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É altura de conhecermos o tema do Contracorrente desta sexta-feira. Para participar, dar a sua opinião em direto, só tem de ligar 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. Carla. Tivemos a mais longa maratona de debates, tivemos o maior número de candidatos. Vamos ter um boletim de voto onde estarão três nomes que nem sequer chegaram a ser candidatos oficiais. Andamos há semanas a seguir os candidatos num roteiro onde quase já nem há comícios de antigamente a fechar o dia. Tivemos menos sondagens do que tem sido habitual, mas muito mais discussão sobre sondagens. E chegamos ao fim desta maratona com, dizem essas mesmas sondagens, mais indecisos do que é habitual. Quando se previu que desta vez haveria de novo uma segunda volta, previu-se que podia ser uma corrida capaz de fazer lembrar a histórica eleição de 1986. Mas será que estas duas eleições são sequer comparáveis? Este é o ponto de partida para um Contracorrente, onde vamos colocar um ponto final nas nossas discussões sobre esta primeira volta. José Manuel, começando precisamente com essa comparação com 1986, tu fizeste essa campanha, andaste na estrada. Estamos a reviver momentos históricos comparáveis? Bom dia.

Bom dia. Olha, Carla, acho que pode ser que estejamos, mas só depois dos resultados. As previsões são no fim do jogo, como se costuma dizer. Mas há algumas coisas novas que aconteceram, há enormes diferenças. Eu diria que as principais diferenças têm a ver com o teor dos debates e aquilo que está em causa. Nós tivemos, em 1986, sobretudo umas chamadas primárias à esquerda, que foram muito importantes para aquilo que viria a ser a esquerda nos anos subsequentes. Portanto, para o regresso do Partido Socialista como o grande partido do centro-esquerda, era algo que estava em dúvida antes dessas eleições presidenciais. E agora, apesar de isso nunca ter sido assumido com clareza, está a haver uma luta muito indefinida à direita e que não sabemos bem ainda como é que vai terminar. Esperava-se que o partido tradicional da direita, o PSD, viesse a ser, de alguma forma, o vencedor indireto da eleição. Tudo indica que isso não vai acontecer e poderá acontecer uma reconfiguração da direita, que neste caso é muito significativa por causa de ser ela que está no poder. Portanto, aqui há uma semelhança. Tudo o resto é diferente. É diferente na qualidade dos candidatos, é diferente no estilo de campanha, é diferente no papel que a comunicação social desempenha, é diferente no ritmo. Dir-se-ia que hoje é tudo muito mais frenético, mas eu vou explicar porque é que, de alguma forma, não é. É muito mais frenético para as televisões do que frenético no terreno. E também há grandes diferenças no que respeita ao conteúdo do debate. Tivemos debates desta vez que foram, em muitos aspetos, debates entre candidatos a primeiro-ministro do que candidatos presidenciais. O quadro internacional é muito diferente, muito relevante e muito ausente. Portanto, não foi uma campanha eleitoral que, em muitos aspetos, eu creio que fique na memória pelas boas razões, talvez fique mesmo na memória pelas más razões. Há outra enorme diferença que são as sondagens. Não havia sondagens em 86. Desta vez houve menos sondagens do que o habitual, mas uma discussão sobre sondagens que eu não me lembro de ter visto em nenhuma outra campanha anterior a esta. E, portanto, foi uma campanha que, em muitos aspetos, vai ficar agora à espera de outro elemento importante para perceber até que ponto ela mexeu com o país, que é o grau de participação. A última eleição, que decorreu numa circunstância especiais, estávamos no meio da pandemia, teve uma participação baixíssima, era também uma eleição decidida à partida, era uma reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa. Agora é tudo muito diferente, mas vamos ver até que ponto essa diferença se verificará nas urnas. Portanto, vamos tentar fazer não apenas essa comparação, mas uma viagem para perceber até que ponto é que o país é diferente e até que ponto é que as preocupações também são diferentes. Acho que vale a pena. Nós tivemos recentemente um podcast sobre o que é que foi essa campanha de 86. Até fizemos aqui um Contracorrente também sobre esse podcast, recordámos um bocadinho o que tinha sido também a minha experiência, mas agora mais do que isso, é comparar tempos, comparar países, comparar candidatos também e comparar o caminho que a política pode estar ou não a levar em Portugal.

O único dado que pode ser comum é o facto de quase de certeza termos uma segunda volta, não é?

Isso é garantido. A segunda volta é garantidíssimo. Vamos ter uma segunda volta, provavelmente uma segunda volta que terá uma componente parecida, repito provavelmente, tipo esquerda/direita, mas com outros ingredientes que são radicalmente novos. Para além disso, olhando para, por exemplo, tendo estado ontem a ver o que foi a cobertura televisiva do último dia de campanha, enfim, do penúltimo dia de campanha, hoje não há dia de campanha, é incomparável, não tem nada a ver. Na altura também só havia um canal de televisão, que era a RTP. Agora temos quase que se perde a conta. Não havia redes sociais, há tanta coisa que é diferente. E às vezes nós passamos a vida a queixar-nos, a dizer que a política é pior. Vamos discutir isso, é pior ou melhor. É um tema que também é interessante ver.

Fica esse exercício e esse balanço no último dia de campanha para as presidenciais, pelo menos da primeira volta. Até já.

Até já.

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