Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Muito bom dia. Nos últimos dias, temo-nos deparado com torneiras sem água no Conselho de Almada. Há cortes no abastecimento para estabilizar o sistema, o que tem levado muitas pessoas aos supermercados para ir buscar garrafões de água. Entre as causas, está um sistema com perdas elevadas, o aumento da população, puxadas ilegais, consumos muito elevados, mas serão estas explicações suficientes? Bom dia, Helena Mattos.

Bom dia.

Afinal, o que aconteceu em Almada para se chegar a esta situação?

O que aconteceu em Almada já tinha acontecido um pouco, não é inédito, não com esta dimensão, claro que é, mas temos a falar de já em 2025, tinha havido sinais preocupantes.

Em Almada?

Em Almada. Nós temos de perceber as primeiras queixas dos cortes temporários ou da baixa pressão, sobretudo as pessoas que vivem em andares mais elevados, começam no final de junho deste ano. Depois, a entidade gestora da água em Almada, a Semas, a 2 de julho, fala num aumento exponencial do consumo. Também estávamos em plena onda de calor. Contudo, no restante país não houve notícias de falta d'água. Depois, já a sete, aparece um gabinete de crise na Câmara de Almada, começa a redução, os cortes começam a incidir durante a noite para conseguir fazer uma reposição no abastecimento, e começa o abastecimento também com os chamados caminhões-cisterna. O oito de julho temos o estado de alerta, claro que a nível municipal, o plano de contingência foi atualizado e entretanto, ontem, nove, já tínhamos 1500 pessoas, estes são números dos jornais, num protesto. Note-se que em Portugal, o protesto era contra a falta d'água na Costa Caparica. Em Portugal, as manifestações hoje têm muito poucas pessoas e 1500 pessoas numa manifestação que, claro, certamente que havia pessoas ligadas aos partidos, que os partidos foram estar associados a isto ou não, mas 1500 pessoas numa manifestação assim, sem nada, é significativo. Portanto, neste momento, o que é que está a ser feito? Estão a ser feitos cortes programados e foi anunciada a abertura de dois furos, para já, para repor o abastecimento e restabelecer as reservas d'água do conselho, que estavam nos 10% e que deveriam estar, pelo menos, estou a citar os números que vi na imprensa, nos 60%. Iremos depois falar também destas soluções. Note-se que de repente, quando se olha para a televisão, nasci na década de 60, tenho memória perfeitamente do que era não haver água em casa, nos anos 70, 80. As pessoas tinham em casa, em geral, sempre uma coisa com água, uns recipientes, uns garrafões, uns jarros e umas velas por causa das faltas de eletricidade. Com o tempo, achámos que isto tudo tinha feito do nosso adquirido civilizacional, não sermos confrontados com faltas de eletricidade, vivemos um apagão, e vimos como isso é complicado, e também com faltas de água. É importante também dizê-lo, note-se que Portugal até teve, em novembro de 1976, nas vésperas de umas eleições autárquicas, um atentado terrorista numa conduta de abastecimento a Lisboa, ali em Santa Iria. Pensava-se terrorismo, tanto quanto se sabe, de extrema-direita. Estas bombas que foram colocadas tinham muito a ver também com vista à criação de um estado de insatisfação. Só que nos anos 70, 80, tal como em relação à eletricidade, era um enorme transtorno não ter água, mas mesmo nas zonas urbanas havia quem não tivesse água e as pessoas relacionavam-se com os consumos também de outro modo. Qualquer um de nós no campo se confrontou com zonas em que não havia água e aquelas pessoas viviam e conseguiam gerir o seu dia a dia. Nós estamos aqui a falar de zonas urbanas.

Onde não há fontanários.

Não, e é completamente-

Não há chafarizes.

É completamente diferente a forma como nós hoje nos relacionamos com a água.

Vivem em prédios altos de onde é difícil carregar água.

Isto realmente já foi um problema a nível nacional, deixou de ser. Nós, aliás, até temos em estudo e já o convidar e nos poderá depois explicar como é que isto deixou de ser um problema nacional, e não era apenas no Algarve. O Algarve era o clássico. Mas tínhamos também Lisboa, tínhamos o Porto, o Porto também com muitos problemas. E a verdade, nós hoje temos ainda alguns problemas pontuais, claro, sempre no Algarve, às vezes também, curiosamente, no interior, mas são coisas pontuais. Agora, Almada está ali do outro lado da ponte. E portanto, isso causa-nos também aqui algumas perplexidades que eu espero que o programa sirva para esclarecer. Depois, para já, também na polêmica que surge, e é importante ver nesta polêmica, sobretudo na polêmica, na grande discussão entre a presidente da Câmara de Almada, Inês Medeiros, do Partido Socialista, e o presidente da Câmara do Seixal, do Partido Comunista Português, surge uma visão que é, e que muitas vezes deve corresponder a quase uma visão de desenhos animados A água de Almada está no Seixal, como se nós estivéssemos aqui e houvesse uma espécie de um corte do município lá por baixo e está ali a nossa querida água. Nós estamos a falar de aquíferos.

Há esse conflito porque a água que é consumida em Almada vem de furos situados no concelho do Seixal.

Nem toda é de furos, por exemplo, a água consumida em Lisboa vem mesmo de muito longe.

Sim, da barragem de Castelo de Bode.

Exatamente, que é lá nas minhas zonas. Agora está se a ver, Lisboa ali a ver a nossa água. E nós ali com aquela sequeiro, só de olhar pra paisagem. Para lá destas coisas mais ou menos penosas em termos de discussão, é curioso, o presidente da Câmara de Almada refere a questão da taxa dos direitos de passagem. Convém também, e eu acho que esse exercício deve ser feito hoje, que a propósito disto, as pessoas olhem pra sua fatura da água. É que a fatura da água é uma espécie de bengaleira das taxas do regime. E portanto, muitas vezes, até quem tem uma casa vazia, claro, com o seu contador de água, perceberá que continua a pagar taxas. Foi-se ali pendurando tudo.

Posso falar do meu caso que sei decor?

Diga.

No mês passado consumi 9 € de água, paguei 11 € de taxas de saneamento. Este mês consumi 11 € de água, mais 2 €, e as taxas triplicaram.

Pois. Há, aliás, uma outra coisa em relação à água, uma coisa que eu penso em relação ao preço da água. Sei que não é nada simpático dizer isto, mas penso que a água tem hoje, em relação ao seu preço, não estou a falar das taxas, o mesmo problema que o pão tinha na Primeira República: é um preço político. Ou seja, para o bem inestimável que a água é, o seu valor é francamente muito baixo. Todas as pessoas pagam mais por telemóvel do que por água. E a água acabou a ter um preço político e à conta desse preço político, que mantém o preço da água muito baixo, nós temos depois a fatura da água a enfeitar-se com as tais taxas e taxinhas. Mas para lá disto, que é uma opinião minha e que não tem nada a ver sequer com isso que acontece em Almada, nem noutro local qualquer, nós temos aqui um problema que é estes serviços municipalizados a trabalharem cada um na sua quintinha. Temos serviços municipalizados que tratam da água do Seixal, os serviços municipalizados que tratam da água de Almada e um aquífero comum. Nós também já vimos esta mudança noutras zonas do país, que é passarmos a trabalhar, claro, os municípios terem os seus serviços municipalizados, mas a trabalharem de uma forma muito mais integrada aquilo que é a água. Este problema acontece também, e aconteceu durante muito tempo, com os esgotos, que é cada município tinha a sua ETARzinha. Cada um tinha a sua ETARzinha e tratava os seus esgotozinhos. É claro que a dimensão permite outro tipo de soluções, de abordagens em muito maior racionalidade. Depois, temos aqui entre as razões, também será importante percebermos o que acontece, nas suas primeiras intervenções, o presidente da Câmara de Almada refere que o consumo médio em Almada ultrapassa os 300 litros por habitante por dia, enquanto que a média nacional é de cerca de 180 litros por habitante. Por quê? Por que isto é importante? As pessoas em Almada não têm nenhum frenesi pra gastar muito mais água. É importante percebermos isto. Em junho, o consumo médio aumentou 4,3 no concelho, mas aumentou no concelho de Almada. Eu pergunto quanto é que terá aumentado em Faro, em Portimão, em Albufeira? Certamente mais. E depois temos aumentos de consumo muito significativos, Chaneca de Caparica, Sobreda Lazarim, Costa da Caparica, que são zonas turísticas e que são sujeitas a uma maior pressão. E aí volto a referir o que acontece nos outros concelhos. Depois temos a questão das puxadas ilegais, e eu chamo a atenção que nós tivemos aqui, e para as consequências das puxadas ilegais. Num dos programas que aqui fizemos a propósito da habitação clandestina, nomeadamente, penso eu, da decisão que estava a ser tomada por Ricardo Leão em Loures de não permitir a construção de barracas ou habitações clandestinas, e em que havia quase que um certo entusiasmo mediático com aquelas pessoas, e aliás, Inês Medeiros foi uma das pessoas que veio criticar muito seriamente Ricardo Leão. Num dos programas que aqui fizemos sobre os perigos da habitação clandestina, falamos muito do perigo de ruto, o perigo de incêndio, as puxadas ilegais de eletricidade, e tenho a certeza que um dos nossos convidados chamou a atenção para o problema das puxadas ilegais de água. Do ponto de vista até sanitário, do que isso podia representar pra contaminação. E penso que até foi a arquiteta Filipa Roseta, mas não tenho a certeza que tenha sido ela. E na altura, é engraçado, como nós estávamos a valorizar muito a questão de eletricidade, certamente é mais visual, imaginamos que seria mais difícil o acesso ilegal de água, e tenho a certeza que isso foi aqui referido. Depois, nós temos aqui, para lá do aumento de população sazonal no Conselho de Almada, temos também um aumento de população residente que não creio que justifique. Quer dizer, só se aquele milhão e meio de pessoas que tivessem vindo pra viver pra Portugal, de repente tivessem estacionado todas em Almada, porque entre 2001 e 2025, que são 24 anos, a população cresceu 10%. Não me parece que seja significativo. E depois, tivemos aqui um aumento de consumo d'água de 5,3. Agora, como sempre, nós gostamos, também temos um outro problema, que é quando nós pensamos em puxadas ilegais, pensamos sempre em habitação clandestina, puxada ilegal, mas há aqui captações, eu não sei se deveremos chamar ilegais ou não registadas. O que parece ser claro existir em Almada, são captações não registadas de água, para lá das captações ilegais. Temos aquilo que vulgarmente se chama muitos furos, que podem ser pra agricultura, pra consumo doméstico, para pequenas indústrias, e nada disso é monitorizado. E isto representa muito consumo e representa uma enorme pressão sobre o aquífero, que em algumas zonas começa a mostrar sinais de não reposição. Mas já lá iremos a essa parte, porque agora ainda estamos na fase do consumo. Quais é que são neste momento as soluções? Neste momento, há uma solução, pois que é óbvio, tem de se fazer cortes, tem que se conseguir repor. E entretanto, a Ministra do Ambiente anunciou que ia entrar em funcionamento mais dois furos. Como sempre, nós adoramos, pra já, sim, claro, as pessoas precisam ter água, se vão ter água, então façam-se os furos, que até depois têm aquele custo muito baixo, tudo isso. Mas não se pense que agora, e eu acho que isso é importante que possamos debater durante o programa.

O problema não fica resolvido.

Não, não há uma solução mágica de furos.

É um pense rápido, não é?

Não, e até porque os furos é assim, é como na política, não há vazios. Um líder sai, aparecem logo mais dois ou três. E aqui no aquífero, se sai e se não é reposto, e a reposição da água nos furos tem um tempo que não é bem o nosso tempo de vida.

E também não é o tempo de saída, a extração da água.

Não. É um tempo geológico, é um tempo muito longo. Há aqui um problema, que isso viu-se, por exemplo, no Algarve, a certa altura, a água começa a ficar salobra ou pode mesmo ficar um pouquinho salgada. E essa salinização.

Tem outros custos.

Pois, isso aí, as contas parece, e temos conosco quem nos possa explicar, pois como tudo isso é mesmo muito caro. Porventura, para esta região, poderemos ter de falar em diferentes soluções, que poderão passar por uma gestão diferente, pelo controle das puxadas ilegais de água, por uma muito maior monitorização dos furos que já estão a funcionar. Dos furos, não estou a falar destes da Câmara de Almada, estou a falar das indústrias, do consumo doméstico, agrícola. Nós geralmente temos sempre aquela ideia, a agricultura é óbvio, associa-se muito, é tudo muito, mas a agricultura tem consumos de água muitíssimo elevados.

Pois tem.

E impactos ambientais também elevados. Portanto, há soluções, pois claro, também muito mais pesadas e que em Almada não serão de todo inviáveis, e nós vemo-la ter sido tomada no Porto Santo e no Algarve, que passa pela dessalinização. Mas isso implica pensar a mais que o mês seguinte. Aquilo que me parece que nós tivemos, e agora para remate de conversa, para lá que neste momento também temos uma crise política, como é óbvio. Inês Meneiros tornou-se presidente de câmara por acaso. Ou seja, quando o PS indica o seu nome, porventura não estaria a pensar que poderia ganhar uma câmara tão importante e portanto houve aqui uma desatenção muito grande. O próprio PS neste momento em Almada está bastante preocupado com o assunto. Aquelas manifestações são de cidadãos, está claro, estão muito zangados, mas nós percebemos o potencial político que está em tudo isto. E depois, vir culpar-se as pessoas ou porque são muitas ou porque consomem, também não será a melhor das opções. Portanto, é de repente, em Almada, é como se estivéssemos a viajar até ao passado, a um passado que já pensávamos que estava mais ou menos arrumado e que de repente vimos aqui, é que não é às portas de Lisboa, é logo ali do outro lado da ponte e com uma questão que também é importante e que é muito facilmente midiatizada. Ou seja, os problemas são os mesmos para as pessoas, mas não são midiaticamente iguais em todo o país. E, portanto, estamos aqui numa crise.

E que não se cinge apenas a Almada, porque há as praias da Costa da Caparica muito procuradas.

Pois, eu quando digo Almada, é claro, Costa da Caparica, a Sobreda.

Costa da Caprica, que é muito procurada pelos lisboetas e não só, durante esta época de verão. Já temos em estúdio conosco Carlos Martins, foi presidente da EPAL, a empresa de águas-livres, sobretudo a empresa responsável pelas águas de Lisboa, digamos assim, de uma forma simplista. Carlos Martins, muito bom dia.

Bom dia.

Como é que se chega a uma situação destas, de colocar uma cidade a racionar água?

Bom, eu gostava de iniciar talvez contextualizando aqui um pouco e até aproveitando a intervenção anterior para dizer como estas coisas acabam por eventualmente acontecer numa situação não expectável já. A origem, no caso da península de Setúbal.

Deixa-me parar nessa expressão, não expectável, ninguém esperava que isso pudesse acontecer.

Sim, não era expectável, ainda que houvesse já informação que poderia acontecer, mas poderia acontecer na península, num município qualquer, aconteceu no de Almada. E digo isto porque, embora a península tenha um dos aquíferos mais ricos em termos de quantidade de água e até da sua qualidade, pelo menos historicamente, ela envolve, por outro lado, alguns riscos. Por um lado, tem-se acentuado a intrusão salina, à mercê da subida do nível do mar e da intensidade do uso de furos a maiores profundidades. Nós vamos provocando aqui a entrada da intrusão salina e a baixa da qualidade. É uma situação que vai obrigando a furos a cada vez maior profundidade. É um processo que terá de ser eventualmente também mais acautelado e mais bem gerido.

Só pra localizar, quando fala do aquífero que serve Almada, é junto à lagoa de Albufeira.

É praticamente a península toda. Ela faz parte desse aquífero terço Sado, é um dos mais importantes da Europa e, em Portugal, é o mais importante.

Aliás, desculpe interromper, um geólogo, o Pedro Porciuncula Cunha, da Universidade de Coimbra, foi ouvido pelo Expresso, se não estou em erro, a par do Rosário Carvalho, identificam abatimentos já no solo. Na zona da Costa da Caparica, Seixal e norte da lagoa de Albufeira, abatimentos que poderão estar relacionados com a exploração contínua de água subterrânea.

Por outro lado, associado a esta questão da intrusão salina, temos também alguma poluição difusa das atividades agrícolas, industriais e, sobretudo, agroindustriais. Uma segunda questão é: sendo o aquífero muito rico, nós induzimos a procura de uma maneira também muito relevante. Eu ainda me lembro de estar a assistir à inauguração da Ponte 25 de Abril, eu ia pra praia da Costa pela Trafaria de barco. A partir do momento em que as pessoas começaram a ter uma travessia muito mais direta e objetiva, houve uma procura urbana, e a água, as infraestruturas, os serviços públicos têm de se adequar um pouco também à dinâmica urbana que promovem e ao desenvolvimento urbano que querem promover.

E não adequaram.

De 1960, embora falou-se aqui dos últimos eventos, mas de 1960 ao censo de 2021, a população quase triplicou.

Sim.

Depois tem muita população flutuante.

Quase triplicou e houve muita construção, impermeabilizando os solos.

Exatamente.

Que também constitui um problema pra a pressão do solo.

Alteraram um pouco o contexto territorial e a demografia, e portanto, a procura de consumo d'água aumentou.

Mas a rede de distribuição que está abaixo de terra não acompanhou na sua renovação esse aumento da população. As pessoas não constroem prédios onde quer lhes apeteça e pagam acessos a ramal, pagam rede, faz parte do custo de obra.

Mas a questão às vezes não é infraestrutura. Nós assistimos o caso de Viseu, com o Paísca.

Sim, também é um caso.

O caso do Évora e da Campo Maior, no Algarve.

Um clássico.

Nas águas do Algarve também. Ou seja, muitas vezes a infraestrutura existe. Se a água deixa de existir na origem, em termos de quantidade e qualidade, a infraestrutura só por si não é sustentável. Depois também, a taxa de renovação dessas redes é muito baixa. A ERSAR recomenda 2% ao ano e o valor que se verifica em Portugal é sistematicamente abaixo de 1%. Ou seja, nós, em vez de acreditarmos que as infraestruturas vão durar 50 anos de vida útil, estamos a acreditar que elas vão durar mais de 100. Isso depois leva um pouco às perdas físicas, embora eu aqui também queria aproveitar pra dizer que essa questão das perdas muitas vezes é mal avaliada.

Por quê?

Quando se fala em 32, 33%.

Foi o valor agora apresentado pra Almada.

Eu diria que, pela experiência que tenho em vários territórios, o que eu encontrei geralmente quando atacava esse problema é que metade delas são consumos fraudulentos ou consumos não faturados, e a outra metade, sim, diz respeito a perdas físicas de natureza que têm a ver com a rede.

Então, traduzindo para pessoas que não são especialistas, como é o seu caso, o que está a dizer, realmente Almada aparece aqui como uma das cidades em que essas perdas são superiores a 30%, e que hoje nós estaríamos em muitos municípios com perdas de 15%, 10%. O que está a dizer é que nesse valor de 30 ou um bocadinho mais em Almada, uma parte será da não renovação da infraestrutura de rede e a outra parte das tais puxadas ilegais?

Exatamente.

É isso.

Consumos que não são faturados, alguns às vezes até não são ilegais. Eu já encontrei em muitos territórios de Portugal em que os maiores consumidores que nem faturavam eram os próprios municípios.

Exatamente.

Nos cemitérios, nas coletividades, nos jardins públicos. Uma panóplia de situações. Eu encontrei municípios que tinham mais de 400 locais de consumo sem contador. Como a infraestrutura era deles, não a contabilizavam. Isso depois vai a perdas.

Não é apenas o não pagar, é o não ser contabilizado.

Não ser contabilizado, porque não não pagar, mas contabilizar.

Podem não pagar, mas ser-

Consumos autorizados, pelo menos não entravam nas perdas e, portanto, tinham uma leitura social diferente.

Quem quiser depois planear operações futuras, tem ali.

Quem não tem boa informação de base planeia mal. A outra terceira questão que eu gostaria de chamar aqui a atenção, e depois encaminharemos, tem a ver também com as soluções de governança. Eu agora vou me referir um bocadinho a este caso concreto, mas em Portugal temos problemas um pouco ainda em alguns territórios similares. Em 2017, e eu que estou aqui a falar em nome próprio, participei dessas reuniões com autarcas, sobretudo com a Associação Intermunicipal das Águas da Região de Setúbal, a AIA, no sentido de já nessa altura, e veja que 2017, passaram quase uma década. Já havia a ideia da criação de um sistema regional de altas, se forem aos sites da AIA, encontrarão com facilidade lá múltiplas referências disso. E na altura, pensava-se que pudesse ser através da via de um sistema intermunicipal, em que os acionistas dessa empresa regional seriam todos os municípios da península, com as participações que eles achassem convenientes, pela população ou outro indicador, ou um sistema multimunicipal juntando-se com as Águas de Portugal. Há uma empresa de saneamento com as Águas de Portugal e os municípios, que é a SIMAR Sul, e até para economizar, poderia ser alargado o âmbito da atividade da SIMAR Sul também à área da água, e isso dinamizaria, com certeza, essas obras.

SIMAR Sul é a empresa que faz a recolha dos resíduos.

Não, das águas residuais. A AMAR Sul é dos resíduos.

É dos resíduos, isso.

Isso depois não avançou, eu não sei os contornos.

Portanto, há uma década que estava identificado um problema.

Há uma década, e há um plano, é que havia um estudo bastante desenvolvido, feito pela AIA, para a criação desta empresa, infraestruturas, reservatórios, furos, como é que eram as interconexões que iam servir toda a região.

AIA é a Agência do Ambiente.

Não, AIA é a Associação Intermunicipal de Água dos Municípios da Região de Setúbal. E eles próprios também fizeram um estudo de caracterização geológica e hidrogeológica dos aquíferos, no sentido de perceberem a sustentabilidade face àquilo que eram as dinâmicas urbanas dos vários municípios ligados aos planos diretores municipais.

E perante isso, a pergunta é óbvia: e por que não avançou?

Essa também é uma questão que eu não deixo de me interrogar. O que fez com que as pessoas tenham andado, eventualmente, a adiar uma coisa que eu diria que é quase inevitável a prazo. Até porque a componente investimento desse plano é bastante significativa. Tivemos já um POCUR, que terminou agora, que tinha algumas disponibilidades financeiras para projetos em que os municípios fizessem soluções desta natureza integrada. Agora, cada vez mais, os fundos comunitários estão a ter menos disponibilidade para este setor, porque a União Europeia entende que anda há 30 anos a resolver o nosso problema e agora temos de começar a ser autossuficientes com tarifas que cubram os custos e gerem alguma disponibilidade para os investimentos necessários. E nós temos de começar a pensar que não virão, no futuro, disponibilidades financeiras da Europa para aquilo que são os nossos serviços públicos. Sobre isso eu não tenho nenhuma dúvida.

Resumindo, o que nos disse nos últimos minutos foi que o problema está identificado há quase uma década, o aquífero tem cada vez menos recurso água.

Eu não diria que tem menos.

Há menos dinheiro no futuro.

Tem que ser melhor gerido.

Isso significa que este caso que estamos a assistir em Almada neste verão, vai repetir-se não só em Almada nos próximos tempos, mas possivelmente noutros conselhos da margem sul. É isso?

Não, o que eu diria com muita propriedade é que eu vi ontem as declarações das três semanas para a resolução do problema urgente, e eu estou seguro que com a colaboração das Águas de Portugal, da EPAL, dos Serviços Municipalizados de Almada, que são serviços altamente qualificados, devo dizer, eu conheço já há 48 anos. Estou seguro que tecnicamente, e com a colaboração da APA no licenciamento dos furos, as três semanas seguramente podem ser uma solução para ultrapassar o problema que foi criado para este verão, mas também acompanha a ideia de dizer: uma coisa é normalizar, outra coisa é resolver estruturalmente a questão. E para resolver estruturalmente a questão, nada se faz em menos de três anos. Hoje, para lançar uma obra em Portugal, fazer projeto, contratar um empreiteiro, fazer a obra e pô-la a funcionar com todos os licenciamentos, não se faz nenhuma obra desta natureza em menos de três anos.

De que obras estamos a falar?

Estou a falar de melhoria das captações, dos furos. É natural que alguns dessa água tenha de ser sujeita a tratamentos, porque como disse, a qualidade também vai se prejudicando e degradando e, portanto, tem de haver mais tratamento do que havia eventualmente no passado. As regras europeias, a legislação também dessa matéria vão sendo mais exigentes. Reserva é uma questão-chave. Ter reservas para 48 horas é quase hoje uma coisa Do dia a dia. Antigamente projetava-se pra 24, mas 48.

E a parte burocrática, administrativa, ou seja, monitorização dos fundos já existentes. Não estou a falar dos fundos de captação da Câmara, estou a falar dos fundos das indústrias, da agroindústria, do consumo humano, todo aquele universo mais ou menos desconhecido. Conseguir controlar mais ou menos as puxadas.

Sobre isso, digo claramente, tenho escrito muitas vezes em artigos e publicações minhas, eu não tenho nenhuma dúvida que Portugal fez um excelente trabalho nestes últimos 30 anos. Eu devo lhe dizer que em 1978, ainda há pouco estava a falar, quando fui trabalhar pra Loures, Loures na altura ainda era Loures e Odivelas, ainda era tudo o mesmo, nós tínhamos 100 mil pessoas aqui à porta de Lisboa, sem água. Sem ramal d'água. Não tinham água por lhe faltar água, nem sequer tinham ligação à rede. E nós conseguimos pôr isso nos 99,9% com água de qualidade. Nós fizemos um grande trabalho em Portugal. O problema agora é: ainda há que melhorar muitas dessas situações, há que aprimorar. E há um trabalho que não para, porque se nos distrairmos um tempo, a sustentabilidade do sistema, se não houver manutenção, conservação, rapidamente voltamos a uma situação preocupante.

Isso leva a uma pergunta. Há instantes dizia que o SEMAG de Almada tem serviços, a palavra é sua, muito competentes.

Muito competentes.

Então o que justifica este caos em Almada? O desinvestimento ou falta de massa crítica?

Eu que trabalhei tanto tempo, eu depois queria ainda responder àquela questão da nossa organização e das entidades todas que dão pareceres, às vezes fazem com que algum processo que podia ser mais ágil, seja muito demorado. Depois vou dar-lhe um exemplo.

Mas se os serviços são competentes em Almada, por que chegamos aqui?

A questão é assim: a competência técnica, e eu que trabalhei 25 anos num serviço municipalizado, nem sempre as coisas corriam mal do ponto de vista da capacidade de investimento pelos técnicos não saberem o que deviam fazer. Encomendavam bons planos, havia na época bons projetistas, os técnicos sabiam, e nós temos bons engenheiros nesta área, sabiam o que fazer, têm a prioridade dos investimentos, mas se não houver dinheiro em caixa, porque as tarifas são tão baixas, que não geram proveitos necessários pra fazer os investimentos que se impõem, naturalmente, o que pode fazer um técnico muito bom se não tem meios? Isso é que estamos meios.

Foi o que aconteceu em Almada?

Eu não conheço a realidade de Almada, não me vou pronunciar sobre um caso que não conheço.

Mas há obras que não são decididas. Uma coisa é uma reparação de um troço de rede, que porventura os técnicos poderão decidir. Agora, há obras de maior dimensão, que implicam uma decisão de quem tem a tutela.

Sem dúvida, por isso eu estava a dizer que, eventualmente, até admito que alguns destes investimentos não são compatíveis com serem feitos a uma escala municipal. O caso de Almada, até é um município já com uma população, uma capacidade financeira diferente. Mas o país está cheio de municípios pequenos que não têm capacidade, muitas vezes, de investimento. Ainda bem que alguns deles se agregaram, encontraram soluções regionais, integraram outros modelos de governança que lhes permitiram ir servindo com qualidade a população. Mas agora voltando àquele tema, às vezes, da coordenação e do nosso sistema relativamente complexo administrativo, que ainda há pouco estava aqui a referir. Eu vou lhe dar um exemplo concreto. Eu, em 2017, falei pela primeira vez da dessalinizadora para o Algarve. Ainda me lembro, estive lá, estava num evento promovido pelas águas do Algarve, e para a rádio demos entrevistas sobre isso, e pedi à APA para fazer um estudo em todas as ARH, as regiões hidrográficas, pra fazer planos, e ficou logo mais ou menos presente nesse momento que o Algarve ia precisar, só não se sabia qual era a capacidade, mas que ia precisar de uma dessalinizadora, além de promover maior eficiência de uso, que isso é sempre a primeira atividade, maior eficiência de uso, reutilização de águas residuais pra rega de campos de golfe, etc. Está tudo a ocorrer, felizmente.

O problema é que nove anos depois ainda não há dessalinizadora.

Ontem vi a fotografia da minha colega, a Isabel Soares, que é presidente das Águas do Algarve, a colocar a primeira pedra da dessalinizadora. Sabe quanto tempo passou? 2017 passou há nove anos. E por quê? É o terreno, é o que mete a ação contra, depois é o não sei o quê, depois é o concurso que mais demora. Tudo isso demora tanto tempo. Eu não estou a dizer que foi falta de vontade, porque as Águas do Algarve queriam fazer. Seguramente os governos que entretanto passaram, também todos queriam fazer. Agora, o número de interações que esse processo depois tem, quando uma pessoa começa a olhar pra costa, por exemplo, do Algarve, as pessoas dizem assim: "Ah, pois houve uns que não queriam em Albufeira, outro." Mas uma zona é reservada por isto e aquilo, o outro é por aquilo, o outro é por aquilo. Quando se vai verificar o que está disponível É um pedacinho muito pequeno da costa. Depois tem 30 ou 40 entidades que vão dar uns pareceres, cada uma consome um tempo e um percurso. Basta que essas coisas não fiquem todas bem resolvidas. Depois vêm os proprietários, que têm outro tipo de interesses, metem um processo tribunal porque não queriam ser expropriados do terreno pra fazer ali. Nós, de facto, temos uma máquina administrativa e um código também dos procedimentos da contratação pública, que não ajudam a celeridade de alguns processos e, portanto, muitas vezes até há vontade, às vezes até há disponibilidade financeira e ainda assim, os prazos com que conseguimos concretizar os projetos vão pra além daquilo que é razoável.

Mas de qualquer forma, em Almada, nós de repente vemos uma autarquia que parece ter sido apanhada de surpresa por tudo isto e que, segundo os números, os próprios serviços terão níveis de execução baixos daquilo que estava orçamentado. Em geral, esta parte da obra nas redes de distribuição de água, e não só, é uma obra que as pessoas só sentem a sua urgência quando a água não sai da torneira, porque para os autarcas é um problema terrível, porque se anda a esventrar e toda a gente embirra e ninguém quer. A relação entre aquilo e a aprovação da autarquia não é direta nem imediata. E, por outro lado, há coisas muito mais aparentemente simpáticas para fazer e, portanto, é uma obra que politicamente não parece ter sido vista como relevante.

É invisível, não é?

Em Almada não foi vista como relevante. Temos de admitir, há muitos anos que a população em Almada aumenta durante o verão, há muitos anos que o aumento da população está a acontecer e não é nada de inédito. Há muitos anos que temos calor. E depois temos aqui também a percentagem, por exemplo, segundo a ERSAR, pergunto-lhe se esta percentagem de renovação de rede é 0,36. É a percentagem de renovação das condutas de Almada feita nos últimos 10 anos.

Deveria ser à volta de 2%. Era aquele valor que eu ainda há pouco, que é a percentagem que garante uma renovação com uma vida útil da infraestrutura de 50 anos. Esse é um problema que não é de Almada, é quase nacional. Infelizmente, poucas são as entidades que-

50 anos é o prazo médio de vida útil de uma estrutura de abastecimento d'água.

Sim, é evidente que entidades como a EPAL e outras que desenvolvem muito a gestão de ativos, sabem, pelo seu registro histórico, que uma determinada infraestrutura pode ir aos 60, 70, 80 anos. Mas sabem, pelo número de avarias que vão ocorrendo, quando é que está na hora de as substituir, de fazer a sua manutenção, de radicalmente mudar de tecnologia. Quem não faz essa gestão de ativos, e são a grande maioria, infelizmente, ainda poucos fazem uma gestão de ativos criteriosa, andam um pouco atrás do problema. Só sabem que têm um problema no dia em que já está a acontecer.

O que está também a dizer, eu posso concluir, é que uma gestão mais técnico-profissional destes sistemas de distribuição de água podem dar melhor resultado.

Sim, podem dar melhor resultado. Nós ainda ontem ouvimos o presidente do Oeiras a falar da estratégia que Oeiras seguiu, por exemplo, pra ter as reservas. Oeiras, tal como Loures, como Vila Franca, como 33 municípios da margem norte, são servidos pela EPAL em alta. Mas como tão dependentes de um fornecedor externo, o que tiveram de acautelar foi fazer grandes reservatórios.

Vamos falar sobre isso.

Porque se faltar água na EPAL, eles ao menos sabem que durante umas horas têm o serviço para que a EPAL possa reparar sem lhes perturbar o serviço.

Carlos Martins, se há mais consumo que o normal, como alega a presidente da Câmara de Almada, se há menos captação de água, isso significa que este município vai ter de investir mais em depósitos, em reservatórios de água para acautelar futuros problemas?

Eu julgo que o investimento em reservatórios é indispensável, qualquer que seja o sistema, independentemente se são águas subterrâneas, se forem águas superficiais. Sobretudo quando, ainda por cima, o reservatório funciona como um interruptor e permite uma outra coisa, que é otimizar custos de energia. Geralmente, os reservatórios estão em locais altos, a água tem de chegar lá com energia. Eu se conseguir ter um bom sistema de gestão, consigo fazer essa elevação da água em horários em que a energia é mais barata. Tenho que ter um bom sistema de telegestão. Agora, essas reservas são muito relevantes do ponto de vista da gestão de uma rede.

Agora ajude-nos a perceber aquelas torres d'água que nós vemos por aí, por Portugal, quantos litros ou quantos metros cúbicos e pra quantos dias?

Os reservatórios elevados geralmente são pra corrigir problemas pontuais de pressão

Servem para estabilizar o sistema.

Se houver uma boa necessidade de reserva, por uma questão de custos, não há capacidade para fazer um reservatório de grandes dimensões elevado e, portanto, ele tem de ter um reservatório apoiado e depois pode ter uma torre de elevação que vai elevando para suprir alguma zona onde seja necessário ou um hidropneumático para alguma zona. Agora, reservatórios de grande dimensão, eu estou a falar de coisas num município metropolitano, tem de ser tudo acima de 2000, 5000, 10.000 metros cúbicos.

Eu tenho uma dúvida: como é que consegue explicar estes números? O consumo médio em Almada ultrapassa os 300 litros por habitante/dia, enquanto a média nacional é de cerca de 180 litros por habitante/dia.

Eu confesso que quando ouvi também esse comentário, vou lhe dizer qual é a minha interpretação.

Sim.

A minha interpretação crítica disso é que muitas vezes nós temos que ter cuidado ao olhar para os números.

Pois, eu também acho que há qualquer coisa que não percebo.

Quando eu falo de capitação, eu posso estar a dividir pelo número de habitantes. Ora, é razoável admitir que Almada, neste período do ano, tem muita pessoa a consumir no seu território, nomeadamente na zona onde tem mais falta d'água, que não está recenseada e que, portanto, não pertence ao número de habitantes recenseados pelo qual eu divido o número. Eu vou lhe dar um exemplo concreto. No caso dos resíduos sólidos, também tive algumas responsabilidades nessas áreas. No Algarve. O Algarve tem uma capitação de resíduos que é o dobro da média portuguesa. O mesmo acontece na cidade do Funchal. E por quê? Porque tem lá mais gente nos meses de julho até setembro. Quando eu divido a capitação, quanto produz um cidadão de resíduos no Algarve? Em vez de ser 1,3 kg, como é a média nacional, eles têm 2,5 kg. Eu, que até vivo no Algarve, não produzo mais resíduos quando morava em Lisboa ou no Algarve. Agora, sei é que ao meu lado há uma série de alojamentos locais que estão todos os dias cheios com pessoas que não entram nessa conta. Portanto, eu admito. Uma coisa era dizerem qual é o consumo por contador doméstico. Eu aí poderia ter uma ideia se era excessivo ou não. Dizer por habitante, num município que é sujeito a uma sazonalidade e a uma população flutuante. Eu tecnicamente não fico completamente confortável com o número. Não sei como é que o calcularam, se foi pelo número de contadores domésticos, se foi pelo número da população recenseada em Almada.

Mas independentemente do valor, há aqui uma dinâmica, ou ele espelha uma dinâmica que em Almada já se conhece há décadas. A população no verão aumenta sempre.

Sim, sem dúvida.

Estamos a falar de um concelho que tem uma longa linha de costa.

Tem história, deve conhecer a evolução desses consumos. Hoje, com sistemas dos próprios contadores, hoje há contadores inteligentes de telemetria, eu consigo saber o perfil de um consumidor hora a hora, até poderia ser em intervalos mais curtos, mas geralmente para não ter custos de comunicação, posso saber pelo menos o perfil do consumidor de hora a hora, nas 24 horas e ao longo da semana para conhecer os problemas e às vezes até para interagir com os clientes quando eles têm perdas d'água ou estão a fugir do seu perfil normal, eu poder, como entidade gestora, avisá-lo: "Olhe, pode estar com uma perda d'água em casa", um autociclismo que está a funcionar mal, que geralmente dá imensas perdas, ar nas canalizações, portanto, pode viciar alguma leitura de contadores. Eu posso fazer essa interação e há entidades hoje em Portugal, felizmente, que já o começam a fazer com uma boa performance e, portanto, muito alinhadas com aquilo que é também a sua responsabilidade social da gestão de um bem tão relevante como é a água. Agora, nós temos em Portugal, eu costumo dizer, três velocidades. Temos entidades gestoras que são do melhor do mundo, não devemos deixar de pensar nisso. Eu conheço muitos países, estive na presidência da Associação Europeia de Distribuidores de Água, e nós éramos reconhecidos por ter casos de excelência, e temos. Depois temos casos medianos, dentro dos padrões europeus, cabem dentro daquilo que é o padrão europeu, e o padrão europeu é um dos melhores do mundo, também não podemos esquecer isso. E depois temos algumas coisas que infelizmente são de muito baixo nível de serviço e qualidade de serviço aos cidadãos.

Aliás, Portugal, é importante dizê-lo, é um país onde nós bebemos água da torneira. Há países aqui na Europa onde somos recrimina que não bebemos água da torneira.

Isso é a nossa coroa de glória, o poder abrir a torneira em qualquer lado do país, bebê-la com segurança. Isso é alguma coisa quase de impensável no mundo.

No mundo, em Berlim, por exemplo.

No mundo.

É importante dizê-lo.

Apesar de haver uma grande desconfiança também.

Não, mas eu posso fazer-me uma opinião?

Carlos Martins. Sim, claro.

Não, eu diria que não há desconfiança.

Eu bebo água da torneira e há muita gente que me questiona.

João, desculpa. Eu tenho ideias profundas nessa matéria. Tocaste aqui numa corda sensível. A coisa que mais me espanta, sempre estou a falar de pessoas idades, de família. Há gente que com esforço e vão ao supermercado e compram um garrafão d'água e levam o garrafão d'água pra casa. Em Lisboa, senhores. Esta é uma coisa que eu tenho. Certamente que a água de Lisboa é de toda a confiança, eu sou daqueles que acredita na qualidade da água de Lisboa, como já se percebeu.

Lisboa, mas do país todo.

Sim.

Por exemplo, no Algarve, é o único sistema que tem, para além de todo o controle de qualidade da água, que é obrigatório pelas várias autoridades, ERSAR, Autoridade de Saúde e o próprio autocontrole da empresa, ainda tem uma certificação como bem alimentar.

Isso significa o quê?

Que é controlado do ponto de vista da qualidade da água que é colocada na rede a um nível supremo. Agora, dizer-lhe o seguinte, eu quando estive nas Águas do Algarve, ia a alguns restaurantes em que a primeira coisa que me queriam vender era uma garrafa de água. E eu recusava e pedia um copo da torneira. E eles ainda estavam quase a querer me vender a ideia de que ela era salobra. Depois às vezes lá tinha de explicar.

Era muito difícil de beber.

Ou há aqui restaurantes que filtram a água, às vezes até prejudicando a qualidade dela do ponto de vista mineralógico, e depois me pedem três ou quatro euros por uma garrafa que põem em cima da mesa, quando a água já é boa. Eu costumo dizer que isto não funciona. Agora, os portugueses muitas vezes, também nestas alturas de crise como a que está agora a acontecer, não têm a ideia verdadeira do valor da água. Você veja, um metro cúbico.

Portanto, concorda comigo, há um preço político para a água.

Eu não sei se é político, mas é um bocado político. As pessoas eventualmente têm de ter consciência de que é assim: 1000 litros são 1000 garrafas de litro que eu levo pra casa, que ainda por cima é posto em casa do cliente, com qualidade, sem eu ter de andar com elas às costas, posso abri-las a hora que quero, etc. Se eu quiser mais fresca, até posso pôr no frigorífico. Agora, 1 € não dá pra comprar uma garrafa de um litro. Eu compro com o mesmo valor 1000. E as pessoas acham caro 1 € por 1000 litros de água postos em casa com o rodar de uma torneira.

Muitas vezes o que é caro, e foi anunciado no início do programa pela Helena Matos, e através do exemplo que eu dei, muitas vezes é os custos à volta do preço da água. As taxas.

Geralmente, a faturação é feita com três serviços. Eu acho que às vezes a nossa forma de comunicar, até talvez o próprio setor, comunica um bocado mal essa questão. São três serviços.

A começar pela multiplicação de faturas. Cada conselho tem o seu modelo de fatura.

Já melhorou bastante.

Já harmonizou.

Não harmonizou, mas como há uma fatura tipo da ERSAR, eles têm vindo a aproximar-se e hoje é muito mais fácil ler e interpretar. Depois tem as águas residuais. A gente não pode esquecer que somos um dos países do mundo, pelo quilômetro de costa, com mais bandeiras azuis. Essas bandeiras azuis é porque tratamos os esgotos muito melhor do que os outros e do que era no passado. E, portanto, tem de se pagar a água residual. E depois é a tarifa também dos resíduos. Essa tem vindo a subir substancialmente também nos últimos tempos, porque depois as taxas, umas têm IVA, outras não têm IVA, conforme o regime de IVA. A taxa da TRH, recursos hídricos, a dos resíduos sólidos, mas os valores não são expressivos, confesso. Agora, a sensibilidade da importância da água, dos custos que estão por trás da água, é muito baixa. Ainda por cima, eu estou a falar que este euro pelos 1000 litros, para consumidores até 10 metros cúbicos normais. Porque se forem pessoas com baixo rendimento ou famílias numerosas, até este valor é mais baixo, porque têm regimes ainda mais favoráveis.

Como calculará, nós temos aqui ouvintes, e as pessoas mandam mensagens, e temos aqui alguém que tem participado em alguns dos nossos programas, noutras áreas, não de águas, mas muitas vezes até ligadas às questões mais históricas, que é o Manuel Castelo Branco, e acaba de mandar, porque está a circular, que foi retirado dos orçamentos da Câmara de Almada, uma execução do plano plurianual de investimentos do SMAS de Almada. E o SMAS de Almada tem geralmente um previsto anual de 2,4 milhões. É claro que nos anos da pandemia não houve possibilidade de execução. Portanto, estamos a falar de 2020, 2021, 2022. Sendo que em 2022, estava previsto 1,7 milhão, grosso modo, e foi executado 1,2 milhão, portanto, está mais ou menos dentro dos valores. Em 2023, 1,9 milhão, foi executado 1,3 milhão, portanto, com execuções de 70%. E aconteceu alguma coisa profundamente extraordinária, porque entretanto houve mudanças, provavelmente dentro da Câmara, foram previstos 91 mil €. Ou seja, quando habitualmente o SMAS orçamentava valores de 2 milhões acima, e destes 91 mil que estavam orçamentados, foram executados 32 mil. Ou seja, houve uma execução de 35% de um valor já de si baixo. Em 2025, voltou-se aos valores do costume, projetam-se 2 milhões, executam-se 1,3 milhões. Ou seja, olhando só para os números, ainda há pouco nós dizemos que os números às vezes enganam, mas há aqui alguma coisa nestes números do SMAS, a partir de 2024. Porque se para trás percebe-se o que é que acontece, temos a pandemia, temos essas coisas, mas mesmo assim, com execuções a partir de 2022, na casa dos 70%.

Em 2024, orçamenta-se €91.000, quando habitualmente se orçamenta na casa dos 2 milhões, pelos Bombeiros de Almada.

Não sei o rigor dos números.

Os números foram tirados dos relatórios oficiais da Câmara.

O número parece-me muito baixo e não consigo entendê-lo.

Porque em geral o serviço pede sempre mais.

Agora, o que posso dar uma dica é: os orçamentos das entidades gestoras, nós ainda temos um grande número de entidades que são públicas, ou municípios, ou o grupo Águas Portugal, mas públicas. E portanto, o próprio sistema que acaba por, do ponto de vista legal, ser obrigatório, também induz a que esse tipo de exercícios seja complexo. Porque eu muitas vezes, para poder lançar uma obra, um investimento, tenho de saber que tenho cobertura orçamental, depois tenho que ir ao Tribunal de Contas, depois tenho que ir aqui, depois tenho que ir ali, depois tenho que pedir à ERSAR, depois tenho que pedir à outra entidade, depois tenho que ir ao Ministério das Finanças.

O calvário das autorizações.

Eu cheguei a perder mais tempo a resolver o tema administrativo do que a fazer a obra. Isto é inacreditável, mas é verdade. Eu para cumprir as disposições da lei, é evidente que eu estava a pensar que ia gastar 1 milhão. Se me dão autorização para gastar 1 milhão em dezembro, eu já não consigo faturar mais do que uma fatura de 100 mil.

O que aqui é estranho, isso eu percebo perfeitamente.

Agora, esse valor, face ao histórico, é um bocadinho absurdo, mas só quem estiver dentro é que pode explicar.

O assunto não está seco, seguramente vai continuar.

Não vais continuar a usar essa metáfora.

Vai continuar nas notícias. Já temos em linha o Macário Correia.

Bom dia.

Bom dia. É presidente da ÁQUA S.A., empresa criada no ano passado por este governo para levar a cabo a estratégia Água que Une. Macário Correia, eu estive a olhar precisamente para o mapa de atividade prevista da Água que Une e não há lá nenhuma ação prevista para a Península de Setúbal. Por quê?

Não, a Água que Une é vocacionada para as grandes infraestruturas em alta e é vocacionada para resolver problemas de eficiência que naturalmente se aplicam em todo o país, não especificamente aqui ou acolá, mas são transversais. E obviamente que as preocupações que têm a ver com eficiência na Península de Setúbal, são preocupações que nós temos também, embora sejam da competência dos municípios de per si. Ou seja, a ÁQUA não vai intervir na rede do Seixal ou na rede da Moita ou na rede de Palmela, são intervenções da competência dos municípios. O que a ÁQUA tem que assegurar é que essa zona do país e todas as zonas do país terão água em alta, se naturalmente os municípios, em colaboração com o grupo Águas de Portugal e com a ÁQUA, construírem soluções nesse sentido. Repare, a Península de Setúbal tem um aquífero considerável, mas não é ali no canto de Almada ou no canto de Sesimbra, é na zona do Duque de Oceânico, mais pro interior da península. Todavia, não é um aquífero ilimitado e é um aquífero que é bastante explorado, como se sabe, pela agricultura, em certa medida, e pelos municípios também. Todavia, há soluções que foram pensadas há muitos e muitos anos, que têm a ver com a passagem d'água da margem norte para a margem sul, através das soluções que a EPAL tem naturalmente praticado e que tem expandido. A EPAL começou por ser uma companhia há mais de 100 anos na zona de Lisboa, depois foi alargando, neste momento abastece todo o Oeste, de Alcobaça até Cascais, até Oeiras, toda aquela zona metropolitana e o Oeste, e tem tido naturalmente ideias ao longo de muitos e muitos anos de passar pra margem sul. Mas isso só depende da vontade dos municípios.

Portanto, Macário Correia, se depender da AQUA S.A., o sistema vai continuar como está, é isso? Depende da vontade dos municípios, é isso?

Sim, é claro. A AQUA S.A. não vai intervir na vontade de cada município. O que é aconselhável é que cada município trate das suas redes, que é a competência que tem, de uma forma legal e óbvia, isso ninguém duvida.

Mesmo sabendo que os conselhos da margem sul partilham o mesmo recurso, o mesmo aquífero?

Partilham o mesmo aquífero, embora tenham que pensar em soluções mais ambiciosas no futuro. E mais integradas.

E isso significa o quê?

Significa que temos que pensar em ter um aeroporto do outro lado, temos que pensar em ter uma série de interligações pra margem sul do Tejo e temos que pensar, eventualmente, em sistemas multimunicipais, porque veio o tempo, há umas boas décadas atrás, em que cada município fazia a sua ETAR numa aldeia, fazia a sua perfuração para abastecer este ou aquele território. Isso hoje em dia não é compatível com a economia de escala e com a exigência de qualidade da água que temos que ter. E portanto, os sistemas multimunicipais têm sido a evolução por todo o país.

Macário Correia, bom dia, daqui Helena Matos, estava a ouvi-lo. Mas a verdade é que nós estamos a assistir a uma discussão constrangedora entre a presidente da Câmara de Almada e o presidente da Câmara do Seixal, como se nas profundezas da Terra, cada município tivesse o seu bocadinho de aquífero. E portanto, não só temos sistemas intermunicipais a funcionar, não existem, como esta discussão faz-nos recuar ao tempo do município, cada umzinho com a sua ETARzinha e com os munícipes a acreditarem que lá no aquífero, cada um deles tem a sua zona delimitada de aquífero

Sim, essa é uma discussão que me entristece pela forma como estou a observar e muita gente está a observar também, e assim será nos próximos dias, certamente. Porque este problema não se resolve no final do mês ou no mês que vem, é um problema estrutural que tem que ser pensado com a cabeça fria, com serenidade e com uma visão a longo prazo. E aquilo que é muito claro é o seguinte: tem que se pensar qual é a fonte d'água que podemos utilizar para a península de Setúbal, se são furos aqui e acolá, ou se é uma origem estrutural e que tem a ver, por exemplo, com as origens da EPAL, que são robustas e consistentes no tempo. Isso é uma decisão que os municípios têm que tomar, não somos nós que impomos. Depois é preciso, obviamente, que os municípios, cada um deles, pense naquilo que lhe compete, que são as redes em baixa. Aí é uma competência específica que não é de outra entidade, é só de cada município. E é aquilo que naturalmente nós nos preocupa, que são as perdas. Porque repare, o problema que estamos aqui a aflorar é de uma perda de 30% a 40%. Se essa perda não existisse, a falta d'água não se punha, porque aquilo que falta é muito inferior a esse volume que se está a perder. E é preciso que haja coragem pra fazer as obras que são necessárias. É muito inconveniente, é muito aborrecido, fazer obras nas redes em baixa. Implica arrebentar calçadas, arrebentar ruas, alterar estacionamentos, alterar o acesso às lojas, complicar a vida das pessoas, durante uns meses ou um ano. Isso é uma coisa que tem que acontecer em cada rua das nossas cidades, onde há perdas de 30% a 40%. Eu não posso gastar dinheiro e levar a água, tratá-la, transportá-la e depois, debaixo do alcatrão e debaixo das calçadas, vai-se embora 30% a 40%. É essa que faz falta agora. E isto é uma competência dos municípios resolver isso.

Mas em Almada, para lá da questão das perdas, existem também as puxadas ilegais à rede e consumos que não são registrados, muitos deles de furos que estão na agricultura, na agroindústria, até também alguns domésticos. Portanto, também existe este lado quase que administrativo que tem que ser feito.

Eu li isso nos jornais e ouvi pelas rádios, sendo essas declarações imputadas a pessoas responsáveis. Eu fiquei aterrado quando ouvi isso. Porque qualquer entidade responsável tem que vigiar essas utilizações, são infrações, são ilegalidades.

Até porque pode haver contaminação também, não é?

Alguém tem que gerir. Obviamente que temos cidadãos muito bons, pessoas muito bem formadas e gente muito boa, mas há pessoas que por qualquer lapso na vida, fazem captações diretas, estragam os contadores, fazem ligações onde não deviam, arrebentam com tubos, deixam torneiras abertas, arrebentam com caixas, mas tem que haver alguma fiscalização e alguma atitude da autoridade para resolver essas coisas. Depois não podemos, quando há escassez de água, culpar outros, ou seja, os responsáveis que são titulares das funções da gestão dos sistemas de abastecimento d'água, aqui ou em qualquer lado, têm essa missão de zelar pelo interesse público e fazer com que haja regras que sejam respeitadas. As pessoas sabem que têm uma tarifa a pagar, têm uma quantidade d'água que tem que ser contada no contador, têm que pedir uma ligação, e se alguém não faz isso, alguém tem que exercer a autoridade e dizer que assim não pode ser. Porque não é agora quando a gente chega perante o problema, dizer assim: "Há uns malandros que roubam a água e a gente não tem". Pois, mas isso tem que ser resolvido antes.

Claro.

Devia ter sido mais diligente a Câmara Municipal de Almada, Macário Correia?

Não tenho, naturalmente, que fazer comentários sobre isso. Eu não tenho responsabilidades nessa matéria. Eu fui presidente de câmara durante muitos anos e é aquilo que fiz nas câmaras onde andei, e sei aquilo que aconselho e aconselhei, e dei opiniões, em muitos casos, a colegas meus. E portanto, digo que é uma atitude de coragem fazer obras nas redes de abastecimento, porque são obras complicadas e aborrecidas, como expliquei há pouco, mas têm que ser feitas, porque quando nós chegamos a 30%, 40% de perdas, no estado da ciência, do conhecimento, da engenharia, da hidráulica, numa zona onde não há escassez de informação, onde há técnicos, isso não pode ser uma coisa aceitável. Não é aceitável.

José Macário Correia, tendo em conta a sua experiência como autarca e tendo em conta que conhece ou sabe como funciona o sistema, enfim, já tomou decisões difíceis. Estamos a falar de um concelho, Almada, que é muito procurado por milhares de pessoas todos os fins de semana, por causa da Costa da Caparica, na afluência à praia. Acha que vai ter que ser alguém do governo ou alguém da autarquia vai ter que ser confrontado com a possibilidade de decidir, por exemplo, limitar cargas nas praias durante o fim de semana para diminuir o consumo d'água?

Seria uma situação altamente complicada ter que chegar a isso. Eu espero bem que se encontrem nas próximas semanas soluções de emergência pra salvar este verão, enquanto devem ser pensadas soluções de fundo para os próximos anos. O problema que está aqui em debate não tem solução nas próximas semanas, de forma definitiva. Pode ter uns remendeios, umas soluções de emergência pontuais, mas não tem solução de fundo. A solução de fundo leva anos a construir, que é eventualmente com outra origem, com outros sistemas naturalmente mais eficazes e com reparação corajosa das perdas d'água. Reparação das perdas, que são 30% a 40%, isso acho que é evidente, é consensual, ninguém duvida isso. Agora, o ritmo a que foi feito, ou que não foi, ou que tem que ser, deixo ao juízo de cada qual. Não tenho essa responsabilidade e, portanto, deixo apenas uma opinião que acho que é de toda a gente. Não podemos ter esta situação de perdas com este volume. Por outro lado, é preciso discutir novas origens. E não havendo nenhuma barragem, nenhuma ribeira no município de Almada, que é um município pequeno em território, mas tem quase 200 mil habitantes, e aos fins de semana, em verão, tem mais, é preciso pensar a prazo de onde é que pode vir a água, quer para este município, quer para os outros em volta. Porque a península de Setúbal tem uma carga humana considerável, vai ter mais, vai ter um aeroporto, e é preciso alguém que pense a prazo, ou seja, daqui a cinco anos, daqui a 10 Teremos que pensar num sistema multimunicipal que trate aqueles municípios no seu conjunto, e não de cada um de perfia, dizer que este buraco aqui é meu, aqui o furo é teu, aí não mexe porque é do outro. Isto não faz sentido. É preciso pensar numa solução global para a península e numa solução a prazo, que tenha em conta outras origens de onde é que a água pode vir em quantidade, em qualidade e sem estes sobressaltos ocasionais. Isso tem que ser pensado, e cabe essa decisão aos autarcas.

Claro. E aí tem-se ouvido falar em dessalinização. Ouviu falar no início da sua intervenção em passagem de água da margem norte para a margem sul. Será esse tipo de soluções?

Não é preciso fazer nenhuma dessalinizadora para abastecer a península de Setúbal.

Eu estou só a dizer o que li. Não tenho qualquer opinião, nem saber nada.

Pode ler muita coisa. Eu também tenho lido muita coisa e a gente tem que se informar e tem que ler e depois faz a nossa opinião. Ou seja, a dessalinizadora será necessária numa zona de escassez, como em Sines. Em Sines não temos condições de abastecimento de água doce por perto e terá que se fazer uma dessalinizadora. Daí ninguém duvida. Agora, na península de Setúbal, não vejo isso como uma necessidade premente. Um dia poderá se pôr essa questão, mas não se põe a curto prazo. Existe água em quantidade suficiente nas albufeiras do Vale do Tejo, que abastecem toda a Grande Lisboa, que é do lado norte, que é futuramente do lado sul, se os municípios assim o quiserem. Portanto, existem origens de água, sistemas de elevação, sistemas de tratamento, em condições de fazer esse abastecimento àquele lado da Grande Lisboa. Agora, é uma questão de decisão dos municípios, portanto ninguém vai fazer essa obra se os municípios, de uma forma unida e concertada, não tiverem essa visão, esse rasgo e essa ambição. Agora, se cada um continuar a pensar no seu furo, que é meu, que é teu, não tocas aqui porque é do outro, aqui é deste, aqui é do outro, e cada um pensa no seu sistemazinho, assim não chegamos a lado nenhum, porque a margem sul vai tender a crescer, vai ter mais investimento, vai ter mais infraestruturas e precisa de mais água. E, portanto, não é necessário fazer uma dessalinizadora, porque é uma obra cara e não produz um volume muito considerável. Os volumes são pequenos e por metro cúbico tem um custo considerável. Portanto, há zonas do país que vão precisar disso. Aqui ainda não. Temos origens d'água a montante, em condições de abastecer em qualidade e em quantidade a margem sul. Depende, e repito, da vontade dos municípios organizarem-se nesse sentido e dizerem ao PLÁ: temos que pensar num sistema multimunicipal, pensar todos em conjunto, pensar todos numa visão de futuro e pensarmos de onde é que a água pode vir para termos uma solução serena, tranquila, robusta e que não tenhamos de ter estas preocupações no pico de julho, porque está calor, porque foram pessoas à praia, porque algum tirou água, outro rebentou aqui, outro rebentou acolá. Isso sofre menos, não podemos pensar assim. Temos que pensar mais longe, com mais ambição e com outro pensamento de outro nível.

Só que estamos em Portugal, e já foi aqui referido ao longo do programa, que para construir qualquer coisa que esteja relacionada com o setor da água, necessita de 1001 autorizações, de não sei quantos mil pareceres. Enfim, o governo terá que estar atento a isto e agilizar processos de licenciamento.

É verdade, mas aconselho qualquer dos nossos ouvintes a ler o Diário da República do passado dia 24 de junho, o Decreto Lei 123, no seu artigo quinto, em que tem uma primeira resposta a essa preocupação, que é a simplificação de procedimentos. E é atribuído à Áqua um conjunto de capacidades de ultrapassar algumas dessas questões burocráticas, através de um procedimento que é inovador e que sou do governo por ter tido a coragem de o pôr na letra do Diário da República, e que nós vamos testar o funcionamento desse procedimento que está previsto neste diploma, como digo, saiu há 15 dias.

E vão testar onde?

Hã?

Vão testar onde?

Em processos de licenciamentos, João.

Vamos testar nas próximas obras que vamos naturalmente apreciar os projetos de discussão e lançar os concursos.

Muito bem. Macário Correia, agradeço. Muito obrigado por se ter juntado a nós no Contracorrente hoje.

De nada, eu é que agradeço. Muito obrigado.

Olhar para esta questão de Almada, onde tem faltado água nos últimos dias. Obviamente que isto está a ser palco de grande e intensa atividade política, tanto do lado do PS, que gere a Câmara, mas também da oposição. Rui Pedro Antunes, muito bom dia, da oposição à atual presidente da Câmara. O Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador. Rui, como é que a política em Almada tem olhado para este caso?

Olha, em primeiro lugar, deixa-me dizer que este caso, embora seja localizado, tem uma dimensão nacional, não só pela proximidade à capital, porque é completamente diferente, por exemplo, após a tempestade Christine, quando várias populações estiveram sem luz muito mais tempo, mas como eram aldeias com meia dúzia de pessoas ou com uma dúzia de pessoas, nunca teve esse destaque. De qualquer das formas, eu acho que é bom que seja um assunto nacional e é bom que se fale dele e é bom que tenha este destaque, porque efetivamente trata-se de um bem essencial o acesso à água e, portanto, é bom que haja uma importância, quer política, quer mediática, sobre este assunto. E Almada tem dimensão também para ter essa dimensão nacional, porque vive lá mesmo muita gente. Do ponto de vista político, dentro dessa dimensão nacional, parece-me que o governo tentou sempre dar apoio para que haja uma resposta mais rápida para resolver a situação, sendo que nesse apoio não deixou de fazer reparos políticos. É verdade que a Ministra do Ambiente, entretanto, já esteve junto à presidente da Câmara de Almada, mas num primeiro momento também não deixou de criticar a falta de investimento daquele município em infraestruturas que permitam não ter este tipo de falhas. É verdade que o PSD Que é o partido do governo também esteve coligado ao longo destes anos, algum tempo, com o Partido Socialista, enfim, acordos de governação autárquico. Mas também é verdade que apesar de ter existido falhas em anos anteriores, nunca houve uma situação tão grave como esta e, portanto, naturalmente, que isto pode ser imputado ao incumbente. Eu tinha falado também disso no Vencedor É ontem, que tem a ver precisamente com o acordo que foi feito em novembro entre o Partido Socialista e a CDU. Foi um acordo que assentou muito na distribuição de cargos e de pelouros. E é normal, porque pra haver um acordo, tem que haver uma partilha de responsabilidades. E coube ao vereador da CDU ficar com a presidência do SMAS. Eu acho que a presidência, apesar de haver uma forte componente política e de eu achar que o município tem naturalmente que ter administradores no conselho de administração destas empresas-

Administradores, vereadores. Deve ter vereadores

Sim, podem ter políticos. Até o próprio presidente da Câmara, por inerência, pode ou então depois delegar competências e ter um vereador responsável nesse conselho de administração. Eu acho que era bom muitas vezes que o presidente do conselho de administração não fosse o vereador. Porque vamos lá ver isto, se o PS tivesse tido a maioria em Almada, não ia ser o vereador da CDU o presidente do SMAS. Portanto, isto leva-nos a crer que eventualmente pode não ser a melhor pessoa pro cargo, não sei se-

Aliás, penso que o atual presidente do SMAS em Almada, Luís Filipe Almeida, é professor primário de formação, foi presidente de junta, que apesar de tudo é algo que durante muito tempo dá contato com a realidade, mas muitas vezes nestes serviços, não só o serviço a que se chegue, o SMAS, não estou a falar das juntas, as pessoas não se candidatam politicamente e, portanto, espera-se que as pessoas tenham um perfil mais técnico. Porque os professores primários-

Mas há tradição até de serem políticos e vereadores, e acontece o mesmo se formos à administração da EPAL e por aí fora. Aliás, eu também já dei este exemplo, na SMAS de Sintra, o presidente é o marido da vereadora da Iniciativa Liberal que passou a estar ao lado do Marco Almeida. Portanto, muitas vezes a motivação pra estar à frente destas empresas não é a melhor. E obviamente que isso depois pode se refletir. Eu não sei, ainda é preciso esperar pra ver exatamente quem são as responsabilidades, mas não há dúvidas nenhumas que a principal responsável é a presidente da Câmara de Almada, porque tem que ser. É ela que está no topo da estrutura de comando. Depois, mesmo do ponto de vista da gestão, creio que apareceu um bocadinho tarde com vídeo gravado, que ela tem uma boa colocação de voz, sabe se posicionar bem perante a câmera, sabe comunicar bem, mas comunicar bem também é preciso olhar o conteúdo. Ontem também via, de alguma forma, a discutir, quase a discutir em direto com uma jornalista que insistia com o fato dela morar em Lisboa e que dizia claramente que a informação que ela estava a dar, que é que nunca houve ninguém com mais de 24 horas sem água, que dizia a jornalista do Correio da Manhã, que não era verdade, ou seja, que tinha falado com pessoas. E reparei noutro detalhe curioso nesse momento político, foi quando começou esse bate-boca com a jornalista, a ministra do Ambiente, que estava do lado direito do ecrã, apanhada pelas câmaras televisivas, começa a sair e afasta-se completamente pra não ficar ao lado daquele momento em que há aquela confrontação com a presidente da Câmara de Almada.

Com isto tudo, José Luís Carneiro solidarizou-se com Inês de Medeiros. Isto pode trazer ou não danos para o Partido Socialista?

Bom, pode ter, desde logo, danos no sentido em que Almada é uma câmara importante e eu acho que nas eleições autárquicas, como eu já vi também numa reportagem que ontem publicámos da Leonor Reis, que foi fazer, não me esquecerei nas próximas eleições. E não vejo forma de o Partido Socialista não sair beliscado, porque nem sequer sabemos se isto vai ser um caso único. Mas também não é uma coisa que se esqueça em pouco tempo e, portanto, tem desde logo aí. Depois, é verdade que nos últimos tempos, a presidente da Câmara de Almada esteve próxima sempre desta liderança. Inclusive até a oposição, a oposição não, neste caso, os partidos do governo protestaram porque José Luís Carneiro aparece numa das circunstâncias em Almada, quando havia aquelas questões das estruturas de habitação-

Na questão do deslizamento de terras na ribeira Falso da Costa Caparica, em que Inês de Medeiros fez uma acusação, que é pena que depois não tenha sido investigada, dizendo que o governo tinha tratado, acudido, melhorado, usemos o termo que quisermos, porque é de memória e não tá correto, certamente, apenas as juntas de freguesia que tinham a ver com o PSD. E acusou o governo de não estar naquelas que não eram do PSD. Isso é daquelas coisas que se disse, não se investigou mais. Lembro-me que à época me pareceram muito graves e achei que Inês de Medeiros provava e o governo tinha de responder ou então há coisas que não se dizem quando não são verdade.

Sim, e nessa altura, uma circunstância que eu ia referir é que eu recordo-me que José Luís Carneiro estar ao lado de Inês de Medeiros e inclusivamente ter um colete da proteção civil que supostamente só os operacionais e quem faz parte da estrutura de hierarquia do Estado é que poderia utilizar. E eu lembro-me perfeitamente de circular que isso incomodava o partido do governo, o José Luís Carneiro estar ali de alguma forma em modo action man proteção civil, quando na verdade só os operacionais é que podiam utilizar aquela vestimenta. Enfim, não estou aqui a dizer quem é que tinha razão, qual era o justificativo para utilizar. Obviamente que os autarcas fazem parte desta estrutura hierárquica mesmo operacional. A própria presidente da Câmara podia utilizar, ele não, enfim, mas foi pra mostrar alguma ação. Mas não sai bem ao Partido Socialista, isto pra concluir, porque pra já não seria fácil a sucessão de Inês de Medeiros na Câmara de Almada. Porque, na verdade, eu diria que há ali dois nomes O vice-presidente, que é o Filipe Pacheco, que foi da direção da Juventude Socialista há uns anos, e o Ivan Gonçalves, que também é vereador, que foi presidente da JS, como sendo os mais bem posicionados no Partido Socialista. Não sei se haverá ali ou não uma espécie de corrida entre os dois, mas também pode ser o caso de, sendo uma câmara com uma dimensão que nós sabemos, ter que haver um paraquedista com nome, como aliás foi um bocadinho o caso de Inês de Medeiros. Muita gente disse que nessa noite eleitoral ela ficou surpreendida por ganhar.

Sim, bastante.

E que pôs as mãos à cabeça e: "O que eu vou fazer agora?" Mas o que é certo é que foi ganhando e está no último mandato, mas vai ter que existir essa substituição. Mas não há dúvidas de que isto terá efeitos eleitorais. Não sei se tanto para José Luís Carneiro. Eu acho que, na verdade, em eleições legislativas não tem esse impacto. E acho que ele também, de alguma forma, não estou a ver que possa sair muito chamuscado disto, porque também ele não podia fazer outra coisa senão manifestar solidariedade com o autarca e tentar de alguma forma responsabilizar outras circunstâncias. Também me pareceu muito mal do ponto de vista da comunicação, que também é política, não é só uma comunicação, a maneira como, nas suas redes sociais, a Câmara de Almada e os organismos relacionados com esta questão foram tentando comunicar, justificando aumentos de consumo com números por freguesia ou por zona. Muitas vezes que numas dizia mais 15%, para dar uma dimensão de que o consumo era muito grande em algumas áreas. Mas o que era preciso ver é o consumo global, que aumentou efetivamente, não há dúvidas. E, portanto, essa forma de comunicar para de alguma forma desculpalizar, não é o melhor.

Ou tentar encontrar responsáveis.

É no terreno. Por exemplo, a ministra do Ambiente, que tem sido bastante elogiada, ir lá e dizer: "Vão existir novos furos." Tentar resolver a situação é uma postura que eu acho que as pessoas e os eleitores apreciam mais do que propriamente começar a apontar culpas de: estamos a consumir mais água, há muito mais gente a morar. Além disso, há aqui outra questão. A Câmara de Almada, como muitas outras, tem nos seus planos um aumento do parque habitacional, nomeadamente o investimento público nessa área e a promoção do investimento privado, para construir mais fogos habitacionais. Se o concelho já não tem água, como é que se vai resolver esta questão de aumentar a habitação e ao mesmo tempo garantir que existe uma forma de abastecer o concelho não só na sua dimensão atual, mas também na dimensão que terá depois desse aumento do parque habitacional. Portanto, isso é um outro desafio.

Para perguntarmos a uma pessoa que temos em linha.

O Ricardo Simões Ferreira.

Ricardo Simões Ferreira.

Editor executivo adjunto do Diário de Notícias. Bom dia, Ricardo.

Que escreveu um texto muito interessante sobre a questão da falta de água.

Muito bem.

Consequências.

Olá, bom dia, obrigado pelo convite.

Como é que é? Bom dia, eu li o texto. O texto nasce de alguém que reside numa das áreas que me parece ser apresentada, referindo aqui aquela indicação que o Rui Pedro estava a fazer, como estando a consumir muita água neste momento, não é?

Exato, numa atitude, aliás, interessante, no mau sentido, da presidente da Câmara, que ontem, nas várias intervenções que a presidente da Câmara teve, que aliás, quanto a mim, revelou, e até na sequência do que o Rui Pedro estava a dizer, revelou uma desconexão e uma falta de empatia incrível. E ele estava a falar até na sua atitude, eu acho que da presidente da Câmara, e até eu acho que é uma das coisas que a mim, essencialmente enquanto munícipe, eu acho que isso também de alguma forma está minimamente a distorcer, para ser simpático, as pessoas aqui, é que, por exemplo, ontem à noite, na entrevista na SIC, a presidente da Câmara começou por agradecer basicamente aos outros autarcas, a todas as pessoas que têm oferecido ajuda, etc. Todo o início da entrevista foi agradecer a toda a gente e não lhe passou aparentemente pela cabeça agradecer, por exemplo, a paciência dos munícipes pra situação que estão a viver. Aliás, a entrevista já ia mais ou menos a meio, quando finalmente a doutora Inês de Medeiros diz que, qualquer coisa para aí 15 minutos, quando a doutora Inês de Medeiros diz que finalmente se lembra de dizer aos seus munícipes: "Eu sei o que é que estão a viver." Coisa que eu tenho algumas dúvidas, diga-se de passagem, porque ela vive em Lisboa. Portanto, se calhar também não sabe. Eu digo isto, eu vivo aqui. Eu, aliás, tal como escrevi no texto, eu até tenho sorte e tenho tido imensa sorte, porque não sei por alguma razão, se calhar por ser uma zona mais alta e se calhar mais próxima de um reservatório, porque tenho aqui o reservatório muito próximo. De facto, eu pelo menos só dei ainda por um corte uma vez durante uma hora. Se houve mais, não dei por isso. Portanto, nesse sentido, de facto, tenho tido imensa sorte. Agora, tenho amigos que vivem na costa. Uma amiga minha, por exemplo, ainda ontem me dizia, e revoltadíssima, que então naquela primeira fase, e que foi naquela fase de silêncio absoluto, portanto, até o fim de semana passado, ela tinha situações de tomar banho às 3:00 da manhã pra acordar às 7:00 e ir trabalhar. E era quando a água voltava, porque não havia uma única informação. Informações em tempo real então não existem Porque simplesmente era ir ver os comunicados ao site do SMAS e os comunicados apareciam quando apareciam. E portanto, era basicamente ir à torneira ver se tem. Não há. E depois é ficar à espera. E isto inevitavelmente cria uma situação de quase impossibilidade de viver.

É como se, de repente, a população dessa zona, que olha para o outro lado do rio e vê Lisboa e que tem tido um crescimento e tem um arco metropolitano e tudo isso, acaba a sentir-se como que numa armadilha.

Numa armadilha e numa situação de não se saber para onde se virar. Até porque aliás, nós próprios no "Diário de Notícias" fizemos e outros órgãos de comunicação social já fizeram reportagens acerca disso, inclusivamente até os supermercados esgotaram a água a dada altura, portanto, a pessoa não sabe mesmo para onde se virar. Inclusivamente, até a ordem dada, ou pelo menos o pedido de auxílio dado aos bombeiros para os próprios bombeiros poderem auxiliar, veio já praticamente quando a comunicação social começou a acordar para a situação. Eu estive a trabalhar neste fim de semana no DN.pt, fiz notícia sobre isso. Não me recordo se foi sábado ou domingo, quando eu próprio me apercebi que estava a acontecer, como eu digo, porque eu, como aqui na Sobreira tenho tido a sorte de ter tido água, só me comecei a aperceber da gravidade da situação via redes sociais. Mas na realidade, nem SMAS, que ainda por cima têm tido ruturas sucessivas, como podemos ver no próprio site deles. Se formos ao site das ruturas, vemos a quantidade sucessiva de ruturas que eles próprios vão reportando, sempre que eles as reportam, já a rutura aconteceu ou quando a rutura está reparada. E é impressionante, é uma lista gigantesca de ruturas. E muito menos a câmara, de facto, tiveram qualquer atitude de, estando a situação já como estava, de ativar protecção civil ou activar, por exemplo, porque não pedir auxílio às Forças Armadas, por exemplo, que também têm autocontentores ou coisa que valha, para poder acudir a estas pessoas. Eu não faço a mínima ideia, sou jornalista, não faço a mínima ideia como é que isto funciona, mas imagino que teria sido possível, por exemplo, o centro da Costa da Caprica continua a ser, apesar de ter muita gente, relativamente pequeno, colocar sistemas de tipo fonte pública em contentores para as pessoas irem buscar água.

Eu creio que há um concelho que já vai disponibilizar depósitos de água portáteis.

Pronto, que já vai. Nós andamos nisto.

Eles já estão.

Nem devia acontecer.

Para já não deveria nunca acontecer. Estamos em 2026, não estamos em 1826. Isto em primeiro lugar.

Ó Ricardo, diga-me uma coisa, enquanto a pergunta é dirigida a um almadense ou a um habitante de Almada.

A um habitante de Almada. Como eu costumo dizer, eu exilei-me para aqui. E exilei-me para aqui com muito gosto, porque eu gosto deste sítio. Eu aliás, escrevi isso. Eu gosto deste sítio no sentido em que eu sinto-me um bocadinho a viver no campo a cinco minutos de carro da praia, para ir passear para a beira-mar e literalmente a 15 minutos de Lisboa, até porque ainda por cima a minha vida é toda feita ao contrário do trânsito.

Sorte.

E, portanto, nem sequer tenho trânsito.

Mas como habitante de Almada, tem a perceção de que o consumo tem aumentado nos últimos tempos?

Não. Eu não tenho, verdadeiramente.

Ou seja, nota mais construção, mais desperdício de água, mais rega, mais lavagens?

Sim, claro que noto mais construção, obviamente noto mais construção. E felizmente que existe mais construção. Eu e a minha mulher mudámo-nos para aqui em 2000 ou 2001, não tenho a certeza, francamente. Foi há 25 anos, sensivelmente. Mesmo aqui o bairro onde nós estamos, este bairro é novo, sensivelmente. Mas o próprio bairro cresceu um pouco mais e ainda tem mais algum espaço para crescer e de alguma forma tenho alguma pena de não ter crescido mais, porque ele deveria ter de alguma forma crescido um pouco mais, mas é um bairro relativamente bem pensado, porque nada daqui existe de prédios muito altos. Tudo isto está relativamente bem integrado na paisagem.

Muito bem.

O que é, para mim, uma coisa simpática. Portanto, tudo isto e mesmo tudo o que há à volta, está tudo relativamente bem integrado na paisagem. Agora, noto que existe uma quantidade de coisas que são oportunidades perdidas. Não muito longe daqui existe um jardim público, um parque, enfim, é mais um parque, está mais relacionado enquanto parque, que tem ou era suposto ter umas lagoas ao pé do relvado para as pessoas estarem. As lagoas entretanto secaram, acho que aquilo tem problemas de obras, mais uma vez de obras que têm a ver com água, precisamente

E aquilo é um problema enorme de insectos, porque a drenagem não funciona, portanto nada funciona. E mais uma vez estamos a falar de obras públicas que não funcionam, simplesmente.

Ricardo Simas Ferreira.

Ricardo, obrigado.

Ficámos com inveja da localização da casa.

Muito obrigado pelo seu contributo, Ricardo Simas Ferreira, editor escrito.

Parabéns pelo texto, que estava ótimo.

Obrigado, Ricardo.

Nós temos aqui poucos minutos e eu queria pedir-

Menos de um minuto.

Menos de um minuto, pedir ao nosso convidado que nos dissesse que conselhos daria neste momento.

E que lições podemos tirar deste caso?

Bom, eu diria-

Do Rui Pedro já sabemos. Isto vai dar caso político, não é?

Vai.

Confirmas?

Isso.

É isso, eu disse por ti.

Eu diria que do ponto de vista da resolução do curto prazo, penso que as coisas estão encaminhadas e portanto, acredito que os técnicos com as águas, a EPAL e os CMAS vão conseguir encontrar soluções ajustadas para resolver nas tais três semanas a normalização. A resolução estrutural, aquela dos três anos, penso que é a questão-chave, é aquela em que quer o município de Almada, quer os municípios da península de Setúbal, ainda por cima com toda a dinâmica urbana que seguramente o aeroporto vai trazer.

Vão ter que sentar à mesa e conversar.

De determinadas necessidades. E eu diria que, para mim, se me colocam a questão em termos da mensagem-chave, é que é urgente a criação do sistema regional em alta de abastecimento de água, que está preconizado já praticamente há uma década e que eventualmente tem de levar a um entendimento melhor dos autarcas, num sentido de solidariedade regional, para acomodar o modelo de desenvolvimento que está previsto na península.

Não há água de Almada nem água do Seixal.

Não, a água vai ter de ser gerida tecnicamente bem.

Noutra lógica.

E estou convencido que esse vai ser o futuro.

Carlos Martins, muito obrigado por ter vindo ao Contra Correntes. Helena, bom fim de semana.

E Rui Pedro.

E Rui Pedro também.

Que se envolva em política, que também é muito importante.

Bom fim de semana a todos.