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Hoje o José Manuel Fernandes vem aqui ao "Contra-Corrente" dar conta de um enjoo e de uma irritação e da companhia habitual das manhãs dos teus cães, José Manuel.
Foram-se logo embora.
Foram-se logo embora. Estás enjoado e irritado, mas isto logo de manhã, o que é que se passa contigo, José Manuel?
Isto foi um bocadinho ontem antes de adormecer. E devo dizer que aconteceu porque eu começo a ficar saturado de ligar a televisão ou mesmo às vezes de ouvir rádio e de apanhar sempre com o primeiro-ministro, sempre com o presidente da República e quando não apanho com um deles, apanho com um ministro, apanho com uma ministra. E ontem foi um enjoo da manhã à noite. António Costa ao pequeno-almoço, António Costa a almoçar. Estamos a ver o que ele tomou ao pequeno-almoço, o que ele almoçou, qual foi a sua promessa, a seguir os museus a que foi o presidente, os monumentos que visitou, onde é que almoçava a ministra, que escolas é que andou outro ministro. Quer dizer, literalmente, temos o poder ou ocupar todo o espaço informativo. Da manhã à noite, é um folclore organizado que leva sobretudo as televisões atrás, mas depois não leva só as televisões atrás. Eu acho que isto já não é próprio de um país civilizado. Acho que isto começa a ser, sinceramente, um bocado opressivo.
Mas vivemos tempos especiais e ontem era um dia importante.
Eu acho que ontem era um dia importante, mas anteontem foi outro dia importante. Na semana passada houve mais não sei quantos dias importantes e é todos os dias. Eu acho que basta, chega, é demais. Eu recuso-me a sequer falar do que ontem andaram a fazer e a dizer, acho que já satura um bocado.
Eu pensava que a tua irritação até tivesse a ver com alguma coisa que eles disseram.
Não. A certa altura já estava tão enjoado que desliguei. Mas não desliguei completamente. Estas coisas uma pessoa nunca desliga e portanto fiquei na azaria de ir até ao Twitter e quando cheguei ao Twitter descobri uma daquelas coisas que me põem literalmente os cabelos em pé. E vê lá que ontem, no meio desta pandemia, as Nações Unidas acharam que era uma boa altura de virem dar instruções às pessoas sobre como devem falar. E como deves estar a imaginar, instruções do mais politicamente correto possível. O Twitter é em inglês e, portanto, os termos são em inglês, mas acho que são termos simples, daqueles que a maior parte das pessoas conhecem. Por isso vou dar alguns exemplos que eu penso que as pessoas entendem. Em nome de não haver discriminação de género, em nome do feminismo, a partir de agora não devemos falar de mankind, mas sim de humankind. O outro termo que usamos também muito, que é chairman, passou a ser apenas chair. Eu confesso que neste caso nem sei bem se vai entender se é chair ou uma pessoa se sentar, enfim, mas vamos adiante. Depois os firemen passam a ser firefighter, os policemen passam a ser police officer. Há mais exemplos ridículos, como deixar de usar o termo, por exemplo, manpower para passar a ser workforce e por aí adiante. Um dia destes ainda ofereço a um engenheiro português, confesso, apetece-me, um dicionário de Oxford, que é o dicionário mais clássico e, claro, um lápis azul. E pode ser que ele tenha alguma coisa que fazer nas viagens de avião entre Lisboa e Nova Iorque.
José Manuel, agora estás a ser muito mauzinho.
Eu estou, mas confesso que esta história das palavras e do género das palavras me irrita solenemente. Acho que é um disparate. Acho que não tem nada a ver com feminismo nem com direitos das mulheres. Acho que tem a ver com a língua portuguesa, inglesa, alemã, o que nós quisermos. E, por exemplo, há uma que me irrita especialmente, que é: por que te chamar presidenta a uma mulher presidente? É uma palavra de origem latina, com origem bem estabelecida, não tem género, serve tanto para homem como para mulher. E eu acho mesmo que inventar a palavra presidenta é diminuir, é apoucar, é mesmo achincalhar o cargo. Eu acho que no fundo é tratar mal a mulher que o ocupa. É tão estúpido como eu chamar giganta a uma mulher gigante, é tão analfabeto como eu passar a tratar as raparigas por adolescentas, em vez de adolescentes, ou, por exemplo, como inventar a palavra estudanta, ou então a palavra utenta, ou a palavra ausenta, ou parenta, ou por aí fora.
E continuas por aí. Mas não achas que no caso da palavra presidenta, até podemos estar perante uma situação diferente? É porque presidente era um cargo visto como masculino e agora ser uma mulher a exercê-lo pode ser visto como uma conquista. Ainda é difícil para as mulheres serem presidentes.
É verdade, eu conheço esse argumento, só que não me corto com ele. Acho que são coisas da presidenta Dilma, que vinha muito com essa história. Agora, imagina, por exemplo, na Alemanha, em vez de chamar chanceler Merkel, passávamos a chamar chancelera Merkel. Eu acho que ficava mesmo bem. Claro que não acontece, porque a Merkel não deixava. Portanto, ponto final. Passamos à frente. Agora, imagina o contrário. Imagina que, por exemplo, eu que sou jornalista, me passavam a chamar jornalisto. Espero que nunca me façam isso. Ou então, que os artistas homens passavam a ser artistos, ou os ciclistas, ciclistos, ou os maratonistas, maratonistos. Quer dizer, e podia continuar por aqui adiante. Podia até ir a profissões que são sobretudo de homens, como por exemplo, motoristas que passavam a ser motoristos. Acho que ninguém fica incomodado, de facto, sinceramente, com o género da palavra. Acho que o mundo tem mais coisas com que se preocupar, e sobretudo nestas alturas importantes, do que vermos as Nações Unidas usar o Twitter numa altura destas para tratar de impor esta espécie de novilíngua politicamente correta e que quando isto acontece, sobretudo estando nós no meio de uma pandemia, é do domínio do absurdo. Aliás, eu diria mais, é do domínio do grotesco.
José Manuel Fernandes no "Contra-Corrente" da Rádio Observador. Amanhã nova edição aqui, online e sempre sai em podcast.
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