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8:19, é hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Para participar, basta ligar 910 002 4185, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp, Carla. Nasceu há 150 anos, desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro e apadrinhado por Santo António. Representou o português sobrecarregado pelo Estado e enganado pelos políticos, foi símbolo republicano e também da deceção com a República. No salazarismo não foi apreciado e na democracia, que tanto exaltou, pergunta-se agora se o populismo não será a revolta do Zé Povinho. Não é José, é Zé Povinho. Helena Matos, bom dia.

Bom dia. Pois, nós hoje vamos ter um Contracorrente sobre o Zé Povinho. É claro que, per si, a figura, aquilo que ele representou, justificaria, mas no momento atual ainda justifica mais. Porque é óbvio que historicamente há muito para contar. E por que ele nasce apadrinhado pelo Santo António? Porque ele nasceu na véspera do Santo António e a primeira vez que ele aparece numa ilustração, porque ele também faz uma migração da ilustração para a cerâmica.

Começa na ilustração.

Começa na ilustração e começou por ser desenhado. Ele é criado por Rafael Bordalo Pinheiro, depois vai ser desenhado por tudo quanto é ilustrador português. E ele começa na ilustração, numa alusão a uma coisa que havia muito na época, que era no Santo António, fazia-se uma espécie de uns altarzinhos. Portanto, temos o Santo António, que tem ao colo um bebê, o bebê tem a cara do rei, depois vamos percebendo também nas outras figuras que estão ali ao redor, a figura do ministro das Finanças. E depois temos ali aquele Zé Povinho, em que estão a pedir dinheiro a quem passa, e quem passa é o tradicional tostãozinho para o Santo António. Só que não é o Santo António, porque todos eles têm caras de políticos da época ou do próprio rei, e portanto, acaba por haver ali o Zé Povinho, ali naquele confronto, se dá, se não dá. Ele coça a cabeça, está com ar muito perturbado. É curioso, porque ao lado também está, com o chicote na mão, o comandante da guarda municipal. Portanto, temos ali criada esta figura. Por que tantas caricaturas? Porque a época tinha muitas caricaturas, às vezes muito violentas, muito agressivas. As pessoas que hoje dizem que não há respeito, deviam ver o que era aquilo. E por que esta figura, este Zé Povinho, ele tinha escrito nas calças dele, da personagem, "Seu Zé Povinho", e ele olha para aquilo tudo desconcertado. Por que este desenho, esta ilustração, se vai tornar quase que num símbolo nacional? É difícil de explicar, porque houve muitas outras criações que não pegaram dessa forma. Há quem defenda que ele de alguma forma representa o povo português. Uma das nossas convidadas, hoje do Contracorrente, defende que ele defende o povo português, mas o povo português já do pós-liberalismo, com o Estado, impostos e que está desconcertado. Bem, ele depois vai ser símbolo republicano na monarquia, símbolo de desconcerto com a República durante a República. Durante o Estado Novo, que há ilustração, mas não é propriamente muito o tipo de ilustração mais apreciado, até porque depois ele tem aquele gesto manguito. Não havia café nem taberna de Portugal, nem mercearia, nem drogaria, nem nada, que não tivesse aquele gesto do manguito, que é quase uma espécie de um exorcismo. "Se queres fiado, toma." Depois veio a democracia. A democracia adorava o Zé Povinho, a democracia exaltou o Zé Povinho, mas agora os resultados das eleições, com estes populismos, sobretudo com estes populismos de direita, faz-nos perguntar se o Zé Povinho não se pode estar a revoltar. Porque o Zé Povinho, ao longo de todo este tempo, ele nunca dizia nada. Ele ou fazia o manguito ou não fazia mais nada. E agora, em que medida é que ele se libertou das canecas, do "queres fiado? Toma." Também havia algumas que era "queres o voto? Toma." Fazia o manguito. Só que agora ele pode estar, de alguma forma, a passar daquele ar de desconcerto com que olhava para os políticos, naquele cartoon ou ilustração de há 150 anos, e estar a resolver fazer alguma coisa. Portanto, é em parte isto também que vamos tratar hoje aqui da revolta do Zé Povinho.