz o que quer, dentro dos limites, óbvio. Mas acima de tudo, haja bom senso, que haja uma melhor política cultural no nosso país e que acima de tudo, que ninguém seja cancelado por ir. É só isto. Muito obrigado e bom dia.
Bom dia. Obrigada. Haja bom senso, é o que pede o Carlos Santos. O Vasco Machado é empresário, mandou mensagem na Marinha Grande.
Bom dia. A questão ideológica dos artistas que vão ao Avante é muito importante e deve ser colocada. Por isso, este programa faz todo sentido. Mas sobre isso, considero que a hipocrisia reinante é transversal e o setor musical cultural não é exceção. Como exemplo disso, temos a participação do Dino d'Santiago, citado há pouco pelo José Manuel Fernandes, num evento organizado pelo canal Fox durante a pandemia. No entanto, há uma questão relacionada com o Avante que eu gostava de colocar. É uma questão de difícil resposta, mas que eu acho muito pertinente. A questão é: quantos dos concertos dados no Avante, ao longo destas quatro décadas, foram borlas em troca de convites futuros de câmaras comunistas, pagos, esses sim, pelos orçamentos camarários? Obrigado e votos de bom trabalho à Rádio Observador.
Obrigada, Vasco Machado, pelos votos, pela mensagem, a pergunta que aqui fica, quantos concertos poderão ter sido alguma troca de favores com câmaras comunistas. Bom dia, Madalena Correia de Sá, está a ligar de Lisboa, é reformada. A sua opinião, Madalena. Bom dia.
Bom dia. Como sabem, acho que ir à festa do Avante numa situação destas é uma verdadeira aberração, porque nós ou somos coerentes ou não somos coerentes. E quando a Rússia faz o que faz, invade um país soberano e causa os estragos que está a causar, as milhares de pessoas que morrem, e nós irmos participar numa festa do Avante, desculpem, não pode ser verdade.
Aqui fica, portanto, essa rejeição total por parte da Madalena Correia de Sá. Não entende que se possa ir à festa este ano. Muito obrigada. Um bom dia para si.
Muito obrigada.
Bom dia e obrigada. O Alexandre Homem Cristo é colunista do Observador. Precisamente hoje publica um artigo aqui no jornal em que defende que tocar no Avante não equivale a ser militante do PCP, mas defende também que pode haver uma questão de coerência. Quer explicar, Alexandre, melhor o que significa esta questão da coerência por parte dos artistas?
Bom dia, Carla. Bom dia ao José Manuel Fernandes, bom dia aos ouvintes. O meu ponto é precisamente esse, que é, de um lado, e o José Manuel Fernandes também já tocou nestes pontos, que é: eu vejo a festa do Avante como um comício, porque não há outra forma de olhar para o evento como não sendo um evento político. Aliás, o José Manuel Fernandes até fez a importante referência ao ano de 2020, quando o evento teve lugar quando os festivais de música estavam proibidos. Portanto, não podemos ter qualquer dúvida de que se trata de um evento político. E aliás, ainda há aquela questão fiscal, o PCP utiliza a festa do Avante como evento político para não ser taxado e para ter benefícios fiscais muito benéficos para Para a programação e para os rendimentos do partido. Portanto, não há dúvida que temos de olhar para o evento como um evento político. Uma coisa não invalida é que, a meu ver, que um artista olhe para um convite para participar de uma forma profissional, ou seja, um artista ou um técnico de som ou qualquer outro profissional que esteja envolvido na Festa do Avante, não tem forçosamente que se sentir vinculado às posições do partido, sejam elas quais forem. Eu acho que este é o entendimento que dominou durante várias décadas, porque a festa também já é muito antiga, mas que se alterou agora. E alterou-se, a meu ver, por causa da questão da guerra. Está muito mais neste momento, o escrutínio sobre o PCP acentuou-se por causa dos apoios, às vezes assumidos, outras vezes um pouquinho mais ocultos, à Rússia na invasão da Ucrânia. E claro que aí gerou uma reação popular e que gerou um escrutínio maior. Eu acho que esse escrutínio, tal como o José Manuel Fernandes também disse, eu acho que esse escrutínio é importante. É importante porque ele antes não existia para o PCP, mas existia para outros partidos. Eu também falo disso no artigo quando em 2020, Olavo Bilac participou num evento do Chega e foi submetido a um alto escrutínio e muitas críticas públicas, seja nas redes sociais, como enfim, agora esta entidade coletiva que nós chamamos redes sociais, mas também de artistas e colegas de profissão que se sentiram muito feridos pela sua participação, como se ele estivesse a validar as posições do Chega ao participar no evento. E ele, na altura, explicou que não era o caso e que era profissional. E ele, aliás, tem precisamente esta vantagem para a nossa discussão de ser um artista que esteve tanto na Festa do Avante como esteve num evento do Chega, ou seja, que olha para estes eventos de uma forma enquanto profissional e não enquanto militante. Agora, onde é que eu acho que há uma fronteira e que os artistas muitas vezes a passam, que é: hoje em dia, e mais do que no passado, há uma grande tendência, até das próprias editoras e dos promotores, para que os artistas sejam, de certo modo, megafone ou difundores de mensagens de ativismos sociais, políticos, mensagens que-
De causas.
Exatamente. Ou seja, no fundo, tentar ligar os artistas a causas sociais para fins não só das próprias causas, mas muitas vezes também para fins comerciais, de marketing, etc. E aí é que eu acho que há um ponto de coerência que é preciso ter em conta, que é: não me choca e eu não olho para um artista que esteja na Festa do Avante como alguém que esteja em incoerência com o que quer que seja. É um profissional, está contratado para lá estar e vai fazer o seu trabalho. Agora, se esse artista tiver um conjunto de posições nas suas causas, nas suas canções, nas suas intervenções artísticas ou até nos concertos, se tiver uma intervenção que seja de mensagens que no PCP não têm eco e muitas vezes até têm um adversário, aí há um problema de coerência que é indisfarçável. E aí acho que os artistas têm que pensar bem na relação que têm com o público, com os seus fãs. E acho que, por exemplo, há pouquinho, entre os exemplos todos que já se falaram esta manhã, parece-me que o mais evidente é, de facto, a artista Bia Ferreira, que ao ser uma militante ativista das questões das minorias sexuais e, portanto, da igualdade de género etc., tem ali um problema, porque de facto o PCP apoia explicitamente vários regimes que perseguem essas populações e que têm políticas mesmo discriminatórias e legalmente, até do ponto de vista jurídico, que muitas vezes nem reconhecem a existência dessa população. Portanto, aí, de facto, eu acho que é muito difícil conciliar. E eu acho que, tentando simplificar aqui o argumento, é: um artista que vá apenas tocar a sua música de uma forma profissional, eu não vejo qualquer problema nisso. Agora, um artista que tenha uma intervenção política na sua arte, ao participar num comício político, tem que ser julgado politicamente. E portanto, aí acho que não há outra escolha a não ser fazer esse escrutínio, que eu acho que é um escrutínio muito saudável e alguns artistas terão eventualmente que lidar com ele de uma forma que não estavam à espera. Agora, esse escrutínio, também é importante dizer, e um bocadinho na linha também do que o José Milhazes dizia, quer dizer, nós podemos escrutinar enquanto ouvintes, enquanto consumidores de música, enquanto fãs, os artistas. Isto não significa cancelá-los, não significa estar aqui a mover-lhes perseguições e a fazer os possíveis para que os promotores não os contratem e no fundo, destruir-lhes a vida profissional. Não é esse o ponto. Eu, por exemplo, posso dizer que sou um ávido consumidor de música e gosto muito de ir a concertos. Talvez não tanto a festivais de verão, mas a concertos em geral gosto muito de ir. Há alguns artistas que vão à Festa do Avante, que eu já vi ao vivo, que nunca iria ver à Festa do Avante, que se dependesse de mim, eu até gostaria que eles não fossem lá, porque não me identifico de todo com a Festa do Avante nem com o PCP, mas não os deixarei de ouvir por causa disso, quando eles o fazem de uma forma que eu considero que é de questão de profissionalismo e não por adesão ideológica àquilo que será o comício do PCP e todo o contexto, neste caso, que para além da adesão ideológica, tem também O contexto do momento, que é o contexto da guerra, que me parece ser aquele que mais está saliente. Já agora, uma última nota sobre a necessidade deste escrutínio. É curioso como nós estamos a fazer um escrutínio a uma festa que tem 40 e tal anos de vida, a um partido que é fundador da democracia portuguesa, no sentido em que tem representação parlamentar desde que existe democracia. E parece que, de repente, foi uma novidade para toda a gente que o PCP tem posições que são contrárias aos valores liberais, ocidentais, democráticos, pluralistas, em que nós acreditamos. O "nós" é um nós da população portuguesa em geral.
Da comida.
E de facto, nunca ter havido esse escrutínio a quem participa nas festas do PCP, neste caso, nos comícios do PCP, era uma falha que nós tínhamos. Eu acho que era uma falha. Agora, o importante é não confundir esse escrutínio com uma espécie de tentação para o cancelamento, que eu acho que há muita gente que tem essa tentação de perseguição dos artistas. Acho que as redes sociais também promovem um pouco essa discussão muito baseada no ressentimento e no ódio, e pouco construtiva. E eu acho que temos que ter cuidado com isso, ou seja, podemos criticar, podemos não concordar, podemos até lamentar que artistas que nós achamos que são interessantes e que têm uma mensagem política interessante, pluralista, etc., com que nos possamos rever, depois alinhem em incoerência com esta festa do Avante. Tudo bem, nós podemos criticá-los. Daí a fazer aquilo que, por exemplo, se fez ao Olavo Bilac em 2020, quando ele participou num evento do Chega, há uma grande distância, porque eu recordo, o Olavo Bilac sentiu a necessidade até de vir a público desculpar-se, porque sentiu a pressão de toda a comunidade artística sobre os ombros. E eu imagino que alguém que tenha o seu ganha-pão em risco, se sinta, de facto, limitado na sua liberdade. Eu acho que nós não podemos chegar a esse ponto. Portanto, os artistas têm a sua liberdade e nós também temos a nossa, de os poder escrutinar e ver até onde é que eles estão em coerência ou em incoerência com aquilo que defendem na sua arte, nas suas posições públicas.
Alexandre, por tudo aquilo que está a dizer, às vezes confesso que fico com alguma dificuldade até em situar a discussão. Ela é uma discussão mais emocional, o artista que nós gostamos e que preferíamos não o ver num determinado palco. Ela é ética, porque o artista tem também um papel na sociedade, ou é política, ou é isto tudo?
Bem, é difícil. Vamos lá ver. Ela é política quando os artistas têm posições políticas. Isso aí parece-me claro. Ou seja, se um artista achar que a sua arte é porta-estandarte de uma causa política e social, aí o debate é político. No que ao resto diz respeito, à questão ética, eu não ponho a questão ética aí. E também acho que mesmo quando a gente faz o escrutínio, o escrutínio faz-se a nível individual, ou seja, não há aqui um escrutínio coletivo, nem há nenhuma comissão arbitral que nos vai dizer se os artistas pisaram o risco ou não. Ou seja, acho que aqui os artistas vivem no mercado da música, neste caso, estamos a falar de música, e portanto vamos imaginar que se os seus fãs sentirem que há uma traição àquilo que eles consideram ser o espólio artístico daqueles intérpretes em particular, bem, nesse caso, poderá haver até quem decida deixar de ouvir. Portanto, eu acho que aí é uma questão muito dos consumidores, neste caso, dos ouvintes, dos espectadores, que terão que julgar. De resto, acho que a questão ética coloca-se. Nós podemos censurar sempre. Eu, na minha perspectiva, não tenho tanto essa tentação, porque eu olho para a festa do Avante, apesar de ser um comício, eu vejo a participação dos artistas como um ato profissional. Agora, quem não concorde comigo neste ponto de partida, naturalmente que terá uma avaliação ética, não é? E neste caso, em particular, quando estamos a falar da guerra na Ucrânia, naturalmente que, e eu já ouvi muitos ouvintes aqui na emissão de hoje a partilharem esta posição, que é: quem vai à festa do Avante é uma espécie de cúmplice moral das posições do PCP, de Putin e por aí fora. Bem, nessa avaliação, naturalmente, há uma questão ética, mas eu ponho-me à parte dessa discussão. Não entro aí.
Muito bem, e ficou claro. Alexandre Homem Christo, obrigada. E o Bandia, colunista do Observador, hoje também recorda que tocar no Avante não equivale a ser militante do PCP, mas há uma questão de coerência, em alguns casos, que deve ser apreciada. José Manuel Fernandes, estamos com muitas opiniões e não vão todas no mesmo sentido, e ainda bem. Eu gostava de focar numa ideia que nos deixou uma ouvinte. Ostracizar também não é dar uma relevância que pode não ser merecida?
É, pois eu também não defendo a ostracização. Quer dizer, aquela discussão que houve precisamente com o cantor que foi ao Chega, participou no comício do Chega, numa ação do Chega, não sei bem exatamente, já não me recordo exatamente o que é que era. Foi uma tentativa de ostracizar. O que é cultura de cancelamento? É uma ostracização, é banimento, é dizer que algumas pessoas não podem estar presentes aqui ou acolá. Muitas vezes, isso vira-se contra quem procura ostracizar, porque dá mais palco e mais atenção mediática a quem é perseguido, a quem tentam cancelar, às próprias organizações que estão ligadas a isso. Para mim, há outra questão que é, porventura, mais importante que essa, que é o princípio da liberdade. Porque com a liberdade, vem uma coisa que muitas pessoas muitas vezes esquecem. Com a liberdade, vem o pluralismo. Não é só dizer: "tu és livre de dizer o que é." Há uma velha anedota que se conta que o John Ford, o fundador da Ford, teria dito: "Vocês são livres de pintar os carros de qualquer cor, desde que seja negro, que seja preto". Mas os Fords eram todos pretos. As pessoas podiam pintar, poderia ser em vários tons de preto, eventualmente. Não sei se já havia tintura metalizada naquela época. Isto não é liberdade, a liberdade é pluralismo. Um dos melhores pensadores sobre a liberdade, que é o Isaiah Berlin, sublinha isto muito bem. Há uma coisa que vem com divergência, vem com diferentes pontos de vista, vem com diferentes experiências de vida, vem com tudo. E se nós achamos que todos podem ser livres, desde que não saiam muito na norma, já não estamos a ser livres. Eu acho que deve haver pluralismo. Eu, toda a minha vida, enquanto puder, combaterei as ideias do PCP. Não são só as ideias do PCP sobre a Ucrânia e sobre a Rússia, é aquilo que está no programa do PCP, a concessão de mundo do PCP, aquilo que o PCP quer para Portugal. Eu estou contra isso. Muita gente acha isso uma coisa horrível. Mas eu não tenho nenhum problema em dizer que sou anticomunista. Sou anticomunista e antifascista, sou as duas coisas. E acho que as duas coisas são coerentes. Agora, eu não vou proibir o PCP, eu não vou cancelar o PCP, eu não vou cancelar as pessoas que vão à Festa do Avante. Tu sabes, porque já várias vezes te tenho dito isso, não faço isso todas as semanas, mas com muita regularidade, eu leio o Avante. Eu sei quem o lê todas as semanas, é o Miaças.
Claro.
Mas eu leio o Avante porque quero conhecer, quero saber o que o PCP está a defender e quais são os seus pontos de vista. Porque há muitas pessoas que pensam assim e eu não vou bani-las, nem cancelar.
Queres entender essa parte.
Espero que sejam cada vez menos, porque acho que aquelas ideias fizeram muito mal ao mundo. Mas o facto de eu querer que sejam cada vez menos, não me leva a proibir ninguém ou cancelar ninguém, ou ostracizar ninguém.
Ou ostracizar. Muito bem. José Manuel, já vamos continuar a conversar e peço aos nossos ouvintes que aguardem um pouco para poder participar, porque convidámos também para estar neste Contracorrente, Vasco Sacramento, é da Sons em Trânsito, é uma agência que se dedica ao agenciamento, à produção de espetáculos e também à gestão de carreiras artísticas. Vasco Sacramento, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Como é que assiste a uma polêmica como estas e tudo o que se criou agora em torno da Festa do Avante? Participar num evento destes pode pôr em causa a reputação de um artista?
Eu acho que nós estamos a viver tempos muito bizarros e um bocadinho assustadores, da forma como as opiniões estão radicalizadas, estão extremadas e como a internet também acelera de forma bastante perniciosa e preocupante estes fenômenos de cancelamento e reação a este tipo de coisas. É preciso contextualizar um bocadinho as coisas. Eu, em ponto prévio, também preciso dizer o seguinte: apesar de ser diretor, talvez, da maior agência de espetáculos portuguesa, não tenho nenhum espetáculo marcado na Festa do Avante este ano.
Não tem porque não teve convites para isso, não foi contactado para que nenhum dos artistas que agenciasse pudesse lá estar?
Não. Fui contactado, mas por razões diversas, tem a ver com a gestão de carreira de cada um dos artistas, alguns também por opção ideológica ou por já antever que esse tipo de fenômeno iria acontecer, optaram por não estar presentes, mas o que é certo é que não tenho ninguém. Mas tenho que reconhecer que a Festa do Avante, há bocado perguntava-se na emissão se a Festa do Avante é um festival ou um evento político. Eu acho que é as duas coisas, porque a Festa do Avante é claramente um evento político, isso é inegável, não há como fugir a isso, mas a Festa do Avante representa no imaginário dos portugueses, e particularmente no imaginário da indústria musical portuguesa, foi o primeiro de todos os festivais. Se nós descontarmos o Vilar de Mouros, que teve uma edição errática ao longo dos anos, nunca foi um festival regular. Na minha adolescência, o único festival que existia em Portugal, ou coisa mais parecida com festival que existia em Portugal, era a Festa do Avante e eram dos maiores artistas da época que se apresentavam, quer portugueses, quer os internacionais.
Às vezes era uma das raras oportunidades de ter artistas internacionais a tocar em Portugal.
Exatamente. E passaram pelos palcos da Festa do Avante muitos artistas que estão muito longe de se identificarem com o comunismo ou com as posições do PCP. E também, vamos ser sinceros, as posições do PCP em matéria de política internacional não são as mais liberais, chamemos disso assim, há muito tempo. Eu sou um frequentador regular da Festa do Avante, até por razões profissionais, não vou todos os anos, mas volta e meia vou lá e há muito tempo que o PCP tem uma posição de apoio incondicional ao regime cubano, que a mim me incomoda bastante. Agora, nós temos também que perceber uma coisa, que é: na Festa do Avante há centenas e centenas de fornecedores E um artista não deixa de ser. E se nós queremos acreditar na dignificação da profissão de músico, de artista e na sua independência económica, os artistas não deixam de ser fornecedores da Festa do Avante, como são as marcas de águas, de sumos, de cervejas, de mesas, de palcos, de empresas de som, enfim, de toda uma panóplia infindável de fornecedores que ali estão. E os artistas não percebo muito bem por que são escrutinados de uma forma mais severa que todos os outros fornecedores que ali se apresentam. Depois, nós não podemos esquecer que estamos a sair de dois anos de pandemia e que muitos profissionais deste setor, e não apenas o artista que dá o nome ou que dá a cara ao projeto artístico que ali se vai apresentar, muitos destes artistas representam centenas de profissionais, que passaram, e ainda passam, muitas dificuldades inerentes ao período pandémico. E, portanto, não acho que seja muito sensato estar a atacar violentamente os artistas que decidiram apresentar-se na Festa do Avante. E depois acho também outra coisa, que é: por mais esdrúxula que seja a posição do PCP sobre a matéria da guerra na Ucrânia, e na minha opinião, é de facto, e é uma grande trapalhada em que o PCP se meteu e por mais explicações que dê, nós continuamos a ter alguma dificuldade em perceber muito bem o que é que o PCP quer, ou o que é que o PCP defende sobre este assunto. A verdade é que o PCP não tem uma responsabilidade direta sobre a guerra na Ucrânia, não matou ninguém. E os artistas que ali vão atuar, muito provavelmente a maioria, não sei, não fiz esse estudo, mas a maioria provavelmente não estará de acordo com as posições do PCP sobre a guerra na Ucrânia. Agora, obviamente, e respondendo diretamente à sua pergunta, numa era como a que estamos a viver e com todos esses fenómenos de cancelamento que estão cada vez a ameaçar mais as nossas liberdades, eu acho que é um dos assuntos mais marcantes da nossa época, que exige uma reflexão coletiva mais aprofundada e que nos deve preocupar a todos. Sim, existe de facto um perigo reputacional para os artistas que se apresentarão na Festa do Avante. Aliás, eu estive a ouvir a vossa emissão nos últimos minutos e a opinião claramente maioritária, pelo menos dos ouvintes que vocês foram lendo mensagens, é de uma certa condenação à participação dos artistas na Festa do Avante. Agora, nós também temos que ser um bocadinho coerentes face àquela que é a nossa história recente e nem sempre Portugal tem estado do lado certo da história. Nós fomos o país anfitrião da Cimeira das Lajes e também não nos podemos esquecer disso. E ninguém na altura foi condenado por participar em eventos do PSD ou do Jerónimo de Sousa. Portanto, acho que é preciso ter alguma calma e alguma humildade na forma como se entende isto tudo. Mas por outro lado, também confesso, eu li há bocado, nem tinha lido ainda, mas li há bocado para ouvir a vossa emissão, a reação da artista brasileira, da Bia Ferreira. E também não acho que seja uma posição minimamente razoável, nem minimamente sensata. E o que me preocupa nisto tudo, nestes fenómenos todos, e também no que aconteceu agora recentemente com a embaixada da Rússia e com o Pedro Abrunhosa, que é seu agente, acho que é preciso lidar com isto tudo com muita sensatez e com muito equilíbrio e fazendo um bocadinho eco do que acabou de dizer o José Manuel Fernandes e o Alessandro Mendonça Cristo. Nós temos todo o direito a criticar as posições dos outros e escrutinar as posições dos outros, mas acho que temos que ter alguma cautela pra não ostracizar ninguém, até porque isso está a entrichearar cada vez mais as pessoas. Estamos a criar dois blocos, não só em assuntos de matéria política e política internacional como é este, mas até em assuntos mais ligados aos costumes, à moral, às questões identitárias, e que estão a extremar cada vez mais posições e nada de bom vem quando se opta por esse caminho.
Cautela e bom senso. Vasco Sacramento, até por todo este caldo que está aqui a descrever e que estamos a analisar, aconselharia um artista que tem agenciada tornar pública a posição que tem sobre a guerra?
Acho que dependendo muito do artista, não se pode generalizar. Acho que os artistas devem tomar posições públicas sobre os assuntos que os incomodam, sempre que acham que essa sua divulgação pode ser útil. Acho que os artistas têm uma tradição muito grande de estarem ao lado de causas sociais, políticas, etc. Ao longo da história, não só em Portugal, mas como no mundo inteiro. E eu acho que isso é muito importante e foi muito importante sempre. Por exemplo, em vários países, em várias ditaduras. Estou me a lembrar das ditaduras sul-americanas, estou me a lembrar do caso de Portugal, de Espanha, enfim, de muitos países e também nos países do antigo bloco leste, nos antigos países comunistas da Europa Oriental, em que a comunidade artística sempre manifestou a sua opinião e sempre foi líder na concessão ao regime, também em Tiananmen, na China, e por aí fora. Portanto, eu acho que os artistas devem participar e não se devem coibir de dar a sua opinião, porque um artista também não pode ser um ser acrítico, um ser neutro. Quer dizer, não pode ser uma marca comercial, senão perde alguma alma. Há artistas mais preparados para o fazer, também do ponto de vista teórico e do ponto de vista retórico, que estão mais preparados para o fazer, e há outros que obviamente estão menos. E também têm o direito de estar menos e têm o direito de ser menos sensíveis a esse tipo de assuntos. Por exemplo, eu gosto de dizer que sou agente do Pedro Abrunhosa há 13 anos e por mais que eu quisesse proibir .
Não conseguia.
Não iria conseguir e ainda bem, porque é verdade, o Pedro Abrunhosa é o ADN dele.
Vasco Sacramento, muito obrigada por ter conseguido estar no Contracorrente da Sons em Trânsito, a agência que produz espetáculos, faz gestão de carreiras artísticas. Sobre isso mesmo que falamos aqui no Contracorrente, em que partimos do caso Abrunhosa e do caso de Festa do Avante para perceber que escrutínio é que pode ou deve ser feito nestas matérias. Pedro Cardoso, bom dia. É responsável operacional e liga de Lisboa. Qual é a sua opinião? Bom dia.
Bom dia. O agente do Pedro Abrunhosa disse algumas coisas com coragem, agora no fim da entrevista dele, que tocou muito ao de leve numa forma mais honesta de ver o problema. Eu parto aqui da minha opinião desta maneira. Eu toda a vida disse que tenho 48 anos, disse que nunca fui de esquerda nem de direita, mas tenho valores que podem ser considerados tradicionais, republicanos, mais conservadores. Não quer dizer que tenha tido uma educação rígida ou nada desse gênero, mas, sem dúvida, sou mais conservador relativamente a algumas coisas. Mas existem coisas que são profundamente chocantes, que a nossa sociedade está a caminhar cada vez mais para isso, e as pessoas estão distraídas, estão atentas a outras coisas, estão com um nevoeiro muito grande, porque estas coisas não são esclarecidas.
O que não estamos a ver então, Pedro?
A questão que eu ponho aqui é: o Partido Comunista sempre teve uma postura contra os Estados Unidos, contra a NATO, contra uma série de intervenções feitas pelo Ocidente em determinadas zonas do globo, que a nossa sociedade ocidental nunca julgou ou nunca criticou tão veemente como está a criticar neste momento a atitude do senhor Putin. Eu não estou aqui, de maneira nenhuma, a defender a ação agressiva e beligerante do Putin. O que eu estou a dizer é que existe uma hipocrisia muito grande, e os artistas metem-se nestes embrulhos. Alguns talvez com interesses económicos, outros com interesses políticos, outros com interesses só de passar uma mensagem. Não vou falar no Pedro Abrunhosa, porque o Pedro Abrunhosa, esta é a minha opinião pessoal, é um bocado um cata-vento, é cultura pop, tudo que seja mainstream, ele está lá. O problema é que isto não pode ser visto dessa forma como mainstream. Há muita informação que não é passada, há muita coisa que não se sabe. Nós ouvimos apenas o que passa no mainstream da comunicação social, até por ordem da União Europeia. Isto é, não temos acesso à informação em mainstream, que seja bombardeada todos os dias. Não existe um ataque contra a informação relativamente ao mainstream da informação. E depois caímos nestes erros de estar a julgar um ato que deve ser julgado, sem dúvida, mas não podemos deixar de dizer que é uma hipocrisia gigantesca, porque realmente o Ocidente... Durante muito tempo se falava no eixo do mal. O eixo do mal somos nós, o eixo do mal é o Ocidente. O Ocidente, com o seu poder, com a sua economia, com o seu capitalismo carnívoro, tem provocado estes problemas no mundo ocidental.
Há muitas contradições no mundo ocidental. Pedro Cardoso, muito bom dia, muito obrigada.
Obrigado, bom dia.
Bom dia. Deixe-me passar ao próximo ouvinte, que aguarda também para participar e que está no Porto, o empresário Nuno de Sousa. Bom dia.
Olá, muito bom dia. É um gosto falar convosco. Eu gosto muito de vos ouvir, apesar de não ter muito tempo, porque temos que trabalhar bastante neste país para alimentar uma certa corja de artistas. Quando digo artistas, não é os músicos, é uma gente que se abeira da riqueza de quem trabalha. E de facto, vêm aqui alguns mandar uns bitaites, sempre tipo uma serpente. Gostam do preto, mas também gostam do branco. Não dizem mal do preto porque estão de bem com o branco. Isto é uma coisa que a sociedade exige. Estamos no momento em que a sociedade exige mesmo de todos nós saber o que querem para si, para a sua família, para os seus amigos, para uma sociedade. Chegou o momento de dizer: "Eu gosto do Putin" ou "Eu não gosto do Putin". "Eu estou de acordo com a matança ou não estou de acordo com a matança." "Eu estou de acordo com a destruição ou não estou de acordo com a destruição." "Eu estou de acordo com a liberdade ou estou de acordo com estes encapotados Que dizem que gostam da democracia e que gostam disto e daquilo, mas na verdade eles não gostam. E é o caso que eu quero aqui dizer. Eu peço que me deem um bocadinho de atenção que eu vou tentar explicar dando umas pinceladas do que eu penso. Eu não estou absolutamente nada de acordo com aquelas pessoas que tentam andar disfarçadas na sociedade. Fala-se aqui que estamos a chegar a um ponto de extremar as coisas. Não estamos a extremar nada. Por exemplo, eu já fui bloqueado vários dias por uma rede social por dizer que o PCP é uma organização criminosa disfarçada de um partido político. Fui bloqueado 20 dias. Eu fui bloqueado por dizer que o senhor Putin é um assassino sanguinário. Parece que não, que as pessoas andam distraídas, mas é a sétima guerra que ele faz. Gosta de matar, é um assassino que gosta de matar. E depois temos em Portugal uma classe política covarde, vagabunda, que está na Assembleia da República muitos deles, e que permitem que num país livre como o nosso, onde nós gostamos da democracia, e eu só falo assim, porque vivo em democracia, porque se vivesse na terra do senhor Putin, eu era preso uns segundos depois, porque eles têm gente a espiar por todo lado. Se eu estivesse na Coreia do Norte ou estivesse na China, estão a ver o que me acontecia. Portanto, eu só quero que as pessoas percebam que viver em democracia é realmente falar e trabalhar em função de lutar por isso mesmo. Não é viver aqui caladinho. Estão a criticar o Pedro Abrunhosa, de quem eu não sou fã de maneira nenhuma. E se alguém que não é de direita é ele. Então o senhor Pedro Abrunhosa tem toda a razão, ele está num país livre, tem direito a dizer que o senhor Putin é um vagabundo. E depois é ameaçado dentro da nossa nação, por esses vagabundos lá da Rússia que estão ao serviço de um povo criminoso. Resumindo, queria dizer isto e peço desculpa pela forma acintosa que eu estou a falar. Eu não quero estragar o vosso programa, mas nós chegamos aqui a um momento muito importante. O mundo está num perigo total. Temos a avalanche vermelha que está realmente a tomar conta. Reparem bem, quem é que está de acordo com o senhor Putin ou que não deixa dúvida sequer de que está contra? Sem deixar dúvida, está com ele. Vejam bem o que ele está a fazer a milhões de pessoas na África que estão a morrer de fome, só porque esse senhor está a destruir a possibilidade de enviar para lá alimentos.
E por isso, Nuno de Sousa. Sim, mesmo numa frase, por favor.
Peço desculpa. Eu queria dizer então para que as pessoas percebam bem aquilo que eu quis dizer. Diz o povo, muito sabiamente, que tão ladrão é o que vai à horta como aquele que fica à porta. E o PCP tem sido aquele que fica à porta do assassino Putin e da sua nação. Muito obrigado.
Obrigada, Nuno de Sousa. Portanto, a dizer que esta discussão que estamos a ter agora está nos termos corretos. O momento é clarificador. Rui Alves, em Lisboa, engenheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Rui Alves.
Muitas vezes as pessoas esquecem-se de uma questão central nisto. A Festa do Avante é um evento de angariação de fundos de um partido político. E as pessoas esquecem-se disso. Quando lá vão, ou tudo aquilo que roda ali à volta, tem a ver com financiar um partido político. Como tal, não pagam impostos, o que é extraordinário. No fundo, aquilo é um evento cultural, uma festa, o que quer que seja, mas depois há a sombra de um evento político de forma a não pagar nem IVA nem outras coisas. Nem os lucros sobre este tipo de evento. Depois eu noto agora uma diferença enorme, quer dizer, aqui há 10 anos o que está agora a discutir era impensável. Havia uma certa tolerância, quase um fechar os olhos à parte da questão da falta de liberdade que a ideologia do Partido Comunista encerra. E depois também havia uma espécie de apartheid cultural ou uma discriminação relativamente aos artistas que não se afirmavam de esquerda. Quer dizer, eles não eram convidados. Eu acredito que muitos deles, para terem trabalho, encostavam-se à esquerda só para terem trabalho. Muitos deles eu acho que nem sequer de esquerda eram. Tudo isto para dizer que eu fico contente que a sociedade portuguesa discuta e as pessoas são livres de tomar as opiniões que entendam, mas esta questão que seja posta claramente preto no branco, quais são as diferenças entre ir e não ir, o que isso significa. E portanto as pessoas depois tomam as suas opções. Muito obrigado e bom dia. Bom trabalho.
Muito obrigada, nós aqui agradecemos, Rui Alves, por deixar também a sua mensagem e a sua opinião. Agora, a da Silvia Osório, que está em Vila do Conde. Silvia Osório é assistente administrativa na área da saúde e agora está no Contra Corrente. Bom dia.
Olá, muito bom dia. Antes de mais, bom dia a todos e agradecer a oportunidade de poder falar. Começo desde já por pedir desculpa, que não será nem de todo tão profunda, nem tão acutilante quanto os oradores anteriores, mas que eu gostaria também de partilhar. Há vários assuntos que eu gostaria de abordar. Primeiro, relativamente ao artista Pedro Abrunhosa. Eu acho que o Pedro Abrunhosa foi igual a si mesmo. Eu sou da geração do primeiro trabalho dele com os Bandimónio, que foi o álbum Viagens, e todos nós íamos aos espetáculos do Pedro Abrunhosa cantar a já famosa música que o próprio José Milhazes também fez questão de chamar, e que era um hino anti-cavaquista, e que todos nós ouvíamos e cantávamos e não fazíamos a mínima ideia do que é que estávamos a dizer, mas acompanhávamos durante os concertos. E portanto, ele está a ser igual a ele próprio e mais nada. E portanto, aqui não há novidade nenhuma e não percebo o porquê de empolar toda esta situação, a não ser no fato de ter havido depois a resposta que houve
Por parte da embaixada da Rússia. Esta é uma primeira questão. O Pedro Abrunhosa ser o Pedro Abrunhosa, não percebo a novidade aqui. Agora, de fato, a questão da festa do Avante e do PCP. O PCP é visto pelo tuga médio, pelo tuga que sai de casa e vai trabalhar e paga as suas continhas, como a bandeira histórica que carrega em si, ou seja, todo o contributo que deu na luta contra o regime ou contra o Estado Novo, todas as lutas e batalhas e tudo o que houve. Carrega ainda em si todo esse legado histórico de luta durante o regime. Todos nós olhamos para o PCP de forma muito benevolente. Nós não percebemos o que o C do PCP quer dizer. O C quer dizer comunista. Há uma falta de cultura histórica no povo português, que não nos é dada ou abrangida na escola, sobre o que é o comunismo. Ninguém sabe, ninguém percebe, ninguém conhece a história da Rússia, ninguém conhece a história do stalinismo, do comunismo. É tudo muito superficial, tudo muito ao de leve e ninguém entende a carga negativa que o C do PCP acarreta. Todos nós olhamos para o PCP e agradecemos, muito obrigada por todas as lutas, e esquecemo-nos do C e o que isso quer dizer. Chegamos agora a uma fase em que fomos confrontados com o C do PCP, fomos confrontados com o comunismo e com a aceitação de todas aquelas políticas e todas as abordagens autoritárias e terroristas que são tomadas pelo C do PCP. Depois, um terceiro assunto, que tem a ver com os artistas que vão ao Avante. Qual é o assunto? Eu peço desculpa, mas realmente, os artistas vão porque lhes pagam, porque têm que ser pagos, porque têm contas para pagar, porque têm famílias. Ninguém pergunta ao senhor das bifanas por que ele está lá. Ninguém pergunta à empresa que fornece a cerveja por que está lá. Agora, os artistas vão porque lhes pagam e têm contas para pagar. É uma coisa, ok. Agora, os artistas virem nas suas redes sociais, como essa artista que eu não conhecia, brasileira, a dizer que de repente somos todos confrontados, aí já entramos numa segunda questão dos artistas, que é inegável toda a influência que todos os artistas têm na formação da opinião das massas. E aí nós questionamos. Ainda não há muito tempo, o próprio Observador fez aqui um contra corrente acerca da campanha que está a ser agora desenvolvida pela Fox. Certo? E por quê? Porque é um meio de entretenimento que nós usamos todos os dias à noite e que de repente estamos a levar com informação, ou formação, ou educação, conforme eles a querem mascarar, mas que não é uma coisa que nos é natural e que nos está a ser enfiada goela abaixo. Esses artistas que são entretenimento, que nós consumimos e que nós apoiamos, de repente aproveitam para revelar aqui também pontos de vistas que nos chocam. E é importante, de fato, perceber que nós vamos assistir a um determinado espetáculo de um artista, vamos para ver o trabalho daquele artista. Não vamos para ouvir a opinião. Se no meio daquele trabalho, na apresentação daquele espetáculo, há por trás mensagens subliminares dessa tal educação que de repente estamos todos a precisar, então aí, calma! Já temos que avaliar as coisas de outra forma. Porque é uma artista que é brasileira, porque nós, neste momento, os nossos jovens, as nossas crianças e por aí fora, consomem muito tudo que é artista brasileiro e de repente estamos a ser inundados por problemas que estão, e são de fato cruciais na sociedade brasileira, mas que de repente passam a também a ter espaço aqui. E nós não estamos muito bem a perceber de onde é que isso vem.
Silvia, temos que terminar. Peço desculpa.
Eu entusiasmei-me e penso que como começou a conduzir, não tinha onde apontar os temas que queria abordar.
Mas abordou aqui muitos temas e agradeço por isso, mesmo conduzindo em alta voz. Deixou aqui a mensagem. Bom dia, Silvia Osório, e bom dia também à jurista Maria Maceira, que liga de Lisboa. Bom dia.
Bom dia. Obrigada pela oportunidade. Queria saudar a Silvia, que apesar de se terem entusiasmado um pouquinho do programa, ou seja, do tema, mas todos fazem parte da mesma coisa e realmente devíamos debater mais o que a Fox nos está a servir. Com aquela vozinha de quem está a ensinar crianças que só têm cinco anos, e se calhar é onde pretendem chegar em primeiro lugar, nos vão dizendo o que é o LGBTQI. "Sabes? Aprende mais. Aprender é um dever." Realmente, ela tem razão.
Indo ao tema de hoje, também, Maria Maceira, estamos com tão pouco tempo.
Pronto. Peço desculpa pela vozinha, mas não consegui. Em primeiro lugar, queria dizer que atacar violentamente é sempre errado. Podemos sempre dialogar. Mas estou inteiramente de acordo com o que disse a Madalena Correia de Sá já há um bom bocado. Eu costumo ouvir as intervenções dela Atacar violentamente é sempre errado, mas ver aquilo que estamos a sofrer por parte do regime de Putin. E estamos a sofrer quem? Todos aqueles que vivemos em liberdade. O poder da música, que é exatamente aquilo que estamos aqui agora a discutir, é indubitável e foi sempre utilizado. Basta lembrar dos cantores de intervenção, das baladas que há tantas já se ouviam, há as não ouviam, e do poder que tiveram no derrube do chamado anterior regime. Mas é um anterior regime já tão antigo que o atual já é mais velho do que o tempo em que nele se viveu. O regime de Putin, e aqui eu tenho que separar o povo russo do regime de Putin. Eu costumo dizer que o povo russo é um desgraçado como povo, porque quando da Europa, que na minha opinião em Portugal nunca houve feudalismo, eu sei que é polêmico, mas na Europa houve, e quando saímos da Europa, Ivan, o Terrível, instituiu um feudalismo absolutamente brutal. As pessoas, como aqui, tinham cabeças e têm cabeças de gado, lá possuíam almas e eram os mujiques. E depois passaram a camaradas e ficou tudo igual. De liberdade e felicidade, o povo russo adorava que mostrassem onde está, mas creio que nada têm. Os seus dirigentes, eu separo-os aqui do povo, demonstram orgulho em reconhecer apenas a lei da força. E se isto não é um retrocesso civilizacional absolutamente inominável, eu não sei o que é. Porque se é um lugar comum dizer-se que a guerra é a continuação da diplomacia por outros meios, vai o Putin e sequazes demonstrar, pela boca de Lavrov, que as leis internacionais, os acordos e tudo aquilo que faz com que nós possamos viver em sociedade e nos faz ter evoluído de animais selvagens para o que somos hoje, para eles são letra morta.
Maria Maceira, não a querendo acelerar, mas pedindo mesmo, como é que depois isto se traduz na forma como os artistas participam ou não na Festa do Avante?
Eu disse ainda há pouco, o poder da música é indiscutível. Tivemos em Portugal esse exemplo e nós temos que ser coerentes. Não é ter informação mainstream ou não. Nós sabemos, e como dizia a poetisa: "Aquilo que eu vi, aquilo que eu ouvi, não posso ignorar". Nós sabemos e vemos que aquilo é um povo que estava a tornar-se mais próspero e que foi brutalmente invadido, sabemos. E, portanto, o poder da música é um poder político, não há dúvida. E nós temos que ter coerência e temos que ser solidários. E se não concordarmos com a brutalidade a que está a ser sujeito o povo ucraniano, não vamos, com certeza, dar a nossa presença, a nossa face, o nosso apoio. Eu já sei que o senhor das bifanas e o senhor não sei o quê, também têm família. Eu sei, mas as empresas que saíram da Rússia marcaram uma posição e também tinham muitos trabalhadores. Eu própria, quando não gosto, e com certeza a Carla quando não gosta de uma pessoa, não frequenta a casa dela. Não lhe vai bater, não a vai insultar, estou contra isso, mas frequentar a casa dela não legitimo com a minha presença. É disto que se trata. Opções, não legitimar com a sua presença e ter claro que a guerra do povo ucraniano, a sua heroica resistência e a nossa proteção. Há o artigo 2014 de Putin, agora esqueci-me do nome da cidade russa. É mesmo aborrecido. Vladivostok.
Vladivostok.
Vladivostok a Lisboa. Ele não vai parar porque ele odeia a liberdade, odeia a prosperidade, odeia a capacidade de iniciativa e a realização pessoal. Peço muita desculpa se me alastrai, mas na realidade são tudo faces da mesma moeda. Até mesmo a campanha da Fox, por onde comecei. O que não é aceitável é o insulto e a força. É o insulto e a força que o Putin nos tem demonstrado de uma forma bárbara. É esta a minha opinião. Bom dia a todos. Obrigada pelo vosso programa.
E muito obrigada por ter participado. Até à próxima, Maria Maceira, com esta ideia. José Manuel Fernandes, muitas opiniões. Ouvimos aqui muitas posições. Esta será a Festa do Avante mais política dos últimos anos, depois de tudo o que ouvimos.
Penso que sim, mas não acho mal. Penso que sim, porque de facto esta Festa do Avante tem características. Quer dizer, as posições do PCP em muitos aspetos não são novas e eu diria que até neste caso concreto, houve uma preocupação de as moderar, de as enquadrar, de as expor. Simplesmente, com a geringonça, houve uma espécie de lavagem do PCP. O PCP foi visto como sendo um partido normal, no sentido de ser um partido democrático, iguais aos outros. Agora, o PCP tem características. Primeiro, o PCP continua a afirmar-se como um partido revolucionário. O que isto quer dizer? Um partido revolucionário é um partido que quer substituir o atual regime. O PCP fala muito da Constituição, mas quem lê as obras do Álvaro Cunhal e quem lê inclusivamente os livros que foram escritos sobre por que o PCP defende a Constituição, nomeadamente um livro de alguém que foi durante muito tempo dirigente do PCP, muito próximo de Álvaro Cunhal, um livro chamado "As Sete Vidas de Álvaro Cunhal", do Carlos Brito, percebe que O amor pela Constituição do PCP não é um amor pela Constituição, é um amor por uma trincheira onde o PCP se pode agarrar para manter determinado tipo de posições para um dia poder, como eles dizem, superar a sociedade em que vivemos. Portanto, isto não é próprio de um partido democrático, de um partido que defenda a democracia, de um partido que tem outras ideias. Não ligamos muito a isso, há tendência para não ligar muito a isso, porque vivemos num tempo em que não se olha muito para o problema dos partidos, para as suas ideias profundas e por isso normalizou-se muito o PCP. Há até uma colunista que diz que cada vez que se compara o PCP a um partido antidemocrático, há um passarinho que morre.
Morre uma andorinha.
Morre uma andorinha, mas coisa assim do gênero. Eu acho que a vantagem do que se está a passar agora com esta discussão é perceber melhor a verdadeira natureza do PCP, que tem pouco a ver com os princípios que aparentemente o partido defende, mas com uma ideologia que está bem estudada, que se sabe aquilo a que conduziu, de que nós continuamos a ter exemplos. Não é por acaso que de vez em quando as pessoas dizem que sabem pouco sobre o Holocausto. A atual diretora do Museu do Holocausto, Rita Rato, a certa altura perguntaram: "E então e o Gulag?" "Ah, li pouco sobre isso." Não é por acaso que houve agentes do PCP que disseram que tinham dúvidas sobre a Coreia do Norte. Isto faz parte da sua própria natureza, da sua maneira de ver o mundo, da sua forma de pensar. O facto de disfarçarem essa forma de pensar para fazer política não evita que continuem a pensar da mesma forma. É bom que haja esta discussão, porque nós percebemos melhor qual é a verdadeira forma de pensar do Partido Comunista.
E por isso o debate faz sentido. Ainda estamos a mais de um mês da realização da Festa do Avante. Vamos ver como evolui esta discussão. José Manuel Fernandes, até amanhã para estares contra corrente.
Até amanhã.