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Hora de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no Contracorrente desta sexta-feira. Para participar e dar a sua opinião em direto, só tem de ligar 91 002 41 85, ou enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número, 91 002 41 85. Carla. A Colômbia elegeu esta semana um presidente de direita, afastando a esquerda do poder. Esta semana também se confirmou a vitória da direita no Peru, depois de outras vitórias eleitorais de candidatos da direita, primeiro na Argentina e depois no Chile. Tudo isto numa altura em que o regime cubano está cada vez mais isolado e as dificuldades são tão grandes na ilha que o presidente Díaz-Canel anunciou um pacote de reformas liberais pró-capitalistas. O que se está a passar na América Latina? É apenas um movimento pendular da política ou é mais do que isso? É o que vamos tentar perceber no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Olhando para esta parte do continente, pelo menos as coisas parecem não estar a correr muito mal a Trump.

De facto, Trump, como te recordarás, quando divulgou a sua orientação estratégica, falou numa espécie de doutrina Monroe 2, ou doutrina Trump, ou coisa desse género, no sentido de ter muito foco na América Latina. E isso também coincide com o facto de ter um secretário de Estado, Marco Rubio, que é de origem cubana e que, quando foi senador, teve um grande conhecimento nas relações externas, particularmente com a América Latina. Mas aquilo que está a acontecer penso que em muitos aspetos é anterior e deriva de questões endógenas de cada um daqueles países. Para dar só um exemplo, a América Latina tem 8% da população mundial e metade dos crimes violentos, dos crimes de homicídio de todo o mundo. Portanto, é uma região verdadeiramente mergulhada numa violência sem paralelo em nenhuma outra região do mundo. As cidades mais violentas do mundo ficam praticamente todas na América Latina e a esquerda que esteve no poder em muitos destes países assistiu a uma degradação da situação durante os últimos anos. Além de que a questão económica também pesa e em alguns países houve desastres económicos que a população, os eleitores, querem de alguma forma reverter. E por isso não surpreende muito que líderes com características diferentes, eles não são todos iguais. Milei é muito diferente de todo o resto, porque é o único verdadeiramente libertário, digamos, neles todos. A direita chilena é mais tradicional. Na Colômbia é alguém que vem de fora da política, é a sua primeira experiência na política e tem um discurso bastante populista. Já no Peru é filha de um antigo presidente, que é a terceira vez que tenta chegar à presidência e aparentemente desta vez conseguiu. Temos situações de facto diferentes, mas há uma evolução genérica que importa perceber porquê, até porque vamos ter mais uma eleição este ano importante, que é no Brasil, e a esquerda no Brasil só tem um trunfo, e esse trunfo já tem mais de 80 anos, que se chama Lula da Silva. Vamos ver como é que as coisas correm também no Brasil. Nestes países, a polarização é imensa. Estamos a falar da Colômbia e do Peru, em que as vitórias eleitorais dos candidatos da direita foram por dezenas ou centenas de milhares de votos, em milhões. Portanto, porcentagens sempre inferiores a 1%. Eleições muito mais apertadas do que a de Mário Soares aqui em 86 contra Freitas do Amaral. Finalmente, temos Cuba. O regime cubano tem quase 70 anos, parece que não, mas já passou muito tempo, e está a passar por um período de uma crise porventura sem paralelo e está a tentar mais uma saída novamente. Quem conhece a história dos movimentos comunistas e socialistas é capaz de se lembrar de uma coisa que ficou conhecida por NEP. NEP era a nova política económica que Lenin adotou ainda no tempo da guerra civil, a seguir à Revolução Russa, para tentar salvar a revolução. Foi logo ao princípio, rapidamente voltou à ortodoxia socialista e comunista. No caso de Cuba, já houve algumas tentativas no passado de abertura da economia, sempre muito controladas. O que surpreende agora é o discurso de Díaz-Canel ser um discurso retoricamente quase neoliberal, digamos assim, mas aqui a questão é saber-se até que ponto o grande vizinho do norte consegue monitorizar ou impor uma transição em Cuba, sendo que a transição será sempre uma transição difícil, porque estamos a falar de um país com um tempo de duração da ditadura e do regime comunista, que é comparável ao que durou na União Soviética. Estamos na mesma ordem de grandeza, uma economia completamente devastada e, como alguém dizia, na Venezuela pode-se eventualmente pilotar uma transição. Esta semana houve negociações para a realização de eleições, incluindo já a oposição venezuelana, mas a Venezuela tem riquezas que podem ajudar a recuperação da economia. Se bem que a Venezuela agora tinha sofrido um choque brutal, cujas consequências são difíceis ainda de avaliar, infelizmente, mas é outro tema. Mas como alguém dizia, o que tem Cuba? Tem umas praias e tem carros antigos, que podem ter valor para museus e para colecionadores, mas o resto é uma ilha muito devastada. Basta olhar às vezes para as pessoas, estão macilentas, estão magras, não têm o que comer. É aquele país onde há uma anedota que diz: você sabe qual é a semelhança entre Fidel Castro e uma cebola?

Não.

Nunca ouviste contar?

Não.

Na cozinha ambos fazem chorar.

Que horror!

Que horror. Mas é uma anedota que eles contam. Os cubanos são muito particulares, têm uma maneira de encarar o mundo. Recordo-me bem que estive lá já há uns anos pensando que aquilo não ia durar muito mais e eu queria ver, e que ele está a durar muito mais. Vamos falar um pouco disso tudo depois.

É isso. Até já, José Manuel.