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Hoje, José Manuel Fernandes quer falar no "Contra-Corrente" do que lhe aconteceu ontem à noite no Facebook, por causa de um texto que escreveu.
Bom dia.
Bom dia.
Bom dia. É verdade. Eu devo dizer que não costumo seguir com muita atenção as reações nas redes sociais àquilo que escrevo, àquilo que digo. Se não fazia outra coisa. Mas ontem à noite percebi que tinha criado um grande sururu. Hoje eu estava a preparar-me para vir aqui falar outra vez do coronavírus, mas senti-me forçado a mudar de tema. Mesmo assim, antes de ir lá ao Facebook, eu gostava de deixar aqui uma nota de inquietação, porque se é verdade que, por enquanto, não estou muito preocupado com o número de casos, porque eles estão a subir, mas isso é normal, já sabíamos que isso ia acontecer, preocupa-me aquilo que muitos médicos estão a dizer, porque eles estão aflitos sem saber o que fazer. Não sei se viste ontem, havia uma notícia no Expresso. Alguns daqueles casos já tinham sido contados nas redes sociais. Mas, por exemplo, ele contava o caso de uma médica que fez 44 chamadas em menos de 24 horas para a linha de apoio ao médico e nunca conseguiu obter a resposta que necessitava. Essa médica acabou por ter que enviar os doentes para casa, era uma mãe e uma filha, sem conseguir saber exatamente qual era o melhor procedimento. Numa outra situação, também num centro de saúde, uma USF, o médico e o outro pessoal de serviço estiveram várias horas com o doente, muito além das horas de serviço, sem poderem sair, aliás, sem comerem. Por quê? Porque não havia ambulância do INEM em condições de ir buscar o doente, que não estava em condições de ir para casa. Portanto, isso são dois casos do Expresso, mas havia lá mais casos contados. Há outros que andam a circular também nas redes, há outros que os sindicatos têm denunciado. E ainda só estamos no começo do contágio. Ontem o primeiro-ministro voltou a dizer que estava tudo bem no debate da Assembleia e eu hoje volto a dizer que tenho um bocadinho menos de tanto otimismo. Mas adiante, vamos lá.
Vamos lá. De certeza que ainda voltas ao coronavírus. O que se passou? O que tu escreveste que deu assim tanto sururu?
O que se passou foi uma coisa simples. Eu decidi escrever sobre os projetos de lei e os projetos de resolução que quase todos os partidos vão levar hoje e amanhã à Assembleia para reforçar, dizem eles, a proteção dos animais. Reconheço que o texto tem um título um bocadinho provocador. Eu coloco a pergunta sobre se somos um país onde os cães valem mais do que os filhos. Mas a ideia era essa mesmo, era um bocado agitar as águas. Aquilo que defendo no texto, que está no site do Observador, pode ser lido lá, é, no essencial, que ao consultar esses projetos de lei, percebemos que vivemos num país que parece estar a reboque do PAN. Mas digo mais, digo que isso não me surpreende muito, porque já há mais lares com cães e gatos do que lares com filhos. Os lares com cães e gatos já valem mais votos que os lares com filhos. Eu, como sabes, tenho vários animais de companhia.
Tens falado muito disso.
Mais concretamente, seis cães e dois gatos. Para mais, são praticamente todos adotados, só um é que não é. Mas mesmo assim eu sei distinguir prioridades e acho que os partidos começam a não saber distinguir essas mesmas prioridades. Por isso escrevi uma coisa que parece que chocou muita gente, que foi: podem achar-me antiquado, mas pra mim, humanismo ainda vem à frente do animalismo.
Ao escrever isso, imagino que despertaste a fúria de muita gente.
De imensa gente. De repente, quando eu acordei, já havia centenas, literalmente centenas de comentários na página do Facebook do Observador. Em menos de uma hora foi uma . Ao ler muitos desses comentários, também percebi que a maior parte das pessoas nem se deu ao trabalho de ler o texto. Viu uma ideia que não gostava, que era a que estava no título e na entrada, e começou logo a atacar, por vezes até a insultar. Devo dizer que isso não me incomoda muito, eu vivo bem com os insultos, sobretudo os das redes sociais, que são fáceis de fazer. Faz parte, como se costuma dizer. Aliás, o meu princípio é nunca responder.
Mas agora estás a abrir uma exceção.
Eu estou a abrir uma exceção, não para responder caso a caso, não vou repetir os argumentos do artigo, mas para manifestar uma preocupação. É que não é a primeira vez que sinto que quando se toca neste tema da proteção dos animais, salta logo um fundamentalismo assustador. Tal como não é a primeira vez que ouço relatos de excessos, por exemplo, de algumas organizações que andam por aí, que a meu ver, até têm fins meritórios, mas que usam métodos cada vez mais impróprios. E pior que isso, eu acho que há pessoas que são verdadeiros talibãs dos direitos dos animais, com quem nem sequer é possível ter uma conversa civilizada. E nesse caso, eu acho que há uma completa inversão de valores.
Inversão de valores? Em que sentido?
Por exemplo, quando todo um discurso é feito de repetir frases do gênero: "Gosto tanto dos meus cães como dos meus filhos", ou: "Quem não gosta de animais não é boa pessoa", ou ainda: "Os animais são mais humanos do que os próprios homens", eu acho que alguma coisa está errada. E esse tipo de frases estão um pouco por todo lado e há algumas dessas muito parecidas nos comentários do meu artigo de ontem. Este animalismo que equipara os animais aos seres humanos, eu acho que é muito consequência de vivermos cada vez mais numa sociedade de gente sozinha. Eu também digo lá no meu artigo que quase um quarto dos lares portugueses só vive uma pessoa. Gente sozinha também é muito depressa gente triste e depois gente zangada. Eu acho que devíamos provavelmente meditar um pouco nisto, no tipo de sociedade que estamos a construir, até porque às vezes também sinto que pra muita gente é mais fácil viver com um animal de companhia, que no fundo está sempre à sua disposição. Se for um cão, até está sempre a abanar o rabo. Isso é mais fácil do que ter uma relação civilizada com alguém que tem vontade própria e que às vezes discorda de nós. É mais fácil, mas é um pouquinho mais egoísta, não é?
E tu achas que os partidos estão a ir atrás desse animalismo?
Eu acho que pelo menos estão cair nessa tentação. Basta pensar no seguinte: com as leis que agora vão ser aprovadas, vai ser crime abandonar animais. Eu devo dizer que não estou contra, bem pelo contrário. Ainda há umas semanas eu recolhi uma cadelinha abandonada, portanto sei bem o que isso é. Mas ao mesmo tempo que os deputados legislam neste sentido, não têm coragem, por exemplo, de legislar para punir o abandono de idosos. E acontece que todos sabemos o que acontece nos lares e sobretudo nos hospitais. Nos hospitais há idosos que são abandonados, por exemplo, para os familiares irem passar o Natal ou irem passar as férias ou irem passar o final do ano. Uma sociedade que vive bem com esta contradição, a meu ver, é uma sociedade doente. No entanto, se escrevermos isso, quem nos o fez pôr aquilo em cima, como aconteceu a mim.
A opinião de José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge Carvalho, no Contra-Corrente das manhãs 360.
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