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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta segunda-feira. Depois, pra entrar em direto, só tem que ligar pra nós: 910 002 4185, número que também pode usar pra nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. Se preferir, deixe os seus comentários nas redes sociais ou no site do Observador. Carla. No final da semana passada, a Espanha e o mundo foram surpreendidos por uma vaga humana que se lançou ao mar para chegar a Ceuta, o enclave espanhol no norte de Marrocos. A invasão de imigrantes, a maior parte homens jovens, mesmo que seguida pelo regresso da maioria ao país de origem, reabriu as feridas europeias e mostrou o grau de divisão que as políticas migratórias geram, com 22 chefes de governo a criticarem as opções espanholas numa carta enviada a Bruxelas. É tudo isso que vamos debater no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Antes de tudo, já percebeste como foi possível aquela vaga humana?

Acho que aquilo que aconteceu são aqueles fenômenos que às vezes acontecem, muito gerados pelo efeito cópia na internet. Não creio que tenha havido aqui uma conspiração, muito menos uma conspiração com a extrema-esquerda espanhola, a Esquerda Unida, que é o Partido Comunista da Espanha, mais o Podemos e essa gente que acharam que isso tudo era uma provocação, não apenas de Marrocos, mas de Marrocos, dos Estados Unidos e de Israel. Tudo junto ali pegando os miúdos com camisolas do Messi e do Ronaldo e mandá-los para a praia de Ceuta. O que aconteceu, aliás, há uma reportagem que está agora publicada no Observador, da Inês de André Figueiredo e do João Porfírio, que estão lá, falaram com muita gente e eles contam aquilo que já se podia suspeitar, que é: há muita gente que começou a ver vídeos virais nas redes sociais. É fácil perceber como é que os vídeos se tornaram virais, porque aquilo rapidamente foi reproduzido em todo o mundo, e chegaram o mais perto possível àquela fronteira e passaram. A ideia que foi uma conspiração marroquina com o rei a celebrar o aniversário da sua ascensão ao trono no dia que era feriado, é um bocadinho surreal. E a ideia que só os policiais marroquinos é que estiveram indiferentes, é ver as imagens e ver o que fizeram os policiais espanhóis, que também não fizeram nada. Portanto, o que aconteceu, caramba, é muito o efeito de aquilo, Ceuta, tal como Lilla, são portas de entrada possíveis na Europa e estão sempre sob pressão de quem vem do sul. Eu digo quem vem do sul, porque não são só marroquinos. A maior parte dos que ficaram e não regressaram a Marrocos são pessoas que não são de Marrocos, ou pelo menos uma parte muito substancial. Também é ver as imagens que nós temos daqueles que estão a dormir nas zonas do centro de acolhimento de imigrantes, porque há um centro de acolhimento de imigrantes em Ceuta. São centenas, serão muitas centenas, talvez mais de mil, e a maior parte deles são da África Subsaariana, portanto, não são propriamente ali apenas da zona do Atlas. Ora bem, por que estas pessoas estão a tentar entrar por ali? Porque creio que houve seguramente algo associado àquela sentença do Supremo Tribunal, algo associado a essa sentença não ter gerado nenhuma medida preventiva. Em Portugal, temos um ditado que diz: "depois de casa assaltada, trancas a porta". Pois é isso que agora o governo espanhol está a fazer, porque está a pôr uma barreira flutuante naquela baía pra evitar que se passe a nado. Quem já viu as imagens, quem já viu os mapas, percebe que passar a nado nem sequer era preciso ser um grande atleta e de fato era fácil fazê-lo só com uma boiazinha e batendo os pés. Portanto, o evento não correu bem a todos. Talvez tenham morrido 100 pessoas. Pelo que eu percebi, há 11 do lado marroquino, 88 nas morgues de Ceuta, portanto, estamos perto de 100. Isto é também um sinal, por um lado, daquilo que nós sabemos que existe, que é uma grande pressão do sul do Mediterrâneo sobre a tentativa de chegar ao norte do Mediterrâneo, de chegar à Europa. E, por outro lado, a porta de entrada de Espanha tem vários orifícios, eu diria. Por um lado, tem políticas que já vêm muito de trás e são muito controversas e que, mais uma vez, vão muito porventura voltar a gerar problemas que têm a ver com os chamados menores não acompanhados. Portanto, os que chegam e são menores de idade, não são devolvidos aos países de origem, são redistribuídos pelas várias províncias espanholas, o que tem gerado uma enorme controvérsia. Isto não é um tema de Ceuta, foi durante muito tempo um tema sobretudo das Canárias. E depois tem outra questão que, podendo não ser o efeito imediato, o efeito do dia anterior, mas que cria uma cultura que permite que isso aconteça, que foi esta regularização extraordinária de imigrantes, que o governo espanhol disse que era pra 500 mil. O último número que eu li já é acima de um milhão e 100 mil, e isto criou um enorme alvoroço na Europa, porque contraria as políticas europeias. Espanha conseguiu levar isto por diante porque é um grande da Europa, mas agora que ficou apanhada em contrapé, percebeu-se muito bem o desconforto da maior parte dos países europeus. Estamos a falar de uma carta de 22 chefes de Estado e de governo enviada para Bruxelas e que suscitou uma reunião dos ministros da Administração Interna que terá lugar amanhã em Bruxelas. Uma reação violentíssima de Sánchez, o que mostra um grau de isolamento relativamente à esmagadora maioria dos líderes europeus. E atenção, hoje em dia, praticamente não há socialistas à cabeça de governos europeus, mas mesmo o socialista que há, que é da Dinamarca, também lá está a assinar a carta. Há países que não estão, Portugal não está, França também não está Mas quer Portugal quer França tomaram medidas nas fronteiras ou pelo menos disseram que iam tomar medidas na fronteira. Isto é também algo que merece ser discutido, porque tem muito a ver com a forma como Pedro Sánchez se tem aguentado no poder, mesmo podendo criar problemas a outros. Portanto, dito isto, é de facto um drama para muita gente, um drama para aqueles milhares que atravessaram. Alguns até foram só para ver o que era, admito eu, alguns dos mais novos, viram ali uma oportunidade: era um dia feriado em Marrocos, vamos lá tentar. Mas há ali gente que já tentou muitas vezes, vai continuar a tentar e é um sinal de que ou respeitamos as fronteiras, e isso é muito importante, ou defendemos as fronteiras, ou podemos ter depois a seguir outras crises em catadupa. As fronteiras não são apenas para afastar indesejáveis. As fronteiras são uma forma de uma comunidade política se organizar num espaço seguro e confiável. E há quem pareça esquecer-se disso e acha que isto tudo é algo diferente. Vamos falar um pouco sobre isto tudo, porque além das questões de exatamente o que se passou, há outras questões políticas que têm a ver com políticas de imigração e políticas europeias que estão neste momento em cima da mesa e que são sempre discussões difíceis, complicadas, mas que se não as tivermos, podemos ter não apenas a repetição de mais problemas como estes. A pressão, por exemplo, nestes últimos dias sobre o muro de Melilla é gigantesca, tem sido gigantesca. Não só vamos ter mais problemas como este, como isso depois também tem consequências sociais e políticas um pouco por toda a Europa. Muito para discutir, portanto.

Pois é. Até já, então, José Manuel. Faça parte do Contracorrente, ligue 91 002 41 85 e entre em direto logo a seguir ao jornal das 10. Se não puder, envie-nos a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou deixe os seus comentários nas nossas redes sociais ou no nosso site.